Who stalk the stalkers?
8 La Plata
Havia uma pequena fila composta por mais dois casais além de mim e Leather na entrada do La Plata. Era a típica classe média alta: um homem alto na casa dos quarenta e cinco anos com cabelos levemente grisalhos e cuidadosamente penteados para a direita, vestindo um terno azul escuro, quase preto com calça da mesma cor e uma gravata vermelho sangue. Seus olhos negros olhavam seu relógio banhado a ouro, com pressa. Sua acompanhante era uma mulher de estatura mediana, com uns trinta e poucos anos, cabelos loiros lisos e compridos, olhos verdes, usando brincos e anéis de ouro, com um longo vestido preto até os pés, quase escondendo seus saltos agulha, também pretos. O outro casal era composto por um homem baixo de trinta e poucos anos, usando um terno cinza claro desabotoado por conta de sua barriga protuberante, revelando uma camisa social branca e uma gravata azul escuro, com calças também cinza claro. Ele passava sua mão direita sobre seu cabelo preto e curto, na tentativa de mantê-lo penteado, provavelmente uma mania. Seus olhos azuis observavam o restaurante por detrás de duas lentes de um óculos com armação prateada. A mulher ao seu lado também era baixa e aparentava ter a mesma idade que ele, usando um vestido verde claro até os pés, com sapatilhas verde escuro e uma pequena bolsa também verde escuro, pendurada em seu ombro direito. Seus cabelos eram castanhos escuros e estavam presos em um coque estranho, provavelmente um penteado da moda. Seus olhos castanhos se deleitavam com o luxo do interior do restaurante, fazendo brotar um sorriso com batom vermelho em seu rosto.
Demoramos cerca de meia hora para conseguir entrar no estabelecimento. Fomos barrados pelo recepcionista, que parecia abafado pelo movimento da noite, motivo pela grande espera. Era um homem de vinte e poucos anos, cabelos pretos penteados para trás com gel, usando um terno preto com uma gravata borboleta também preta por cima de uma camisa branca, calças e sapatos pretos. Seus olhos negros se interessaram em minha companheira, mas rapidamente se voltaram para a lista, checando a reserva que Petúnia havia feito em seu nome. Após conferir meticulosamente os dados de minha acompanhante, o homem nos direcionou até nossa mesa, a última do corredor ao lado de uma grande janela.
O restaurante era a definição de chique: mesas de madeira nobre e escura, com entalhes esculpidos por grandes artesãos, cobertas por panos brancos de seda, com padrões aleatórios e vermelhos, cuidadosamente bordados. Quadros de pintores famosos enfeitavam tão bem as paredes com suas molduras douradas cheias de arabescos que nenhuma pessoa normal se questionaria se eram réplicas ou originais. Praticamente todo canto que poderia estar vazio estava ocupado por um vaso muito bem ornamentado contendo plantas de cores neutras para não se destacarem demais. Nas mesas, talheres de pratas de diversos tamanhos e com funções que eu não tinha o menor interesse de descobrir, acompanhados por pratos brancos de porcelana fina e um pequeno e delicado vaso com duas rosas brancas, além dos guardanapos de pano bordados com as iniciais do local, claro.
Esta chuva de informações e a quantidade imensa de objetos decorativos era uma poluição visual inevitável para um stalker como eu, e por isso eu costumo evitar estes locais. Terminei de analisar todas estas informações enquanto esperava sentado à mesa pelo garçom que traria os cardápios. Leather me encarava com seu sorriso tradicional quando saí do transe e colocou sua mão direita sobre minha mão esquerda, que repousava sobre a mesa. Sorri, dando início à vigília.
O garçom trouxe dois cardápios com capas de couro preto e pratos com nomes chiques e frescos. Perguntei-me se eles vendiam comida ou perfumes estrangeiros e sorri sem graça, na esperança de Leather captar meu sinal de desespero. A garota pareceu entender e pediu dois pratos com um nome bizarro e duas taças de vinho tinto. O homem recolheu os cardápios e se retirou. Petúnia, que estava de costas para a janela, apontou para a mesa ao nosso lado, que estava vazia.
— Sherlock vai se encontrar com o fantasma ali, daqui a meia hora. Até lá, vamos apenas ter uma noite de jantar agradável, certo?
— Não tenho objeções. Só espero que tenha pedido algo comestível.
— Nunca comeu num restaurante chique, rapaz?
— Tenho problemas com a poluição visual gratuita que esses lugares oferecem.
— Parece que não sou a única com sérios problemas, Bob.
— Queria muito discordar de você, mas é impossível.
— Pode confiar em mim. Tenho certa experiência em locais como esse. Vai gostar do que eu pedi.
— Não sou bom em confiar, mas acho que não tenho escolha, não é?
