Where's My Love

11 Capítulo 11


Notas iniciais
Volteeeeiii! Finalmente, depois de mais de um mês!! Me desculpem pela demora, eu estou bem enrolada ultimamente. Final de semestre é sempre um caos! Esse capitulo ficou beeem tranquilinho, espero que gostem. Boa leitura!

Já começava a entardecer quando finalmente deixaram Washington DC. Os dois garotos embarcaram num trem rumo a cidade de Columbus, em Ohio. Quase sete horas de viagem sem paradas. Percy achou que poderia enfim descansar por um momento, mas o que tinha visto mais cedo tornou isso impossível. Quando escorou a cabeça no banco e fechou os olhos, as memórias lhe atingiram com toda intensidade.

A sua frente, Nico estava de olhos fechados e cabeça baixa. A princípio Percy achou que o garoto estava dormindo, mas quando seus lábios moveram-se sutilmente sem emitir som, ele soube que estava rezando. Talvez estivesse tentando pedir alguma ajuda ao pai. Percy duvidava que o senhor dos mortos responderia enquanto o filho estivesse com ele.

Percy não sabia qual fora a última vez que havia rezado a Poseidon; quando lembrava do pai a única coisa que lhe vinha à mente era a figura do deus dos mares segurando seu ombro, tão imponente mas ao mesmo tempo tão incapaz de fazer alguma coisa para salvá-lo da maior agonia de sua vida. "Meu filho, eu sinto muito".

Claro que sente.

Percy deixou escapar um som ingrato pelo nariz. A paisagem corria pela janela do lado de fora, uma chuva de verão caía sobre a paisagem, as gotas deixavam rastros na janela do trem e o verde se perdia de vista enquanto a capital ficava para trás. Esperava que as assombrações também ficassem. Estremeceu somente em se lembrar da sensação que o preencheu quando viu Annabeth; a maneira como ficou totalmente paralisado antes de entrar em colapso… Nunca tinha sentido nada parecido. Estar de volta na Acrópole, naquela exata parcela de sua memória que o assombrava e tirava seu sono a noite, e reviver tudo de maneira tão real… Tinha sido demais.

— Acha mesmo que foi Melinoe? — perguntou, as palavras enroscando na garganta. — Se ela pode fazer aquilo, que chance temos contra ela?

Nico se remexeu no banco como se algo pinicasse suas pernas por baixo. Estava muito quieto desde o incidente em Washington DC, mas Percy não se importou. Não era como se ele quisesse, ou mesmo conseguisse, ter uma conversa normal depois do que havia acontecido. A simples presença de Nico era suficiente; Percy não fazia ideia do que seria dele se não o garoto não estivesse ali.

— Eu não tenho certeza. Aquelas visões… Parece muito com o que Reyna descreveu que aconteceu no cemitério, quando capturaram Leo. Mas tem algo que não se encaixa…

— O que quer dizer?

Uma ruga se acentuou entre as sobrancelhas do garoto.

— O que eu vi… Não foi só minha mãe e Bianca. Antes delas aparecerem, eu… E-eu…

Nico engasgou nas próprias palavras, de repente seus olhos ficaram vazios como se encarasse um poço sem fundo.

— Eu estava de volta naquele jarro. Eu devia saber que não era real, mas…

— Você ficou paralisado.

Ele engoliu em seco e concordou com um aceno de cabeça contido.

Percy se lembrava de ter tido arrepios só de imaginar a situação de Nico quando estavam indo ao seu resgate a bordo do Argo II. Ele tinha visto, em seus sonhos, o garoto encolhido entre as paredes do jarro de bronze, o rosto encovado e pálido, os ossos quase a mostra de não comer nada além de sementes de romã.

— O que eu quero dizer é que isso não tem nada a ver com fantasmas — continuou ele. — Como Melinoe poderia fazer isso? Aquelas visões não podem ser obra dela...

Percy ponderou por um segundo.

— Acho que não quero descobrir.

Nico repousou as costas no banco.

— Talvez ela seja mais poderosa do que eu pensava. Temos que estar prontos da próxima vez que enfrentarmos ela.

