Ela abriu os olhos num baque, mas arrependeu-se amargamente, pois ficou cega por alguns momentos, devido à claridade. Após piscar algumas vezes, sentou-se e espreguiçou-se, sentido suas costas doerem. Na verdade, todo seu corpo doía. Era como se ela tivesse sido atropelada por um caminhão.

Helena resolveu olhar em volta. Porta do banheiro, porta do quarto, guarda-roupas, um garoto debruçado ao seu lado na sua cama, janela... Ela parou sua observação do quarto e olhou para o seu lado, com os olhos levemente arregalados. O garoto debruçado era Harry Campbell, filho de Poseidon. Como alguém tão amável como ele pode ser filho de alguém tão cruel e grosseiro? Com um suspiro, a garota aproximou-se um pouco dele, observando-o com atenção. Os cabelos castanhos escuros ficavam meio loiros com a luz do sol que entrava da janela, os olhos -obviamente- fechados, escondendo as belas esmeraldas brilhantes que eram seus olhos, o rosto com traços fortes e a boca entreaberta, com um filete de baba escorrendo. Isso fez com que Helena risse e com seu riso, mesmo que baixo, Harry despertou.

O rapaz levantou a cabeça e logo encontrou um par de olhos castanhos lhe olhando. Harry piscou algumas vezes, vendo que a garota sorria para ele. Ele a observou. As bochechas num tom rosado, assim como a boca; os olhos amarronzados, agora, tinham certo brilho; os cabelos estavam meio avermelhados, devido à luz do sol. Ela riu novamente e Harry franziu o cenho.

—Do que tanto ri?- ele perguntou.

—Limpa a babinha aqui.- ela falou entre risos, indicando o canto da própria boca.

-Não tem graça.- falou ele, limpando o canto da boca, mas estava sorrindo. Ela continuava rindo e ele logo a acompanhou. Pareciam dois retardados que riam do vento. Foram parando gradativamente, normalizando as respirações aos poucos, até ficar um silêncio meio perturbador no quarto. Olharam-se nos olhos um do outro, se aproximando. Ambos não sabendo o que estavam fazendo... Parecia algo... Automático. Quando já sentiam a respiração, separaram-se assustados pela porta sendo batida contra a parede. Harry bateu o traseiro no chão e Helena quase bateu suas costas na parede.

—Bom dia!- exclamou Rachel. Ela parou um pouco para observar os dois e um brilho meio esverdeado passou por seus olhos. -mais claro que estes. A ruiva piscou algumas vezes, acordando de seu transe momentâneo e sorriu para os dois.

—Bom dia.- Helena sorriu para ela, ajeitando-se na cama.

—Soube do que aconteceu... Credo, como eu não acordei? Será que é por que a minha gruta é meio longe de tudo? Ou por que eu tenho sono muito pesado?- Rachel começou a se questionar. Helena franziu o cenho.

—O que aconteceu?- a morena perguntou.

—Você... não se lembra de nada?- Harry perguntou-lhe. Helena negou com a cabeça.

O rapaz começou a pensar. Ele sibilava palavras desconexas, em busca de respostas em sua memória.

“Ela só não vai acordar com a mesma personalidade.”—lembrou-se do que o fantasma disse.

—Nossa.- Rachel levantou as sombracelhas em surpresa e assoviou. -Eu não saber, é uma coisa... Mas ela... Estranho. Você tem alguma perda de...- A ruiva não pôde terminar, pois foi interrompida pro Harry.

-Rachel, você pode ficar com Helena? Leve ela para dar uma volta no acampamento para conhecê-lo melhor ou qualquer outra coisa assim, okay?- ele perguntou retoricamente. Virou-se para a garota na cama e sorriu, retirando-se do quarto. Harry seguiu para o seu chalé para tomar um banho e logo em seguida, foi atrás de Quíron para ter uma séria conversa com ele.

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—O.que.acabou.de.acontecer.aqui?!- Rachel praticamente gritou e correu até a cama de Helena, sentando-se na mesma e balançando a outra pelos braços, começando a falar uma coisa atrás da outra, atropelando as palavras. A morena sorriu nervosa com a alegria da ruiva.

—Rachel!- Helena exclamou rindo. -Acalme-se.- pediu devagar. A ruiva foi parando de balançar Helena. -Respire.- falou e a ruiva-finalmente- ficou calma. -Agora fale.

