Where's My Love

10 Capítulo 10


Notas iniciais
Pelos deuses, já estamos no capítulo 10! Passou tão rapidoo Boa leitura!

O sol já invadia o céu quando Blackjack e Guido começaram a perder altitude.

Estavam voando há horas, haviam feito uma única parada para descansar. Mas se Percy estava exausto de somente sentar-se e assistir as rodovias passarem lá embaixo, não podia imaginar como estava seu amigo pégaso.

Nico havia desmaiado no pescoço de Blackjack. O Pégaso negro tentava seu melhor para manter um voo suave e equilibrado, mas Percy podia sentir que ele estava quase desmaiando.

— Acho que aqui já está bom, vamos descer.

Graças aos deuses, disse Guido, sonolento.

Ainda estamos beeem longe de São Francisco, chefe, Blackjack bocejou, Eu posso continuar…

O pégaso se desequilibrou momentaneamente, tombando para o lado, mas voltou no mesmo segundo. Nico acordou bruscamente e soltou um grito de pânico enquanto se segurava desesperadamente na crina de Blackjack.

— Cuidado — disse Percy. Nico lhe lançou um olhar mau humorado.

Blackjack sacudiu a cabeça.

Desculpe, chefe! Eu estou bem, estamos bem!

Você vai acabar matando o garoto.

— É melhor evitar um acidente aéreo — disse Percy. — Vamos pousar.

O pégaso por fim obedeceu e logo eles estavam voando baixo sobre uma rua residencial pouco movimentada de Washington DC. Guido aterrissou sem muita sutileza, fazendo Percy agradecer por estar de volta à terra firme. Ele e Nico desceram para o asfalto e por um momento Percy achou que tinha deixado seu traseiro para trás. Os músculos dormentes das pernas lhe davam uma sensação estranha ao pisar no chão.

— Obrigado — disse ele, esfregando as costas. — Vocês ajudaram muito, mas vamos por conta daqui em diante.

Tem certeza, chefe?

— Tenho sim. Descansem um pouco e voltem para o acampamento. Vamos ficar bem

Você quem manda. Mas se precisar de nós, é só chamar!

Eles se despediram e deixaram os pégasos comendo a grama do jardim de uma das casas.

Seguiram reto até o caminho lhes levar a uma avenida. Percy não fazia ideia de onde estavam indo, mas Nico parecia conhecer a região melhor que ele. O filho de Hades os levou ao McDonalds mais próximo, e foi só quando Percy sentiu o cheiro de hambúrguer que percebeu o quanto estava com fome. Usaram um pouco do dinheiro deixado por Perséfone para comprar cheeseburgers, batatas e refrigerante.

Encontraram um parque no meio da cidade com mesas de piquenique à sombra das árvores e áreas para churrasco, o que era bem melhor do que um ambiente fechado caso fossem surpreendidos por monstros. Alguns mortais corriam e se exercitavam ou vigiavam suas crianças brincando no gramado. Ainda era cedo, mas o sol do verão já queimava tudo ao seu alcance.

Nico mastigava em silêncio a sua frente. Seus olhos escuros muito focados nos veios irregulares da mesa de madeira, as sobrancelhas franzidas quase formando um “v” em sua testa. Percy não sabia se o garoto ainda estava bravo por conta da discordância entre ambos mais cedo, ou se aquilo era somente o mau humor matinal de Nico.

Tamborilou os dedos na mesa, inconscientemente tentando chamar a atenção do filho de Hades, talvez fazê-lo dizer algo. Nico continuou concentrado enquanto mastigava as batatas fritas, sem ânimo algum.

Um golfo de vento soprou através das árvores e passou por eles refrescando o ar quente. A brisa empurrou a franja de Nico para frente de seus olhos. Percy teve o impulso de erguer a mão e afastar os fios negros de sua testa, mas se conteve. Nico tentou soprar a franja, sem sucesso, então afastou as mechas para trás com os dedos e tentou ajeitar para que ficassem no lugar. À luz do sol, Percy reparou uma coisa que nunca tinha notado antes: os olhos de Nico não eram tão escuros quanto ele achava. Eles tinham uma cor… Que definitivamente não era preto.

