Notas iniciais
E então pessoal, 6 meses de atraso. Antes de mais nada, desculpas. Perdi o ânimo de escrever por motivos pessoais. E quando eu voltei, tinha perdido o fio da meada. Custei pra conseguir recuperar. Esse capitulo deu realmente muito trabalho pra escrever. Espero que pra compensar, ele tenha ficado bom. Para os que persistiram na fic, boa leitura!

Rachel estava saindo de seu restaurante favorito, acabado seu horário de almoço. Leon, seu parceiro de patrulha, estava no carro, comendo salgados, como sempre; com os dedos de uma única mão, Rachel poderia contar as vezes que viu Leon almoçando; ela se impressionava com como ele nunca ganhava peso.

Finalmente Leon disse quando ela entrou no carro. Estamos recebendo um chamado. Tem um moleque roubando pessoas constantemente perto do shopping. Ele passa correndo, pega as coisas de alguém e continua correndo.

Esses garotos de hoje em dia, não tem jeito. Desarmado?

Nenhuma vítima viu alguma arma. Mas vai saber.

Menos mal. É só prender ele. Sem muita violência.

Claro Leon disse aquilo com um tom estranho, que não deixava claro se concordava com Rachel ou se discordava. Ela não quis saber.

Leon arrancou com o carro. Não ligou a sirene; não era uma emergência grave suficiente para isso. Aquela dupla de policiais era bem correta, o máximo que conseguiam ser. Trabalhavam pelos cidadãos, e por isso não tinha motivo para atrapalhar a vida deles com a pressa e o incomodo que um carro de polícia com uma sirene pode causar no trânsito.

Você já tem algum plano?

Achei que quem fazia os planos era você.

Mas eu estava almoçando, e você ficou sabendo do caso antes de mim.

Eu também tenho direito a descansar, você não acha?

Do jeito que você falou “finalmente….”

Eu não quis pensar em nada. Será que a senhora pode nos fazer esse imenso favor?

Pode parecer que os dois estavam tendo uma briga séria, ou que se odiavam, mas não era bem assim. Leon sempre fora muito mal humorado e reclamão, enquanto Rachel aprendera que, na profissão que escolhera, não podia ser alegre; pelo menos não com o sexo que tinha. Do contrário, nunca seria respeitada. Por isso, os dois estavam sempre sérios, e um já se acostumara com os espinhos do outro. Formavam uma boa dupla; Rachel pensava melhor, mas Leon tinha um físico melhor preparado. Rachel sabia o que dizer para intimidar, mas quando dito por Leon era mais assustador. Por serem ambos muito sérios, estavam sempre muito focados no serviço, e por consequência, eram muito competentes.

Temos uma descrição do suspeito? Ela perguntou.

Sabemos que é uma criança, tem uma pele escura e cabelos curtos, bem magra e rápida.

E o que mais?

Não tem mais nada.

Isso foi tudo que você conseguiu descobrir?

Eu não, o povo lá da delegacia…

Inúteis, você e eles.

Calma lá, eu não tenho culpa… Rachel fingiu não ouvir.

Com essa descrição horrível que vocês arrumaram, vamos ter que dar um flagra no garoto. Você circule o quarteirão devagar, pra eu procurar por um lugar para nos escondermos, até vermos o garoto fazendo alguma coisa. E ai, pegamos ele.

Esse é seu grande plano?

Tem algum melhor? Ou, pelo menos, uma descrição decente do elemento?

Leon a encarou, com cara de aborrecido.

Tá, vamos logo com isso.

Quando o carro começou a circular o quarteirão, Rachel avistou um tipo de beco, onde poderiam se esconder. Leon foi até o shopping, e estacionou dentro do estacionamento do estabelecimento. Voltaram a pé, e quando entraram no beco encontraram um garoto com muitas sacolas de diversas lojas do shopping. O moleque contava algumas notas.

Oh ou ele disse, quando viu os dois policiais fardados. Deixou todo o dinheiro cair no chão, e com grande agilidade, passou por entre os dois, empurrando a ambos.

Atrás dele! Rachel correu, e começou a correr atrás do garoto

O menino corria incrivelmente rápido, e Rachel mal conseguia manter constante a distância entre eles; não se aproximava, não se afastava. Leon porém era mais rápido que ela; demorou mais para reagir, mas logo alcançou e ultrapassou Rachel.