—Você e o Campbell!- ela falou batendo palminhas. -As meninas me contaram. Foi tão fofo o que ele fez por você, Helena. Acalmou-te, te pegou no colo e...

—Espera um minuto.- Helena interrompeu-a. -Acalmou-me? O que eu tinha que precisava ser acalmada?

—Você realmente não se lembra do que fez noite passada?- Rachel perguntou, arregalando os olhos. A morena negou. -Nadinha sequer?- perguntou mais uma vez. Helena fechou os olhos e forçou sua mente a lembrar do que aconteceu. Flashes passavam por sua mente. Soldados esqueletos, o sorriso de um fantasma, ela flutuando sobre um buraco negro. Abriu seus olhos e respirou. Esteve prendendo o ar todo aquele tempo. Ofegava e suava como se tivesse corrido uma maratona. -Você está bem?- perguntou a ruiva, segurando Helena pelo ombro.

—Estou...- a morena falou meio baixo, com a ponta dos dedos pressionando sua têmpora e com uma expressão de dor. -Acho melhor eu tomar um banho, aí você me explica essa história melhor.- Helena sorriu para a outra, levantou-se e foi em direção ao banheiro.

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Harry andava pelo acampamento atrás de Quíron. Isso logo após ter ido à Casa Grande atrás do centauro, descobrindo que o mesmo, naquele momento, dava aulas de arco e flecha. O filho de Poseidon nem precisou chegar até Quíron, pois o centauro estava vindo em sua direção.

—Me siga.- o centauro falou, interrompendo Harry, que estava com a boca semiaberta, pronto para falar. Ambos foram caminhando até chegarem à praia.

—Por qu...- o rapaz começou a falar, mas Quíron o interrompeu mais uma vez.

—Creio que queira saber sobre a garota.- falou sério. -Digo, o que sei sobre ela.- explicou. Harry assentiu com a cabeça. -O que sei sobre ela não é muito... Eu a conheci quando ela veio ao acampamento para...- O filho de Poseidon o interrompeu.

—Ela já esteve aqui?!- exclamou o mais novo.

—Sim.- falou o centauro calmamente. -Continuando... Eu a conheci quando ela veio ao acampamento para treinar.

—Treinar?- Harry perguntou com o cenho.

—Você não sabe dessa parte da história, não é mesmo?- Quíron perguntou e Harry negou. -Para você poder entender, preciso lhe contar tudo desde o início.- explicou e logo em seguida começou a falar.

“Helena é a filha de Hades e Perséfone. Era a alegria dos pais, que achavam que aquele casamento nunca daria certo. Mas nem tudo é mar de rosas. A garota desenvolveu dons precocemente, aos três anos de idade, para ser mais exato. Isso preocupou a ambos os deuses. Criaram-na no castelo do deus os mortos, onde o único contato com o mundo aqui de cima eram as almas que ela própria era obrigada a ceifar.

Aos dezenove anos, tornou-se deusa da morte, a ceifadora das almas. No mesmo ano, Hades e Perséfone resolveram apresentá-la aos Olimpianos. Mas algo ocorreu... Helena feriu a mãe.

Hades, então, fez um acordo com Zeus. Para manter a esposa segura, Helena ficaria no Olimpo com a avó. Pelo menos era o que Hades pensava. A garota na verdade, foi aprisionada e treinada por Ares para ser usada como uma “arma secreta” para vencer as batalhas. Quando Hades soube o que realmente faziam com Helena lá, tentou voltar atrás, mas Zeus recusou. O acordo já estava feito e não tinha volta.

Foi em meados de mil novecentos e doze que eu a conheci. A garota tinha cicatrizes por todo o corpo e chegou aqui vestindo farrapos e acorrentada. Parecia que ela era um animal que precisava andar acorrentado e sempre sob vigia. Quando ela entrou na arena para lutar, era incansável. Se Ares não a parasse, ela continuaria a lutar.

Helena já não era mais a mesma. Se a mandassem matar alguém inocente, ela mataria. A garota era fria e sem qualquer outro sentimento. Em mil novecentos em quatorze eclodiu a Primeira Guerra Mundial. Carnificina total e, é claro, pessoas morrendo. Helena, sendo a deusa da morte, era a encarregada de ceifar as almas. Mas ela revoltou-se contra o próprio pai e recusou-se a ceifa-las. Não sei o que aconteceu com ela durante os anos da guerra. Apenas sei que ela só ceifou as almas depois que a mãe dela pediu, mas isso já era no final de tudo aquilo.Helena só voltou a ter esse mesmo conflito na Segunda Guerra Mundial. Também não sei o que aconteceu, mas, de alguma forma, ela ceifou as almas também.