Veja, Percy nunca tivera muita dificuldade em entender as cores. Letras? Todas. Números? Pior ainda. Mas seu cérebro nunca teve defesas naturais contra as cores. Então por que havia demorado tanto para perceber algo que estava bem na sua frente o tempo todo? O preto definitivamente era a cor do filho de Hades. Percy o via o tempo todo em Nico, mesmo quando o garoto usava roupas de outras cores. Ele sempre associava sua presença ao preto. Mas aquela associação não estava totalmente certa; Havia outras cores ali… Principalmente nos olhos; tinham uma cor única. Eram de um castanho puro e intenso. Como café ou chocolate amargo… A mente de Percy começou a vagar por todas as coisas que lhe lembravam a cor daqueles olhos. Ele nem sequer notou que estava encarando Nico a mais tempo do que seria socialmente confortável.

— O que foi? — perguntou o garoto, lhe lançando um olhar ansioso.

Percy piscou, voltando a realidade.

— O que?

Nico estreitou as vistas para ele, desconfiado, então balançou a cabeça.

— Você deve estar bem cansado — disse por fim.

Percy mal conseguia imaginar o tamanho de suas olheiras depois da noite em claro. Só esperava que não fossem maiores que as do garoto a sua frente.

— Se eu fechasse os olhos agora não sei se conseguiria abri-los de novo.

— Devia ter ficado no acampamento — disse Nico. Seu tom, no entanto, não foi rude nem seco. Era quase como se ele se culpasse de alguma maneira por Percy estar ali.

— Você não queria que eu tivesse vindo?

— Não foi isso que eu disse.

— Mas foi o que quis dizer, não? Ainda está mesmo bravo por causa de ontem a noite?

Nico o estudou por um momento, enquanto mordia uma batata frita.

— Você saberia se eu estivesse bravo. Vai por mim.

— Então…? — insistiu Percy. — Existe algum motivo pelo qual não me olha na cara desde que saímos de Long Island?

— Além do fato de que você está parecendo um zumbi?

Percy ergueu uma sobrancelha.

— Isso não deveria ser um problema para o Rei Zumbi.

Nico estreitou os olhos em sua direção.

— Rei Fantasma...

— Tanto faz.

— … E se eu quisesse ficar vendo zumbis na minha frente estaria no Mundo Inferior, não aqui.

Percy se ajeitou no banco de madeira.

— Bem, vai ter que se acostumar com zumbis no mundo dos vivos então. Porque você está preso comigo pelo resto da semana.

Ele sorriu de maneira convencida.

— Deuses — murmurou Nico, balançando a cabeça. Seus lábios tentando esconder a vontade de se curvar nas pontas.

— Falando sério agora — disse Percy. — Dá pra ver seu cérebro fritando daqui. O que está acontecendo aí dentro?

O garoto suspirou e largou as batatas pela metade.

— Eu só… Não acredito que estamos mesmo fazendo isso. Não consigo parar de pensar na minha irmã.

Percy não achava que aquele era o único motivo, mas dançou conforme a música.

— Eu também queria estar lá procurando por ela e Leo com os outros — disse ele. — Mas acho que estamos fazendo a coisa certa indo atrás do Jardim.

Nico bufou.

— Sei que estamos. Por isso é tão difícil.

O garoto apoiou os cotovelos na mesa e enterrou o rosto nas mãos.

— Se algo a acontecer a Hazel…

— Nico, ela vai ficar bem. Hazel é uma das pessoas mais fortes que já conheci. Mia e Melinoe não são páreo pra ela.

Ele o olhou através de uma fenda entre os dedos.

— E quanto a você?

— Eu nunca lutaria contra sua irmã.

