Where's My Love
9 Capítulo 9
Bem, duas pessoas, se levar em consideração que eles não tinham conseguido resgatar Hazel.
— Era como se eles estivessem nos esperando — começou Jason. — Fomos pegos de surpresa. Tinha gente deles no nosso grupo
— Espiões — confirmou Percy, olhando para Nico. — Então ela falou sério.
— Eles nos atacaram por trás, foi revoltante — Piper cerrou os dentes. — Tentamos reagir, mas então os monstros nos cercaram… E aquela mulher…
— Melinoe — disse Nico. Sua expressão assumindo um traço sombrio.
— E-ela… — gaguejou Piper, empalidecendo. — Eu vi…
— Fantasmas — concluiu Reyna. A pretora parecia extremamente contida, embora Percy pudesse ver os traços do mesmo medo de Piper nos seus olhos. — Estavam por toda parte...
— Reyna… — Nico se aproximou da garota.
Ela pousou uma mão em seu ombro e Nico segurou seu pulso.
— Está tudo bem agora. Mas… Foi impossível lutar daquele jeito. Nenhum de nós estava pronto para aquilo. Foi quando eles pegaram Leo.
Um silêncio sombrio tomou conta da arena, de forma que era possível ouvir somente os grilos cantando ao longe. Percy sentiu seu sangue ferver. De repente a ideia de deixar tudo para trás e ir para São Francisco não parecia nem um pouco plausível.
— Não conseguimos nem chegar perto de Hazel — continuou Reyna. — Eles aproveitaram enquanto Melinoe… Nos atormentava… Pegaram Leo e sumiram nas sombras. Me desculpe.
Nico baixou o olhar. A maneira como suas feições se torceram fizeram com que Percy quisesse se aproximar do garoto e tentar confortá-lo. Mas Reyna fez isso em seu lugar.
— Eles… Eles querem mesmo nos usar em um… Ritual de sacrifício? — perguntou Frank, olhando esperançoso para Percy, esperando que ele negasse. Mas Percy apenas assentiu, como havia feito nas outras três vezes que os semideuses repetiram a pergunta.
— Isso é loucura. Eu sei — disse ele.
— Mas então, você disse que Perséfone sequestrou vocês? — perguntou Jason. — Por que ela faria isso depois de nos avisar para ir ao cemitério?
Nico e Percy se entreolharam.
— Ela tem um plano — disse o garoto, amargamente.
— Prossiga — pediu Quíron, que ouvia a tudo em silêncio.
Percy e Nico tentaram seu melhor para explicar a proposta da deusa. Os semideuses apenas ouviam a tudo, as sobrancelhas descendo mais sobre os olhos a cada palavra. Quando terminaram, Quíron se adiantou:
— Não seria sábio recusar a oferta de uma deusa. Devemos tornar isso uma missão oficial.
— Mas e quanto a Hazel e Leo? — Frank cerrou os pulsos. — Não podemos simplesmente esperar sem fazer nada…
— Precisamos descobrir onde fica esse esconderijo deles — disse Jason. — Fazemos isso enquanto Nico e Percy vão para São Francisco.
— Vou colocar as caçadoras nisso — adiantou-se Thalia. — Eles não podem ter ido muito longe. Vamos encontrá-los.
Quíron assentiu.
— Precisamos agir com cautela, no entanto. Melinoe não se importará se o solstício chegar e ela não tiver vocês seis para o sacrifício. Ela vai manter Leo e Hazel vivos até lá.
— Então está decidido — Reyna afirmou como um juíz que bate um martelo ao fim de uma sessão de tribunal. — Vamos mantê-los focados em nós e ganhar tempo. Se não conseguirmos resgatar Leo e Hazel, usaremos a semente como barganha.
— E rezar para que Mia enxergue a razão… — disse Piper.
— Se ela não enxergar eu mesmo a mando para o Mundo Inferior — os olhos de Nico assumiram um brilho intimidador por baixo da franja. — Ela foi longe demais.