Quando todos achavam que estava tudo estabilizado, em mil novecentos e quarenta e seis, Helena fugiu e ficou desaparecida até agora.”

—E, com ela sem a memória, fica ainda mais difícil saber o que ocorreu com ela nos últimos setenta anos.- o centauro terminou.

—Pelo que eu soube, parece que você desconfiava que ela não era realmente a Helena “deusa da morte” quando ela chegou aqui.- O filho de Poseidon comentou.

—De fato.- Quíron respondeu. -Ela poderia ser parecida, mas eu precisava de uma prova concreta. Foi aí que Dionísio me mostrou os anéis.

—Anéis? Que anéis?- Harry fez uma expressão confusa.

—Os anéis em forma de rosa em ambas as mãos de Helena.- disse o centauro. -Anéis que foram feitos para ‘caberem’ somente nela. É como um “cartão de identificação”.- explicou. -A garota é uma deusa, portanto, tem a capacidade de mudar as sua aparência, mas os anéis sempre lhe denunciariam.

—Certo. Mas por que dois anéis?- o mais novo perguntou. -Se é só para identificação, para quê dois?

—Os anéis não são só para a identificação.- Quíron falou. -Eles também tem funções mágicas.

—Funções mágicas?- o semideus franziu o cenho.

—Sim, meu rapaz.- o centauro falou com a expressão neutra. -“Funções mágicas” são, no caso dela, definidas como: armamento e retenção de poder.- explicou.

—Então que dizer que em um daqueles anéis há um arsenal de armas?!- falou surpreso. Quíron concordou. -E o outro... “Retenção de poder”...?- perguntou mais para si mesmo. Harry pensou um pouco e quando uma conclusão passou-lhe pela cabeça, ele arregalou os olhos. -Não vai me dizer que aquilo que vi ontem foi só uma amostra do poder de Helena!

—Sim, foi apenas uma parcela do poder dela.- falou naturalmente. -De início ela usaria apenas um anel, mas os poderes saíram de controle. Zeus pediu para fazerem outro anel idêntico ao primeiro, mas que esse retivesse seus outros poderes, deixando apenas o dom de ceifar as almas intacto, já que esse era o principal dom dela e aquele que, se não realizado, poderia “matá-la”.- a corneta para o almoço tocou. -Bom... creio que é muita coisa para pensar. Vai almoçar ou ficar por aqui rapaz?

—Vou ficar por aqui mesmo.- falou o mais novo olhando em direção ao mar. Quíron seguiu para o Pavilhão e Harry continuou a observar o mar, passando as mãos pelos cabelos.

—_//__

Enquanto ele ficava a beira mar, ela estava em seu quarto.

Era horário do almoço, mas “comida” era a última coisa que Helena pensaria. Na realidade, o que ela realmente pensava era na conversa que tinha tido há poucos minutos com Rachel e com a irmã de Harry Campbell, Milena, a qual conhecera agora.

“Após Helena tomar um banho e trocar de roupas, ela e Rachel saíram andando pelo acampamento. Estranhamente, a ruiva não havia tocado no tal ‘assunto’. Ao invés disso, ela mostrava-lhe o acampamento -as diversas alas-, até que pararam à margem do lago.

—Rachel...- Helena chamou-a, que logo se virou para ela. -O que... realmente aconteceu ontem?

—Você só causou a maior bagunça aqui.- uma voz falou atrás das duas, que se viraram para ver quem era. Uma garota cabelos castanho-louro com algumas mechas escuras, pele um pouco queimada pelo sol e olhos tão verdes quanto de certo filho de Poseidon. -Milena. Milena Campbell.- apresentou-se a Helena. -Não se lembra de nada?- perguntou e a garota de olhos e cabelos castanhos negou pelo que parecia a milionésima vez naquela manhã. -É... isso é realmente esquisito.

—Vocês... poderiam me contar? Por favor.- pediu.

