Who We Are
9 Capítulo VIII Querida Mags: Porque você teve esse ataque?
Notas iniciais
A primeira coisa que Matt fez naquele dia foi abrir a carta de sua irmã.
E pensou que talvez fosse traição, uma vez que ele sempre abria a carta no fim do dia e a respondia no mesmo momento, assim como sua irmã provavelmente o fazia. E abrir aquela carta no inicio do dia mais importante dos seus 17 anos foi a pior decisão tomada, porque só o deixou preocupado com Mags o dia inteiro, mesmo que ele estivesse com as mãos suadas pelo nervosismo ao conversar com o editor chefe do News of Panem, Sr. Carter. E só a possibilidade de encontrar N.V Summers, um dos maiores cronistas e escritores do jornal, lhe deixava a beira de um colapso.
Mas ai era só lembrar sobre Mags filosofando sobre seus monstros e toda sua preocupação com sua irmã – e porque não dizer, a preocupação com seus próprios demônios – o tomavam o dia todo.
O News of Panem era uma grande emissora de noticias, que patrocinada e oficializada por Plutarch Heavensbee, fora a única fonte de noticias por quase dez anos, onde novos jornais cheios de diferentes pontos de vista foram nascendo e, como num país democrático, o direito de liberdade de expressão foi devidamente adotado. Ainda sim, News of Panem continuou com sua fonte tão confiável e sua credibilidade alta, e mesmo tendo diversos concorrentes, ainda era a preferida para veracidade dos fatos ocorridos no país. O Jornal tinha sede implantada em todos os distritos, pronto para qualquer noticia relevante que possa surgir. Tinham seus profissionais postos para qualquer urgência ou novidades de cada distrito e Capitol.
Uma palavra sua em News of Panem que você está feito pelo resto de sua carreira na imprensa.
A sede do jornal no Distrito Doze ficava atrás do Edifício da Justiça, a direita do Fórum. Matt podia jurar que essa caminhada de meia hora entre sua casa até a sede foram as mais difíceis de sua vida. Ele entrou no prédio azul com fachada laranja, lotado de pessoas com ternos e roupas escuras e sociais em todo o canto, correndo com pastas, papéis e homens de cinza com câmeras enormes nas mãos prestes a registrar algo. Sentiu seu ar se acabar por três longos segundos: Ele estava atrás de algo que seus pais correram a vida toda. Matt conversou com uma das mulheres que estavam apostas a uma enorme recepção, e lhe mostrou seus documentos e a carta que recebera, ganhando um crachá de autorização.
— Terceiro andar, Sr. Mellark. — Disse a mulher, apontando para o elevador. E com o par de pernas mais instáveis de sua existência, Matt subiu até o 3° andar com a autorização dos seguranças, e viu na distância entre o elevador e a segunda, porém menor recepção, seu próprio futuro.
— Olá! — Disse a recepcionista loira, com um sorriso verdadeiro. Usualmente, ela usava um sorriso tão cansado que era até perceptível, mas Charlene, a recepcionista, viu Matthew crescer e comia na padaria Mellark todas as manhãs. Era estranho, mas ainda sim, mas inevitável para Matt conhecer quase todos do Distrito – mesmo que não guardasse seus nomes. — Está aqui pela vaga de estágio, certo? — Disse ela, profissionalmente.
— Sim, eu recebi esse envelope. — Matt mostrou a carta de congratulações que havia recebido, ainda intacta e com a folha de papel tão branca quanto seus dentes. Matt cuidou da carta melhor do que cuidava de suas roupas, e por dois segundos pensou em emoldurar e colocar em seu quarto.
— Certo. — Ela avaliou. — Bom, se quiser se sentar e servir um café, fique a vontade. O Sr. Carter está em sua pausa, por isso chega em dez minutos. Tudo bem para você?