Nico revirou os olhos.

— Estou perguntando se vai ficar bem — disse ele, erguendo a cabeça. — Só quero ter certeza de que está mesmo pronto… Para o que quer que aconteça nessa viagem.

Por algum motivo a preocupação contínua de Nico não o irritava tanto como a de outras pessoas. Quando seus amigos, ou até mesmo Quíron, lhe olhavam daquela maneira cautelosa e falavam com ele como se fosse uma bomba nuclear prestes a explodir, Percy tinha vontade de explodir de propósito. Era como se duvidassem de sua capacidade, e ele simplesmente não suportava aquilo. Com Nico era diferente. Ele não o tratava diferente, não o olhava como se fosse um filhotinho perdido na rua, mas sua preocupação era genuína. Do tipo que fazia Percy sentir que alguém estava ali por ele, alguém que realmente o entendia.

— Precisa parar de se preocupar tanto com isso — disse, casualmente. — Eu estou bem.

No entanto, o que Percy viu em seguida o fez se questionar se estava mesmo.

Alguém o observava ao longe. Uma garota. Ele estreitou os olhos na direção dela, tentando identificá-la em meio as outras pessoas que passavam pela rua. Então ele a reconheceu. Em uma fração de segundo o mundo entrou em câmera lenta.

Ela estava parada na calçada de frente a uma loja, há poucos metros do parque. Olhava diretamente para ele daquela maneira cirúrgica, tão familiar. Pelos poucos segundos que o contato visual durou, seu cérebro entrou em curto-circuito. As mechas loiras… Aqueles olhos tempestuosos…

— Não… — seus pensamentos se verbalizaram sem ele se dar conta.

A garota que lhe observava a distância lhe lançou um olhar rápido indicando para que ele a seguisse, então se virou e desapareceu na curva de uma esquina. Os joelhos de Percy ergueram-se involuntariamente.

Nico franziu a testa.

— Percy?

Mas ele não estava ouvindo, nem vendo nada além do caminho a sua frente.

— Espera! — ouviu o garoto dizendo ao longe.

O mundo desapareceu ao redor quando ele cruzou o parque até a avenida.

Estava correndo, mas não era por isso que seu peito de repente pareceu reduzir de tamanho. Seus olhos registraram os carros indo e vindo nas duas direções, mas sua mente não se importou. Atravessou a rua, desviando por pouco de um veículo que freou a milímetros de atropelá-lo. O homem no volante buzinou e xingou Percy, mas ele já estava longe.

Dobrou a esquina na esperança de vê-la, mas ela não estava ali. Percy parou, seus olhos percorrendo toda a rua e todas as pessoas que andavam na calçada, até encontrarem o que procuravam. Ela lhe lançou o mesmo olhar cúmplice de antes, indicando o caminho pelo qual seguiria e desapareceu novamente.

Percy voltou a correr. Alguns mortais desviaram em espanto quando ele passou, sem tempo para pedir desculpas por esbarrar nas pessoas.

A garota o atraiu até um beco vazio e sem saída. Ela estava parada de frente para o alambrado alto que impedia a passagem para o outro lado, de costas para ele. Percy deu um passo para frente e se deteve. Seu eixo estava fora de ordem, se tentasse se aproximar mais temia se desequilibrar e cair. Seu coração tentava cavar um buraco em seu peito e saltar para fora. Um som agudo e constante resoou em seu ouvido esquerdo, como um apito, deixando todos os outros sons da cidade confusos e abafados.

Ela ainda vestia as mesmas roupas. A camiseta laranja, o jeans rasgado, a adaga de bronze pendendo do cinto… E ela estava ali. Não era como uma aparição, Percy saberia se fosse. Sua forma não tremulava na luz. Era sólida. Era de verdade.

Ele abriu a boca, mas as palavras não saíram. Sua garganta arranhava quando ele tentava falar, como se tivesse engolido areia. Quando finalmente conseguiu proferir algo que fizesse sentido, o que ouviu não foi sua voz normal. Foi um ruído empoeirado.

