Nick conduziu seu trenó por pouco mais de meia hora; mas esse tempo pareceu passar de maneira diferente para as garotas. Uma floresta durante o pôr do sol é com certeza uma visão maravilhosa para se ter. As árvores de ambos os lados da estrada esticavam seus galhos como se quisessem tocar umas às outras, formando um telhado vivo; suas folhas secas forravam a estrada, fazendo um farfalhar engraçado conforme se quebravam debaixo dos cascos do cervo e dos trilhos do trenós; e os raios de sol, filtrados naqueles galhos, ganhavam pálidos tons de verde e laranja. A sensação do vento nos cabelos delas já era uma velha conhecida de quando elas andavam de moto, mas agora, naquele cenário, era tudo ainda melhor.

Nick entrou em uma parte densa da floresta com muitas árvores grandes e altas, e parou seu trenó perto de uma árvore com um pequeno ninho com as palhas pintadas de branco. Desceu e caminhou até a árvore, passando os dedos no tronco devagar. O pequeno fauno pulou para o lugar do seu amigo e segurou as rédeas do cervo, esperando. Nick encontrou uma corda escondida no tronco e começou a puxar ela com as duas mãos; um grande arbusto logo mais adiante começa a se levantar subindo até a copa das árvores, revelando um galpão de madeira clara. O pequeno fauno moveu as rédeas e o cervo caminhou pra frente, entrando no galpão. Nick entrou logo atrás, e o grande arbusto — que agora era possível ver que era uma porta de madeira disfarçada, daquelas de garagem — desceu, fechando o galpão. O pequeno fauno correu até uma das prateleiras das paredes e acendeu uma lamparina.

Nick caminhou até o fundo do galpão e abriu uma porta de madeira revelando o início de uma escada.

— Moças, vamos subindo! — Nick sorriu, segurando a porta.

— Elas devem estar com fome! — o fauno sorriu, correndo na direção dele.

— Sabe quem mais está? O Bernard. — Nick disse, fazendo o fauno abaixar as orelhas e bater os cascos no chão com força — Não adianta reclamar, sabe o que acontece se não alimentar ele.

— Ele começa a pular e não dá pra controlar. — O fauno repetiu, imitando a voz do Nick, caminhando em direção à porta. — Eu sei, eu sei, eu sei...

— Bernard? — Megan riu debochada — Por que não Rudolph?

— Rudolph? Isso não parece nome de cervo, moça! — Nick retrucou.

— É porque é nome de rena, e Bernard também. — Alba disse, começando a subir as escadas.

— Não tenho orçamento para ter renas, moça, — Nick fez um gesto para que Megan fosse na frente dele, e ela obedeceu — eu não sou meu pai. Sou um cara simples.

As escadas rodeavam o grande tronco de carvalho onde estavam fixadas, e o seu corrimão era coberto de plantas trepadeiras que escondiam as escadas de olhos curiosos. Na altura da copa das árvores havia uma casa de madeira sobre uma plataforma com sacadas. Megan lembrava de quando era criança e seu avô construiu uma casa na árvore junto com ela e sua irmã. Mas esta era um pouco maior.

Nick correu e abriu a porta da casa, entrando logo em seguida. Era um lugar pequeno, tinha uma cama e uma rede num canto, um fogão a lenha, pia e armários para a louça na parede da janela onde estava a porta, na parede de frente a porta tinham prateleiras com livros e cadernos e por todo lugar tinham caixas e embrulhos de todos os tamanhos e formas.

— Meio bagunçado... — Megan sussurrou, afastando uma meia de cima de uma chaleira.

— Não recebemos muitas visitas... — Nick pegou a meia e guardou no bolso.

Alba prontamente se ofereceu para ajudar, mas Megan não era muito boa nisso, então desceu as escadas e foi atrás do pequeno fauno, que estava do lado de fora prendendo o cervo em uma árvore próxima.

— Ele precisa comer sempre ou fica muito agitado. — O fauno disse, tentando levantar um saco grande de aveia.

Megan pegou o saco das mãos dele e ajudou a despejar em uma bacia de metal.

— As pessoas por aqui não gostam muito dessas tais "filhas de Eva"? — Megan perguntou.

— Desde que o último descendente do rei Franco morreu, as pessoas em Nárnia não confiam em filhas de Eva. Culpa da Senhora Branca. Dizem por aí que foi ela quem o matou. — O pequeno fauno contou.

Houve um silêncio estranho naquele momento. Megan não sabia quem era essa Senhora Branca, mas não parecia ser boa pessoa.

— Eu estou estudando, sabia? Aprendendo muitas coisas. — Ele sorriu pra ela, todo orgulhoso. — Quando meus chifres nascerem, eu vou ter estudado muito, e vou ser tão sábio quanto meu pai.

Megan sorriu, enquanto via o garotinho passar os dedos no pelo curto do cervo. Era tão lindo ver uma criança empolgada com algo, fez ela lembrar o quanto estava empolgada para ver a biblioteca.

Megan piscou os olhos, sentindo as engrenagens da sua cabeça começando a trabalhar. Aquele vento forte depois do incêndio levou o livro das mãos dela, e ela precisava recuperar. Mas como? Ela precisava de um plano.

Alba gritou no alto da sacada chamando para jantar. O plano teria que esperar.

Notas finais
Sim, eu tenho uma quedinha por cenários. As coisas parecem mais coloridas assim.