Matthew educadamente sentou nos confortáveis sofás de couro ou camurça (uma das duas coisas, ele sempre confundia o nome) e acenou um ‘não’ tímido para Charlene, que assentiu e voltou a fazer o que fosse naquela placa preta com tela que eles chamavam de tecbook. O que o fez lembrar do antigo Android que Amy havia lhe dado quando eram pequenos, cheio de canções que ele cantou a vida toda para poder expressar o que era estar além de um sentimento. Para Matthew, ser criança era mais fácil: Ele e Amy se amavam, e apesar das pequenas e não importantes decepções, ele sempre achava uma maneira de lhe dar e aprender com aquilo. Se estivesse nessa situação aos 7 anos, tudo seria mais simples: Ele daria dentes de leão à Amy, conversaria com o Editor Chefe e escreveria em seu diário que talvez nem tudo tenha dado certo, mas com certeza ele havia aprendido o que fazer na próxima vez. Simples. Nada desesperador e tudo meigo, como Matt sempre foi.
— Você está aqui pelo estágio? — Perguntou uma mulher.
Matt percebeu a porta de o elevador fechar e viu que ela havia acabado de chegar. Não soube dizer por quantos minutos estava divagando sobre sua cabeça, muito menos a quanto tempo estava olhando para o nada e há quanto tempo aquela mulher o olhava curioso.
— Hãm, é, estou sim. — Respondeu, ainda distraído.
— Oh garoto, o que você está fazendo aqui? — Ela o intimidou, sentando-se no canto do sofá onde ele repousava.
A mulher era mais velha que sua mãe, pelo que poderia presumir. Talvez alguns bons 5 ou 6 anos mais nova que Haymitch, no entanto. Ela tinha um desenho infantil de ondas tatuado do lado do olho esquerdo, que fez Matthew imaginar que talvez ela tivesse origem Capitolina, mas os fios dourados de sol em meio aos fios brancos e castanhos e o leve sotaque inconfundível do Distrito Quatro confirmou a origem Distritense.
— Hãn, você mesmo respondeu, senhora. — Disse ele, provavelmente mais curioso do que confuso. — Vim pelo estágio.
— Claro. — Ela pousou as mãos na bolsa em seu colo, dando o assunto encerrado por quase vinte segundos.
— Porque você quer esse estágio? O que está fazendo aqui, rapaz?
Matthew olhou para a senhora, e antes que pudesse procurar o olhar confuso da recepcionista, viu que ela tinha desaparecido da sala em algum momento que ele não tinha visto.Ótimo, pensou. Se eu perguntar pra a recepcionista quem é essa mulher grisalha e ela responder ‘Não há nenhuma mulher grisalha’ ou algo tipo ‘Ela morreu há meses atrás’ eu poderei contar aos meus amigos a história de como eu fiquei maluco.
— Olha, eu li suas crônicas. Sei que você não está só interessado no dinheiro ou coisa assim. Então você pode mesmo me contar o que está fazendo aqui.
Matthew respirou fundo. Pensou sinceramente em uma resposta boa o suficiente, honesta, como faria se Mags estivesse ali perguntando.
— Quando eu era criança, conheci um garoto chamado Patrick. Ele era mudo, e eu insisti em aprender a conversar com as mãos para ser amigo dele. Alguns anos depois eu ouvi as lendas sobre os Avoxes, as pessoas que a antiga Capitol cortavam as línguas por considerá-los traidores. Sabe, todas as pessoas acumulam sentimentos, algumas delas têm palavras, mas nem todas as usam completamente. Nem todas as pessoas têm as palavras que eu tenho, nem todas usam como eu as uso. Têm aquelas que podem falar, que querem falar, mas têm medo. E eu quero ser o porta voz delas. Eu quero expressar tudo o que eu sinto em minhas crônicas e mostrar aqueles que sentem o mesmo que não estão sozinhos.
— Então você gosta de falar e alguém uma vez te disse que você é bom nisso. Você quer estar no News por que não achou nada que fizesse de melhor? — Disse a senhora, cuspindo as palavras sob Matt.
Ele se sentiu subestimado por mais tempo que deveria. Quer dizer, ele sabia que não havia realmente nada que fizesse melhor do que usar palavras, mover pessoas, convencer coisas. Matthew usava as palavras da maneira que ele queria, elas simplesmente pertenciam a ele. Ele fazia muito mais do que usar bem as palavras e convencer as pessoas: Matthew usava-as para causas que raramente o favorecia. Matthew não era só um bom mentiroso, mas era excelente sendo verdadeiro. E era também um bom levantador de fatos, como deve ser um estagiário de jornalismo.