— Annabeth…

A dona do nome se virou para encará-lo. Quando os olhos cinzentos encontraram os seus, o oxigênio reserva em seus pulmões foi expulso em um arquejo inaudível e não encontrou seu caminho de volta. A loira sorriu, um sorriso gentil e caloroso que apertou seus olhos levemente.

Percy quis gritar, mas não achou que seria capaz de produzir qualquer som naquele momento. Estava congelado. Não podia ser ela… Como ela podia estar ali? Como podia sorrir para ele como se o último ano não tivesse acontecido? Fechou os olhos e esperou um segundo antes de abri-los novamente. Ela ainda estava ali.

Sua mente soltava fagulhas e ameaçava se incendiar a qualquer momento.

Não. Não. Não. Não. Errado. Isso está errado. Isso não é poss-

— Percy! — a voz ofegante de Nico ecoou pelo beco. — O que aconteceu? Por que saiu correndo assim?

Ele se virou para o garoto. Nico se escorou na parede para recuperar o fôlego enquanto o olhava por cima das sobrancelhas em busca de respostas. Ele não estava vendo?

Percy voltou-se para Annabeth do outro lado do beco e foi como se tivessem despejado um balde de gelo em sua cabeça. Ela tinha desaparecido.

Piscou uma, duas vezes. Não havia para onde ir. Não tinha como ela ter escalado o alambrado e corrido para longe naquele meio segundo em que ele havia desviado a atenção dela. E não havia onde se esconder.

Percy olhou para Nico, e então de volta ao lugar vazio onde a garota estivera um momento atrás. Seu coração mudou de idéia em pular para fora de seu peito e desacelerou bruscamente, fazendo Percy apertá-lo involuntariamente por cima da camiseta.

— Você não viu? — perguntou. Sua voz ainda parecendo mais um arquejo que uma voz.

Nico ergueu-se e olhou para o lugar onde a visão de Percy estava congelada.

— Vi o que?

— Ela… Ela estava bem aqui…

— Ela quem? — perguntou ele, lentamente.

Algo se colocou diante da visão de Percy. Algo quente que subiu de seus próprios olhos e deixou tudo embaçado. Ele piscou e o líquido salgado vazou pelo canto dos orbes.

— Como você não viu?

As feições de Nico assumiram um ar de cautela. Ele se aproximou de Percy, como se temesse dizer as próximas palavras. Mas perguntou mesmo assim:

— Percy, quem estava aqui?

— Annabeth — respondeu ele, embora não fosse possível distinguir sua voz dos ruídos da cidade. Fechou os olhos e forçou seu interior a produzir um som que fosse ao menos audível. — Annabeth.

Ele não conseguiu decifrar a expressão de Nico ao ouvir aquele nome. O garoto deu um passo inseguro para trás. Ele abriu a boca, mas não teve tempo de dizer nada.

O ambiente escureceu, como se uma gigantesca nuvem de tempestade tivesse cobrido o sol. O ar ficou pesado e gélido, e cortou o corpo de Percy pelas frestas em suas roupas.

Vozes baixas começaram a estalar pelo beco, como galhos secos de uma fogueira entrando lentamente em combustão. Nico procurava a origem do barulho, os olhos arregalados, a escassa cor morena sumindo de sua pele.

Os sussurros se intensificaram, gradativamente inundaram o beco, milhares deles, vindos de todo o lugar. Eles cercaram Percy, ou pelo foi o que ele pensou que estava acontecendo. Algo lhe dizia que ele conhecia aquelas vozes, mas não conseguia identificar nenhuma delas. Ele não entendia o que diziam, era como uma multidão falando ao mesmo tempo na praça de alimentação de um shopping. Só que todas essas vozes estavam dentro de sua cabeça, falando diretamente a ele, lhe acusando. Os olhares de todos os seres obscuros a quem aquelas vozes pertenciam perfurando sua pele.