Assim que o moleque atravessou uma rua, Leon deu um pico de velocidade. Daquela forma, ele não conseguiria fazer uma curva se precisasse, mas alcançaria com facilidade o moleque. Leon cruzou os braços na hora da colisão, batendo com o ombro na cabeça do garoto, que caiu com a face voltada para o chão.

Você vem comigo Leon falou com voz firme para o moleque.. Segurou suas mãos, e o algemou. Eu levo ele para o carro, você faz inventário do que tem naquele beco.

Prefiro ir com essa gata o moleque disse, com sangue escorrendo do nariz. Deve ter uns peitão por baixo desse colete.

Rachel revirou os olhos, irritada. O menino tinha 12 anos, e certamente aprendera aquilo com amigos mais velhos. Talvez nem soubesse bem do que estivesse falando. Teve vontade de levá-lo para o carro, para ensinar algum respeito. Exatamente por tal desejo, não discutiu com Leon; aquilo mancharia a carreira dela. Sabia que provavelmente o moleque nem seria preso, devido a sua pouca idade; o máximo que estavam fazendo era dando um susto nele.

Voltou para o beco ao lado de Leon, que ia empurrando o moleque na frente deles. Uma ou duas vezes ele tentou fugir, mas Rachel colocou o pé na frente durante a arrancada, derrubando-o. Se separaram em frente do beco sem uma palavra; logo que entrou, ela pegou uma caneta e um bloco de notas em seu bolso. Era procedimento padrão, conferir tudo o que foi roubado.

Enquanto se agachava, seus cabelos, loiros e lisos, caiam por cima de seus ombros. Era comum os bandidos elogiarem sua aparência, mesmo que com desprezo. De fato, Rachel era extremamente bonita. Tinha cerca de 1.70m de altura. Seu rosto tinha traços élficos, que combinavam muito entre si. Seus olhos eram de um azul intenso, que pareciam carregar uma certa magia; Rachel parecia ser uma Rainha Elfo, vinda diretamente de um livro de RPG com as artes mais bonitas.

Acabou o inventário quase ao mesmo tempo que Leon chegou com o carro ao beco. Levaram então as mercadorias roubadas para dentro do veículo, e foram para a delegacia, resolver logo aquele problema.

.

Rachel realmente odiava ter que ir para a delegacia. Seu chefe, O delegado Tony era um estúpido machista, que não perdia uma oportunidade de inferiorizar Rachel por ela ser uma mulher policial. Ainda assim, o homem valorizava a policial; era incapaz de admitir o valor de Rachel, tão pouco conseguiria demiti-la.

Leon, Rachel Tony disse, assim que a dupla entrou na sala dele. Vejo que pegaram o moleque. Ótimo, achei que a Rachel ia ficar com peninha e ia deixar ele fugir.

Peninha? O moleque perguntou. Essa moça é cruel, seu delegado. É bonita, mas não me deu a menor chance.

Não fez mais do que a obrigação Tony respondeu.

Mas tenho certeza que o senhor vai ser mais bonzinho e vai me liberar logo. Eu quero ir ver meu pai e minha mãe.

Tony respirou fundo, como se tentasse controlar a raiva.

Vocês dois, não tem mais o que fazer não? Vão patrulhar as ruas, me deixem conversar com nosso jovem…

Ari o menino disse. O meu nome é Ari

Me deixem conversar com o Ari. Tony disse, deixando transparecer a raiva que o desacato causara.

Os dois saíram da sala, e puderam ouvir o som da porta se trancando. Olharam pra trás, e viram que o delegado estava abaixando as persianas. Sem ter o que fazer para ajudar o garoto, entraram no carro para cumprir as ordens.

O que você acha que o delegado vai fazer? Rachel perguntou a Leon.

Não é da sua conta.

“Ele tem razão”, Rachel pensou.

Entraram no carro, e voltaram a circular pela cidade, patrulhando. A cidade era grande, mas não tinha um sistema de câmeras de vigilância; os políticos contavam com a honestidade dos cidadãos, e com carros de patrulha como os de Rachel, que passavam o dia circulando pelas ruas. Eram raros os crimes na cidade; e quando eles existiam, rapidamente as testemunhas acionavam a polícia, e sempre havia uma patrulha para chegar ao local com agilidade. Dessa forma, era difícil algum bandido escapar impune. O mais recente caso com impunidade fora o caso de Jennifer, que fora assassinada e tivera o carro roubado; a polícia não conseguiu rastrear o veículo. Rachel ainda se lembrava do desespero da mãe da garota quando soube da morte da filha, ou de como o namorado dela ficou abalado; Tony tinha designado uma equipe para continuar investigando, mas até o momento não obtiveram resultados.

