Who's loving you
7 Capítulo V - Nostalgia
O fim de semana havia terminado, para o azar de Tina e Santana, que tinham de voltar ao trabalho depois de dois dias de folga, mas era bom para ambas, já que o movimento do restaurante e os serviços desviavam suas mentes de pensamentos que as atrapalhavam.
Tina levava uma bandeja cheia de pratos, copos e talheres até o balcão e a deixou lá, para que Santana a esvaziasse. A asiatica olhou para o relógio na parede, marcava 4 horas da tarde, ela virou os olhos e respirou fundo.
– Está quase na hora de Deena chegar. — resmungou, colocando os ante-braços em cima do balcão.
– Vou ter que aumentar meu preço. — avisou Santana, colocando as coisas da bandeja dentro da pia de louça.
– Não, tudo bem, eu vou atendê-la, tenho que parar de fugir e encarar logo isso.
– Uhn, você quem sabe — o sino que sempre tocava quando abriam a porta do restaurante chamou a atenção de Santana para a entrada, era Mike, dessa vez sozinho. Tina não havia percebido. Santana sorriu maliciosamente e olhou para Tina. — Quanto me pagaria se eu atendesse o Mike para você?
– Nada, eu mesma atenderia, tenho que parar com isso.
– Boa sorte então — disse, parecendo chateada.
Tina ficou confusa, então olhou para trás e viu Mike lendo o cardápio. Aquilo parecia nunca ter fim. Quando ele aparecia sem Deena, era ainda pior, pois era uma oportunidade para uma conversa constrangedora, momentos estranhos, que fariam Tina perder o sono. Ela se virou para Santana, que a olhava com um sorriso travesso nos lábios.
– Vá — pediu Tina, desviando seu olhar para qualquer lugar.
– É disso que estou falando — ela fechou as duas mãos e as ergueu, aumentando seu sorriso, como uma forma de comemoração. Saiu de trás do balcão e pegou o bloco e a caneta no bolso do avental de Tina.
Tina foi fazer o trabalho de Santana atrás do balcão, enquanto ela ia atender Mike.
– Mike, finalmente tomou vergonha na cara e veio aqui! — disse, mantendo seu sorriso travesso- O que vai querer? — perguntou, enquanto encostava a ponta da caneta na folha do bloco.
– Oi Santana, eu estou bem, obrigada — ele sorriu ironicamente e voltou a olhar o cardápio- Um café.
– Parece que Deena te viciou em cafeina — falou, enquanto anotava. — Vocês devem ficar acordados a noite inteira — ela prolongou a palavra "noite", com as sobrancelhas arqueadas, passando um tom malicioso.
– Não comece, tá legal? — ele pediu, rindo do comentário de Santana, que por sua vez, deu de ombros e guardou o bloco — E então... Que horas vocês saem hoje?
– Depende, quando o movimento abaixa, eu e Tina costumamos fugir e deixar todo o trabalho restante para Rachel e Kurt, então... 4h30.
– Pode... Pedir para ela me chamar aqui, quando estiver indo embora? — ele falava baixo, parecia um tanto envergonhado, pois sabia que Santana teria uma ideia errada.
– Tudo bem... Mas como sua amiga intrometida, preciso saber o motivo.
– Eu só quero conversar com ela. — ele olhava o cardápio, tentando fugir do olhar manipulador da latina.
– Repito: preciso saber o motivo. — afirmou, com o semblante fechado.
– Eu vou pedir desculpas pela conversa que tivemos há alguns dias. — respondeu sério, voltando a olhá-la.
– Ah, então tudo bem. — disse, parecendo desinteressada, ela se virou e começou a andar devolta para o balcão.
Mike balançou a cabeça e voltou a ler o cardápio, ou fingir que estava lendo. Santana foi para trás do balcão, do lado de Tina, permaneceu em silencio enquanto preparava o café.
– Oh! — ela gritou, fazendo Tina se assustar — Mike pediu para que você o chamasse quando estivesse indo embora, ele quer conversar com você.
– Conversar sobre o quê? — perguntou, com aquela expressão de apavorada, os olhos mais abertos que poderiam ficar e a boca entre-aberta.