Nico deu alguns passos para trás, encolhendo-se mais a cada centímetro que andava. Ele cobriu os ouvidos e fechou os olhos.

— Não! — ele se curvou como se tivesse levado um soco no estômago. — Pare!

Percy provavelmente teria feito o mesmo se não estivesse paralisado. As vozes retumbavam em seus neurônios, a ponto de fazer com que ele desejasse que sua cabeça explodisse de uma vez para parar de doer. O nó em sua garganta impedia que qualquer resquício de ar entrasse ou saísse para dentro de seu corpo.

Nico tinha se ajoelhado no chão de cimento, a cabeça abaixada coberta pelas mãos. Percy queria ir até ele, mas suas pernas não obedeciam. Os sussurros ficaram mais altos. Ele fechou os olhos e segurou a cabeça com as duas mãos, gritando internamente para que parassem.

As vozes obedeceram. Cessaram, como se nunca tivessem existido. Uma paz momentânea pairou sobre a mente de Percy, antes de dar lugar a algo muito pior.

Um grito ecoou pelo beco, fazendo um arrepio percorrer sua espinha. Seus ombros se encolheram, suas mãos começaram a tremer violentamente. Ele já tinha ouvido aquele grito antes.

O mundo se dissolveu ao seu redor. De repente ele estava de volta ao lugar que fora o cenário principal de tantos dos seus pesadelos: O Partenon se erguia diante da cidade de Atenas, as colunas brancas enfileiradas sumiam no alto em sua imensidão, lançando uma sombra fantasmagórica no corpo trêmulo da garota ao chão. O sangue banhava as rochas, seu cheiro metálico impregnava o ar. O céu era uma massa cinzenta, moribunda.

Os joelhos de Percy se enterraram nas rochas quando ele a ergueu em seus braços, o líquido quente encharcou a barra de sua camiseta em pouco tempo. Atrás dele, os seres mais poderosos do mundo, imóveis como as estátuas de mármore esculpidas em sua honra. Seus filhos, os heróis da profecia, assistiam a cena em choque. A fumaça da batalha recente ainda dançava sobre o solo, mas a Acrópole estava mergulhada em um silêncio fúnebre colossal.

Eles tinham vencido os Gigantes, mas a Mãe Terra havia despertado às custas da vida da garota que ele amava.

Os nervos de Percy estavam em chamas, seu peito acumulava energia para em breve explodir. Ele a sustentava em seus braços como se segurasse o fio de sua vida, prestes a ser cortado. Os olimpianos poderiam salvá-la com um estalar de dedos, mas nenhum deles moveu um músculo. Percy ouviu sua voz ecoar pelo templo, carregada de ódio:

— Façam alguma coisa!

Um arquejo. Lágrimas se juntaram ao sangue. De trás, uma voz embargada seguiu a sua:

— Mãe, por favor! Por favor…

— Não fiquem aí parados! — ele gritava. — Atena, faça alguma coisa!

A deusa da sabedoria se curvou diante da filha, os olhos fechados como em oração.

Uma mão firme segurou o ombro de Percy.

— Meu filho, eu sinto muito.

A mão trêmula e pálida de Annabeth ergueu-se, vacilante. As pontas de seus dedos alcançaram seu maxilar.

— Percy… — ela pronunciou seu nome pela última vez.

— Não…

O brilho desapareceu lentamente dos olhos cinzentos, perdendo-se no vazio.

— Está tudo bem…

Então a mão da garota despencou, deixando em seu rosto um caminho de sangue.

Como se alguém tivesse puxado seu espírito de volta para o corpo, Percy despertou.

Ainda estava no mesmo lugar. O frio e a escuridão deslizaram suas mãos esqueléticas pelo corpo de Percy e agarraram seu pescoço, puxando-o para baixo. Seu joelhos fraquejaram, ele tombou para o lado e apoiou-se na parede. Suas costas escorregaram coladas à superfície irregular de tijolos e ele foi para o chão.