— Exatamente. Hoje, eu estou no comando e você só vai escolher se quer ou não passar a noite lá em casa.
— Se você se comportar, eu até penso no seu caso.
— Mas olha só! Uma resposta positiva. Estamos progredindo!
— Por favor, não estraga o momento.
— Desculpa, eu me empolgo fácil.
Contra todas as expectativas de minhas paranoias, realmente fui capaz de passar um período agradável de meia hora ao lado de Leather Face. A garota era uma ótima atriz, até parecia uma jovem normal. Porém, não estávamos ali por puro lazer, amor ou quaisquer prazeres da vida, e a razão de nosso encontro adentrou o local pontualmente. O suposto fantasma era um homem alto na casa dos trinta anos, com cabelos loiros e curtos penteados para trás, olhos azuis e penetrantes, vestindo um terno preto, em conjunto com calças e sapatos também pretos, todos de alta costura, acompanhados de uma gravata vermelho sangue. Ele adentrou o restaurante e observou atentamente todo o ambiente enquanto coçava seu cavanhaque cuidadosamente desenhado. Ele caminhou lentamente até a mesa ao lado da minha e sentou-se de frente para a janela, conferindo seu relógio de ouro logo em seguida.
Cinco minutos depois, um homem de estatura mediana, cabelos ruivos e curtos, olhos verdes e pele extremamente pálida com sardas e tudo entrou no restaurante. Ele vestia um terno branco por cima de uma camisa azul claro e uma gravata lilás, com calças brancas e sapatos de couro marrom escuro. Eu só sabia que se tratava de Sherlock pela estatura, pois parecia uma pessoa completamente diferente. Era até mesmo assustador.
Nosso companheiro stalker andou calmamente e com um sorriso confiante em seu rosto até sua mesa, parando à frente do suposto fantasma e cumprimentando-o. Logo após, ele tomou seu lugar à mesa e a reunião de negócios foi oficialmente iniciada. Juan não parecia feliz com o pequeno atraso de nosso companheiro e batia seus dedos na mesa, demonstrando seu nervosismo. O clima estava pesado, então Sherlock resolveu iniciar a conversa:
— Boa noite, você é o famoso Juan de la Montana?
— Eu gostaria de saber quem é você. Gulhé não virá hoje?
— Perdoe meu patrão por sua ausência hoje, mas houve uma porção de imprevistos que o impediram de estar aqui. Eu sou Miguel Fontis Puris, mas pode me chamar de Miguel. Serei eu quem tratará dos negócios hoje.
— Desagradável, mas inevitável. Gostaria que informasse seu chefe para que nunca mais repita este erro.
— Falarei com o Sr. Gulhé assim que terminarmos aqui.
O homem pareceu se acalmar e pediu os cardápios ao garçom, que foi extremamente ágil em seu atendimento. Os dois pediram pratos com nomes estranhos, dispensando o funcionário logo em seguida. Os pratos em minha mesa estavam vazios, então aproveitei a proximidade do garçom e lhe chamei. Leather pediu duas sobremesas e o homem ficou livre, enfim.
O silêncio reinou na reunião ao nosso lado até que trouxeram a refeição dos homens e nossas sobremesas, duas taças de cristal com duas bolas de sorvete de limão em cada, com uma calda de menta delicadamente colocada sobre elas e algumas folhinhas de hortelã. Eu achava frescura demais para um simples sorvete, mas não tinha o que ser feito a respeito disso. Começamos a provar as sobremesas e os homens voltaram a falar, entre uma garfada e outra.
— Então, está ciente das especificações do Sr. Guilhé, certo? — indagou Sherlock.
— Sim, mas não gosto de tratar desses assuntos por telefone, então refresque minha memória.
— Ele gostaria de um carregamento de vinte filhotes ingleses e trinta alemães.
— O que houve com os dez russos?
— Não havia nada sobre russos nas especificações do Sr. Guilhé.
— Muito bom. Perdoe minha desconfiança, mas sou muito cauteloso quando não lido pessoalmente com meus clientes.
— Não se preocupe, isso é totalmente compreensível, ainda mais no nosso ramo.
— Exatamente. Bem, ele não costuma pedir carregamentos tão pequenos, o que houve?
— Isso faz parte dos imprevistos que o impediram de vir aqui. As vendas caíram um pouco porque a fiscalização aumentou.
— A fiscalização sempre atrapalha gente como nós. Guilhé sempre foi enrolado com isso. Por acaso ele não anda utilizando estes filhotes para uso próprio de novo, anda?
— Sinto muito, mas eu realmente não sei a resposta para essa pergunta. Tenho minhas suspeitas, mas não posso afirmar nada.
— Ele é doente. Ainda vai acabar saindo do ramo por causa disso.