— Ela não vai estar sozinha — lembrou Jason. — Mas todos aqueles semideuses estão fazendo isso por ressentimento. Se eles virem que existe um chance de conseguirem o que querem sem ter que lutar...
— Acha mesmo que eles se importam? — indagou Nico. — Eles pareciam muito dispostos a sacrificar todos nós se fosse preciso. Isso é covardia pura.
— Eles podem mudar de ideia quando virem a semente — insistiu Jason.
— Ótimo, vamos confiar a vida de Hazel e Leo em falsas esperanças...
Reyna virou-se para ele.
— Vamos conseguir. Concentre-se em achar a semente. Vamos garantir que Hazel fique bem — ela tentou confortá-lo. — Mesmo se a semente não convencê-los, vamos estar prontos.
Nico pareceu escutá-la, mesmo que ainda relutante. Ele assentiu.
— Quanto mais cedo sairmos, melhor — disse Percy.
O sol em breve daria seus primeiros vestígios de vida.
— Percy tem razão — assentiu Quíron. — O solstício está próximo e a viagem será longa.
Com isso ele dispensou a reunião. Os campistas e as caçadoras começaram a se dispersar. Thalia lhe lançou um olhar de reafirmação antes de deixar a arena com as companheiras. Percy observou enquanto Jason e Frank se uniam a Reyna para tentar acalmar Nico. Ele começou a andar em sua direção, mas Quíron se colocou em seu caminho.
— Percy — começou o centauro, uma ruga de preocupação surgindo entre suas sobrancelhas. — Quero que me diga com sinceridade, você acha que já está pronto para outra missão?
Percy ergueu os olhos para o centauro, perguntando-se como ele tinha adivinhado suas dúvidas internas, mas então lhe ocorreu que Quíron estava mais do que acostumado a lidar com semideuses na situação de Percy.
— Não é como se eu já não tivesse feito isso antes — disfarçou ele. — Não é nada novo.
— Eu sei, meu garoto. Mas é importante que não se sinta pressionado a ir… Vamos entender se você não…
— Eu estou bem. — cortou ele, mais seco do que esperava. Fechou os olhos e pigarreou, tentando remediar. — Eu… Eu dou conta, Quíron. Mas obrigado por se preocupar.
O centauro lhe lançou um sorriso de lábios comprimidos.
— Está certo. As vezes eu me esqueço como vocês crescem rápido… — a voz de Quíron assumiu uma entonação emocional de repente, mas logo voltou ao normal. — Tome cuidado. E viagem em segurança.
Percy riu pelo nariz.
— Você sabe que isso é impossível. Mas claro, vou tentar.
Quíron se despediu dele e saiu trotando para fora da arena.
Nico olhou de esgueio para ele do outro lado, ainda cercado pelos amigos. Uma compreensão mútua de que deviam arrumar as coisas e deixar o acampamento ocorreu. Eles começaram a caminhar em direção a saída e Percy os seguiu. Reyna olhou para trás por um instante e interrompeu Percy. Nico e os outros seguiram em frente, deixando-os sozinhos.
— Quero te pedir uma coisa — disse a garota, assumindo uma expressão séria. — Você sabe que Nico é… um pouco… cabeça dura.
— Eu nem tinha percebido — brincou ele, mas a pretora lhe lançou um olhar de advertência.
— Não temos muito tempo. Ele vai insistir que vocês viagem pelas sombras para chegar mais rápido — continuou ela. — Percy, não deixe ele fazer isso.
É claro que ele sabia que não deveria incentivar Nico a usar as sombras. Sabia tanto quanto ela o que aquilo custava do garoto.
— Você sabe que ele pode simplesmente desaparecer e não dar a mínima para o que eu disser, certo?
— É por isso mesmo que você tem se impor. Por favor, aconteça o que acontecer, não deixe ele fazer uma loucura…
Percy franziu o cenho. Reyna obviamente tinha experiência viajando com Nico. Eles haviam transportado a gigantesca estátua de Atena da europa aos Estados Unidos. Algo nos olhos da pretora, a urgência com que falava, lhe dizia que ela havia visto mais terrores naquela viagem do que Percy acreditaria. Ela e Nico pareciam ter criado um laço muito forte depois da jornada e ela se importava de verdade com o garoto.