A nuvem escura passou, dando lugar ao sol novamente, e o ar voltou a esquentar.

Nico se demorou ainda encolhido na mesma posição, de olhos fechados, até erguer a cabeça e perceber que tinha acabado. Ele olhou para Percy e empalideceu ainda mais.

Se perguntassem a Percy o que tinha acontecido naquele dia, ele não saberia responder. Tudo o que se lembrava era de uma sensação ruim.

Não. Ruim não chegava nem perto de descrever o que ele sentiu.

Todos os seus sentidos tinham sido ligados no modo de combate, como quando precisavam ter uma reação imediata porque a vida de Percy dependia disso. O perigo estava ali, a espreita; formigava em sua pele. Seus sentidos esperando para reagir, atentos por qualquer movimento brusco. Ele precisava correr, mas seu corpo não respondia; não trabalhava em conjunto com seu cérebro como deveria estar fazendo. Ele estava em perigo, precisava sair dali. Então por que não conseguia se mexer?

Cada centímetro de seu corpo tremia descontroladamente. Ele ouvia um ruído ofegante, feio e dolorido. Demorou a perceber que aquele som vinha dele próprio. A essa altura, Percy já tinha desistido de tentar respirar de uma forma que fizesse sentido. Apenas esperava manter-se vivo enquanto seu peito dançava uma melodia assustadora, tentando manter um resquício de oxigênio dentro de seu sistema. Suas costelas não deviam estar lidando bem com isso, pois faziam seu melhor para perseguir e espetar seus pulmões. Percy queria gritar para que seus órgãos parassem de brigar e bagunçar tudo em seu interior. Mas é claro que suas cordas vocais também não obedeceram.

Nico engatinhou até ele e se ajoelhou a sua frente.

— Percy… Respire.

Fácil falar.

O garoto não conseguia ver que ele estava tentando? Era tudo em que se concentrava a fazer naquele momento. Mas ele estava mergulhado em águas desconhecidas, se afogando lentamente. Não importava se ele era filho do deus dos mares, aquelas águas o arrastariam para suas profundezas sem nem se importar em perguntar seu nome primeiro.

Nico buscou seu olhar com urgência.

— Percy, olhe pra mim. Respire!

Ele conseguiu balançar a cabeça em negação, tentando transmitir um pedido de socorro. Uma de suas mãos agarrava o tecido da camiseta onde ficava o coração e a outra estava fechada em um punho. Os dedos sendo pressionados contra a palma com tanta intensidade que suas unhas cravavam sulcos na pele.

Em puro desespero Nico pegou sua mão. Seus dedos abriram caminho pelo punho fechado de Percy. Os músculos de seu pulso relaxaram quando o toque frio de Nico o acolheu.

— Me acompanhe — disse o garoto.

Ele inspirou o ar pelas narinas com força e apertou a mão de Percy enquanto o fazia, diminuindo o aperto quando expirou. Fez isso três vezes antes de Percy finalmente conseguir acompanhá-lo. Concentrou-se no ritmo da respiração do garoto e na pressão gradativa em sua mão. Conseguiu aos poucos, com muito esforço, normalizar seu próprio ritmo. Sua cabeça se forçando contra a parede enquanto mantinha a atenção fixa nos olhos de Nico. Seu peito subia e descia, as vezes oscilava e dava indícios de que desperdiçaria todo o trabalho duro para chegar até ali, então Nico o segurava com mais firmeza e ele conseguia recuperar o equilíbrio.

Não sabia quanto tempo havia se passado. Estava largado naquele beco, sentindo que podia fazer parte do lixo que se acumulava nas caçambas. A vida acontecendo na cidade há poucos metros dos dois, não se importando se eles podiam acompanhá-la.