– Eu não sei o motivo. — ela ergueu os ombros e curvou os lábios para baixo.
– Eu sei que sabe — ela abaixou as sobrancelhas — você é a amiga intrometida.
– Também sou a amiga torturadora, vai ter que esperar até as 4h30. — ela pegou o café e caminho de volta para a mesa de Mike, deixando Tina indignada, como sempre ficava quando Santana falava qualquer coisa.
(...)
4h23, era hora de Santana e Tina juntarem suas coisas e saírem de fininho. Como sempre faziam, foram ao quartinho, pegaram suas coisas, esperaram Kurt e Rachel se distraírem e sairam em passos rápidos. Santana saiu primeiro, sem perder tempo, mas Tina tinha algo a fazer.
Ela respirou fundo e tentou parecer indiferente, embora suas pernas estivessem bambas. Ela caminhou até a mesa de Mike e colou os braços no corpo, como se fosse um robô.
– Você quer conversar comigo? — perguntou inocentemente.
– Sim, podemos ir ali fora? — ele fechava o cardápio que estava lendo há duas horas e deixou a xícara de café vazia proxima dele.
– Claro... Na verdade, tem que ser lá fora, porque estou em fuga. — ela deu uma olhada em volta para checar se alguém estava a olhando.
– Entendo — ele riu enquanto tirava a carteira de seu bolso, fazendo Tina sorrir discretamente.
Enquanto Mike deixava o dinheiro da conta, Tina resolveu deixar sua posição robotica e andar até a porta, puxando a maçaneta e indo para o lado de fora. Ela cruzou os braços e batia um pé enquanto esperava, olhando os carros e as pessoas que passavam, mas ao olhar para seu lado esquerdo, viu Santana atrás de um poste, a reconheceu pela bota do uniforme. Tina balançou a cabeça e aproveitou que Mike estava demorando um pouco para expulsar a latina dali. Ela passou a olhar o chão, e encontrou uma pequena pedra perto de seu pé, se agaixou e a pegou, mirou bem e lançou, conseguindo acertar a cabeça de Santana, que gritou um "Ai" e se virou com a mão na cabeça.
– Go home! — sussurrou Tina, apontando o dedo indicador para frente.
– No way! — Santana balançou a cabeça, com as sobrancelhas curvadas.
Tina olhou para todos os lados, procurando uma nova pedra, Santana não entendia o que ela pretendia. Até que encontrou uma a alguns passos dali, era maior, cabia em sua mão inteira, porém, assim que ela se virou, segurando a pedra com a mão erguida, viu Santana dobrar a esquina correndo.
Ela abaixou a mão, negando com a cabeça, no mesmo momento em que Mike saiu de dentro do restaurante, e vendo a pedra na mão de Tina, arregalou os olhos.
– Eu só quero conversar! — afirmou ele, colocando as mãos na frente do corpo.
– Oh! — Tina olhou a pedra em sua mão e a jogou por cima de seu ombro, sem se importar se acertaria alguem — Ignore isso, por favor.
– Anyway... Tina. — ele enfiou as mãos nos bolsos da blusa-moletom que usava e abaixou a cabeça — Eu quero te pedir desculpas, eu fui mesmo egoísta no outro dia... E queria dizer que... — ele ergueu o olhar novamente, temia terminar aquela frase, mas era preciso — Eu contei tudo para Deena.
– V-você o quê?! — suas sobrancelhas se levantaram como nunca antes, e seus olhos quase se tranformaram em olhos ocidentais, ela não tinha outra reação e nem outra expressão a não ser aquela que já estava.
– Eu tive que contar! — ele inclinou sua cabeça para frente, mas voltou a sua posição normal para tentar explicar tudo — Olha... Sabado fui no seu apartamento para pedir desculpas, e Santana estava só, então apareceu um cara, um tão de Jerry, amigo de Brittany.
– Santana me contou isso, você a impediu de dar uma surra nele, tá legal. Como isso te levou a contar tudo à Deena? — ela falava rapidamente, tentando adiantar logo a resposta de Mike.