— Nós sempre tentamos manter o bom senso nele, mas temo que não haja muito o que fazer a respeito disso.
— Avise-o que se continuar fazendo pequenos pedidos não poderei mais manter a preferência. O mercado é amplo e não me faltam compradores.
— Pode ter certeza de que o avisarei. Mas o pedido atual ainda está de pé, certo?
— Verei se tenho sobras de outras entregas. Não vale a pena me arriscar por tão pouco.
— Eu… Compreendo, mas o Sr. Guilhé gostaria de ter os carregamentos em mãos em uma semana e meia. Seria possível?
— Impossível. Ele sabe muito bem como funcionam meus prazos. Ou ele faz um pedido maior ou pode procurar outro fornecedor. Esse jantar está sendo uma tremenda perda de tempo.
— Entendo… Eu poderia fazer uma ligação? Não quero desperdiçar seu precioso tempo.
— Vá em frente e me traga boas notícias.
Sherlock parecia nervoso e se levantou enquanto pegava o celular em seu bolso. Ele rapidamente deixou o restaurante, parando em frente à entrada. Era possível observá-lo de onde estávamos e o fantasma parecia bem atento a seus movimentos. Ele era muito cauteloso, mas tudo parecia estar correndo bem. Nosso companheiro stalker era um ótimo ator.
Pude finalmente focar toda minha atenção em minha mesa e na taça vazia à minha frente. Seria suspeito simplesmente continuar ali sem consumir nada, então chamei novamente o garçom e pedi uma garrafa de vinho suave. Na dúvida, bastava consumir lentamente aquela garrafa e ninguém suspeitaria.
O telefonema de Sherlock demorou cerca de dez minutos e Juan permaneceu sentado por todo esse tempo, observando atentamente o stalker na calçada. Sherlock gesticulou bastante, se irritou, pediu desculpas e coisas do tipo. Tenho quase certeza de que ele estava falando sozinho esse tempo todo e anotei essa suposição no meu caderninho mental de dúvidas que iria tentar esclarecer no dia seguinte.
Assim que voltou, o stalker rapidamente sentou-se e coçou a parte de trás de sua cabeça, aparentemente preocupado. Ele tentou começar o assunto algumas vezes, sempre parando de falar antes de completar uma palavra, até que finalmente desistiu e chamou o garçom, pedindo uma garrafa de whisky. O fantasma começou a ficar impaciente e parecia preocupado com as supostas notícias que viriam da boca de nosso colega. Ele, por sua vez, esperou a bebida chegar, sendo servida em um pequeno copo de cristal com três pedras de gelo. Sherlock tomou uma dose inteira e colocou o copo com força na mesa, causando um olhar de desaprovação em Juan.
— Más notícias, eu suponho. — disse Juan, aparentemente nervoso.
— Pois é… Eu realmente sinto muito, senhor, mas meu patrão está um pouco difícil hoje.
— Não me importo com como ele está. Seja direto.
— Desculpe-me, senhor, serei direto. Não temos dinheiro para um carregamento maior do que esse. Sr. Guilhé teve que gastar uma grande quantia para aparar várias pontas soltas que o estavam impedindo de manter suas vendas, mas me mandou garantir que o próximo pedido será muito maior.
— Se ele não aumentar essa mísera quantidade, não haverá próximo pedido. Por acaso ele se esqueceu com quem está lidando?
— Longe disso, Sr. Montana. Só estou pedindo um voto de confiança, levando em consideração os pedidos anteriores.
— Nesse ramo não se pode confiar em ninguém. Avise seu chefe que ele vai pagar por me fazer perder tempo.
O homem acenou para o garçom, pedindo a conta. Ele demorou cinco minutos para trazer o prejuízo daquela negociação fracassada e Sherlock se adiantou, pagando com um cartão de créditos. Juan de la Montana saiu do estabelecimento puto da vida, seguido pelo stalker, que parecia desesperado. Ele conseguiu parar o fantasma na calçada logo em frente à entrada. Os dois começaram a conversar, mas já não era possível entender o que diziam. Sem nossas amarras sociais, resolvi riscar algumas dúvidas de meu caderninho com Petúnia.
— Então… Era para ter acontecido assim? — perguntei depois de dar um gole no vinho.
— Sei lá. Sherlock é um cara estranho e eu já aprendi a não tentar decifrar suas ações.
— Faço a mesma coisa com a Dark Rose.
— Eu gosto dela, é doidinha.
— É meio assustador você falar isso de alguém e estar certa.
— Nossa! Você é muito rude comigo, Bob. Se continuar assim eu me apaixono.
— A lição que aprendemos hoje é que não vale a pena entender stalkers.
— Achei que isso fosse meio óbvio.
— Desculpa, mas minhas paranoias não conhecem essa palavra.
— Você é piradinho.
