Who is the protagonist?
2 Andrew
Eram cerca de 11 horas de um domingo quando Andrew acordou. Podia acordar tarde naquele dia, afinal, era um domingo, e ele não precisava pegar serviço 7 horas como devia fazer nos dias de semana. O maior compromisso que ele teria naquele dia era almoçar com sua mãe, suas 3 irmãs e seu irmão. Isso é, se o irmão dele aparecesse naquele dia.
Jow, o irmão de Andrew, tinha 25 anos, e estava envolvido com drogas. Sua mãe se chamava Sônia, e era uma senhora que já tinha alcançado seus 68 anos, e estava fragilizada por todas as dificuldades que já tinha passado: 5 filhos, pouco dinheiro, e ainda viúva. Andrew era o mais velho dos irmãos, e já tinha 37 anos; sustentava a família junto com sua irmã Annie, de 30 anos. E esse trio era o que mais levava Jow a se afastar da família; ele ainda era um moleque, que nunca trabalhara, se envolvera com drogas, e agora dava trabalho pra família. Não raras eram as vezes que Andrew tinha que conter a violência de Jow, ou as que Annie reclamava de ter visto Sônia chorando por seu filho durante a noite.
Aos domingos, aquela família fazia como a maioria das famílias pobres da cidade: se reuniam, para almoçar, e colocar a conversa em dia. Andrew e Annie sempre estavam trabalhando durante a semana; Jow e Carol estavam fora de casa, fazendo alguma coisa qualquer, e só Roberta e Sônia almoçavam em casa. Mas aos domingos, a família se reunia, sempre. Ou assim era em outros tempos; nos últimos meses, Jow nem sempre aparecia nos almoços de família, o que só aumentava a preocupação de seus entes.
Andrew se levantou de sua cama, e foi para o banheiro da casa, para tomar banho; porém, este estava sendo usado por Carol, que era a biscate da família. Ele bateu com força na porta, mas não obteve resposta.
—Ela já está ai faz muito tempo— gritou Roberta da cozinha.
—Não sei pra que se arrumar tanto pra um almoço de família!— Acrescentou Annie.
—Acho que ela vai sair depois— falou Roberta.
—Com quem ela tá saindo dessa vez?— Andrew perguntou, preocupado
—Diz ela que arrumou um cara rico, que vai tirar nossa família do buraco— Roberta respondeu.
—Ela sempre diz isso— falou Annie.
Andrew se sentou então para assistir televisão enquanto Carol não saía do chuveiro.
“A Carol vai se meter em encrenca, de novo” ele pensou. “Tenho que conhecer esse namorado dela, e rápido, pra saber se é gente boa mesmo.”
Passado algum tempo, Carol finalmente saiu do banho, e Andrew entrou. Andrew era um cara alto e forte, muito semelhante ao seu falecido pai. Ele, assim como toda sua família, tinha a pele morena-escuro, e traços de rosto delicados, marca da miscigenação. Sua mãe era miúda, assim como suas irmãs. Estas eram magras, tinham seios fartos, e uma bunda empinada. Annie era a única que tinha o cabelo naturalmente liso, e o corpo de Carol era o mais escultural. Já Roberta era magra e de aparência frágil, assim como a mãe.
Antes que Andrew percebesse, ele estava sentado a mesa. O almoço era simples: arroz, frango assado e um pouco de farofa, com suco para acompanhar. Todos estavam sentados na mesa, já servindo seus pratos.
—Gente— disse Carol. —Eu tenho uma novidade! O Robert me pediu em namoro!—
—Robert?— perguntou Sônia. —Mas minha filha, semana passada você não disse que estava com um tal de Leandro?—
—Disse né mãe! Mas isso foi semana passada, agora eu to com o Robert, ele é tão perfeito… E tem muito dinheiro!—
—Você não toma jeito mesmo, né?— a Annie disse. —Sempre procurando um namorado rico. Trabalhar que é bom nada né? Eu e o Andrew temos que pagar as contas sozinhos, enquanto vocês não fazem nad...
—Nada o caralho!— Roberta gritou, interrompendo. —Quem é que cuida da mãe, ein? Quem é que deixa essa casa arrumada? Deixa de ser ingrata e reclamona!