– Bem, por eu estar sozinho no apartamento com Santana, ele achou que eu era o namorado dela. Jerry conhece Deena, e acabou contando. Deena começou a falar para mim sobre traição, e eu pensei que você tinha dito algo...
– Sempre eu — murmurou, cruzando os braços e olhando para o lado.
– Enfim, eu acabei mencionando Ohio e ela explicou que estava falando de Santana, eu esclareci tudo, mas ela queria saber o que houve em Ohio, e eu tive que contar... Mas não se preocupe — ele tirou as mãos dos bolsos e deixou as palmas viradas para baixo, como se dissesse para Tina se acalmar — Eu deixei bem claro que foi tudo culpa minha e que você não teve intenção nenhuma.
– Você tá dizendo que... Colocou a culpa de todo em você? Nem tentou arranjar uma desculpa, tipo, "Tina não parava de me olhar a festa inteira"?
– Você me olhou a festa inteira? — ele abaixou as sobrancelhas.
– Não! — ela sentiu seu rosto corar, passou sua mão pela testa e voltou a apoiá-la no outro braço — É um exemplo, como se de um jeito colocasse a culpa em mim.
– Não, tanto que Deena disse "Não ficarei brava com Tina, ela não teve culpa nenhuma".
– Uau — Tina olhou para o lado e por alguns segundos, ficou calada. Ela levantou os ombros e olhou para Mike — Obrigada, de verdade.
– Sabe... O que você disse sobre eu ter mudado, ter ficado egoísta, eu fiquei pensando nisso, por isso eu fiz isso, você realmente não teve culpa, você tentou desviar o assunto, eu que fui um idiota...
– Mike, estavamos numa festa de despedida com todas as pessoas que ficaram conosco por quatro anos, estava tudo muito nostalgico, deve ter acontecido com qualquer um. Aposto que Rachel e Finn também foram em algum canto. — completou a frase sorrindo.
– É, talvez — ele riu, enfiando as mãos nos bolsos novamente, sempre fazia aquilo quando estava nervoso — É, passamos bom tempos no McKinley. Eu faria tudo para vivê-los de novo.
– Eu não... Eu acho que posso fazer melhor no futuro... — eles se entreolharam por um tempo, Tina não aguentou e soltou um riso — Não, eu voltaria também.
– Sei que sim, também sei que voltaria no segundo ou no terceiro ano do Glee Club.
– Por que acha isso?
– Bem, antes disso você era uma gaga falsa que namorava com Artie e quando tinha um solo, Rachel implicava com você, e no segundo ano, começamos a namorar, então acho que as coisas melhoraram muito pra você — ele tinha um sorriso convencido, as sobrancelhas arqueadas o faziam parecer um homem vencedor.
– Você também ficou um pouco convencido desde que nos separamos. — ela disse entre uma risada.
– Vai negar? Isso que tornou seu ensino médio interessante... Além do Glee Club, claro, mas nosso namoro teve grande efeito.
– Sim, eu nunca vou esquecer desses momentos — disse, mantendo seu sorriso.
Estavam tão intertidos na conversa, que nem perceberam o quão aquilo era constrangedor. Eles estavam separados e Mike tinha uma namorada, era certo ficar lembrando daquelas coisas? Quando eles pararam de rir, foi exatamente o que pensaram, ficaram sérios e um tanto culpados, tudo aquilo era ótimo, mas nunca voltaria. Infelizmente, nem tudo era como queriam, se Mike não namorasse, Tina pensaria em lutar por ele, porém, teria alguma lógica ela lutar naquele momento?
Eles precisavam parar com aquilo, aqueles encontros, aquelas lembranças, as conversas. Eles não estavam mais juntos e não ficariam juntos novamente. Aquilo só servia para atrapalhar o namoro de um e ferir os sentimentos do outro.
Arrumando a alça da bolsa em seu ombro e cerrando seu sorriso por completo, Tina cruzou os braços e ficou sem qualquer expressão, tentando parecer séria.
– Bem... Obrigada, por essa conversa. Acho que agora podemos seguir em frente. — ela disse, dando um longo suspiro depois.