Percy respirou. De novo e de novo. Não reconhecia até então como aquilo era bom; aquele simples ato involuntário que acontecia o tempo todo sem ele sequer perceber. Não queria que Nico parasse de guiá-lo, embora ele soubesse que já podia continuar sem sua ajuda. A sensação de perigo foi embora aos poucos, fazendo-o enfurecer-se brevemente com a tamanha irracionalidade que o levou a aquela situação.

Os ombros de Nico finalmente relaxaram quando ele viu que Percy estava estável. Se acomodou melhor diante dele, respirava em seu próprio tempo agora, mas sua mão ainda repousava sobre a de Percy. Ele também apertava levemente a mão de Nico, não sabia se ainda estava pronto para soltá-la. Esperou que o garoto se afastasse nos próximos segundos, mas ele não o fez.

A pele fria de Nico esquentava sobre a sua. A pressão dos dedos magros sobre os seus sendo a única coisa que impediu sua sanidade de ir pelos ares. Percy queria dizer algo, expressar o quanto estava grato por Nico estar ali, mas não conseguiu. Se limitou a sustentar o olhar profundo do filho de Hades, isso ele podia fazer. Concentrou-se nas íris castanhas, forçou-se a listar as coisas que lhe lembravam aquela cor intensa. Em sua mente, a poeira levantada pelo choque recente se assentava aos poucos.

Nico baixou os orbes e se perdeu na visão das duas mãos juntas. Percy não conseguia decifrar o que acontecia na mente do garoto. A maneira como suas feições se encolheram, como seus olhos se apertaram diante daquela visão… Quase como se algo o corroesse por dentro. Tinha algo diferente, mas ao mesmo tempo familiar na maneira como seus ombros pequenos se curvavam e as mechas negras cobriam seu rosto pela metade; como se ele fosse desabar ao menor toque. Percy já tinha visto aquilo em Nico… Aquele algo que ele não conseguia nomear; que transformava o semideuses mais forte e assustador que Percy conhecia num garotinho frágil que somente fingia ser capaz de carregar tanta escuridão; aquele algo que costumava impedi-lo de manter os olhos fixos nos seus por mais de alguns segundos; sempre ligeiros, sempre fugindo. Percy daria tudo para entender o que estava se passando na cabeça do semideus naquele momento.

— Nico? — conseguiu dizer, fracamente.

O silêncio permaneceu.

— Obrigado.

Esperou pacientemente alguma reação do garoto. Ele manteve a cabeça baixa por mais alguns instantes antes de se atrever a encarar Percy novamente.

Quando os dois olhares finalmente se encontram, uma sensação estranhamente familiar tomou conta de Percy. Por um segundo ele achou que seu estômago estava caindo.

Sua mente o levou de volta a festa para a qual Mia os havia arrastado alguns dias atrás, especificamente o momento em que levou Nico ao quarto e o garoto segurou seu rosto a centímetros do dele; tão próximo que podia sentir a respiração do menor chocando-se contra a sua… Por que tinha lembrado daquilo tão de repente? Especialmente sendo algo que ele tinha se determinado a esquecer que aconteceu?

Seus pensamentos se embaraçaram, virando um emaranhado invisível em sua cabeça, de maneira que ele nunca conseguiria desembaraçá-los e por tudo de volta no lugar outra vez. O que não era exatamente ruim; as coisas ficavam mais fáceis quando ele sabia — e aceitava — que era incapaz de entendê-las.

Só que ele realmente queria entender dessa vez.

Tão rápida como veio, a sensação passou. Nico ainda olhava para ele como se procurasse algo em seus orbes verdes.

Então ele o soltou, repentinamente.

— Você está bem agora? — perguntou, em um tom rouco.

Percy olhou para a palma de sua mão, onde as marcas das unhas eram linhas curvas e profundas em sua pele. Um gosto amargo preencheu sua boca.

— Estou — respondeu. — O que foi que acabou de acontecer?

Nico olhou ao redor, raciocinando.

— Você disse que tinha visto alguém…

Percy engoliu em seco.