Sua resposta a pressão psicológica feito pela desconhecida de Distrito Quatro foi a mais sincera e ao mesmo tempo narcisista que ele poderia responder.
— Eu não estou aqui porque é o que eu faço de melhor. — Ele disse. — Estou aqui porque sei que não há ninguém que faça melhor do que eu.
A senhora ao lado de Matthew Sorriu. Ao mesmo tempo, a recepcionista loira voltou para seu banco, mexendo com seu tecbook e com um copo de café, aquela bebida que Matt lembrara que sua irmã gostava tanto. Charlene sorriu para a senhora. Então ela é real. Quem é ela?
— Ele vai conversar com Carter? — A senhora perguntou à recepcionista.
— Sim senhora. — Charlene sorriu.
— Marque uma reunião com Carter por mim. E prepare o contrato desse rapaz. Ele será meu estagiário, e eu me responsabilizo por toda e qualquer noticia dele publicada no jornal, já que ele ainda é menor de idade.
— Sim senhora.
A mulher do Distrito Quatro deu um aperto de mãos e sorriu para Matthew, retirando-se da recepção e entrando ao corredor a esquerda. Matthew, por sua vez, ainda estava estático. Quer dizer, ele realmente estava ali, e agora ele tinha um contrato a assinar para ser estagiário de não-sei-quem.
— Charlene... — Matthew começou. Aproximou-se da recepção, com as mãos no bolso e aquela cara de inocente galanteador que por deus, como Amy odiava aquela cara. Ele tinha um sorriso com covinhas e uns olhos tão possessivos que era impossível desviar do olhar. Matt lançava seu charme a Charlene como uma brincadeira pessoal, pois sabia que ela o conhecia desde sempre.— posso saber o nome da minha nova chefe?
Charlene gargalhou em escárnio com Matt. Mal acreditava que ele havia conseguido amolecer o coração de ferro da juíza em dez minutos de conversa e que ele mal sabia disso.
— N. V Summers, ou Envy Summers, se você preferir. Ela nunca teve um estagiário, Matt. — Disse Charlene. — Bem, parece que seu charminho funcionou com ela.
Matt teve exatos 3 minutos para digerir a noticia de que o melhor cronista e o responsável por dar arte e credibilidade ao jornal era uma mulher. Que NV era um trocadilho infame para Envy, e que, POR DEUS, ele era estagiário da mente mais poderosa do News of Panem. Exatos três minutos, foi o tempo que ele teve para desfazer sua cara surpresa e cumprimentar o Sr. Carter, que agora lhe parecia mais um ferrão de abelha próximo uma hemorragia externa.
Querida Mags
A primeira coisa que eu fiz hoje foi abrir sua carta.
Em seguida, tudo relacionado a você me acompanhou pelo resto do dia, dia este que aliás, eu presenciei minha audácia amolecer o coração de Envy Summers. Envy. NV. Sim, o cara que admirei durante bons anos lendo aquele jornal, é na verdade uma mulher muito astuta do Distrito Quatro. Eu acompanharei aquela mulher pelo próximos um ano a minha vida, e nesses um ano, eu tenho passe livre para colocar qualquer coisa no jornal que nós sabemos que somente os que se interessam vão ler.
Depois de uma entrevista de emprego cheio de piadas e admiração do Sr. Carter (editor Chefe do Jornal) eu saí do prédio com um contrato nas mãos e um emprego garantido. Resolvi passar um tempo sozinho. Não fui à campina. Não fui ao lago. Eu fui à pedra.
Aquela rocha enorme que nós encontramos certa vez, longe demais o lago ou de qualquer outro lugar onde mamãe e vovô poderiam ir, simplesmente porque não há muita vegetação e por consequência, não há animais. E nós, Everdeens, sabemos que eles não iriam onde não tem o que comer. Aquela rocha é nossa, porque a encontramos sozinhos, e porque só nós dois sabemos dela.
Talvez, ela seja nossos demônios.