Percy não fazia ideia de como enfrentariam um inimigo que tinha capacidade de evocar os sentimentos mais terríveis que já tinham presenciado. Sua pele começou a formigar ao pensar na possibilidade de ter que passar por aquilo de novo. Já tinha ficava nervoso antes ao enfrentar monstros e deuses, mas nada como aquilo. Afinal, a luta dessa vez não dava para ser ganha apenas com suas habilidades com a espada. Precisaria estar pronto para que a deusa não entrasse em sua mente e desenterrasse seus medos mais profundos.

Nico encarava a paisagem na janela como se estivesse olhando para um campo lamacento. Ele parecia muito bem em comparação ao que Percy se lembrava de quando o tiraram daquele jarro. Tinha uma aparência saudável, os músculos ainda magros mas firmes, sua pele já não possuía mais aquele tom pálido doentio, e a única coisa que poderia ser considerada fora do normal eram as enormes olheiras contornando seus olhos. Parecia quase um adolescente normal passando por uma fase rebelde. Mas nada disso encobria o que ele tinha vivenciado. Todas as memórias, todos os horrores estavam enterrados em seus orbes, e não era preciso cavar muito para encontrá-los.

Percy se curvou levemente para frente.

— Vamos pensar em alguma coisa. Ou talvez improvisar na hora… O que importa agora é chegar vivos em São Francisco. Sabe, um dia de cada vez.

Largado no encosto do banco, Nico lhe lançou um olhar sardônico.

— Ah, sim. Estamos nos saindo muito bem até agora.

Percy deu de ombros.

— Pelo menos ainda não apareceu nenhum monstro. O que é muito estranho, nosso cheiro combinado já devia ter atraído metade dos monstros da América.

— Percy, eu tomei banho. Não sei do que está falando.

Ele revirou os olhos com um sorriso nos lábios.

— Muito engraçado. Estou falando sério, não acha estranho que nenhum daqueles monstros no cemitério tenha vindo atrás da gente ainda?

Nico fitou seu anel de caveira e começou a girá-lo entre os dedos.

— Talvez.

— Na verdade, aquele Manticore no dia da festa foi o primeiro que enfrentei desde o fim da guerra… — Percy se perdeu na vista da janela por um segundo. — Eu achei que eles poderiam estar fazendo uma pausa, ou algo do tipo. Tirando umas férias.

Nico o encarou por cima das sobrancelhas como se temesse aquele assunto.

— Você deu sorte...

Percy deu de ombros.

— Foi a primeira vez que consegui concluir o ano sem explodir a escola. É, acho que posso chamar isso de sorte.

Nico baixou os olhos culpados para o anel, então voltou-se para ele, engolindo em seco.

— Eu provavelmente deveria ter contado isso antes…

Percy franziu o cenho.

— O quê?

Nico o olhou como se avaliasse se deveria mesmo continuar.

— Isso vai soar estranho, mas eu… — ele fez uma pausa e suspirou. — As vezes eu ficava de vigia perto do seu apartamento e da escola… Não queria deixar que algum monstro se aproximasse, tentava atraí-los pra mim. As vezes deixava alguns esqueletos de guarda quando estava no acampamento.

O cérebro de Percy travou.

— Você… Está dizendo que..

— É.

— Durante o ano você…

— Isso mesmo.

— … Estava me vigiando… — Percy disse lentamente enquanto absorvia a informação.

Nico mordia o lábio inferior, encarando Percy como se ele fosse uma bomba prestes a explodir.

— Eu não estava te perseguindo nem nada do tipo, não me entenda mal… E-eu só queria… Você precisava de um tempo para… Eu sei que eu não devia ter feito isso sem falar nada, você estava bem ali, mas eu não pude... Eu devia ter dito algo antes, droga, isso com certeza deve soar assustador…

Percy quase riu com a maneira como Nico tagarelava sem parar quando ficava nervoso; o sotaque italiano sutil acentuando sua fala, os olhos perdidos enquanto girava o anel prateado no dedo sem nem perceber o que estava fazendo.

