Levei apenas duas horas e meia para chegar até minha casa, cansado e com fome. Entrei em meu apartamento sem muitas cerimônias e até mesmo desisti de checar se estava sozinho. Só queria tomar um banho e comer alguma coisa. Sim, eu tinha saído de um restaurante há poucas horas, mas comida de restaurante chique enche o estômago tanto quanto um punhado de vento. Fui diretamente até o chuveiro, tirando rapidamente minhas roupas suadas e as jogando diretamente no cesto de roupas sujas, quase mergulhando no chuveiro. Aproveitei o cansaço e resolvi curtir um banho prolongado que durou meia hora. O planeta derramou uma lágrima de tristeza, daquelas que escorre devagar pelo rosto até cair pelo queixo por causa de meu grande desperdício de água. Bem, sinto muito Terra, mas a vida tem dessas.

Esqueci minha toalha e minhas roupas limpas e só percebi esse deslize quando desliguei o chuveiro. Pensei em sair correndo para não molhar tanto meu apartamento, mas estava cansado e decidi ligar o botãozinho do “foda-se”, caminhando lentamente até a minúscula varanda do local, onde eu deixei minha toalha secando. Sequei meu corpo e a coloquei de volta no varal, indo diretamente para o meu quarto, onde vesti meu pijama e me joguei de bruços na cama. Fechei os olhos por cinco segundos e fui acordado por meu estômago, que pedia por mais comida. Usei a força de mil homens para conseguir escapar do doce abraço da preguiça e guiei meu corpo como se fosse uma marionete até a cozinha, preparando um copinho de macarrão instantâneo. Minha dieta continuava saudável como sempre.

Alimentado e cheiroso, estava pronto para uma merecida noite de sono. Caminhei arrastando os pés e me esforçando para não cair de cansaço olhei ao meu redor e notei os rastros de água deixados por meu deslize maldito. Olhei para trás e encarei a louça suja na pia. Aquela bagunça me incomodava, mas nada poderia ser feito no momento. Suspirei profundamente e bocejei logo em seguida. Nem me dei ao trabalho de colocar a mão em frente à minha boca e simplesmente me joguei na cama assim que cheguei a uma distância segura dela, apagando logo em seguida.

Acordei desorientado às três da tarde do dia seguinte e logo levantei. Minha cabeça doía um pouco, mas era ignorável. Lembrei-me de meu erro na noite passada e encarei o chão molhado com desgosto. Levantei-me e rapidamente dei um jeito naquela situação com um rodo e um pedaço de pano velho que um dia foi uma camiseta branca. Em dez minutos, tudo estava de volta ao normal, o que não significa totalmente limpo. Sentei em minha cama e encarei a pequena luz verde e meu monitor que piscava, indicando que o computador ainda estava ligado. Esqueci-me de desligá-lo quando saí com Petúnia, um erro que poderia ser fatal.

Minhas paranoias me despertaram completamente e saltei da cama, sentado rapidamente na cadeira do computador. Movimentei o mouse freneticamente para mostrar à máquina que era hora de trabalhar. A tela ligou e eu rapidamente abri um programa que desenvolvi, cuja função era monitorar as ações realizadas na máquina e registrá-las para que eu pudesse descobrir possíveis invasões. Só consegui relaxar quando o programa me deu a certeza de que o computador apenas ficou repousando durante todo o tempo em que estive fora.

Fechei o programa e abri o navegador de internet, com inúmeras guias abertas. Pensei em fechar todas, mas fixei meu olhar na atual, que continha um site de mapas e que mostrava o endereço de uma casa em minha cidade. Demorei alguns segundos para me lembrar do que se tratava, mas logo abri um largo sorriso de satisfação e marquei um compromisso em minha agenda mental para este mesmo dia: me encontrar com a Senhorita Hiperatividade.

Tirei meu pijama e o joguei sobre a cama. Vesti calças pretas, uma camiseta vermelho escuro e um casaco de moletom preto, com capuz. Encarei minha mochila, mas decidi deixá-la ali. Desliguei meu computador, tirei da tomada e sai do meu apartamento, trancando tudo logo em seguida.