– Sim, claro, eu... Eu concordo. — ele assentiu, ainda a olhando.
– ... Então tchau... — ela inclinou um pouco a cabeça para o lado e deu de ombros, tentando liberar um sorriso singelo.
– Tchau. — ele deu o mesmo sorriso, tirando finalmente as mãos dos bolsos.
Tina deu um passo a frente, e começou a andar, Mike fez o mesmo, eles trocaram um ultimo olhar e começaram a andar para lados opostos, mas só depois de darem 10 passos, perceberam que estavam indo para o lugar errado.
Tina se virou e viu que Mike havia feito o mesmo, eles andavam um em direção ao outro.
– Eu vou para aquele lado — disse Tina, passando por ele.
– E eu pra aquele. — respondeu Mike, sem parar de andar.
(...)
Santana chegava em casa com os pés doendo, havia corrido um quarteirão da "pedra de Tina", ainda mais de salto, até perceber que não estava mais perseguida, e diminuiu o passo até voltar a andar normalmente, chegando ao ponto e pegou o onibus lotado, tendo de ficar em pé e parada por 10 minutos.
Subir as escadas também cansavam seus pés, ela só queria chegar em casa logo, ela já se aproximava da porta. Assim que colocou a mão na maçaneta e a girou, ela imaginou um paraíso, com nuvens, anjos e um belo e aconchegante sofá, onde ela deitaria e ficaria ali até o outro dia, mas o que ela viu quando abriu o porta, era mais como a visão do inferno. E quem falava era Satanás, tentando convencer um anjo a unir-se com ele.
– Brittany, Deena me contou que você namora a Santana, mas eu acho que não está feliz com ela, deviam terminar, é melhor ficar triste sem ela, do que triste com ela.
Ela mal podia acreditar, ele estava mesmo ali, manipulando a pobre e inocente Brittany? Santana não conseguiria ter uma reação civilizada, desta vez, não teria ninguem para impedir ela de dar uma surra do rapaz.
– What the hell?! — gritou, olhando os dois, que se assustaram com sua aparição repentina — Eu sabia que devia ter aceitado a arma que um traficante queria me dar em troca de uma noite comigo, algo me dizia para aceitar, mas eu pensei em você, Britt, eu pensei em você! — ela estava completamente descontrolada, gritava cada vez mais alto.
– Santana — Jerry se levantou e mostrou a palma das mãos — Eu vim em paz.
– Em paz? Sério? Manipulando minha namorada? — ela apontou para Brittany, que permanecia sentada.
– Por favor, não briguem. — pediu Brittany, olhando para baixo.
– Não vamos brigar, amor. — disse Jerry, virando sua cabeça para olhá-la.
– "Amor"? Quem você pensa que é?! — Santana se aproximou e colocou as suas mãos no peito de Jerry, o empurrando.
– Santana! — Brittany se levantou e segurou Jerry pelo ombros. — Pare com isso!
– Brittany, ele está dizendo que devemos terminar! — ela falou pausadamente, mantendo a voz alta, para que Brittany compreendesse.
– Talvez ele tenha razão.
O silencio dominou o apartamento, mas as expressões falavam por si. Santana estava pasma, com a boca semi-aberta e o olhar grudado em Brittany, que por sua vez, estava séria, com um pouco de raiva. Já Jerry, formava um pequeno sorriso em seus lábios.
Ninguém falou nada, podiam virar a noite daquela forma. Nem mesmo o ruído da porta se abrindo chamou a atenção deles, a não ser de Jerry.
– Quem é você? — perguntou Tina, entrando no apartamento.
– Eu sou Jerry. — ele esticou sua mão para que Tina a apertasse.
– Oh, você é o Jerry. — Tina sorriu, olhando a mão do rapaz. — Veio causar mais confusões? — ela o olhou, ficando séria.
– Quem é você? — ele franziu o cenho.
– Eu sou a menina que você afetou indiretamente por se meter na vida dos outros! — seu tom de voz estava firme, para mostrar que não estava de brincadeira.