—Ingrato é o seu…— Annie ia respondendo, quando foi interrompida por Andrew:
—Wow wow wow, gente, sem brigas na mesa, por favor. Carol, que dia você vai trazer ele aqui em casa, pra conhecer a gente?
—Andrew, não precisa de trazer ele aqui, né?— Carol protestou.
—Mas é claro que precisa. Eu quero saber com quem você está andando, ora bolas. Não quero você se metendo em encrencas, ein! Por falar em encrencas, alguém sabe por onde anda o Jow?
Um silêncio se fez sobre a mesa. Sônia abaixou a cabeça, e até Annie conteu seus comentários maldosos.
—Ele não aparece aqui já faz uma semana— Roberta disse, interrompendo o silêncio.
—Uma semana! E você não me falou nada, Roberta? Nós temos que encontrar ele! E se ele estiver morto?— Andrew se levantou. —Eu vou atrás dele agora!
—Andrew, vamos acabar de comer primeiro…— Sônia pediu.
Andrew não conseguia simplesmente desobedecer a mãe, por mais que estivesse preocupado com o irmão. Sentou-se, relutante, e voltou a comer.
—Olha o que esse vagabundo faz. Além de não fazer porra nenhuma nessa casa, ainda deixa todo mundo preocupado, quase estraga nosso almoço. Esse viado não toma jeito, não trabalha, não faz merda nenhuma! Eu acho que a gente devia era expulsar ele de casa!
—Annie, chega.— disse Andrew
—Chega nada! Você fica defendendo esse merda, e olha no que ele tá se transformando!
—Ele é da nossa família. Não chame ele de merda.
—Da nossa família! Só se for da sua família, porque da minha ele não é, por mim eu deserdava ele…
—Annie, chega!— protestou Roberta. —Olha como a mãe tá ficando!
Só então Annie se lembrou de que Sônia estava na mesa. A senhora já estava soluçando, quase aos prantos. Não houve mais conversas até o fim do almoço. Não teve sobremesas, aquela semana eles não tiveram dinheiro para isso.
—Eu estou indo atrás do Jow— Andrew declarou. —Alguém vem comigo?
—Eu vou— disse Carol. —Vou dar uma olhada com o Maurinho se ele sabe…
—NÃO! Não vai falar com o Mauro não! Imagina se ele faz alguma coisa contigo! Se o Jow estiver devendo ele…
—O Maurinho nunca ia me machucar!
—Carol, não, por favor
—Ai, tá bom! Vou falar com meus outros contatos então!
—Que outros contatos?
—Segredo!
—Boa sorte pra vocês— disse Annie. —Tomara que encontrem o cadáver dele. Uma boca inútil a menos pra sustentar.
Andrew saiu de casa batendo a porta, com raiva de sua irmã reclamona. Roberta não tinha dito nada, mas Andrew havia previsto isso: ela gostava era de ficar tomando conta de sua mãe.
Ele saiu na rua, pensando por onde começar a procurar. Seu irmão podia estar em qualquer parte da cidade; rezou para que, pelo menos, estivesse no bairro. Ele decidiu então que seria uma boa ideia perguntar pelos lugares que Jow costumava frequentar. O mais próximo era um bar. O dono do bar se chamava Allan, e não estava interessado em quem eram os clientes, apenas em quanto dinheiro eles tinham. Andrew sabia que Jow ia nesse bar quando mais novo, e sabia também que o dono não se importaria em receber drogados. Era um bom lugar para começar.
Andou até o bar, olhando pelos becos, procurando por seu irmão, sem sucesso. Logo que entrou no estabelecimento, foi cumprimentado:
—Andrew, meu amigo, tudo bem! Preciso falar contigo!
—Oh, Leo! To tranquilo, e você? To meio ocupado agora, dá pra ser depois?
—É sobre a Carol.
Andrew parou, para pensar. Ele precisava de notícias sobre sua irmã, sobre com quem ela andava. Mas sua prioridade no momento era Jow. Decidiu que era necessário manter o foco.
—Guarde a notícia pra mim. Agora to atrás de outra coisa. Alias, me diga, por um acaso você viu o Jow por ai?