— … Eu sei que você é totalmente capaz de lidar com monstros, não quis dizer que não é-

— Nico.

Ele piscou, voltando para o mundo real.

— Eu não te acho assustador. Na verdade… Acho que essa foi uma das coisas mais legais que alguém já fez por mim.

Nico piscou de novo, dessa vez tentando processar o que tinha acabado de ouvir.

— Não me acha assustador?

— Você faz coisas bem assustadoras, mas essa não é uma delas. E eu sei que tudo o que faz tem um motivo bom por trás.

Ele tinha parado de mexer no anel de maneira que apenas o segurava com a mão parada no ar, a boca aberta sem reação. Percy esperou, mas Nico não parecia ser capaz de dizer qualquer coisa por mais que suas feições denunciassem que ele estava procurando avidamente por uma resposta. Alguns segundos se passaram e Percy notou, com certa curiosidade, que Nico ainda não tinha desviado os olhos dele.

Não sabia se aquilo seria suficiente para que o garoto ficasse em paz com sua culpa. Um formigamento estranho na boca de seu estômago lhe dizia que não deveria prolongar o assunto, pois sua cabeça estaria muito ocupada nos próximos minutos dando voltas ao redor do que Nico tinha acabado de lhe relevar. Todo aquele tempo em que Percy achava que o garoto tinha preferido encarar os mortos do que a ele… Que tinha culpado a si mesmo por ter sido tão distante que até fazia sentido Nico ter se afastado ainda mais… Ele estava bem ali o tempo todo. Seu rosto esquentou ligeiramente ao imaginar que o garoto estivera por perto enquanto ele estava na sala de aula, no caminho para casa, ou enquanto vagava pelas ruas de Nova York sozinho… Não estava realmente sozinho; que talvez uma olhada acidental em uma hora errada e ele o teria pego de surpresa.

Foi Percy quem quebrou o contato visual dessa vez. Por alguma razão, já não parecia fácil fazer algo tão simples como sustentar o olhar de Nico.

— Então… Você não está bravo?

— Por que estaria bravo?— Percy pigarreou e se esforçou para que sua voz soasse descontraída — Só um pouco ofendido, na verdade. Quer dizer, você preferiu encarar um monte de monstros do que a mim. Eu sou tão ruim assim?

Nico colou os lábios para segurar um sorriso. Ele balançou a cabeça levemente.

— Você não faz ideia.

A maneira como ele disse aquilo fez as sobrancelhas de Percy franzirem involuntariamente. Era como se o garoto realmente soubesse de algo que ele não sabia. Como se Percy estivesse perdendo algo muito importante. Estava mesmo? Ou seria apenas uma brincadeira? Ele quis questionar Nico, mas seu subconsciente avisou que parasse de pensar demais ou as coisas se complicariam. A experiência de Percy com pensamentos excessivos que sobrecarregavam sua mente a ponto de quase explodir fizeram com que concordasse. Ele obedeceu sem questionar.

Por fim, recostou-se sobre o banco, relaxando as costas, e mirou as montanhas verdes passando pela janela ao longe, nada além do leve ruído do trem deslizando sobre os trilhos e algumas vozes vindas dos outros compartimentos.

— Essa vista é incrível.

— É sim — disse Nico, embora não estivesse olhando para fora.

A chuva já tinha diminuído seu fluxo quando o trem cruzou o túnel da estação e reduziu a velocidade. Nico e Percy jogaram as mochilas nas costas e saltaram na plataforma, que por sorte estava pouco movimentada. Subiram as escadas e seguiram pelos corredores da estação até pararem em uma cafeteria. O estômago de Percy implorava por qualquer migalha de comida.

Quando cruzaram a saída em forma de arco, Percy usou de suas vantagens como filho de Poseidon para impedir que a chuva os molhasse. Seguiram pelo estacionamento até a avenida. Haviam concordado em parar na cidade para descansar pela noite e seguir viagem no dia seguinte. Percy estava cansado demais para sequer pensar em colocar o pé na estrada outra vez.