– O que? Eu nem te conheço! — uma de suas sobrancelhas se ergueu, enquanto suas mãos, com as palmas viradas pra cima, demonstrava sua confusão.
– Olha, você já deve saber que elas são namoradas. Então porque não para de ser inconveniente e vai embora da nossa casa? — Tina saiu da frente da entrada e apontou para o lado de fora.
Jerry olhou para Brittany, como se estivesse pedindo alguma ajuda.
– Acho melhor você ir, a briga vai virar a noite. — sussurrou Brittany, o olhando.
– Ok — ele estava inconformado, mas não insistiu, apenas saiu do lado de Brittany e começou a andar até a porta.
Não hesitou lançar um olhar matador para Tina enquanto saia, ela arqueou as sobrancelhas e pôs a mão na cintura. Quando ele finalmente se foi, Tina fechou a porta e respirou fundo.
– Eu não quero saber o que aconteceu... Na verdade quero, mas vou deixar vocês conversarem.
– Por que acha que deveriamos terminar? — perguntou Santana, saindo de seu "tranze", mantendo o tom de voz alto com indignação.
– Você nem parece minha namorada, nunca fala como se sente a respeito de mim, não diz uma coisa bonita, não sei qual foi a ultima que disse que me amava. — Brittany aumentava sua voz também, deixando Tina encurralada.
– Poderiam ter me esperado sair... — disse Tina, deixando sua bolsa em cima da mesinha de canto.
– Tudo bem, Tina, não há mais nada para conversarmos. — afirmou Brittany, olhando para a asiática.
Ela saiu batendo o pé até seu quarto, deixando Tina com o difícil papel de consolar, ainda mais, consolar Santana.
– Santana, eu...
– Não — ela ergueu sua mão aberta, mostrando-a para Tina — Eu não preciso disso, tá legal? Pegue suas coisas, vamos jantar.
– Mas... E Brittany?
– Não duvido que Jerry tenha comprado um algodão doce para ela.
– Maçã-do-amor! — gritou Brittany do quarto, fazendo Santana sussurrar algum palavrão.
Não era bom discutir. As garotas então sairiam para jantar sozinhas, mas precisavam trocar de roupa. Tina se dirigiu para seu quarto, mas estranhou Santana não ter feito o mesmo. Só então percebeu que a porta de seu quarto estava trancada, Brittany não a abriria tão cedo.
Tina voltou à sala e observou Santana, sentada no sofá, olhando para o vago.
– Te empresto uma roupa — ela disse.
– Prefiro meu uniforme à vestidos de toalha de mesa — respondeu fria, sem mover seu olhar.
– Eu tenho vestidos que você pode gostar. Apenas experimente. — ela deu de ombros.
Santana não tinha muita escolha, ela não podia sair com o uniforme do Spotlight Dinner, e ela muito menos deixaria de jantar. A expressão de "whatever" foi o que Tina precisou para abrir um sorriso animada e puxar a latina pela mão, a levando para seu quarto.
Entre muitas críticas, como "isso é horrível" e "isso é muito virgem", Santana conseguiu se identificar com um vestido azul, curto, bem colado na cintura e de apenas uma alça, alguns alfinetes ajudaram a ajustar a roupa para a latina magra. O sapato não foi problema, já que por coincidencia, ela e Tina calçavam o mesmo número, embora o pé de Santana ficasse totalmente solto dentro do calçado, já que, assim como seu corpo, também era magro.
Em nenhum momento Brittany se manifestou. As duas pegaram suas coisas e saíram, rumo a qualquer restaurante aberto e barato.
– Devíamos chamar as gemeas Olsen... — comentou Santana, enquanto caminhava ao lado de Tina.
– Rachel e Kurt? Sério? — não era que Tina não quisesse a compainha dos dois, o problema era Santana querer a compainha deles.
– É, talvez as conversas homos me distraiam, e eu vou querer matar eles, ao em vez de querer matar aquele... Panda maldito e loiro. — ela cruzou os braços, com os punhos fechados. Só de falar dele, já lhe subia a raiva.
– Bem, se vai fazer você se sentir melhor... Ligue para eles.