—O Jow? Vish, faz uma cara que eu não vejo ele. Allan, você viu o Jow?
O dono do bar saiu da cozinha, que cheirava a torresmo. Viu Andrew, e entendeu logo o porquê da pergunta.
—Não, não vi não. Ele deu um perdido em você, Andrew?
—Em mim e na família toda. Ele tá sumido a mais de semana.
—Nessa encrenca que ele se meteu, perigoso não voltar nunca mais— disse Leo
Um olhar de Andrew bastou para calar Leo. Ele, assim como todo o bairro, sabia como Andrew protegia sua família, e como já se metera em brigas por ela. E Andrew era realmente forte; do tipo que dá medo.
—Hey caras, relaxem. Andrew, você não quer sentar ai e tomar uma não?— perguntou Allan.
—Não vai rolar. Eu tenho que encontrar meu irmão. Vai saber no que ele se meteu.
—Você, sempre preocupado, certo? Bem, boa sorte. Já deu uma olhada com o Mauro?
—Hmm, vou dar uma checada.
Dizendo isso, Andrew saiu do bar. Claro, ele não era louco suficiente para procurar por Jow na boca do Mauro. Andrew sabia que aquele traficante fazia de tudo para conseguir seus pagamentos, e que se não conseguisse, matava sem dó. Ele era um pouco mais paciente que a maioria dos traficantes, mas era também mais cruel pra matar. Se Jow estivesse devendo Mauro, encarar o traficante seria suicídio. E Andrew não podia morrer; ele tinha que cuidar de sua família.
Mas Mauro tinha suas mulheres, e Andrew conhecia uma delas.
Ele andou até a casa de Rayanne pensando no passado deles. Há cerca de 15 anos, Andrew namorava com Rayanne. Até que ela começou a falar de casamento. Andrew não se sentia no direito de casar; seu pai tinha falecido 3 anos antes disso, deixando Jow com 10 anos e Sônia arrasada, sem cuidar de si mesma. Ele se sentia no dever de cuidar de sua família, principalmente de seu irmão e sua mãe, e casar significaria dar adeus a tudo aquilo. Quando explicou aquilo pra Rayanne, ela quis terminar; desde então, o amor de Andrew por sua família se tornara quase obsessão; perdera o amor da sua vida por aqueles que eram de seu sangue, e agora não queria perder nenhum deles. Andrew acabou por não se arrepender muito de ter terminado com Rayanne: alguns anos depois, ela se tornou uma mulher acessível para qualquer um do bairro, e agora era uma das putinhas de Mauro.
Ainda assim, Andrew tinha certeza que o passado dos dois o protegeria de Mauro. E, se Mauro tivesse matado Jow, Rayanne saberia, com certeza. Chegou na casa dela, e bateu no portão.
Quando ela abriu o portão, Andrew percebeu que Rayanne estava acabada: tinha envelhecido muito, e emagrecido. Andrew, que não via a ex-namorada havia muito tempo, se assustou com aquilo, e chegou a ficar sem graça.
—Er… Oi Rayanne, tudo bem?
—Oi Andrew, o que te traz até a minha casa?
—To procurando pelo Jow. Você tem notícias dele?
—O Jow? Oh, meu Deus. Entre.
—Eu não acho que seja uma boa ideia…
—Andrew, para né? Eu não vou te estuprar, esquece o passado. Vamos, tenho que te contar o que tá acontecendo.
—Você não pode simplesmente falar aqui fora?
—Não.
Sem saídas, Andrew entrou na casa de Rayanne. Era uma casa pequena, na qual a mulher vivia sozinha. Ela convidou-o para se sentar a mesa e almoçar com ela. Ele não quis; a comida era pouca e ele ainda se sentia satisfeito com o almoço que comera em casa.
—Bem, vou direto ao assunto.— Rayanne disse. —Seu irmão está devendo o Mauro. Muito dinheiro, e o Mauro quer cobrar com juros. Os boatos que correm pela boca é de que Jow sumiu do bairro para fugir de Mauro. Mas ele não deve ficar fora muito tempo.
—E se ficar, o Mauro vai perdoar a dívida?