—Era por volta de onze horas da noite. Todos já estavam dormindo, inclusive eu, obviamente. Escutei o meu irmão acordar assustado e ofegante, provavelmente por causa de um sonho, ou melhor, pesadelo. Quando eu estava pronta para voltar a dormir, ouvi gritos de dor vindo da Casa Grande. E não só eu, mas todo o acampamento.- Milena disse. -Todos foram correndo em direção da Casa Grande, mas foram barrados por Quíron e o Sr. D. Estava uma confusão total: todos querendo saber o que estava acontecendo, alguns querendo entrar no quarto...- ela suspirou. -Isso tudo piorou quando crateras se abriram no chão e mãos de esqueletos saíram de dentro delas. Todos começaram a correr, tropeçando e até caindo dentro dos buracos, mas eram sempre salvas pelos esqueletos. Eu corri também, mas não para muito longe. Fiquei escondida atrás de uma árvore bem próxima á Casa. Vi quase tudo o que aconteceu depois.- respirou um pouco e continuou. -Meu irmão, o Nathan e o ‘Cabelo’, como chamo o Liam Young, entraram na Casa e subiram até o seu quarto. Minutos depois, dois deles desceram e foram até a enfermaria, ficando apenas o meu irmão lá em cima. Não demorou muito para você parar de gritar... Quero dizer, de urrar. Porque gritar... Você continuou gritando enquanto tinha uma discussão com o meu irmão lá em cima.- a filha de Poseidon sorriu de canto. -Os buracos se fecharam, mas não antes de um ‘pequeno’ exército de esqueletos subir e pararem organizadamente em fileiras. Logo, os gritos de vocês dois pararam e você desceu. E você não estava com um humor nada bom. Repreendia os esqueletos e eu tenho certeza de que você ia esmagar a cabeça de um... Mas um fantasma apareceu. Você, provavelmente, não gostava dele... Mas algo me diz que já foram muito amigos no passado.- ela olhou para Helena. -Vocês começaram a trocar ‘palavras de afeto’, mas logo estavam gritando um com o outro. Até que você deu um basta naquilo tudo. Você começou a flutuar sobre um buraco e foi envolta por uma ‘energia negra’ e, segundos depois, caiu no chão, desacordada.

—Aí vem a parte mais fofa.- Rachel disse animada. -Harry pegou você no colo e você se aconchegou nele. O fantasma começou a conversar com ele e logo depois desapareceu. Todos os outros voltaram até a varanda da Casa Grande e começaram a fazer perguntas e Harry perdeu a paciência e mandou todos irem dormir, depois se virou e levou você pro seu quarto, onde eu encontrei vocês dois quase se beijando hoje.- encerrou aquela narração.

—Espere um pouco aí...- Milena falou. -Ela e o meu irmão estavam quase se beijando hoje?!- A filha de Poseidon perguntou olhando para Helena, mas esta não estava prestando atenção. Ela estava perdida em seus próprios pensamentos, em relação ao que as duas tinham lhe contado. A garota não acreditava no que ela havia feito. -Helena?- Milena chamou-a. Helena olhou-a. Um barulho de corneta soou por todo o acampamento.

—Hora do almoço. Você vai vir?- Rachel perguntou para a morena. -Por que está chorando? ‘Tá tudo bem?- A garota de olhos castanhos passou a ponta dos dedos no rosto e sentiu que este estava molhado. Helena olhou para as duas a sua frente. Sorriu de leve e negou com a cabeça, em seguida saiu correndo em direção à Casa Grande, enquanto secava as lágrimas.”

Ela jogou-se no colchão, olhando para o teto. Ela chorava novamente e martirizava-se por estar chorando. Por que ela chorava? Ela não sabia... Seria culpa? Com isso tudo na cabeça, ela limpou o rosto e pegou seu diário em mãos. Abriu-o e se pôs a desenhar aqueles flashes que passavam por sua mente.

—_//__

Já havia escurecido.

Os campistas haviam realizado suas atividades costumeiras durante a tarde, e entre esses campistas estava Harry. O rapaz havia ficado apenas alguns poucos minutos na praia. Estava agitado, com a cabeça cheia. Precisava desestressar e nada melhor do que um pouco de esgrima para aliviar essa tensão. Passou sua tarde apenas treinando, sem pausas para comer ou beber água. Só parou quando percebeu que estava anoitecendo e que estava sozinho na arena. Colocou sua espada na bainha em sua cintura e retirou a camisa que usava, já que esta estava úmida por seu suor. Saiu da arena e seguiu para o seu chalé, com o intuito de tomar um banho. Quando chegou à área dos chalés, muitos direcionaram seus olhares para ele — lê-se: garotas -. Ele mantinha sua expressão neutra, apenas respirava um pouco forte, devido ao exercício. Chegou — finalmente- ao seu chalé e fechou a porta, seguindo direto para o banheiro que lá tinha.