A loira se preocupava mesmo com os casos de assassinato que não eram registrados na polícia; aqueles feitos pelo crime organizado, traficante de drogas e de armas. Por mais que os traficantes matassem e matassem, eram pouquíssimas as denúncias, e as provas, mais escassas ainda. Existia um grupo de elite destinado a combater o crime organizado, chamado FOTACCRO: Força Tarefa de Combate ao Crime Organizado. O sonho de Rachel era trabalhar na FOTACCRO, mas Tony achava que ela era incapaz. O pior: Leon concordava, e até ela suspeitava de que era verdade. Naquela cidade, policiais eram autorizados a dar tiros fatais, e isso era comum na FOTACCRO; mas Rachel nunca havia o feito.

Houve mais uma prisão durante o dia: um motorista que dirigia bêbado ao fim do dia, e batera o carro. Antes do almoço, a dupla havia feito mais uma prisão, de um homem que parecia querer começar seu próprio negócio no tráfico da cidade, vendendo drogas em uma esquina qualquer. Na verdade, três prisões em um dia era um dia bem agitado para a patrulha comum daquela cidade: a cidade tinha pouquíssimos criminosos comuns. Quem recebia muitos casos por dia era a FOTACCRO, e a Delegacia de Investigação de Denúncias. Rachel não tinha paciência para investigações, tão pouco para patrulhar, então a FOTACCRO ainda era seu sonho. Só precisava provar que era capaz.

Ela e Leon deixaram o bêbado na delegacia, que passou o caminho inteiro pedindo o número de telefone de Rachel, e elogiando ela. Ele achava que estava fazendo algum progresso com Rachel, e que a policial iria liberá-lo por isso. A expressão de surpresa do bêbado ao encontrar o brutamonte do Delegado Tony fez valer a pena todas as cantadas podres que ele soltara pelo caminho.

Chegado o fim do expediente, Rachel trocou de roupas, e se encontrou com seu marido no lado de fora da delegacia, como de costume. Chegaram rapidamente em casa.

O marido de Rachel se chamava Walbert. Fisicamente falando, Walbert era bonito, mas era dono de uma beleza comum, incompatível com a beleza grandiosa de Rachel: cabelos curtos e negros, altura e força medianas, rosto proporcional e banal. Mas em termos de personalidade, Walbert se destacava: era autoconfiante e otimista, sempre consolando sua mulher quando ela estava com problemas na delegacia. Trabalhava como engenheiro em uma indústria da cidade, entrando com a maior parte da renda da casa.

Quando Rachel chegava em casa, trocava não apenas de roupas, mas também de personalidade; em casa podia ser quem realmente era: uma mulher vaidosa, educada e feminina. Seu corpo era bonito, com um busto médio e um quadril largo e marcado por cintura fina e coxa grossa; corpo que ela insistia em esconder com um colete a prova de balas exageradamente grande para ela; temia a que ponto o desrespeito poderia chegar se não disfarçasse seu corpo. Assim que entrou em sua casa, foi para o banheiro, tomar um banho para se livrar do suor do dia de trabalho. Se perfumou, e vestiu uma calça leg com uma blusa regata mais solta em seu corpo

Vamos sair hoje, amor? Ela perguntou para Walbert.

Hoje? Hoje é terça-feira, você quer sair?

Ah, não sei, pensei que você pudesse querer…

Acho que podemos deixar pra sair na quinta ou na sexta, não?

Tudo bem, pode ser. Então, vamos ver um filme?

Mas a senhora está animada hoje, não está?

Bastante! E contou como foi seu dia de trabalho. Riram muito da situação na qual o bêbado ficou quando encontrou com Tony. Aquele dia, Rachel parecia não se importar com os xingamentos de Tony, que nem foram tantos; estava satisfeita com meu trabalho

Que bom que você teve um bom dia de trabalho. Eu não tive a mesma sorte. Uma máquina parou hoje, e eu tive que descobrir qual era o problema. Sofro muita pressão quando isso acontece, estou exausto.

E qual era o problema?