Sem resto de dúvida, Santana pegou o celular na bolsa e procurou pelo número de Rachel nos contatos. Claro que ela e Kurt não recusariam, não era sempre que Santana os convidava para jantar.
(...)
O restaurante não estava tão cheio, ficava no centro de New York, as garotas precisaram andar um pouco mais que o normal, mas valeu a pena. Rachel e Kurt as encontraram lá, e eles se sentaram em uma mesa grande.
– A que devo a honra do seu convite, Santana? — perguntou Kurt, enquanto se sentava.
– Sua boca sem dentes é uma boa distração — respondeu, ajeitando-se na cadeira.
– W-what...? — Kurt olhou para Tina e Rachel, uma mistura de confuso e pasmo.
– Não ligue Kurt, você tem um belo sorriso — disse Rachel, também abrindo um sorriso. — Mas é sério, Santana, o que houve?
– O que? Não posso chamar meus amigos para jantar?
– Não. — respondeu Rachel, com as sobrancelhas erguidas.
– Se eu fosse você, aproveitava o convite, porque não vai acontecer sempre. — Tina arrumava o guardanapo em seu colo enquanto falava.
– She's right. — afirmou Santana, finalmente terminando de se ajeitar — Não sei vocês, mas eu vou começar da sobremesa. Garçom! — gritou, levantando seu dedo indicador. Quando o rapaz se aproximou, Santana ergueu o cardápio — Pode me mandar esse sundae? Mas com calda extra, muita calda extra.
– Claro. Vão pedir também? — perguntou o rapaz, anotando tudo em um bloco.
– Não... Não agora — Kurt olhava Santana, as sobrancelhas abaixadas, formando dois riscos entre suas sobrancelhas. — Santana, você brigou com Brittany?
– Não. Por que? — ela colocou o cardápio fechado devolta à mesa e apoiou o rosto nas mãos.
– Porque sempre que eu brigava com Blaine, um pote grande de sorvete sempre foi uma boa companhia, aposto que também aconteceu com Rachel e Tina.
– Eu e Brittany estamos vivendo um conto de fadas onde atravessamos um arco-iris das cores que te representam por ai em algumas passeatas e logo encontraremos o pote de ouro.
– Sério? E por que ela não está aqui? — questionou Kurt, ficando na mesma posição de Santana, com um sorriso ironico nos lábios.
– Tina, eu me arrependi, vamos chutar eles. — disse Santana, completamente séria, sem um ponto de ironia ou outro sentimento em sua expressão.
– Não, não, não! Tudo bem, vamos ficar quietos. Quieto Kurt! — pediu Rachel, apontando o dedo para ele.
Kurt ergueu as mãos como se estivesse se rendendo e ficou calado, assim como todos na mesa.
Havia uma banda, em um pequeno palco no fundo do restaurante, pareciam covers de Fleetwood Mac, eles cantavam uma música que Santana cantou com Brittany na primeira vez que falou sobre sentimentos com ela. Aquilo estava a torturando, mas ela tentou se controlar até seu sundae gigante chegar. O tamanho daquele sorvete fez os olhos de Kurt se abrirem tanto que só faltavam saltar, Rachel observava com desprezo, como se nunca tivesse afogado as mágoas naquela massa gelada. Tina não reagiu, permaneceu com o olhar vago, ela já havia feito aquilo antes e não escondia.
– Vocês não sabem o que estão perdendo. — disse Santana, enfiando colheres e mais colheres na boca.
– Estou perdendo a oportunidade de engordar 2 kilos e levar uma bronca de Cassie July por não conseguir dar um salto digno. — retrucou Rachel, balançando a cabeça.
– Guys... Aquele ali não é Mike? — perguntou Kurt olhando para a porta, inclinando a cabeça para o lado.
– Não seja, não seja, não seja — sussurrava Tina, com os olhos fechados.
– Oh, é ele mesmo! — confirmou Santana, com a boca cheia de sorvete — Mike! Mike!
– Jesus de Nazaré, que vergonha — Rachel tapava o rosto com sua mão observando a cena por entre seus dedos.