Peguei um ônibus e andei por cerca de vinte minutos, até que cheguei no bairro da suposta residência de Senhorita Hiperatividade. Peguei meu celular e liguei a internet, abrindo um aplicativo de mapa logo em seguida, para que eu pudesse encontrar o local com mais facilidade. Era a segunda vez que eu visitava aquele canto da cidade. Certa vez, fui pago por uma aluna para seguir seu professor de matemática da escola pública da Baia do Pecadores e descobrir algum podre para que ela pudesse chantageá-lo em troca de notas melhores. Não achei nada de mais, mas ele morava nessa área.

Deixando as curiosidades do tio Bob de lado, cheguei ao suposto endereço em cerca de vinte minutos de procura. Era uma casa de madeira azul clara, de tamanho mediano ao lado de outras casas de madeira maiores. Tinha apenas um andar e uma porta de madeira escura na frente, no meio de duas janelas pequenas com cortinas salmão. Não havia muros em casa alguma daquela rua, apenas pequenas cercas de madeira pintadas de branco que indicavam a divisão entre os terrenos. A casa ocupava todo o espaço entre as cercas, sendo impossível identificar o que havia nos fundos e muito menos chegar até lá sem passar pela porta principal.

Caminhei até a porta e parei a dois passos dela. Percebi que não tinha planejado nada após aquilo. Não sabia se ela morava sozinha ou se era mesmo a casa dela. Convoquei uma assembleia de emergência com minhas paranoias a fim de resolver este impasse. Levei cerca de dez minutos para chegar à conclusão de que eu tinha duas opções: bater na porta e improvisar ou esperar alguém chegar. Caso ela atendesse à porta, o problema estaria resolvido e a vitória seria minha. Agora, se outra pessoa atendesse, eu poderia fingir que foi engano e esperar ou tentar improvisar e retirar o maior número de informações possível para averiguar se estava certo ou não. De qualquer forma eu conseguiria atingir meu objetivo, mas esperar poderia levar horas, então resolvi partir para a ação, batendo três vezes na porta de madeira.

Esperei por três minutos e voltei a bater na porta, em vão. Pensei em desistir e me esconder em algum lugar quando olhei para cima e notei um pequeno sino prateado com uma corda de nylon quase invisível presa a ele. Puxei a corda com cuidado e seu badalar foi seguido por uma voz feminina e abafada pela distância:

— Já vai!

Poucos segundos depois, pude ouvir passos apressados correndo em minha direção, seguidos do som da tranca da porta sendo aberta. Ouvi apenas uma tranca, o que me pareceu estranho vindo da suposta cada de S.H., mas apenas ignorei isso no momento. A porta se abriu lentamente para dentro, revelando uma pequena garota em torno dos quatorze anos, vestindo o uniforme de uma escola particular muito cara da cidade, composto por uma camiseta branca com o brasão do colégio nas mangas e uma saia preta com finas listras amarelas verticais e um par de sapatos pretos por cima de meias brancas. Seus olhos eram roxos, assim como seus cabelos lisos que iam até quase seus pés. Um olhar mais atento revelou que era uma peruca, aparentemente feita para adultos pelo comprimento. Ela sorriu ao me ver, mas manteve-se dentro de casa, segurando a maçaneta da porta. Sorri também, e me abaixei um pouco para poupar o pescoço da garota.

— Boa tarde! Teria algum adulto ou responsável em casa?

— Não, eu estou sozinha aqui. Mas minhas irmãs já devem estar chegando.

— Entendo… Elas não te disseram que é perigoso abrir a porta para estranhos?

— Falaram sim, mas eu sempre abro pro correio e não conheço os caras da entrega.

— Você tem um ponto. — E naquele momento, surgiu uma nova paranoia em mim com entregadores.

— Trouxe alguma peruca nova, tio?

— Infelizmente, não. Não sou um entregador, na verdade estou procurando por uma colega de trabalho e acredito que este seja o endereço dela.

— Qual o nome dela?

— Eu a apelidei carinhosamente de Senhorita Hiperatividade por causa de seu jeito “peculiar” de ser.

— Peculiar? Que isso, tio?

— Desculpa, pra resumir bem… Ela é doidinha.

— Ah! Deve ser a minha irmã! Digo… Qual o seu nome, tio?

— Pode me chamar de Bob.

