Todos pararam à frente da Casa Grande, onde na varanda estavam um Dionísio com uma cara nada boa e olheiras evidentes, e um Quíron, com bob’s em seu rabo (?), tentando acalmar os semideuses.

—Tenham calma, semideuses!- ele gesticulava com as mãos. -Não há nenhuma ameaça eminente.

—Sério? Você diz isso quando tem uma garota urrando de dor lá em cima, como se estivesse sendo torturada?!- Dionísio olhou para ele indignado, recebendo um olhar repressor de volta.

—O que se passa, Quíron?- Nathan perguntou-lhe. -O que há com Helena? Talvez eu possa...

—NÃO!- ele exclamou meio desesperado. Vendo que havia assustado os semideuses, pigarreou e continuou. -Ninguém pode entrar no quarto.

—Mas por que... O que a Helena tem?- Jenna perguntou a ele.

—Eu... Eu não sei...- Quíron sussurrou.

De repente, o chão começou a tremer. Os semideuses procuraram correr, mas muitos tropeçavam e caíam. O terror se alastrava. Rachaduras se abriram o chão, fazendo com que muitos desviassem, e alguns até caíssem dentro delas, mas quem disse que eles morriam? Não... mãos de esqueletos saíam de dentro das rachaduras, elevando os semideuses que caíam, mas logo elas começavam a se mexer descontroladamente, batendo contra o próprio chão e em algumas árvores. Os gritos da garota ficaram mais fortes, e agora se misturavam com soluços de choro.

Harry era um dos poucos que não havia saído correndo, junto com Nathan e Liam. O garoto de olhos verdes conhecia muito bem aqueles dois. Com Nathan ele ainda conseguia ter alguma conversa e até simpatizava com o filho de Apolo, mas com Liam... Com esse a única coisa que conseguia fazer era segurar-se para não espancar o filho de Ares. O garoto era mimado e tinha um ego enorme, apesar de não demonstrar esse lado com os outros. Harry era o único que conhecia esse lado do filho do deus da guerra.

—Você precisa fazer alguma coisa!- Dionísio falava/gritava para Quíron. -Esses gritos já me tiraram muitas noites de sono, eu preciso dormir!

—Se eu soubesse o que ela tem...- Quíron falou, coçando o queixo.

—Eu sei.- Harry disse alto o suficiente para que eles escutassem.

—C-Como?- o centauro arregalou de leve os olhos.

—Eu acho que ela está fazendo aquilo de novo.- o semideus deu ênfase na palavra. Todos o olharam confusos.

—Aquilo?- Nathan franziu o cenho. -É o quê?

—Do que está falando, idiota?!- Liam gritou para ele.

—Olha aqui seu...- O filho de Poseidon estava pronto para golpear o filho de Ares, mas Quíron interferiu.

—HAROLD!- gritou. -Mantenha o foco. E Liam, por favor, coopere.- O filho de Ares revirou os olhos. -Continue rapaz.- pediu a Harry.

—Ela está se recusando a ceifar as almas, mais uma vez.- o filho de Poseidon falou.

—Como você...- Dionísio olhou-o, com os olhos arregalados.

—Isso não importa!- ralhou, interrompendo-o. -Ela precisa ser acordada, Quíron. Se ela sucumbir à sua própria escuridão não haverá morte, literalmente.- disse. -Imagine um mundo sem morte, sem a reciclagem necessária... O caos se instalaria pelo mundo inteiro.- Todos o olhavam espantados.

—Por favor...- Liam falou em tom de deboche. -Pare de falar asneiras, cara de peixe! Isso não tem o men...- O garoto foi interrompido.

—JÁ CHEGA HIAM!- Dionísio gritou. -FAZENDO OU NÃO FAZENDO SENTIDO, ACABE COM ESSA GRITARIA, EU NÃO AGUENTO MAIS!- Ele sabia que o filho de Poseidon só falara verdades, mas aqueles gritos incessantes o fizeram explodir, ironicamente obrigando-o a acabar com a gritaria na base de gritos (?). Dionísio afastou-se dali em passadas largas e fortes. Harry estava indo em direção ao quarto de Helena, quando Quíron segurou seu ombro.

—Tome cuidado, rapaz.- O centauro estava com o semblante franzido. Harry apenas assentiu.

O rapaz de olhos verdes seguiu em direção ao quarto da garota, com os outros dois semideuses ao seu encalço. Cada degrau acima, os gritos ficavam mais altos e o ar ficava cada vez mais sombrio e frio.

Quando chegou à porta, engoliu em seco ao colocar a mão na maçaneta e girá-la. Harry tomou um susto quando a porta foi praticamente arrancada do batente de madeira e sugada para dentro do quarto, e segurou-se rapidamente para não ser levado junto também.