— Eu entendo, Reyna.
Ela balançou a cabeça.
— Eu achava que entendia também… Mas, eu tive que ajudá-lo — continuou ela. — Eu emprestei minha força para ele para que pudéssemos continuar a viagem. E o que eu senti… A dor que ele carrega… Você não faz ideia.
A mente de Percy se embaralhou por um momento. A dor que ele carrega… O que ela queria dizer com aquilo? Ficou tentado a perguntar, mas sentia que as palavras de Reyna estavam carregadas o suficiente de verdade para ela não querer de fato tocar no assunto.
— Só… Cuide dele, está bem? — pediu ela. — Como ele vem cuidando de você.
Percy assentiu lentamente, sem saber se havia entendido a última parte.
— Ele vai ficar bem. Eu prometo.
As feições duras da pretora pareceram se aliviar um pouco. Ela acenou com a cabeça, com um sorriso contido.
— Obrigada. Nos vemos em breve.
Então ela deixou a arena e um Percy um tanto confuso para trás. Ele tentou processar as informações, mas seu cérebro decidiu que não tinha tempo, nem energia para isso naquele momento.
Seguiu para seu chalé para arrumar uma mochila com algumas trocas de roupa, um cantil com néctar, algumas dracmas e o pouco dinheiro mortal que tinha. Seu despiu da armadura que ainda pesava em seus ombros desde o jogo de captura a bandeira e trocou a camiseta laranja por outra limpa, por fim pegou o único casaco que havia levado para o acampamento por insistência de sua mãe. Era um moletom azul simples, que ele carregava consigo apenas para a remota possibilidade do tempo esfriar de repente. O que era muito improvável no calor insuportável que o verão trazia.
Isso lhe fez lembrar que deveria avisar Sally que estava deixando Nova Iorque e que se tudo funcionasse como planejado, estaria de volta em alguns dias, sem nenhum membro faltando. Fez a ligação através de uma mensagem de Íris e tentou explicar à mãe, sem deixá-la apavorada, que um bando de semideuses irritados queriam usar ele e seus amigos em um ritual de sacrifício e a própria deusa das oferendas estava tomando conta disso pessoalmente. Mas não havia motivo para se preocupar.
Depois das mil recomendações de Sally, uma delas sendo que ele não esquecesse o casaco, ele se despediu da mãe e deixou o chalé esperando que não tivesse esquecido nada importante.
Nico o esperava do lado de fora com as mãos enfiadas nos bolsos da jeans escura e a mochila de Perséfone nas costas. Trazia a espada negra presa ao cinto e vestia uma camiseta preta simples, que, Percy notou com surpresa, não tinha uma estampa de caveiras dançando nem nada do tipo. Tinha apenas os dizeres, em letras pequenas: "Estou acordado. Por favor respeite minha privacidade durante esses tempos difíceis." Percy achou simplesmente perfeito.
— Tudo pronto? — perguntou ele. Nico assentiu.
— Não precisei pegar muita coisa. Perséfone pensou em tudo — aquilo parecia irritar o garoto. Ele apontou a mochila em suas costas. — Dracmas, dinheiro, néctar… Até um saco de dormir.
Percy teve dificuldade de imaginar um saco de dormir cabendo em uma mochila que claramente não tinha tamanho para aquilo. Mas concluiu que a magia dos deuses não conhecia limitações como falta de espaço.
— Então é melhor irmos andando. O sol vai nascer logo.
Percy começou a caminhar na direção dos estábulos mas Nico não o acompanhou. Ele parou e olhou para trás.
— Posso nos levar pelas sombras em três dias — disse Nico.
A conversa com Reyna imediatamente lhe veio a mente. Ele não esperava que teria que lidar com aquilo tão cedo. Nico é mesmo teimoso. Deuses.