Claro que aquilo chamaria a atenção não só de Mike, mas de todo o restaurante. Ele estava com Deena, que parecia lhe dizer algo enquanto olhava para a mesa. Mike respondeu, balançando a cabela em negativa, mas ela insistiu, até que começaram a andar até a mesa onde o pessoal estava.
– Heeeey you! — disse Santana quando finalmente engoliu o sorvete, parecendo embriagada.
– Hey guys — disse Mike, acenando — Deena, esses são Rachel e Kurt, aqueles que sempre brigavam no New Directions.
– Nós dois? Oh, imagina! Somente alguns duelos de voz onde eu sempre vencia — disse Rachel, colocando a mão no torax.
– Parece que brigaremos de novo — afirmou Kurt, entre uma risada debochada — Muito prazer Deena, e uau, que olhos são esses, estou cego!
– Oh, que isso — ela gargalhou — Prazer em conhecer vocês... Oi Santana e oi Tina.
– O que? Ah! Oi gente, eu estava distraida. — disse a asiatica, tentando disfarçar seu nervosismo, era ainda pior agora que ela sabia que Deena havia descoberto sobre o "quase beijo".
– O que estão esperando, puxem uma cadeira! — convidou Santana, pegando mais sorvete com sua colher.
– Oh não, nós vamos...
– Eu adoraria — disse Deena, interrompendo Mike — se não for incomodar ninguém.
– Oh não, ninguem vai discordar com a Tia Sants, não é gente? — Rachel e Kurt apenas sorriram, mostrando que concordavam com a ideia. Tina estava com o coração na boca, o que aquele jantar poderia trazer à tona? — Não é mesmo, Tina? — perguntou Santana, forçando seu tom de voz.
– Não... Seria legal — respondeu, tentando forçar um sorriso.
– Ótimo, então sentem-se, porque eu vou me levantar — Santana largou a colher em cima da mesa e ajeitou o vestido, a música que a banda cover cantava havia terminado, mas começou uma ainda pior, Songbirds — Eu não aguento mais esses caras com essas músicas.
– Bem... Podemos resolver seu problema — disse Rachel, sorrindo maliciosamente.
– Eu impediria você... Mas é melhor do que isso, vá e faça seu trabalho.
– Eu não entendi, eles vão bater na banda? — sussurrou Deena para Mike, o fazendo rir.
– Quando Rachel dá esse sorriso é porque vai cantar. — respondeu Mike.
– Oh! Eu sempre quis ouvir você cantar ao vivo! — comentou Deena, virando-se para Rachel.
– Mas que honra. Tem gente que me valoriza! — ela sorriu ainda mais — Bem, por que você, Kurt e Tina não me acompanham?
– Eu adoraria. — Deena sorriu, nem ao menos chegou a se sentar, mas colocou sua cadeira debaixo da mesa e esperou que se levantassem.
– Eu não estou bem para cantar hoje, vão vocês — disse Tina, ainda forçando seu sorriso singelo.
Rachel empurrou sua cadeira para trás e se levantou, assim como Kurt. Os três foram caminhando até o pequeno palco conversando, talvez planejando a música que cantariam. Eles não precisaram interromper a banda, ela já estava no fim. Rachel cochichou algo para eles e pareceram concordar.
– Boa noite a todos — disse Rachel ao microfone — Eu sou Rachel Berry, esse é Kurt Hummel e essa é Deena...
– McGee — completou Deena.
– Deena McGee! — continuou Rachel, com seu sorriso radiante — Nós vamos cantar para vocês agora, algo que vocês devem conhecer. Love on top, Beyonce.
Todos aplaudiram, inclusive Santana, que parecia muito animada.
– Yay! Expresso Broadway, é isso ai! — ela gritava, enquanto continuava aplaudindo.
– Santana... Desculpe perguntar mas... Você está bebada de sorvete? — perguntou Mike, sem conter o riso em seguida.
– Mais ou menos Jackie Chan, estou passando por momentos que inclusive, vocês dois podiam me ajudar. — disse, apontando a colher para Mike e Tina — vocês não falam muito, mas aposto que nesses cérebros asiáticos passa muita sacanagem. Bem, Brittany reclama que eu não falo sobre sentimentos para ela, mas eu não sei exatamente o que ela quer de mim. Podem me ajudar? Você Tina! Sempre foi a mais sentimental do Glee Club. O que devo falar para Brittany?