Com muito esforço, conseguiu segurar-se no guarda-roupa, que era perto da porta. O filho de Poseidon teve de semicerrar os olhos, pois dentro do quarto ventava, e muito. Era como um mini furacão, sugava tudo que via pela frente.

Harry observou o local. As únicas coisas que permaneciam no chão eram a cama, onde a garota estava, e o guarda-roupa, pois ambos eram pregados no chão. Olhou para a cama mais uma vez, para ver o estado da garota de cabelos e olhos castanhos, e ele pôde descrevê-la em apenas uma palavra: deplorável. Seu corpo estava esquelético e a pele extremamente pálida, preenchida com queimaduras, por onde o ícor escorria. Só que dessa vez, ela estava em um sono conturbado e suava frio. Ele virou-se em direção à porta e olhou para os outros dois.

—Nathan, ela vai precisar de um pouco de néctar e curativos para os ferimentos e um pano molhado com água gelada para a febre.- ele gritou para o filho de Apolo, que prontamente assentiu e desceu as escadas, indo até a enfermaria. -Vá com ele!- disse/ordenou. O filho de Ares ia retrucar, mas Harry foi mais rápido. -Você não pode ser o herói de tudo, Liam!- o filho de Poseidon gritou sério. Harry não precisava daquelas coisas... Só falara aquilo para espantar os dois dali, para tentar resolver a situação sem intrometimentos. O filho de Ares revirou os olhos e desceu as escadas correndo, ainda não acreditando que estava ouvindo o ‘cara de peixe’.

Harry virou-se novamente para a cama e inclinou-se para alcançar a pezeira da mesma, quando conseguiu, a única coisa que queria era um fone de ouvidos, pois os gritos estavam quase estourando seus tímpanos. Agora de perto, pode observar melhor a garota. Ela apertava os lençóis com força, tinha o cenho franzido e, diversas vezes, mexia as pernas, em sinal de nervosismo. Ele segurou forte naquele pedaço de madeira-como se sua vida dependesse daquilo, o que de fato era- da pezeira e sentou-se na cama. Harry percebeu que ela havia sentido que alguém sentara na cama, pois ela parou, quase que instantaneamente, de gritar, assim como parou de ventar dentro do local. A porta surgiu do nada e encaixou-se no batente novamente, fechando-se em um baque. O barulho de braços esqueléticos e gritos dos outros ainda estava lá fora, apenas o quarto estava em silêncio. Ele mal teve tempo de pensar. Algo o puxou e ele caiu deitado na cama e alguma coisa fria encostou-se na sua garganta.

O filho de Poseidon resolveu olhar para cima, e encontrou uma Helena, muito bem desperta devo dizer, com uma expressão de raiva e confusão -se é que isso é possível-, sentada no seu colo, apontando uma adaga negra -de ferro estígio- para a sua garganta.

—O que faz aqui?- perguntou secamente. O rapaz a olhava espantado, com a respiração descompassada e suando frio. Diversas vezes ele abria a boca para dizer algo, mas não saía nenhum som. -RESPONDA-ME!- ela pressionou ainda mais a adaga contra o pescoço do rapaz.

—C-Calma!- gaguejou ele, erguendo as mãos em forma de rendição. -Eu só vim pedir para...

—NÃO! EU JÁ SEI O QUE VOCÊ VEIO FAZER!- ela gritou, assustando o rapaz, a adaga quase a ponto de fazer um corte no pescoço dele. Uma queimadura formou-se no braço esquerdo dela, o que fez com que ela travasse o maxilar, afrouxando o aperto no pescoço dele. -Não deveria estar aqui...- ela desviou o olhar. Harry viu que pequenas gotas de lágrimas formavam-se nos cantos dos olhos dela.

—Escute-me.- ele pediu calmamente. -Sei que você não quer ajudá-lo. Mas esta não é a solução!- ela observava-o. Os olhos, um castanho e o outro totalmente preto, adquiriram certo brilho de curiosidade por um momento, mas logo ela balançou a cabeça negativamente e voltou a pressionar a adaga contra o pescoço do filho de Poseidon.

—SIM! ESSA É A SOLUÇÃO!- ela berrou. -Melhor do que ajudá-lo!

—MAS VOCÊ PREFERE PASSAR POR UMA TORTURA SÓ PARA VÊ-LO DERROTADO?!- ele conseguiu gritar, mesmo com ela pressionando a adaga fortemente contra ele. Helena se assustou.

—Mas ele...- ela começou a falar baixo, já com lágrimas escorrendo de seus olhos. A adaga já havia sumido. Saiu de cima dele, ficando em pé. -Ele... Ele...

—Eu sei.- Harry ficou em pé, na frente dela. -Pense bem, Helena. Não vale a pena. Pare de torturar a si mesma...- ele foi enxugar o rosto dela, mas ela o deteve, afastando-se.