Saiu de lá vinte minutos depois, já devidamente vestido com uma bermuda, uma camiseta do acampamento e tênis. Enquanto estava no banho, a corneta para o jantar havia tocado. Então ele apenas seguiu para o Pavilhão do Refeitório. Chegou lá, sentou-se em sua mesa-que estranhamente estava vazia. Sua irmã sempre chegava primeiro que ele- e logo pediu sua refeição. Fez sua oferenda e pôs-se a comer, não ligando para nada que acontecia a sua volta. Quer dizer, quase nada. Fixou seu olhar na garota de cabelos castanhos e pele pálida que entrara no pavilhão de cabeça baixa, e atrás dela estavam Rachel e sua irmã, Milena. Harry notou o quão bela Helena estava — típico garoto apaixonado. Usava apenas um jeans azul, um suéter de lã preto e All Star da mesma cor do suéter, com os cabelos presos em uma trança lateral. Não usava mais nenhum adorno — a não ser seus anéis em forma de rosa. A garota sentou-se na mesma mesa que Quíron e o Sr. D, juntamente com Rachel. Milena seguiu até ele, mas o rapaz não percebera sua presença até ela dar-lhe um leve tapa em sua cabeça.

—Sai do mundo da lua, apaixonadinho.- ela falou em meio a uma risada, sentando-se.

—Não tem ninguém ‘apaixonadinho’ aqui.- ele resmungou.

—Com certeza não.- era notável a ironia na voz dela. -Para de olhar pra ela assim! Ela vai achar que você quer comer ela.- a garota falou após perceber que o irmão ainda olhava para a morena de olhos achocolatados. Harry iria retrucar, mas Quíron falou primeiro.

—Semideuses, peço que fiquem quietos, por favor.- Quíron pediu calmamente, mas a barulheira ainda continuava. -Semideuses, por favor...- ele pediu mais uma vez, mas ninguém ouviu.

—CALADOS, PESTES!- Dionísio gritou, já alterado. Os semideuses rapidamente ‘fecharam o bico’.

—Obrigado Sr. D.- o centauro disse e em seguida pigarreou. -Pois bem, semideuses. Apenas chamo-lhes a atenção para escutarem o que Helena tem a dizer.- um burburinho se espalhou por todo o Pavilhão. Quíron mexeu a cabeça, em sinal para que Helena se levantasse. A garota engoliu em seco e foi para a frente da mesa, onde todos podiam vê-la de corpo inteiro.

—Gostaria de pedir-lhes minhas sinceras desculpas pela confusão que causei noite passada.- ela falou num tom suficientemente alto para que todos escutassem. -Sei que muitos perderam sua noite de sono e, consequentemente, isso atrapalhou em seus treinamentos. Por isso, peço que me perdoem. O que fiz foi completamente inadmissível. Tentarei não causar mais nenhum tipo de problema a vocês.- ela falava com seriedade, apesar das bochechas coradas.

Palmas foram ouvidas, mas não eram os semideuses que aplaudiam. Quer dizer, não todos eles, apenas um. Liam Young.

—Meus parabéns!- ele falou enquanto ainda batia palmas sarcasticamente. -Foi um discurso bem convincente. Para os outros, não pra mim e meus irmãos ali naquela mesa.- apontou para a mesa do chalé cinco, a qual havia um bando de semideuses mal- encarados e um ou outro estralava os dedos das mãos. -Sabia que por sua causa, Bruce quase teve a cabeça decepada hoje?! Isso porque ele não conseguiu dormir direito!

—Pare de fazer tanto drama por nada.- Helena disse sarcasticamente, mas logo se repreendeu. Aquela não era ela.

—Mas olhem só! A garotinha ‘inocente’ tem uma língua afiada.- ele falou alto. Os olhares de todos se direcionaram aos dois.

—Não fui eu quem...- ela começou a falar, mais o filho de Ares a interrompeu.