—O Mauro, perdoar uma dívida? Andrew, você é sempre tão inocente, é claro que não. O Mauro vai atrás do dinheiro dele onde for. Ele vai caçar seu irmão, e se ele não tiver o dinheiro, vai dar um jeito de consegui-lo.
—Mas de onde ele pretende tirar esse dinheiro? Oh, meu Deus, você não acha que ele atacaria a nossa família, acha?
—Eu não sei, Andrew. Se ele não atacar, é com medo de você. Mas acho que isso não vai impedir ele. Em todo caso, fique atento.
—Eu tenho que voltar logo pra casa, então. Obrigado, Rayanne. E… eu nunca estive aqui, OK?
—Mas é claro. Quer que te leve até a porta?
—Não, pode almoçar tranquila. Eu lembro onde fica a saída.
Andrew saiu da casa de Rayanne, e correu de volta para sua casa. Teria que ficar em casa esses dias, para proteger seus familiares.
Chegando em casa, ele se surpreendeu ao ouvir a voz de Jow. Porém, sua voz não estava amistosa:
—Anda logo, sua velha. Eu sei que você tem dinheiro. Cadê a merda da sua aposentadoria? ME PASSA TUDO LOGO PORRA!
Andrew correu até o quarto da mãe, para ver o que estava acontecendo. Jow estava lá; o irmão era pouco mais baixo que Andrew, e como que por consequência, um pouco mais fraco. Ele estava armado com uma faca. Sônia estava chorando, pálida, quase desmaiando. Roberta tentava acalmar Jow, e Andrew não avistou Annie.
Andrew chegou por trás de Jow, e segurou o pulso de seu irmão. Torceu o braço de Jow até as costas, e deu uma joelhada com força no centro da coluna dele. Jow não teve tempo de reagir; mal tinha notado a chegada do irmão. Soltou a faca e gritou de dor. Com a mão livre, Andrew empurrou Jow até a parede, e pressionou a cabeça dele contra a mesma. Gritou:
—QUE PORRA É ESSA, JOW? VOCÊ TÁ ATACANDO NOSSA MÃE?
—Ai ai ai! Me solta, Andrew! Eu to precisando de ajuda, me solta, deixa eu te explicar!
Andrew hesitou um pouco, mas acabou por soltar o irmão, que se virou ofegante e apoiou suas costas na parede.
—Onde está a Annie?— Andrew perguntou.
—Sei lá cara, ela saiu correndo daqui, acho que foi atrás de você!
—Se ela se meter em problemas... eu não sei o que eu faço contigo.— “Nada”, os dois pensaram. —Agora me explica que merda e essa de atacar a mãe.
—Será que dá pra vocês dois conversarem na sala— disse Roberta —Antes que nossa mãe infarte aqui?
Os dois olharam para Roberta, como se ela tivesse acabado de aparecer, vinda do nada. Por fim, saíram andando do quarto, para a sala. Lá, mais calmos, voltaram a conversar, assentados no sofá.
—O Mauro tá atrás de você— Andrew alertou
—Eu sei. Eu preciso de dinheiro pra isso, pra começar a pagar ele. Você não tem?
—Pagar ele com a aposentadoria da mãe? Olha, já me falaram que você tá devendo muito. Quanto?
—Eu não to devendo muito…
—Jow, eu perguntei quanto.
—Não é muito…
Os dois se encararam por um tempo. Andrew era mais velho, maior, mais forte, e ainda tinha ajudado bastante na criação de Jow. Por isso, este não conseguiu resistir a encarada do outro.
—30 mil.
—E como você pretende pagar ele?
—Sei lá cara, eu preciso de dinheiro pra comprar mais na mão de outro traficante…
—Você tá louco cara? Você tá roubando a nossa casa por causa dessa merda? Jow, sai dessa vida cara, puta que pariu
—Eu não queria roubar. Eu ia só pedir dinheiro pra mãe, você sabe como ela tem bom coração, ela ia me dar, mas dai a Annie começou a falar merda na minha cabeça e… eu saí do controle.
—Onde você está ficando?
—Não é da sua conta.