—Não toque.- ela sussurrou. Harry a olhou, confuso. A garota foi a pezeira da cama e tocou-a. Logo, a mesma começou a apodrecer. O filho de Poseidon arregalou os olhos. -Quando estou nesse conflito comigo mesma, eu posso machucar quem me toque.

Helena, então, olhou para frente e fixou seu olhar na parede. Logo em seguida, deu meia volta e foi até a porta, abrindo-a e indo para fora. Harry seguiu-a. A garota descia as escadas com calma e silenciosamente. Ao ela passar pela porta, o silêncio fez-se presente lá fora. Harry, estranhando, andou um pouco mais rápido e quando chegou lá fora, assustou-se. Havia um ‘exército de esqueletos’, parados organizadamente em fileiras, todos de cabeça baixa, sendo repreendidos por Helena (?). Era visível a confusão estampada no rosto do semideus.

—O que fazem aqui?- ela perguntou autoritária.

—É que ouvimos um chamado e...- um deles começou, mas parou assim que recebeu um olhar repreensor da garota.

—O QUE EU FALEI A VOCÊS?!- Ela berrou, fazendo com que os esqueletos se assustassem e começassem a tremer, possivelmente de medo. Helena respirou fundo, fechando os olhos e apertando a ponte do nariz. -Vamos lá. Repitam comigo: “Eu atenderei ao chamado apenas quando ele for feito pela senhorita, e somente por ela, sem a intromissão de terceiros.”.

—Mas o chamado foi feito pela senhorita...- outro deles falou. Helena virou-se para ele.

—Vocês pensaram que ela era eu?- arqueou a sobrancelha. -Foram tolos a ponto de virem aqui e quase matarem semideuses inocentes?- ela perguntou, avançando até o tal esqueleto, ficando em frente a ele. -E você foi tolo a ponto de responder-me, sabendo o que eu posso fazer com você, Erick?- o esqueleto engoliu em seco-se é que isso é possível-. A garota aproximava sua mão da cabeça do esqueleto, com o objetivo de esmagá-la, mas algo, ou melhor, alguém a parou.

—Você sabe que se fizer isso estará perdendo uns dos seus melhores, não é Helena?- uma voz masculina falou atrás dela.

—Nicklaus...- ela falou entre dentes. Virou-se cruzando os braços e olhou com desdém para a figura a sua frente.

Apesar de ser um fantasma, era claramente possível ver suas características. Era alto, cabelo castanho-louro, em um corte moderno; olhos meio opacos, mas que eram de um tom meio azulado; barba por fazer, usava uma calça escura, camisa branca e sapatos da mesma cor da calça. Ele tinha um sorriso sarcástico no rosto.

—“Ah, Nicklaus! Como é bom te ver, depois de mais de setenta anos.”- ele imitou- muito mal, devo dizer- a voz da garota de cabelos e olhos castanhos. A mesma apenas revirou os olhos.

—O que faz aqui? Pensei que estivesse com o todo poderoso deus dos mortos.- ela falou a última parte com desprezo.

—Você sabe o que faço aqui.- ele falou. -E seu pai não sabe onde estou. Nenhum deus sabe. Quer dizer, apenas um.- assim que ele falou, ela virou-se para ele com os olhos arregalados.

—Está dizendo que..._ela nem terminou de falar.

—Sim. Ele mesmo.- o fantasma afirmou com a cabeça. -É ele que está mantendo sua localização fora do alcance dos outros.- a garota abriu a boca, mas ele interrompeu-a. -Como? Nem isso eu sei.- colocou as mãos nos bolsos da calça. -Só sei que você deve ceifar as almas e dispensar os esqueletos.

—E você também sabe que se eu fizer isso, além de estar ajudando ao seu mestre...- o fantasma interrompeu-a mais uma vez.

—Seu pai._falou.

—ELE NÃO É O MEU PAI!- berrou, fazendo com que mais uma queimadura surgisse em seu corpo, dessa vez na bochecha. Ela apenas ignorou a dor. -Você sabe o que ele fez e o que ele disse... Eu apenas aceitei os fatos. Você devia fazer o mesmo.

—ENTÃO SER TORTURADA PELA ETERNIDADE É O QUE VOCÊ QUER?!- fora ele quem berrara.

—É BEM MELHOR DO QUE AJUDAR AQUELE DESGRAÇADO!- lágrimas de raiva e de tristeza escorriam por sua face.

—Quer condenar a humanidade por causa de um momento de raiva?- ele perguntou.