— Obrigado.
Nossa agradável conversa fui interrompida quando algo muito chamativo aconteceu lá fora. Juan de la Montana tinha desistido de conversar com Sherlock e tratou de atravessar a rua, quando foi atropelado por um carro preto em alta velocidade. A pancada o arremessou contra a calçada, dez metros à frente. O carro derrapou e bateu contra um poste, acionando o airbag e salvando a vida de seu motorista. Naturalmente, levantamos da mesa e nos aproximamos da janela para observar melhor o ocorrido, assim como o restante das pessoas no restaurante.
Nosso fantasma estava estatelado de bruços no chão, com as duas pernas dobradas em ângulos anormais e sua face estava voltada para trás. Não precisava de um laudo médico para afirmar que ele estava morto, o que causou pânico em todos os expectadores. Leather colocou sua face em meu peito, como se estivesse enojada ou assustada e eu a abracei, acariciando seu cabelo numa falsa tentativa de acalmá-la. Sherlock aproveitou a comoção geral e desapareceu de nossas vistas. Depois de alguns minutos, a motorista imprudente saiu do carro com a mão direita em sua cabeça, por onde escorria um fino fio de sangue. Era uma mulher alta, com cabelos cacheados longos e negros, olhos verdes, usando um vestido preto simples sem estampas e sapatilhas brancas. Ela andou lentamente em direção ao cadáver e parou a dois metros do corpo, caindo de joelhos em choque.
Os funcionários do local chamaram a polícia e a ambulância, que chegaram em quinze minutos. À essa altura, eu e Leather já estávamos no lado de fora do restaurante, prontos para ir embora. Paramos um pouco afastados da comoção, mas perto o suficiente para observar o que acontecia. A polícia tentava interrogar a mulher, que chorava sem parar e o corpo era carregado em uma maca, coberto com um saco preto, até a ambulância. Saímos caminhando do local, tentando transparecer que ficamos abalados com toda a situação.
Dois quarteirões depois, decidi que já era hora de desativar nossa atuação, suspirando profundamente. Encarei Leather, que olhou dentro de meus olhos e aconchegou sua cabeça em meu ombro. Tenho certeza de que ela entendeu meu olhar de “me larga, por favor” e ignorou propositalmente. Aceitei meu destino, mas tirei o sorriso do rosto, incapaz de controlar minhas paranoias por mais tempo.
— Acho que você já pode me largar.
— Não, não posso. Só te largo amanhã de manhã.
— Desculpe, mas eu pretendo dormir sozinho hoje.
— É uma pena, jovem. Mas é mais um motivo para eu aproveitar nosso contato físico enquanto ele durar.
— Você é louca.
— Todos somos.
— De qualquer forma, acho que você já entendeu o que aconteceu com o fantasma, não é?
— Claro, bobinho. Nosso fantasma era só um fantoche. Suspeitaram do Sherlock e apagaram o cara sem dó nem piedade. Muito profissional.
— Isso é um sinal de que o fantasma ou pessoas em quem ele ou ela confia estavam por perto.
— Exatamente! Eu conheço o nosso amigo Sherlock há um bom tempo e trabalhamos juntos diversas vezes. Tenho certeza de que ele vai conseguir as gravações de todas as câmeras de segurança da região para que possamos analisar depois.
— Parece um bom plano. Tem mais algum palpite?
— Bem, só sei que você vai acabar conhecendo o Dead Man Standing logo logo. Ele é o legista da polícia local e sempre dá um jeito de tirar informações dos defuntos.
— Ele é algum tipo de necromante?
— Sabe que essas coisas não existem, Bob. Ele é especialista em investigar tudo o que envolve um cadáver. Sempre consegue chegar a parentes ou conhecidos e tal. É o hobby favorito dele.
— Acho esquisito, mas não posso julgar. Cada stalker com suas manias.
— Por hora, vamos tirar uns dias de folga e deixar esses caras trabalhando. É sempre bom deixar a poeira baixar antes de se mover novamente.
— Acho mais do que justo.
Paramos em frente a um ponto de ônibus vazio e chamamos um táxi. O carro demorou cerca de dez minutos para chegar e decidi deixar Leather ir sozinha. Minhas paranoias já não aguentavam mais ficar perto dela. Ela insistiu novamente para que eu dormisse na casa dela, mas neguei sem pensar duas vezes e me despedi da garota. Esperei o taxi sumir de minha vista e decidi voltar à pé até meu apartamento. Era uma boa distância, mas eu precisava de tempo para pensar antes de chegar em casa. Estava exausto, então tinha certeza de que minha cama seria uma tentação irresistível naquela noite. Então, se eu queria ser capaz de pensar sobre os acontecimentos daquela noite, só me restava caminhar sozinho por aquela noite escura e silenciosa.
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