Depois do que pareceu quase uma hora de caminhada, os garotos se encontraram longe o suficiente do centro da cidade para que que as vizinhanças fossem sumindo, dando lugar aos bosques. Percy se orientou por um mapa gratuito da cidade que havia pego na estação para guiá-los até uma trilha. Andando em meio às árvores, os músculos de suas pernas repuxavam e Percy tinha que esticar as costas e o pescoço a todo momento para aliviar as dores. Nico seguia atrás dele com as mãos segurando as alças da mochila. Percy olhou para trás uma vez e se deparou com o garoto andando de olhos fechados.

— Eu odeio acampar.

Percy estreitou os olhos para o mapa. A trilha indicava para que continuassem subindo.

— Como pode dizer isso? Você vive num acampamento.

Nico bufou.

— Não quer dizer que eu tenha que gostar.

— Qual é, acampar é uma das coisas mais legais que existem. Depois da praia, é claro.

As letras no mapa se embaralhavam diante de seus olhos. Percy focou nos desenhos, esperando que eles os levassem a algum lugar.

— É… Não. A praia até que não é tão ruim, mas existem coisas melhores.

Percy virou-se para ele, indignado.

Até que não é tão ruim? — ele colocou uma mão sobre o peito, fingindo estar ofendido.

— Não seja dramático. Você é filho de Poseidon, a praia é tipo o seu habitat natural. Mas nem todo mundo gosta daquela brisa melada… E da areia grudando nos dedos… E o calor.

Nico estremeceu fazendo cara de desgosto.

— Tudo bem, já saquei. Então qual é o seu lugar favorito?

Nico fez uma pausa para respirar, então seus olhos encontraram algo atrás de Percy.

— Aqui já está bom.

Percy olhou na direção onde ele indicava e o seguiu por entre as árvores. Haviam alcançado uma clareira que saía para o cume da encosta.

— O mapa diz que a área de acampamento fica mais para cima. Ou pelo menos é o que parece nesses desenhos.

Nico ergueu uma sobrancelha.

— Não estou disposto a andar por mais meio quilômetro com base na possibilidade de você saber interpretar desenhos.

— Ei!

O filho de Hades deu de ombros e tirou a mochila das costas. Percy quis protestar, mas estava cansado demais. Apenas concordou e imitou o garoto. Deixou sua mochila cair aos seus pés e olhou através da encosta, onde a cidade repousava alguns metros abaixo. Nico apoiou as mãos sobre os joelhos com a respiração ofegante. Percy puxou uma grande quantidade do ar fresco e o cheiro de terra molhada preencheu suas narinas.

As luzes na cidade eram bolinhas brilhantes que começavam a se acender a distância. As nuvens se acumulavam aos poucos misturando entre si os tons de rosa refletidos do céu. O amarelo tingia o horizonte em uma despedida saudosa; as árvores eram silhuetas ao longe. A chuva caía gradualmente e o verde lhe dava boas vindas. A água era fria, mas nem tanto, como se estivesse ali apenas para refrescar o final do dia e equilibrar o verão. As gotas pinicavam sua pele, mas ele não deixou que encharcassem suas roupas. Evitar a chuva normalmente não era algo que lhe cansava, mas estava fazendo isso por dois há horas, somando ainda a seu cansaço físico. Ele precisava repor as energias.

Virou-se para Nico.

— Que tal um banho de chuva?

O garoto deu de ombros.

— Por que não?

As gotas geladas então penetraram o tecido de suas roupas, escorreram por sua pele e pelos cabelos. O alívio foi quase imediato, a água rapidamente recarregou suas forças.

Nico abriu a mão na frente do corpo para sentir as gotas na palma. Ele então fechou os olhos e ergueu a cabeça, deixando a chuva banhar sua pele. Sua expressão se aliviando como se um toque suave acariciasse seu rosto. As pontas dos lábios de Percy se curvaram ligeiramente ao observa-lo, uma sensação sutil de paz emanava do garoto.

As folhas das árvores farfalhavam diante da brisa suave e os cantos de alguns pássaros ao longe ecoaram pelo ar. Não demorou muito para que ambos estivessem encharcados, mas nenhum dos dois se importou.