Eu estava cada vez mais incomodado com a facilidade de extrair informações daquela menina. Tipo, se eu fosse algum criminoso a garota já poderia estar morta ou pior! Quando estava quase impossível forçar um sorriso em meu rosto, fui atingido na cabeça por um objeto esférico. Ele não era muito pesado, então deixou apenas uma dor leve e me deu um baita susto. Virei-me para trás e me deparei com duas figuras femininas. A mais à frente era baixinha e deveria ter algo em torno de dezesseis anos. Ela vestia uma jaqueta jeans azul escura por cima de uma camiseta rosa claro com uma estampa de unicórnio, com calças jeans pretas e botas de couro escuras. Seus olhos castanhos me encaravam com raiva e seus cabelos verdes até o pescoço balançavam, indicando que ela correu até ali. Seu braço direito estava estendido, revelando ser ela a arremessadora de objetos. Olhei rapidamente para o chão antes de analisar a outra garota e lá estava uma pequena bola de borracha quicando até a calçada. Atrás dela, estava o sinal de minha vitória. Usando um vestido branco até os joelhos com sapatilhas também brancas, Hiperatividade me encarava boquiaberta. Seus olhos negros arregalados nem tentavam esconder o espanto da garota que, para minha surpresa, estava careca. Antes que um longo período de silêncio constrangedor se instaurasse no local, a irmã do meio pegou a bola e se preparou para me atingir novamente.

— Se afaste da minha irmã! — disse a garota, com firmeza.

— Calma, calma, calma Lisa. — disse Hiperatividade, enquanto segurava o ombro de sua irmã. — Eu conheço esse esquisitão.

— Poxa, essa é a visão que tem de mim, Hiperatividade?

— Claro! Agora vamos entrar pra eu poder matar você, digo… Para a gente poder conversar civilizadamente.

A arremessadora se acalmou, mas manteve em sua face um olhar desconfiado enquanto entrava em sua casa. Preferi entrar por último, já que era apenas uma visita aparentemente indesejada. Fui conduzido por um corredor até a sala, que ficava logo à esquerda da entrada e sentei-me no sofá de quatro lugares azul escuro. Era muito mais confortável que minha cama, o que era triste para mim. No cômodo, havia apenas aquele sofá, uma poltrona de couro preto, uma estante com alguns porta-retratos e uma televisão de quarenta polegadas, com um video game plugado ao lado. Hiperatividade foi até outro local da casa e deixou suas irmãs comigo, sentadas ao meu lado. A mais nova continuava sorrindo para mim e a do meio parecia um guarda-costas.

Cinco minutos depois, S.H. voltou e sentou-se na poltrona, à minha frente. Ela me estendeu uma caneca preta, que eu aceitei sem pensar duas vezes.

— Então… — disse Hiperatividade. — Como caralhos você me achou?

— Está tudo bem falar sobre isso perto das suas irmãs?

— Claro que sim, elas sabem o que eu faço.

— Você é um stalker também, tio? — perguntou a mais nova.

— Sou sim e foi assim que eu encontrei essa casa.

— Não me vem com essa, rapaz! Eu tomei muito cuidado para não revelar nada sobre mim em todas as vezes que tivemos contato! Você comprou essa informação da Leather, não é?

— Eu… Nem pensei nisso. Droga… Eu teria evitado um trabalhão. De qualquer forma, eu te encontrei sozinho e não pretendo revelar como o fiz. Considere isso como minha vingança pelo lance na cafeteria.

— Mas olha só a audácia do filho da puta. Você tem que parar de andar comigo, S.G. Aliás, pensei que não gostasse de quebrar as regras dos stalkers.

— Segundo Petúnia, essas regras são situacionais, então deve estar tudo bem.

— Falando na doida, por acaso seu encontro teve um “final feliz”? — disse a garota com um olhar malicioso.

— Teve sim, eu sozinho no meu apartamento desmaiando de cansaço.

— Hehe, imaginei.

— Mais importante do que isso… Como a segurança da sua casa pode ser tão ruim?

— Bem… Sabe como dizem, não é? Casa de ferreiro, espeto de pau. Eu gosto assim sabe, fica mais fácil pras meninas. Já instalei um sistema de segurança super ultra high tech, mas a pobrezinha da Luna não conseguia sair de casa sozinha e levantava suspeitas entre os amigos da Lisa.

— Entendo. Você tem um bom ponto. Nesse caso, é melhor morar sozinho.

— É por pensar assim que você tem essa cara de derrotado na vida. — disse a irmã do meio.

— Isso doeu. — respondi.

— Aqui é só tiro, porrada e bomba, S.G. — disse Hiperatividade. — Bem, agora que você já está aqui e tudo mais, pode me chamar de Ana, Ana Springs.

— Juro que esperava por um nome mais exótico.