— Não vamos pelas sombras, é longe demais — cortou Percy. — Will te mataria. E depois me mataria por deixar.
— Percy, minha irmã está sendo mantida refém por um bando de lunáticos e monstros. Não temos tempo para ficar me poupando de usar meus poderes.
— Você deve ter esquecido do que seus poderes fizeram com você da última vez — disse Percy. — Mas eu não esqueci.
— Eu realmente não me importo com o que acontece comigo — insistiu o garoto. — Se é isso que preciso fazer pra salvar Hazel, então vou fazer.
Percy ficou sem argumentos por um momento. A determinação do garoto e seu amor pela irmã era maior do que qualquer coisa que ele pudesse dizer para fazê-lo mudar de idéia. E isso era algo que Percy não podia negar que admirava no garoto… Mas ao mesmo tempo queria estrangulá-lo. A negligência de Nico consigo mesmo deixava seus nervos pegando fogo. Ele entendia a urgência, o prazo era muito curto e a vida de seus amigos estava em jogo. Mas isso não significava que Nico deveria ser praticamente morto para salvá-los. De novo não.
— Mas eu me importo — disse, por fim. — Não vamos pelas sombras.
Nico arregalou os olhos. Por um momento suas feições pareciam não saber como se comportar. Então ele fechou a cara e o fitou por cima das sobrancelhas. Percy sustentou seu olhar perfurante e os dois garotos ficaram numa guerra silenciosa de olhares por quase meio minuto. As pálpebras de Percy estavam quase cedendo quando Nico desistiu. Ele se virou e ergueu os braços impetuosamente, amaldiçoando Poseidon e seu filho impossível. Percy sorriu, triunfante.
— Já que estamos de acordo… — Percy indicou o caminho a frente.
Nico o fuzilou com o olhar, claramente insatisfeito.
— De todas as pessoas, tinha que ser ele… — ele passou por Percy resmungando baixo.
— Eu sei que lá no fundo você está me agradecendo por isso — provocou Percy, seguindo-o.
— Perséfone deve me odiar muito mesmo… — continuou o garoto, em um monólogo. — Eu podia fazer isso sozinho sem problema nenhum.
— Claro que podia. Você só ia se matar no processo — rebateu Percy, embora achasse que Nico não o escutava. Ou se escutava, não dava a mínima.
— Eu não preciso de uma babá...
— Mas alguém tem que tomar conta de você.
Atravessaram a área dos chalés e seguiram até os estábulos. O acampamento ainda estava agitado devido aos acontecimentos recentes. Em um dia normal os semideuses já estariam na cama há horas e as harpias devorariam qualquer um que estivesse vagando por aí fora do horário permitido.
Blackjack descansava perto dos outros pégasos, mas quando avistou Percy levantou-se na hora.
Ei chefe, hora de pegar a estrada?
— É isso aí, vamos precisar de mais uma ajuda sua — disse ele. — Mas vamos mais longe agora, então talvez seja uma boa ideia você não carregar nós dois dessa vez.
Blackjack cutucou com a asa um dos pégasos que dormia ao seu lado. Guido se ergueu, sonolento.
O quê? Está na hora dos torrões de açúcar?
Não viaja, cara. Temos trabalho a fazer.
Guido se levantou contra sua vontade e os dois pégasos deixaram o estábulo. Percy deixou que Nico montasse Blackjack dessa vez, o garoto parecia ter mais afinidade com seu pégaso do que com o outro. Quando estava confortável nas costas de Guido, os dois cavalos alados pegaram distância do estábulo e decolaram rumo a escuridão.
Enquanto o acampamento ficava para trás, Percy achou que havia algo errado com ele. Poucos momentos atrás ele sentia que não se encaixava ao lugar tão bem quanto antes… Mas agora, com os campos de morango e a colina sumindo a distância, e alguns de seus amigos erguendo a mão em despedida lá embaixo, desejou que pudesse voltar logo.
Fale com o autor