—Jow, eu só quero te ajudar, me diz onde você está ficando
—Não te interessa caralho! Deixa que eu me viro sozinho, ok? Você vai me dar dinheiro ou não?
—Claro que não.
—Ótimo.
Jow se levantou bruscamente, e se dirigiu a saída, até que Andrew chamou.
—Jow?
—Sim? Sabia que você não ia resistir e ia me dar algum dinheiro…
—A Annie tem razão. Você virou um drogadinho de merda. Espero que você saia dessa, cara. Mas só venha pedir ajuda nessa casa quando quiser se recuperar. Eu não vou deixar você destruir essa família.
Jow saiu de casa, sem olhar pra trás. Andrew se sentou no sofá. Olhou para a televisão, e procurou algum canal para assistir. Sua visão foi se embaçando, os olhos se enchendo de água. Por fim, se rendeu; em posição fetal, chorou no sofá, até que Roberta chegou na sala. Ele tentou se recompor, para não ser visto nesse estado de fraqueza.
—Andrew— ela falou. —Você não é o pai. Entenda isso.
.
Alguns minutos mais tarde, Annie chegou com Carol em casa. As duas tinham se encontrado no caminho, e Annie já tinha contado pra Carol sobre a aparição de Jow. Sônia estava dormindo, e Andrew achou que seria a melhor hora para reunir os irmãos, e tentar descobrir uma forma de ajudar Jow. Porém, Annie começou a falar mal de Jow, e Carol saiu de casa, para se encontrar com Robert. Não tardou até que tudo voltasse a rotina normal de um domingo.
Já eram cerca de 16 horas quando Andrew resolveu aproveitar do sono de Sônia para conversar com Roberta sobre a saúde da senhora.
—Me diz ai Roberta— ele iniciou o assunto. —Como está a saúde da nossa mãe?
—De saúde, ela está bem. Ela é meio magrinha e parece frágil, mas você sabe, ela não adoece fácil. Estou preocupado é com o emocional dela. Pode ficar abalado com toda essa confusão do Jow.
—Sim, eu sei. Temos que tentar poupá-la ao máximo disso. Desculpa eu ter feito aquele show todo lá no quarto.
—Hei, tá tranquilo.
—Amanhã eu vou ficar em casa.
—Por quê?
—Estou com medo do Mauro vir aqui, atrás do dinheiro do Jow.
—E você acha que você estar aqui vai ajudar?
—Mas é claro que vai. Eu posso parar ele, posso conversar com ele, posso… não sei, eu posso ajudar
—Andrew, é mais fácil a Carol conseguir ajudar com o corpo dela do que você com seus músculos, acredite. Você não vai dar medo em um monte de homens armados. É melhor você ir trabalhar.
—Você não me quer aqui? Tá planejando dar alguma faxina especial?
—Não, você pode ficar. Só estou te dando um conselho; vai trabalhar tranquilo, eu dou conta aqui.
Andrew claramente não estava convencido, mas não rendeu mais o assunto. Foi para o quarto, e ligou para seu chefe. Explicou toda a situação, e conseguiu licença para não ir trabalhar no dia seguinte. Sônia acordou, e logo estavam todos na sala, vendo televisão. Conversaram um pouco, sobre assuntos diversos, até que deu a hora de todos irem dormir.
A casa tinha dois quartos: um no qual dormiam Roberta e Sônia, e o outro no qual dormiam Andrew, Jow, Annie e Carol. Este último quarto era também o menor, e mal cabia as 4 camas. Os irmãos geralmente iam se deitar juntos, e naquele domingo não foi diferente.
.
No dia seguinte, quando Andrew acordou, já estava tarde, cerca de 10 horas. Annie já tinha saído para trabalhar, Roberta estava arrumando a cozinha para fazer o almoço e Sônia assistia televisão. Carol já tinha saído de casa.
—Onde a Carol foi?— Andrew perguntou a Roberta, depois de ter se vestido, lavado o rosto e etc.
—Bom dia pra você também. Ela saiu, acho que foi encontrar o Robert.
—Hmm, sei. Estou preocupado com esse cara. Tenho que resolver este problema também.
—O que você vai fazer?
—Um amigo meu disse que tinha notícias, vou ir falar com ele.
