O jantar era realmente muito simples. Nick havia tirado algumas caixas de uma roda enorme de carretel meio antiga, e colocou uma toalha verde, que Megan mordeu os lábios para não comentar que era um lençol.

Alba serviu os pratos para todos. Haviam legumes grelhados na manteiga, linguiças fritas, pão caseiro quente e de sobremesa uma compota de amoras que o pequeno fauno encontrou. Não era um jantar luxuoso, mas parecia muito a comida da mãe delas.

Depois do jantar, Alba ocupou-se em ajudar o pequeno fauno com seus estudos de matemática e astronomia, enquanto Nick improvisava camas extras com cobertores, travesseiros e sacos de viagem.

— Todas essas caixas são encomendas? — Megan perguntou, segurando algumas almofadas.

— Sim, moça, — Nick respondeu, colocando um lençol sobre a cama improvisada.

— E você pretende entregar a maioria amanhã? — Megan continuou.

— Sim, moça. — Nick colocou o travesseiro das mãos dela na cama.

— E você pretende passar por onde nos encontrou? — Megan insistiu.

— Sim. Moça. — Nick olhou para ela suspirando baixinho mordendo os lábios.

— Então já é ajuda suficiente. — Alba disse. — Podemos encontrar nosso livro perdido sozinhas a partir daí.

— E como é o livro de vocês? — o pequeno fauno perguntou.

— Ele é grande e meio pesado com muitas páginas, — Megan descreveu, ignorando os apelos silenciosos da irmã para que ela ficasse calada — a capa é marrom, mas a lombada e as bordas das páginas são douradas. E o título fica mudando...

— Mudando? — Nick sentou na rede, olhando desconfiado.

— Imagina, "mudando"... — Alba riu para o rapaz, lançando um olhar fulminante para a irmã — minha irmã é disléxica, para ela todas as letras mudam de lugar... Mas estava escrito em dourado, então não ajuda muito pra enxergar...

Nick olhou desconfiado para o garotinho, que retribuiu o olhar.

— Bem moças, onde quer que seu livro brilhante esteja, só poderemos encontrar pela manhã. Então é melhor dormir. — Nick disse, acomodando-se na rede.

***

— Não sabia que temos serviço de entregas em Nárnia. — Lúcia disse, olhando um esquilo andar nos galhos do carvalho logo acima.

— Ora, é fácil para a senhora, que pode pedir para qualquer pessoa e ela fará com alegria. — Tumnus riu, trançando suavemente os cabelos dela. — Mas até que era bom ter alguém a quem fazer encomendas. Facilitava as coisas.

— Será que tem alguém que ainda preste esse serviço? — Lúcia pegou uma flor na relva e equilibrou suavemente no nariz. — Quer dizer, não só para nós aqui no palácio.

— Não sei dizer.

— Me lembre de fazer algo a respeito depois. — Lúcia fechou os olhos outra vez.

***

Megan acordou ouvindo barulhos suaves. Olhou envolta, mas a lamparina estava apagada há muito tempo, e os galhos das árvores lá fora não deixavam a luz da lua passar, então estava muito escuro. Ela passou a mão na cama ao lado para acordar a irmã, mas estava vazia. "Não deve ser nada," ela pensou, suspirando, fechando os olhos "ela só foi no banheiro".

— Ela ainda está se mexendo? — Megan ouviu o pequeno fauno sussurrar.

— Eu. Não. Ligo. — Nick suspirou, colocando o chapéu no rosto outra vez. — Vai dormir, amanhã levantamos cedo. Quero me livrar dessas duas o mais rápido possível.

— Não fale assim! Elas podem te ouvir! — o garotinho sussurrou, alarmado — E sabe-se lá o que essas bruxas podem fazer! E se te transformarem num sapo? Eu não vou cuidar de você! Não sei cuidar de sapos!

— Ninguém vai virar sapo, garoto, — Nick resmungou — sossega e vai dormir. Elas só vão ficar por esta noite.

— Se os regentes de Cair Paravel descobrem que estamos dando abrigo para bruxas, — o pequeno se apavorou — eles podem fazer coisas horríveis... tipo tirar nosso trenó... e o cervo... e eu não vou mais ser aprendiz... e eles podem até falar com o chefe dos centauros... — o pequeno começou a chorar — .... e ele vai contar pro meu pai... e eles nunca vão deixar meus chifres nascerem...

— Hey, Pan, calma... — Nick sentou-se na rede, passando os dedos nos cabelos cacheados do fauno — vai ficar tudo bem, de manhã vamos resolver isso, tá legal?

O garotinho passou os dedos no rosto limpando as lágrimas.

— Você acha que eles vão me dar esse nome?

— Seria legal se o conselho dos faunos te desse esse nome. Mas não tem como saber. Mas você vai ganhar um nome bem poderoso, campeão. — Nick deitou outra vez na rede, cobrindo o rosto com o chapéu. — Agora vai dormir.

Megan esperou até que ambos estivessem num sono profundo, levantou da sua cama, pegou os sapatos e desceu as escadas com rapidez. Do lado de fora, uma coruja piou alto, e ela tomou um susto, caindo os últimos degraus da escada e abrindo a porta com o próprio corpo, caindo no chão do galpão.

Ela levantou do chão resmungando e deu alguns passos na direção do trenó, batendo a poeira da roupa. A porta do galpão se fechou com força, e uma luz azul iluminou seu rosto, fazendo ela cobrir os olhos.

— O que está fazendo aqui?

— O mesmo que você, pelo visto. Não consigo dormir. — Megan sentiu a cabeça doer por causa da luz. — Será que dá pra desligar a lanterna do celular? Aliás, como ele ainda está funcionando?

— A bateria está cheia, — Alba colocou o celular no alto de uma prateleira — mas aqui não tem rede. Acho que não tem satélites ou antenas em um mundo encantado.

— Não dá pra ligar pra mamãe, nem pra polícia. Embora a polícia seria útil agora... — Megan sussurrou — eles estão com medo de nós, agora há pouco ouvi eles sussurrando, nos chamaram de bruxas...

— Nada que a gente já não esperasse. As pessoas tem medo do que não entendem. Além, é claro, do fato de que as pessoas em mundos medievais acreditam que tudo é magia e... — Alba pegou o celular da prateleira — o que é aquilo brilhando?

Alba entregou o celular na mão da irmã e subiu no trenó, puxando o pano que cobria algumas caixas e embrulhos. Debaixo de um cobertor vermelho vinha um brilho forte, e Megan subiu também no trenó para olhar mais de perto enquanto a irmã puxava o objeto para o seu colo, passando os dedos na capa e tirando poeira de fuligem e cinzas. Com sua capa marrom e a lombada dourada, o livro estava ali, intacto.

Notas finais
O.O