Nico se aproximou da beira do cume e parou diante da vista, ao lado de Percy. Seus olhos pairaram sobre a cidade. Percy se sentou na grama molhada e cruzou as pernas diante do corpo. Nico logo o acompanhou. O estalar da chuva batendo nas folhas e os ruídos da floresta foram os únicos sons preenchendo o ambiente enquanto os dois garotos descansavam da caminhada. Nico encarou o pôr do sol com olhos apertados e Percy viu de esgueio um pequeno sorriso formando-se nas pontas de seus lábios.

— Torcello.

— Saúde.

Nico riu e balançou a cabeça.

— Não, Torcello. Você perguntou qual era o meu lugar favorito no mundo.

— Ah sim, claro — Percy pigarreou. — Torcello… Onde exatamente fica isso?

— É uma ilha em Veneza. Mamãe nos levava lá às vezes durante o verão quando ia visitar a Basílica di Santa Maria.

Percy se curvou levemente em sua direção, fazendo sinal para que ele continuasse.

— Não é nada demais, só uma ilha deserta com uma igreja velha. Mas quando ia pra lá, eu subia na torre do sino com Bianca… Ficávamos a tarde toda olhando a vista, recitando os nomes das ilhas, uma por uma. Dava pra ver quase todo o canal de Veneza lá de cima.

Nico parecia se perder nas próprias lembranças enquanto falava. Percy quase podia ver as memórias cruzando seus olhos enquanto ele fitava o horizonte, um sorriso nostálgico traçando seus lábios.

— Não lembro muita coisa da Itália, da minha infância, mas lembro disso.

O semblante de Nico se transformou lentamente; seu sorriso foi sumindo, dando lugar a lábios curtos e sobrancelhas franzidas. Percy tentou amenizar a voz.

— Sente falta de lá?

Nico balançou a cabeça.

— Isso foi há muito tempo, eu não...

Percy ergueu as sobrancelhas, sabendo que Nico ocultava a verdade. O garoto suspirou e baixou a cabeça.

— Antes… Eu pensava em voltar para Veneza. Eu não tinha ninguém, nada que me prendesse a lugar nenhum. Queria desaparecer de uma vez por todas, ir embora do acampamento e nunca mais voltar. Talvez voltar para o lugar onde nasci me trouxesse algum senso de lar…

Percy engoliu em seco. Ele sabia que parte da culpa era sua por Nico sentir-se daquela maneira. Não tinha sido um bom amigo para ele. Estava tentando consertar isso, esperava que ainda desse tempo.

—Ainda tem vontade de voltar?

Nico ponderou.

— Eu sinto falta das memórias que tenho de lá. Mas isso é tudo que elas são: memórias. Não tem mais nada para mim lá.

— Então… O que te fez mudar de ideia?

Nico ergueu o rosto para ele, a brisa soprando leve e levando seus cabelos negros consigo. Ele exitou por um momento.

— O que eu encontrei aqui é muito mais valioso que qualquer memória. Não tenho mais motivos para partir.

Uma agitação tomou conta do estômago de Percy quando o garoto lhe lançou um sorriso breve e contido. A sinceridade daquele sorriso e de seu olhar, por mais rápido que tivesse sido, despertou nele a vontade de se aproximar e envolver os ombros de Nico com o braço, trazê-lo para mais perto. Mas Percy se conteve, questionando seus próprios pensamentos.

Nico estreitou os olhos levemente.

— Acho que nunca contei isso pra ninguém.

— Que bom que você me contou… E que decidiu ficar…

As bochechas de Nico enrubesceram levemente diante da luz fraca do sol. Percy voltou-se para a vista e o silêncio recaiu novamente sobre os dois. A chuva tinha diminuído sua intensidade de forma que apenas algumas gotas isoladas caíam aqui e ali. O frescor trazido pela água começava a se transformar em um vento gélido.

— Anda, vamos montar aquela barraca antes que escureça — disse Percy.

Ele se levantou e ajudou Nico a se pôr de pé. Colocou dois dedos sobre a camiseta do garoto e a água no tecido foi sugada em direção a ele e desapareceu, deixando suas roupas secas novamente. Nico agradeceu silenciosamente e alcançou sua mochila.