—Vai de uma vez então. Marquei com o Zuzu de sairmos hoje, aproveitar que você está aqui pra olhar a mãe. Ele vai passar aqui 14 horas, vou tentar soltar o almoço lá pelas 13 horas. Não chega muito mais tarde que isso pra não me atrasar.
Zuzu era o apelido do noivo de Roberta. Os dois estavam juntos haviam 3 anos, e estavam a meses do casamento. Andrew até gostava do cara, mas não queria que Roberta saísse de casa; ela cumpria muito bem o papel de cuidar da mãe deles, e Andrew não confiava em contratar uma babá (e nem teria dinheiro para isso). Roberta se dispusera a levar Sônia junto, mas Andrew gostou menos ainda da ideia. Por enquanto, ninguém tocava naquele assunto, mas era outro dos problemas da família.
Andrew então saiu de casa, para ir atrás de seu amigo Leo. Procurou-o em sua casa, e descobriu que ele estava trabalhando. Sua mulher, porém, estava em casa, e convidou Andrew para entrar.
—Você sabe o que Leo sabe sobre um tal de Robert?— ele perguntou, logo de cara.
—Não, não sei não. Entre, o Leo vem almoçar em casa, e pode te contar pessoalmente.
Andrew entrou na casa, que era ainda mais pobre que a sua. Foi convidado a se sentar no sofá e assistir um pouco de televisão, até que Leo chegasse.
—O Leo trabalha muito— comentou a esposa, que se chamava Mariana.
—Sim, ele está certo, a vida não tá fácil pra ninguém.
—É, mas ele trabalha demais, nunca tem tempo para mim…
Andrew olhou para a Mariana, e percebeu que ela estava fazendo uma cara provocativa. Desviou o olhar para a televisão.
—Estou me sentindo tão sozinha… será que não tem mais ninguém que é homem suficiente para satisfazer uma mulher?
—Fale com seu marido
—O Leo? Já estou enjoada daquele viado. Vou me separar dele. Eu quero alguém novo.
Mariana se sentou no colo de Andrew, virada para ele. Com uma mão, puxava o decote de sua blusa para baixo, deixando quase todo seu peito a mostra. Não usava sutiã, e era possível ver o contorno e seu mamilo através da blusa.
—Mariana, por favor, pare com isso...
Ela tentou beijar Andrew, que desviou. Empurrou a moça para o sofá, e se levantou.
—Olha, eu vou esperar o Leo lá fora, OK?
—Não, pode se sentar.— Mariana tinha um tom de arrependimento na voz. —É que eu estou realmente carente esses dias. Me desculpe…
Corada, ela se levantou do sofá, e foi para outro cômodo da casa. Andrew ficou sentado no sofá, até que Leo finalmente chegou.
—Andrew, que surpresa boa amigo! Conheceu minha esposa né!— ele disse, assim que entrou na casa e viu Andrew sentado no sofá. —O que te traz aqui?
—Você disse que tinha notícias do Robert, não disse?
—Sim sim, meu chapa. Se serve ai, almoce conosco, enquanto eu te conto a história.
—Não, eu só vou ficar aqui um pouco, tenho que ir embora pra casa. Além disso, não quero atrapalhar vocês dois.
—Oh cara, você está certo. Deixa eu te contar logo então brow: o tal do Robert trabalha num shopping, como gerente de uma loja. O cara tem dinheiro mesmo. Mas ele é casado.
—Casado? A esposa dele é encrenca?
—Não sei cara, tudo o que sei, ouvi a própria Carol contando para uma amiga, lá na porta da oficina.
—Então a Carol está se metendo com homem casado, é? Tenho que conversar sério com ela. Hei cara, obrigado. Bom almoço pra você, já estou indo.
—Certo cara, depois você volta ai com mais tempo. Tchau!
.
No caminho de Andrew para casa, ele foi pensando naquela notícia. Ia ter que arrancar toda a verdade da boca de Carol para resolver aquele problema.
Quando Andrew chegou em casa, teve uma surpresa: quatro homens estavam lá dentro, armados. Um deles tinha o cano de sua arma encostado na cabeça de sua mãe, e outro, na cabeça de Roberta. As duas mulheres estavam assentadas no sofá, e os homens estavam em pé. Os outros dois caras estavam vasculhando a sala.