— Annabeth.

O nome deixou um silêncio breve no ambiente. Ele não sabia se Nico tinha tido a mesma visão que ele. Não, não tinha sido uma visão. Era uma memória. A pior memória da vida de Percy. Ele não achou que a reação de Nico seria a mesma se ele tivesse visto… Tivesse sentido tudo aquilo como ele sentiu. Fechou os olhos, tentando livrar-se da lembrança.

— Ela era… Tão real — a voz de Percy falhou. — Como isso é possível?

Se tinha alguém que podia entender aquilo, esse alguém era Nico. Mas o garoto não parecia muito certo de suas idéias.

— Eu não a vi — disse Nico. — Ela não era real. Sinto muito.

O tom do garoto era quase como se quisesse compensá-lo por algo. Percy sabia que ela não era real. Era simplesmente impossível. Mas ele tinha visto ela. Ou algo muito estranho estava acontecendo ou seu cérebro simplesmente tinha decidido lhe pregar uma peça.

— Você sentiu aquilo também? — perguntou Nico. — De repente ficou frio e escuro… E…

— Vozes sussurrando alto. Milhares delas — disse Percy, sabendo que aquilo não fazia muito sentido.

Nico franziu o cenho.

— Vozes? Não. Não tinha nenhuma voz.

A confusão de Percy somente aumentou. Ele lembrava perfeitamente de ter ouvido vozes, embora não confiasse totalmente em seu cérebro a essa altura. Será que estava mesmo ficando louco?

— Era só um silêncio — disse Nico. — Um silêncio ensurdecedor.

— Mas você cobriu os ouvidos.

Um traço sombrio cruzou o olhar do garoto.

— Bem, porque eu já ouvi esse silêncio antes — Ele engoliu em seco. — É como… Morte. Eu não sei explicar…

Percy desejou que pudesse ter ouvido o silêncio, como Nico, ao invés daquelas vozes horripilantes.

— Você ouviu aquele grito?

— Eu ouvi gritos — Os olhos de Nico tornaram-se ainda mais sombrios, se é que isso era possível. Ele os fechou, como se deixá-los abertos doesse demais. — Eram de Bianca… E de… Minha mãe.

Percy não queria continuar aquela conversa. Ele e Nico tinham acabado de reviver os piores momentos de suas vidas. O coração de Percy empatava só de pensar que a experiência de Nico tinha sido duas vezes pior que a sua. No entanto, ele foi o único que desabou diante da lembrança.

— Por que só eu fiquei desse jeito?

Nico não respondeu. Talvez ele tivesse passado por traumas o suficiente para saber lidar com tudo aquilo melhor do que Percy jamais seria capaz. De qualquer jeito, ele não insistiu.

As peças começaram a se encaixar melhor quando os últimos resquícios do choque foram embora. A mente de Percy voltou a trabalhar, e ele entendeu o que tinha acontecido quase ao mesmo tempo em que Nico. A aparição de Annabeth… As vozes, a sensação de frio, escuridão e medo, a revitalização daquela memória sombria… O colapso de Percy de repente tinha um culpado. E não, ele não estava ficando louco.

A compreensão também caiu sobre os olhos de Nico. Ele fechou a cara e respirou pesadamente.

— Acho que tem uma certa deusa brincando com a gente.

Notas finais
Eu revisei esse texto umas cinquenta vezes e ainda não estou satisfeita com o que saiu, ugh. Tive que postar logo se não ia ficar louca. Não sei se consegui deixar isso claro, mas é... o Percy teve um ataque de pânico. Também dei alguns indícios de como foi a morte da Annabeth, que aconteceu durante aquela batalha dos deuses contra os gigantes no último livro. Eu lembro que fiquei incomodada porque a guerra nos livros não teve nenhuma gravidade, nenhuma morte de verdade, então quis trazer um pouco de trauma pra essa fic kkk É isso meus amores, nos vemos no proximo! ♥