—Hades já condenou a humanidade no momento em que entregou a própria filha ao seu pior inimigo para ela ser usada como uma arma mortal.- a garota olhou para baixo. -Mas quer saber...- ela começou a limpar as lágrimas -Eu não aguento mais.- ela balançou a cabeça negativamente. -Soldados, atenção! Dispensados.- os esqueletos bateram continência e, logo após, um buraco abriu-se abaixo deles e eles sumiram, assim como o próprio buraco, logo em seguida.

Helena respirou fundo, expelindo o ar pela boca, fechando os olhos e levantou a cabeça. Seus pés deixaram o chão. Ela flutuava baixo. O corpo levemente inclinado para trás. Os cabelos balançavam revoltosamente. Então, uma energia negra começou a irradiar dela. Fazia curvas e mais curvas por entre o corpo da garota, curando as queimaduras, devolvendo o aspecto saudável dela. Logo, essa energia tornou-se maior, e um buraco abriu-se embaixo da garota e vultos, que vinham de todas as direções, eram sugados para dentro do buraco. O processo durou apenas alguns segundos. Assim que o buraco fechou-se, Helena caiu no chão em um baque, desacordada.

Harry, que até o momento era apenas um mero espectador, rapidamente correu até a garota e pegou-a no colo-estilo princesa-. Observou-a e viu que ela, agora, dormia serenamente, como se tivesse tirado um fardo das costas -o que de fato havia acontecido-.

—Então é você...- alguém falou atrás dele. Harry virou-se e viu que era o fantasma, Nicklaus. -Bem que a lady havia comentado.

—Eu?- o rapaz franziu o cenho. -Lady? Comentado? É o que?

—Tão lerdo quanto o pai...- o fantasma sussurrou.

—Okay, esqueça.- Harry falou rapidamente. -Ela vai ficar bem?

—Sim.- Nicklaus afirmou com a cabeça. -Ela só não vai acordar com a mesma personalidade.

—Como assim?- O rapaz perguntou. O fantasma revirou os olhos.

—Helena desenvolveu outra personalidade quando fugiu, um tempo após o pai dela a entregar ao seu pior inimigo. Creio que você o conheça.- Harry acenou com a cabeça afirmando. -Enquanto que uma é ciente de tudo o que aconteceu, cada mínimo detalhe, a outra apenas tem flashes de memória. Essa última foi a cabeça de Helena que criou, como um escudo para afastar suas piores memórias, assim, tornando-a uma pessoa mais doce. Então... Uma personalidade acabou controlando a outra. A personalidade mais doce, vamos dizer, aprisionou a outra, fazendo com que essa última apenas se libertasse quando almas em excesso precisassem ser ceifadas. Mas como era a dominante, a personalidade “doce” tomava o controle assim que a outra terminasse o seu serviço.- explicou. -A pobre garota tem conflitos constantes. Se isso não for resolvido, ela poderá ficar louca e nem Dionísio conseguirá ajudá-la.

—Mas como se pode ajudá-la?- Harry perguntou mais uma vez.

—Eu não faço ideia.- o fantasma deu de ombros. -Mas não se preocupe rapaz. A outra personalidade só irá acordar se tiver almas em excesso para serem ceifadas, ou se ela tiver um acesso de raiva muito forte, o que eu duvido que aconteça, é bem raro. — Harry olhou para a grota adormecida em seus braços. -O destino de vocês está entrelaçado. Você precisa estar preparado.

—Preparado para o quê?- indagou.

—Quando a profecia for revelada, você saberá.- O fantasma falou. -Tenho que voltar, fiquei muito tempo fora. Adeus, filho de Poseidon.- então ele desapareceu.

Se tinha um sentimento para definir Harry naquele momento, esse sentimento era confusão.

— Rapaz.- era Quíron. Harry virou-se. -O que aconteceu? Está tudo bem?- ele questionou. Então, um amontoado de semideuses chegou perto de Harry, fazendo diversas perguntas, todos ao mesmo tempo. O filho de Poseidon abria e fechava a boca várias vezes, até que não aguentou.

—CHEGA!- berrou e todos ficaram quietos. A garota em seu colo franziu o cenho e aconchegou-se mais no colo do rapaz, colocando ambos os braços em volta do pescoço dele. -Sim está tudo bem, acalmem-se. Acho melhor todos voltarem para seus respectivos chalés e dormirem.- após dizer isso, Harry virou-se e seguiu para o quarto de Helena novamente.

Ao chegar, deitou a garota em sua cama e cobriu-a com o edredom que tinha ali. Depois se sentou no chão -pois não tinha cadeira alguma- e ficou observando a garota, que dormia serenamente, velando seu sono. Porém o cansaço o venceu e ele acabou dormindo ali mesmo, sem perceber que suas mãos estavam entrelaçadas.

Notas finais
Só passando pra comentar, a palavra pezeira existe, viu? Kissus, ~StrangeDemigod