De repente, Andrew sentiu algo gelado encostar em sua nuca. O cano de uma arma. Levou as mãos ao alto.
—Andrew, Andrew, Andrew.— disse uma voz inconfundível: a voz de Mauro. —Você não devia estar trabalhando? Ou está querendo virar vagabundo igual seu irmão?— riu.
—Mauro. Jow não está aqui, vai embora.
—Eu sei que não está. Ao contrário dessa sua família, eu não sou estúpido. Eu vim aqui pegar o meu dinheiro. Mas parece que vocês não tem nada de valor nessa casa, não é mesmo?
—Deixa minha família fora disso. Vamos lá fora resolver isso, só nós dois, sem armas.
—Muito valente. Tão valente que chega a ser burro. Você acha que eu vou cair pra mão com você, seu filho da puta? Quem vai lá pra fora, são vocês. Eu vou ficar com essa casa.
—O quê? Você não pode. Essa casa vale mais que trinta mil. E nós precisamos dela, olha o estado da nossa mãe…
—Essa velha? Tomara que morra. Mais oxigênio pra gente, não é rapazes?— Os homens armados começaram a rir, junto com Mauro, que se moveu até ficar a frente de Andrew. —Considere como juros! Vou até deixar seu irmão comprar mais umas droguinhas!
—Mauro, por favor, vai embora. Eu arrumo esses seus trinta mil. Só me dá um tempo...
—Oh, você consegue os 30 mil? Eu sei que você consegue! Já está acostumado, não é, nego filho da puta? Vai dar o cuzinho na esquina? Vai roubar alguém?— Mauro entregou a arma para Andrew. —Vamos, roube alguém! Você quer saber? Meus homens estão ficando sem o que fazer. Vou ter dar uma chance. Você tem uma hora pra chega aqui com minha grana, ou a boceta da sua irmã vai sofrer. E se demorar muito mais que isso... bem, acho que vou ter que matar sua família! E depois, você. E vou ficar com a casa só pra mim, não é simples?
Andrew pensou em atirar em Mauro. Mas provavelmente, a arma estava descarregada. Além disso, Sônia e Roberta ainda estavam sobre a mira da arma dos bandidos. Mauro morreria, mas os três morreriam juntos.
—O que você está esperando, sua merda? FORA DAQUI, AGORA!— Mauro ordenou. —No cinco, vocês atiram nele, caras! Um, dois…
Andrew então se virou, e saiu correndo da casa. Correu, sem rumo, até que se viu quase fora de seu bairro. O que ele ia fazer agora? Chamar a polícia era muito arriscado. Conseguir um empréstimo, impossível. Talvez ele devesse obedecer Mauro, e roubar o dinheiro. Em uma hora? Só se ele roubasse um carro, e um carro bom. E se Mauro aceitasse um carro. Parecia quase impossível também. Até que Andrew ouviu um motor.
O carro preto dobrou uma esquina daquele bairro pobre. O homem, armado, se aproximou do carro enquanto este parava para dar ré, e sair daquela rua sem saída, e quebrou o vidro com uma coronhada. A mulher pareceu voltar a si, depois de uma longa viagem.
—Sai dessa porra de carro agora!— O homem armado gritou.
—O quê? Onde eu estou?
—Você tá no meu território. Sai desse carro agora! Passa, anda logo!
A mulher analisou a situação em que estava. Ela não podia simplesmente entregar o carro, devia haver um jeito. O homem percebeu como a mulher estava olhando de um lado para o outro.
—Você não me ouviu não? Sai dessa merda de carro agora!
Ela percebeu então que aquele homem armado estava na frente da porta. Tudo que ela tinha que fazer era abrir a porta com força, e estava livre.
O homem percebeu a determinação no rosto da mulher. Alguma coisa estava errada. Ele sentiu uma descarga de adrenalina em seu corpo, que enrijeceu. A mulher jogou todo o seu peso na porta de uma só vez, abrindo-a com uma força extrema; era sua última esperança. A porta bateu no homem, que caiu sentado no chão.