O problema? O problema é que eles não compram um óleo lubrificante decente para a linha de produção! Ao invés das peças da máquina deslizarem, estava agarrando com o óleo. Marcaram uma troca pra amanhã, e eu vou ter que supervisionar.

Isso é ruim, não é?

Podia ser pior, eu poderia estar trocando o óleo, em vez de só supervisionar a troca. Eu iria me sujar bastante.

Os dois riram bastante. Ficaram aninhados no sofá por algum tempo, contando casos e se beijando um pouco, até que Rachel se levantou e foi para a cozinha, fazer a janta. Optou por fazer uma comida simples: arroz, feijão e coxinha de frango frita. Enquanto cozinhava, Rachel pode ouvir seu marido tomar banho e ligar a televisão no jornal. Quando a janta ficou pronta, comeram na mesa, conversando sobre os planos do final de semana.

Estou querendo almoçar na casa da minha mãe no domingo Walbert falou

Só se sairmos na sexta feira a noite.

Onde você tanto quer ir?

Ah, eu queria sair pra ouvir uma música ao vivo, só nós dois… um programa mais romântico.

Podemos ir no barzinho do seu Juca!

Walbert!

O que?

Lá não é romântico, lá é lugar de bêbado!

Mas vamos beber, não vamos?

Vamos, mas…

Eu sei sua boba, estava só brincando. Já sei onde vamos.

Onde?

Surpresa.

Surpresa? Surpresa não, eu não gosto de surpresa.

Ah, vai ter que gostar.

Implicaram mais um com o outro durante a janta, e quando acabaram, foram deitar. Walbert pegou seu notebook, e Rachel seu celular, e foram verificar suas redes sociais. Até que o sono ficou mais forte, e eles foram dormir.

.

Walbert pegava serviço uma hora mais cedo que Rachel, e por isso ela acordava quando ele já estava saindo; como de costume, pela manhã ele lavava as louças da janta, e fazia o café da manhã dos dois. Ela acordou com beijos dele, se despedindo para mais um dia de trabalho. Acordou, ainda um pouco sonolenta. Tomou um banho rápido, e em pouco tempo estava saindo de casa. Entrou no ônibus, já fardada para não pagar a passagem. O trânsito estava um pouco mais lento que o comum, e por isso Rachel acabou por se atrasar um pouco.

Estava se maquiando, Rachel? foi obrigada a ouvir o delegado Tony falando. Acho bom você e essa sua carinha de elfo estarem nas ruas daqui 5 minutos. Mulher abusada.

Rachel revirou os olhos, mas aguentou calada. Vestiu seu colete e colocou sua pistola no coldre. Encontrou Leon na garagem, já encostado no carro de patrulha.

Tony está virado no cão hoje comentou.

E quando ele não está? Todo mundo nessa delegacia é muito estressado.

Todos nós

Entraram no carro, e começaram a patrulhar a cidade.

.

Foi uma manhã bem tranquila, sem nenhum problema. Leon estava estressado, pois era dia de trocar a rota de patrulha que ele fazia. Dessa forma, era quase insuportável conversar com ele, de forma que Rachel se rendeu ao seu celular. Se surpreendeu ao encontrar Walbert online no chat, e de imediato chamou ele.

“Tenho uma má notícia” ele disse. “Quando você chegar aqui em casa a gente conversa. Trabalha direitinho ai, senhora policial :P”

O dia custou para passar para Rachel. Por toda a tarde, ela quis que acontecesse alguma coisa; algum roubo a banco, algum crime, alguma ação. Mas ela não teve toda essa sorte, e a tarde fora tranquila e lenta. Ao voltar para a delegacia, na hora de ir embora, ainda teve de ouvir Tony reclamando da improdutividade da dupla.

Como se nós tivéssemos culpa de ninguém fugir da lei hoje. Leon respondeu.

Vocês deviam parar a patrulha, revistar alguém, fazer qualquer coisa, e não ficar gastando combustível! Vocês são pagos pra que?

Com certeza não é pra incomodar pessoas inocentes. Nem pra ouvir gritos de você.

Ah, mas você vai ouvir gritos meus, sim. E eu acho bom andar na linha, antes que eu ponha você pra fora dessa delegacia!

Walbert chegou na delegacia para buscar Rachel, que foi embora, deixando os dois homens se resolverem sozinhos. A cara de seu marido a preocupava ainda mais.