Grande, fixa e conhecida por nós dois. Claro, outras pessoas têm seus demônios, mas aquele é especial nosso, porque somente nós dois sabemos onde encontrá-lo, quando encontrá-lo e quando abandoná-lo. Ninguém precisa saber sobre. Sendo honesto, eu ainda não encontrei os meus, mas eu os aguardo pacientemente sem expectativa alguma.
Quanto à você e os seus, Mags, talvez não seja a melhor opção enfrentá-los sempre que os encontra.
Eu estou desapontado com você, sinto muito. Por outro lado, estou orgulhoso por defender seus amigos como o fez, por reconhecer seus erros e assumi-los. Eu presumo que seu ato de enviar cartas para o tio Haymitch desde o começo tenha dado a entender que era um segredo nosso, portanto, eu irei omitir a verdade dos nossos pais. Eu só te peço uma condição: Não minta para mim. Não esconda a verdade de mim, nem omite fatos. Eu sei que você será eternamente preocupada comigo por eu ser o mais novo, mas eu preciso que você me enxergue da mesma forma que eu enxergo você: Uma âncora. Você tem que me ver pelo cara que eu estou me tornando. Eu não tenho mais o Billie.
Bem, indo para o campo de noticias boas: Tio Haymitch está há exatos 23 dias sem álcool. Ele não viciou no seu chá no entanto, somente toma bastante água, fica em repouso, faz caminhadas com mamãe e quando as crises de abstinência são fortes demais, papai e ele se trancam no porão por horas para que um possa segurar o outro. Tio Haymitch diz que não entende por que pararia de beber no final da vida, mas quando completou uma semana de noite dormidas, as coisas valeram a pena para ele.
Apesar de ser um segredo (foi mal) todos aqui em casa estão orgulhosos e contentes de sua vaga na bioquímica. Alguém espalhou a noticia, hihih.
E para o campo ruim: Papai teve um ataque. Mamãe não queria que eu te contasse, mas essa é uma prova de que não mentimos ou omitimos a verdade um do outro. Foi em casa, e não foi dos fortes. Ele não se agarrou a cadeira, apenas se sentou na poltrona e colocou as mãos na cabeça. Mamãe foi para a cozinha preparar seu chá, e eu, contra todas as indicações dadas a nós a vida toda, me sentei na poltrona da frente, apoiei os braços nos joelhos e não tirei os olhos do papai por um segundo.Vi o ataque do papai com meus olhos o tempo todo, fiquei intacto, esperando ele se acalmar. Fiquei ao seu lado, literalmente, o que me rendeu uma bronca mais tarde, quando mamãe foi dormir e papai e eu ficamos na sala, frente a lareira. Ele tomando chá, e eu tomando café (meu café não é bom como o seu, ficou péssimo). Por fim, eu esperei o momento que papai resolver que era seguro dormir com a mamãe, e o acompanhei até o quarto, e fiquei algum tempo sentado na porta do quarto esperando que ele realmente estivesse dormindo.
Bom saber que você vai realmente atrás do Abraham Lincoln. Eu não sei se estou escrevendo certo, minha memória não é melhor que a sua, mas quando for, mande meus abraços a Tio Gale, Tia Alba e o pequeno Tobias.
E respondendo sua pergunta: Nós convivemos com todos os sentimentos bons e ruins, porque somos seres humanos. Quando sentimentos ruins como a culpa crescerem em nós, temos que jogar aquele jogo que você ensinou a mamãe uma vez e que ela joga desde sempre: Vamos lembrar de cada ato de gentileza já vistos. Quando sentimentos ruins estiverem a tona, vamos afogá-lo com amor.
(Isso foi fofo, não foi?)
O que quer que esteja pensando agora, lembre-se de me contar. Porque há uma parte que não se sente culpada? Porque o ódio te dominou tão rápido? Porque você teve esse... Ataque?
(Eu estarei lhe enviando as ervas restantes de Tio Haymitch e vou colher mais algumas para você. Eu sei que talvez não seja necessário... mas você precisa delas. E talvez possa usá-las para estudo, certo?)
Certo. Eu estarei aqui.
Beijos do cara que estou me tornando
Matt Mellark.
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