—Pare de mentir!- ele exclamou, assustando-a. -Desde que você chegou aqui, só causou problemas! Primeiro o manticore e agora esses gritos e tremores!- ele gritou. Ela já estava de cabeça baixa e lágrimas teimavam em cair de seus olhos. Ele segurou-a pelo queixo, obrigando-a a olhar para ele.

—Liam, pare.- uma voz falou atrás dele. Era Harry. Ele não aguentava mais ficar sentado observando a cena. Sua irmã tentou impedi-lo, mas não conseguiu. -Solte-a agora.

—Ora ‘cara de peixe’, vai defendê-la?- falou em meio a um riso sarcástico, ainda de costas para Harry e segurando fortemente o queixo de Helena. -Todos sabemos o que ela é...- ele pressionou ainda mais o queixo dela. -Uma inútil. Uma fraca.- praticamente cuspiu tais palavras na face dela. Harry puxou o braço de Liam, cujo a mão segurava o queixo da garota.

—Eu disse pra parar!- O filho de Poseidon exclamou, segurando o filho de Ares pelo pulso.

—Por que eu deveria?- perguntou Liam. -Ela não serve para nada! Serviria mais se estivesse morta!- exclamou e, em seguida, ele e Harry começaram a discutir.

Helena pôs as mãos em suas orelhas, mas não derramou suas lágrimas. Ela, na realidade, estava com os olhos arregalados.

—Morte...?- ela sussurrou. Retirou as mãos das orelhas, mas manteve a cabeça baixa.

Ela ouvia batidas... Batimentos de um coração. Elas começaram a acelerar. Aceleravam. Aceleravam mais e mais. Até que simplesmente pararam. Como uma parada cardíaca, só um som de ‘piii’ era ouvido, daqueles que são ouvidos em um monitor cardíaco.

Um barulho de uma flecha sendo disparada, mas não houve som algum de ‘flecha que acertou o alvo’, pois ela realmente não havia acertado o alvo. Parou a poucos centímetros dele... Mas por quê? Simplesmente porque o alvo era a cabeça da garota de olhos e cabelos castanhos.

Todos viram a flecha parar quase que instantaneamente perto da têmpora direita da garota. Os dois semideuses a frente dela pararam de discutir e olharam aquela flecha ao lado da cabeça de Helena. A flecha foi envolta por uma energia negra, assim como a mão da garota, que, quando levantou a mesma e fechou-a em punho, a flecha desintegrou-se. A garota de olhos e cabelos soltou uma risada fria e sarcástica. Abaixou a mão e esta deixou de estar envolta pela energia negra. Ergueu a cabeça e olhou para os dois a sua frente e sorriu sem mostrar os dentes. Seus olhos castanhos estavam opacos. Ela olhou para a sua direita e começou a andar naquela direção. Passos lentos e curtos.

Enquanto andava, murmurava uma canção.

“... E a sensação de ter o sangue dos culpados em minhas mãos era tão revigorante...

Que eu quero mais...

Muito mais...”

As tochas do Pavilhão perderam um pouco de sua luz, deixando a iluminação escassa e atormentadora. Era possível ouvir apenas a respiração dos semideuses- que tentavam não entrar em pânico, a voz e os passos de Helena.

—Onde estás?- falou ela, a voz fria como gelo ainda continha traços de doçura. -Vamos, apareça. Sei que está aí...- as tochas voltaram a brilhar com mais intensidade.

Ouviram-se alguns murmúrios, mas Helena os conteve, fazendo apenas um ‘Shiu’ e colocando o dedo indicador sobre seus próprios lábios. Ela sorriu e virou-se de lado. Em seguida gesticulou com a boca e dedos: “Três, dois, um”. Uma flecha veio novamente de sua direita, mas dessa vez ela não a parou. Na verdade, ela segurou a flecha com a mão e sorriu, quebrando a mesma ao meio.

Olhava para todos os cantos, até que viu um vulto passar correndo atrás de si e, antes que ele cruzasse por suas costas, ela colocou um pé um pouco para trás e o tal vulto tropeçou e caiu. Uma bainha com uma espada de ferro estígio apareceu na cintura de Helena. A garota chutou o vulto de forma que ele ficasse com o rosto virado para cima. Colocou seu pé no peito dele, sacou sua espada e apontou para o pescoço da pessoa, olhando-o superiormente.

—Quem é você?