O que houve, meu bem?

Não precisa se preocupar ele disse.

Me preocupo sim! Você está com uma cara tão abalada…

Lá em casa a gente conversa, ok?

Mesmo quando chegaram em casa, Walbert adiou o assunto, se esquivando quando Rachel perguntava. Tentava ser engraçado, mas não conseguia; teve de falar na hora do jantar:

Eu fui demitido.

O quê? Como assim? Por quê?

O meu chefe disse que eu estava aumentando demais os gastos da indústria. Eu disse que a gente precisava de produtos decentes para trabalhar, mas ele disse que eu é quem não sabia trabalhar com os produtos que a empresa oferecia! Estão procurando outro engenheiro, que aposto como vai falar a mesma coisa que eu.

Querido… como nós vamos fazer agora?

Não se preocupe. Amanhã mesmo começo a procurar outro emprego, vou encontrar fácil… além disso, ainda tem o acerto com a empresa e tudo que vamos receber.

Mas e se quando esse dinheiro acabar você ainda não tiver arrumado outro emprego?

Eu já vou ter arrumado sim, com certeza. Não se preocupe.

Mas Rachel se preocupou. Claramente, estava mais inquieta que Walbert, e tiveram uma noite de poucas conversas e risadas. Acabaram por adormecer rápido; no dia seguinte, ela acordou e encontrou o café da manhã pronto, e Walbert sentado a mesa para comer com ela. Por mais que a intenção do homem fosse boa, só serviu para que Rachel se lembrasse do problema pelo qual eles passariam.

.

Sua cabeça vagava enquanto ela esperava o ônibus, e ela quase não percebeu quando este parou em sua frente. Durante o trajeto pensou em uma solução: mais do que nunca, queria ser recrutada para a FOTACCRO; o salário era mais alto, quase equivalente ao de engenheiro-chefe que o marido recebia.. Estava decidida a se destacar naquele dia de trabalho.

E passou a manhã inteira com esse pensamento firme na cabeça, trocando poucas palavras com Leon, sendo mais rude do que o de costume. Mas, como a maioria dos dias, foi uma manhã calma, sem nenhum problema ou oportunidade para ela agir. Logo chegou a hora de ela almoçar.

Ela estava sentada comendo, quando três homens encapuzados entraram no restaurante, armados.

TODO MUNDO PRO CHÃO! Um deles gritou.

Era a oportunidade que Rachel estava esperando. Levantou-se, sacando a arma. Mirou-a para os bandidos.

Para o chão vocês! Polícia!

As três armas se voltaram para Rachel.

Você não estava vigiando o restaurante? Um dos bandidos disse.

Eu menti! Outro respondeu.

Droga, Jow! Disse o primeiro. Eu vou acabar com você quando sairmos daqui!

Uma mulher desesperada tentou correr em direção a saída, mas foi interceptada por um dos bandidos, e usada como refém. Rachel ainda tinha mira limpa para a cabeça do bandido que ainda a segurava. Mirou bem, mas hesitou em atirar. Os três bandidos fugiram do restaurante, levando a refém. Rachel tinha perdido mais uma chance de ouro de entrar na FOTACCRO.

Por coincidência, Leon chegava com o carro da polícia no mesmo momento. Ligou a sirene, e os bandidos, assustaram, jogaram a mulher no chão. Os três subiram em uma moto, e fugiram por entre o trânsito da cidade. Rachel chegou logo atrás, e entrou no carro da patrulha. Não precisou de nenhuma palavra para que Leon disparasse o carro atrás da moto.

Mesmo a moto sofrendo com o sobrepeso, ainda tinha agilidade superior no trânsito da cidade. O carro de patrulha ia com a sirene ligada, mas os carros civis demoravam pra abrir caminho. A perseguição demorou, até que Leon encontrou a moto encostada em um beco. Havia a perdido de vista a pouco tempo, e tinha certeza que os bandidos ainda estavam por perto. Desceu da patrulha e começou a correr atrás deles, Rachel em seu encalço. Mas Leon e os bandidos eram muito rápidos pra ela, e logo ela ficou para trás. Ficou surpresa ao ver um dos bandidos saindo de um esconderijo e correndo em uma direção contraria a que Leon ia. Aproveitou a oportunidade e foi atrás dele.