— Vai se ferrar, esquisitão. Enfim, a menina que te acertou com a bolinha de borracha é a Lisa, minha maninha enfezada e a outra é Luna, a caçulinha.

— Oi, esquisitão. — disse Lisa.

— Oi oi, tio esquisito! — disse Luna.

— Por favor, me chamem de Bob.

— E agora… Lisa, leve a sua irmãzinha para a natação, senão ela vai chegar atrasada.

— Ok, ok. — disse Lisa. — Se forem se pegar, não façam isso na sala.

— Pode deixar, a gente vai pra calçada da frente, já que é mais discreto. — respondeu Ana.

As duas garotas saíram pelo corredor até outros cômodos e voltaram cinco minutos depois, com uma pequena mochila cor de rosa com estampa de unicórnios. As duas se despediram de nós e saíram pela porta da frente. Ana acompanhou suas irmãs com o olhar pela janela atrás da poltrona até que elas desaparecessem de sua vista e logo se virou novamente para mim.

— Então… Vocês são bem íntimas, não é?

— Claro que somos, elas são minha única família. Eu faço tudo por aquelas duas.

— Isso é bem a sua cara.

— Antes que pergunte, eu não tenho câncer.

— Ah, sim… Eu realmente ia perguntar por causa da careca e tal.

— Normal. A Luna tem câncer de pâncreas. Ela já está nessa luta faz uns anos e tudo indica que um dia ela vence, sabe. Tento manter ela numa dieta saudável e tem funcionado. Ela ainda precisa fazer quimioterapia mensalmente, mas os médicos dizem que daqui a um ou dois anos ela recebe alta.

— Nossa, isso foi assustador e tranquilizador ao mesmo tempo.

— Pois é, pra mim é bastante assustador. Eu e a Lisa raspamos nossas cabeças desde que nossa maninha começou as quimioterapias para ela não se sentir mal. Daí tive a ideia das perucas e com elas vieram as lentes de contato e agora temos um armário cheio dessas coisas e a gente continua comprando.

— Entendo, mas e seus pais?

— Você é bem cara de pau, não é?

— Desculpe, mas eu não consigo evitar.

— Tudo bem, tudo bem. Faz parte de ser um stalker, eu acho. Enfim, eles morreram num acidente de carro sabe. Desde então eu tive que sustentar aquelas duas meninas. Hoje em dia a Lisa me ajuda em algumas despesas com o emprego de meio período dela, mas eu prefiro que ela foque na faculdade, já que eu ganho bastante como stalker.

— Espera, faculdade? Ela não é nova demais pra isso?

— Pelo amor de tudo o que é mais sagrado nunca diga isso perto dela. Ela já tem dezoito, só que o tamanho não ajuda. Ela odeia a altura dela, mas tenta disfarçar. E apesar de tudo, somos muito felizes. Minha super empolgação é natural e não uma maquiagem para esconder uma tristeza profunda e muito enraizada.

— Admito que já cheguei a pensar nisso. É bom saber disso. Eu não sei dizer se sou feliz. Tipo, eu meio que nunca parei para pensar nisso. Só vivo um dia de cada vez.

— Você é estranho, Bob. Mas acho que está funcionando pra você. Gosto do seu jeito, só não me mata de susto assim nunca mais tá? Se quiser vir aqui em casa me avise antes, senão vou acabar atirando em você.

— Não precisa avisar duas vezes. Aliás, acho que sua irmã mais nova gostou de mim.

— Isso não conta, a Luna gosta de todo mundo. Ela é um amorzinho de pessoa. Se você conquistar a Lisa, aí eu te dou algum crédito.

— Vou trabalhar nisso.

Não, nós não nos pegamos, mas passamos o resto da tarde conversando sobre nossas experiências como stalkers. Duas horas depois, as duas irmãs voltaram e fui convidado para jantar com elas, mas preferi recusar. Eu nunca tive amizades de verdade, então aquela situação era muito estranha para mim. Passar algumas horas sem que minhas paranoias me incomodassem era uma novidade assustadora para mim, então preferi recolher minha existência e voltar para meu apartamento para pensar melhor sobre todas as sensações novas que essa minha vida de stalker estava proporcionando.

Notas finais
Volteeeei! Estava de férias, então a preguiça reinou em meu ser Vou tentar manter uma frequência de postagem, mas não prometo nada Agradeço a quem leu até aqui, espero que estejam gostando e até a próxima =D