Acomodaram o saco de dormir dentro da barraca depois de montá-la. Percy ficou com o primeiro turno da vigia, a chuva tinha revigorado um pouco de suas forças, deixando-o menos favorável a cochilar enquanto ficava de guarda. Nico entrou para a barraca, deixando-o sozinho no ar frio da noite. Percy agradeceu mentalmente por Sally ter insistido que ele levasse uma blusa. Aconchegou-se em seu moletom azul e cruzou os braços, sentado diante da barraca.

O começo da noite foi longo. As árvores farfalhavam já de uma maneira não tão agradável diante da escuridão. Ele se atentou aos ruídos que vinham de dentro do bosque e os músculos de seu pescoço endureciam mais a cada barulho estranho que ecoava na floresta. Algumas horas se passaram, que para Percy pareceram uma eternidade. Principalmente quando algumas lembranças do dia voltavam para lhe assombrar e ele incessantemente tentava silenciá-las.

Soube que estava na hora de encerrar seu turno quando suas pálpebras começaram a pesar e ele já não conseguia mantê-las abertas por muito tempo. Levantou-se com as juntas estalando e o quadril amassado e entrou na barraca.

Percy não se cansava da visão de Nico dormindo. As feições serenas lhe davam uma aura quase angelical. Poderia assisti-lo por horas, queria deixá-lo descansar ao menos um pouco mais, mas seu corpo dava todos os indícios de que estava esgotado e logo se desligaria.

Ele pousou uma mão sobre o braço do garoto e sacudiu de leve.

— Ei, Nico.

Uma única mecha de cabelo escorregou sobre os olhos fechados quando ele se remexeu. Sem pensar, Percy a afastou da testa do garoto com o indicador. Os olhos castanhos abriram-se lentamente e vagaram por um momento antes de focar em Percy. Ele piscou uma vez, como se ainda estivesse se situando.

— Hora de acordar, Bela Adormecida. É sua vez.

Nico saiu do transe momentâneo e se levantou lentamente, coçando os olhos.

— Claro, eu já estou indo… Espera, do que foi que me chamou?

— Você ouviu da primeira vez. Anda, levanta essa bunda daí, antes que eu desmaie em cima de você.

Nico esticou os braços, espreguiçando-se, e se ergueu do saco de dormir. Percy saiu da barraca para dar passagem a ele e o garoto se encolheu imediatamente ao contato com o ar frio da noite. Estava apenas com uma camiseta de mangas, sem seu usual casaco de aviador. Percy se perguntava porque o garoto não usava mais aquela jaqueta.

Ele puxou o zíper de seu moletom azul e um arrepio percorreu sua pele quando a proteção e o calor do casaco o deixaram.

— Aqui — ele estendeu a blusa para Nico.

O garoto olhou do moletom para ele.

— N-não precisa…

— Se passar o resto da noite aqui fora sem uma blusa vai acabar pegando um resfriado.

Nico ergueu as sobrancelhas.

— Tá bom, eu pareço a minha mãe falando assim. Mas é sério.

— Eu nem estou com tanto frio assim.

Nico tentou disfarçar, mas a leve tremedeira em seus braços cruzados diziam o contrário. Percy aproximou-se do garoto e jogou o moletom aberto por cima de seus ombros. Ele teve o impulso de se afastar, mas o calor do tecido provavelmente o fez mudar de ideia.

— Não aceito devoluções — disse Percy, já se encaminhando de volta a barraca. — Boa vigia.

Ele deixou um Nico atônito do lado de fora e fechou a tenda. Assim que se deitou sobre a superfície quente do saco de dormir, seus olhos desabaram, e Percy teve uma noite de sono surpreendentemente livre de pesadelos, como não tinha há um bom tempo.

Notas finais
É isso. Nada demais aconteceu aqui, eu só queria trazer uns momentos mais calmos e fofos antes do circo pegar fogo de novo heuheuehue além tbm de desenvolver um pouco a relação dos dois. Até o proximo! ( e só os deuses sabem quando vou conseguir postar dnv D: )