Esse era um pouco mais lento que os demais, e Rachel conseguiu acompanhá-lo. Não sabia dizer há quanto tempo estava correndo, quando Leon a chamou no comunicador.

Onde você está? Leon disse por trás da estática.

Estou correndo atrás de um dos fugitivos.

Certo. Eu consegui encurralar e render os outros dois. Cuidado; esse pessoal é barra pesada. São de gangues de crime organizado. Vou chamar reforços.

Entendido Rachel disse, e guardou o comunicador. O bandido entrou em uma casa, aparentemente uma casa civil. Mais uma vez, Rachel tinha uma oportunidade.

Abriu a porta com um chute, seu cérebro funcionando automaticamente devido a adrenalina. Dois homens se encontravam dentro da sala. Alvejou primeiro o maior, e depois o menor. Dois tiros certeiros, no peito. Os corpos caíram mortos no chão.

Rachel assistiu incrédula a aparição de uma senhora na sala. Ela ajoelhou-se ao lado do corpo do maior homem, com lágrimas escorrendo pela face.

Andrew! Meu filho!

Outras mulheres apareceram, vindas de algum lugar de dentro da casa. Também gritavam o nome “Andrew”. Rachel ficou paralisada, sem reação, e deixou sua arma cair no chão. A cena da senhora se ajoelhando ao lado do corpo do que parecia ser seu filho se congelou na mente da policial, se repetindo constantemente em câmera lenta. Ela não soube dizer quando os reforços chegaram, ou como ela saiu de lá.

“O que eu fiz?” ela pensava. “Como eu pude ficar tão desesperada?” e chorava.

.

Abriu os olhos no dia seguinte. Não tinha dormido, era claro. A culpa pesava em seus ombros. Tinha matado um inocente. Sim, tinha matado junto um bandido, mas era uma morte completamente evitável. Tudo aquilo por desespero, por dinheiro? O peso na consciência era quase maior do que seu ânimo para levantar. O café da manhã com Walbert fora silencioso e melancólico.

Chegando na delegacia, ficou sabendo que teria que se afastar temporariamente do seu cargo. Os policiais tinham autorização para tiros fatais, mas quando esses tiros acertavam um inocente, a coisa mudava de figura.

O bandido, o tal do Jow, estava começando a se envolver com tráfico. Estava em observação pela FOTACCRO. disse Tony. Sua operação conseguiu chamar a atenção deles. Quem sabe você não consegue sua vaga?

Rachel estava surpresa com o apoio que Tony estava lhe dando. Olhou pra ele, o semblante surpreso e esperançoso. Tony pareceu perceber, e seu tom de voz mudou.

Claro que acho uma péssima ideia uma mulher na FOTACCRO, mas fazer o quê? Se você passar por um processo de aprovação, vou tentar te ajudar. Pra me livrar de você, é claro. Mas, por enquanto… fora daqui. Suspensa por uma semana. Vai!

No caminho de volta para casa, Rachel percebeu como tinha conseguido conquistar o respeito de Tony. Se ele ainda era rude com ela, era o jeito dela; mas com certeza, ele guardava certo respeito e admiração.

“Mas a que custo?” pensava. “Mudei tanto que matei um inocente.”

E sentiu sua consciência pesar novamente.

.

Passou-se um mês. Walbert conseguiu encontrar outro emprego, de salário ainda melhor do que o anterior. Como previsto por Tony, Rachel havia chamado a atenção da FOTACCRO. Hoje era dia da audiência dela. Seria entrevistada, assim como seus companheiros de serviço, para uma avaliação de se ela estava em condições de entrar na equipe. Claro, aquilo era apenas um pequeno primeiro passo, mas ela estava contente com a oportunidade. Já começava a superar a morte de Andrew; ainda se sentia culpada, mas já não se deixava abalar. Fazia parte de sua profissão, e se tornaria mais comum caso fosse aprovada na FOTACCRO.

Walbert estava trabalhando, logo Rachel teria de ir a pé para a audiência. Desceu do ônibus próximo ao local marcado, e aguardou o sinal da faixa de pedestres se abrir. Atravessou, tranquila.

Um carro dobrou a esquina, em velocidade alucinante, não batendo em um poste por pouco. Mas aquilo não assustou o motorista, que avançou o sinal a toda velocidade. Rachel foi atropelada, as portas da grande audiência de sua vida. Caiu no chão, desmaiada. O carro prosseguiu viagem.