– Bem Santana... — Tina olhou para o vago por alguns segundos, e então, se virou para a latina. — Expressar sentimentos não tem a ver só com falar, mas demonstrar também é muito bom, principalmente quando você não é bom com palavras. Você pode... Oh, sabe o que funciona? Um olhar, isso. Um olhar bem profundo. Ou um sorriso, atoa, para ela saber que você a admira. Você pode comprar um presente, abraçá-la, beijá-la... Às vezes, um "I love you so much" parece difícil, mas é fácil se você a amar de verdade, pode tentar. Leve ela para passear, faça um pequenique. Parece idiota, mas tenho certeza que Brittany iria adorar.
– Uau, isso foi tão lindo e gay! — por mais ironico que parecesse, aquela era a forma de Santana elogiar — Eu adorei as ideias, mas para digerí-las melhor, eu preciso ir ao banheiro. E acho que vou tirar os alfinetes do vestido porque eles podem não segurar mais. E não toquem no meu sundae! Be right back!
Santana se levantou com um pouco de dificuldade, ajeitou o vestido e caminhou devagar até perto do palco, onde ficava o banheiro feminino. Aproveitou para acenar para os cantores, que já chegavam na metade da música. Deena cantava bem, e sua voz combinava com a de Rachel e Kurt, seria algo que Mike gostaria de ver, mas ele estava muito ocupado, observando Tina voltar à sua posição inicial, olhando para o nada.
– Isso foi para mim? — ele perguntou.
Tina virou sua cabeça e o olhou, ele tinha um sorriso discreto e as sobrancelhas arqueadas.
– Isso o que?
– Isso que acabou de dizer para Santana. Os olhares, sorrisos, "I love you so much", o pequenique com toalha xadrez...
– Eu não mencionei nenhuma toalha xadrez.
– Você me entendeu. Todas essas coisas, foi eu quem fez para você quando namoravámos.
– Bem... Sim, foi a única época da minha vida em que me demonstraram esse tipo de amor que Santana sente por Brittany, mas sem tanta malícia. — ela ergueu os ombros.
– Então... Você se sentia amada quando eu fazia esses gestos? — Mike virou todo seu corpo para Tina, estava curioso por sua resposta.
– É claro. Faz tempo que não sinto essas coisas, mas na época, sim. Eu me senti a garota mais amada do mundo.
Tina não sabia de onde encontrava tanta tranquilidade em falar sobre aquilo com Mike. Era para ser apenas um exemplo para Santana, ela havia esquecido completamente de que ele estava ouvindo. Ela tentou colocar na cabeça que tudo aquilo fazia parte do passado, e não significava nada para o presente.
– Fico feliz em saber que fui um bom namorado. — ele aumentou seu sorriso, parecia envergonhado.
– Você foi um ótimo namorado. Assim como sei que é ótimo para Deena — Tina a olhou, cantando com Rachel no palco, e abriu um sorriso. — Ela é ótima, não é?
– Quem? — para a surpresa de Tina, Mike não havia escutado sua ultima frase, ele parecia ter saído de um tranze e estava confuso.
– Deena — respondeu, o olhando, meio confusa.
– Oh, claro, Deena! Sim, ela é... Ela é ótima.
– Legal...
Tina sentia orgulho de si mesma por não ter mostrado qualquer reação de nervoso ou vergonha com a pergunta de Mike, finalmente ela estava seguindo em frente em paz. Mas para o azar de Mike, ele ficou pensando naquilo durante todo o jantar. Quando Deena voltou e ele teve que elogiá-la, mesmo sem ter notado ela cantando, quando estavam comendo, quando estavam contando piadas e falando sobre músicas, até mesmo quando Tina nem se importava mais em estar na mesma mesa com ele e Deena. Ele ria, comentava, perguntava, mas tudo que estava em sua cabeça era o que Tina disse. "Eu me senti a garota mais amada do mundo".

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