Ela saiu do carro, para averiguar o estado do homem. Tinha certeza que tinha conseguido desmaiá-lo. Mas, ao sair, percebeu que ele estava acordado. Ele quase não conseguiu acreditar que a mulher tinha saído do carro. Encarou-a, espantado. Ela era corajosa.
Ela percebeu que ele estava acordado, consciente. E ela estava na frente de sua arma. Só conseguiu fazer uma coisa: gritar e correr.
Numa atitude desesperada e amedrontada, o homem mirou naquela mulher. Sem pensar, atirou. Uma, duas, três vezes. Ele sentiu o coice da arma por seu braço. Era uma sensação boa, uma sensação de poder. Ela sentiu as balas perfurando seu corpo. Era uma sensação horrível.
A mulher caiu morta no chão.
Andrew viu o sangue escorrendo pela calçada. Ele tinha matado alguém, mas tinha matado alguém por sua família. Além do mais, aquele carro ter aparecido ali, naquela hora, só podia ser um sinal divino. Ele tinha agido completamente por instinto.
“Calma Andrew” ele pensou, se levantando. “Você quem se acalmar. Mauro ainda está com as meninas. Você tem que salvá-las. Agora é só levar o carro até lá…”
Andrew entrou no carro, e fechou a porta. O motor ainda estava ligado, o que era uma boa notícia. O problema é que Andrew não sabia dirigir. Testou um pedal, e o carro andou. Imediatamente, apertou outro, e o carro freou. O volante servia para virar, isso qualquer idiota sabia. Como trocava de marcha? Isso ele ia ter que descobrir no meio do caminho.
Ao tentar manobrar o carro, atropelou o corpo da mulher umas 5 vezes. Conseguiu, com freadas bruscas, não bater. Voltou pelo mesmo caminho que tinha vindo, sem se importar com contramãos. Teve de ouvir algumas buzinadas, mas não se importou.
Conseguiu chegar em casa com o carro intacto. Saiu do carro, e entrou na casa. Aparentemente, Sônia e Roberta não tinham recebido danos físicos, mas já nem conseguiam chorar.
—Mauro. Eu consegui o seu dinheiro.
—Eu sabia que conseguiria, seu preto filho da puta!
—Quer dizer… eu consegui um carro. Aceite ele, pelo amor de Deus.
Mauro fez sinal para os homens esperarem dentro de casa, e saiu para avaliar o carro.
—Vidro quebrado, é? Você roubou ele ainda ligado? O que aconteceu com o motorista?
—Morreu.
—Então você se tornou um assassino, seu filho da puta? Ótimo! Andrew, o assassino salvador da família!— Mauro riu. —Vou aceitar o carro. Como entrada. Não tente nenhuma gracinha, ou eu te denuncio para a polícia. Depois eu volto aqui, para negociarmos o restante do dinheiro. Me devolve minha arma.
Ainda se sentindo como refém, Andrew devolveu a arma.
—HOMENS! VAMOS EMBORA!
Os homens saíram da casa, e Andrew entrou. Chorando, abraçou sua irmã e sua mãe.
.
Aqueles dias ficaram marcados na família, mesmo que dias depois. Sônia não queria mais sair de seu quarto, e Roberta estava extremamente calada. Annie ficou ainda mais estressada e reclamona. Carol era a única que não parecia se importar; Andrew tinha parado de perguntar sobre Robert, ficando mais focado em conseguir dinheiro para quando Mauro voltasse.
Cerca de uma semana depois, Jow apareceu novamente na casa. Andrew estava na sala, sozinho, vendo TV no escuro; Roberta estava no quarto, cuidando da avó, e Carol e Annie estavam se arrumando para sair. Jow entrou na casa sozinho, correndo e ofegante.
—Irmão, me ajuda!— ele gritou.
Assustado, Andrew se levantou. Foi na direção de seu irmão.
—O que está acontecendo aqui?
De repente, a porta se abriu, com força. Andrew viu a silhueta de uma mulher a porta. Sentiu seu peito se perfurando, ao mesmo tempo que ouviu um barulho de tiro.
O tiro foi certeiro, e Andrew desabou no chão.
Fale com o autor