Where's My Love
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Nico já tinha se acostumado a ficar noites a fio sem dormir, mas isso foi antes de se estabelecer no acampamento e seu médico exigente forçá-lo a ter uma alimentação saudável, e oito horas de sono por dia, e toda aquela baboseira. Agora era praticamente impossível passar uma única noite em claro sem seu cérebro se desligar automaticamente e sua cabeça tombar para frente, fazendo-o acordar logo em seguida, tendo que forçar os olhos a se manterem abertos.
Ele assistiu ao nascer do sol, encolhido no moletom de Percy, que trazia consigo seu cheiro suave de perfume amadeirado. A peça era maior que ele, de forma que as mangas cobriam suas mãos por completo, mas Nico não se importava. O calor que lhe preenchia enquanto usava aquele casaco não vinha somente do tecido.
Quando o dia finalmente chegou eles desmontaram a barraca e fizeram o caminho de volta para a cidade. Pararam em uma lanchonete para tomar café da manhã antes de seguir viagem.
Nico havia tentando convocar seu motorista particular, Jules-Albert, durante a noite enquanto Percy dormia. Posicionou a mão sobre a terra molhada e fechou os olhos, buscando pelos ossos de seu chofer por baixo da superfície. Esperou até a manhã por sua chegada, mas ele não veio. Talvez não funcionasse tão longe de casa, talvez ele tivesse algum tipo de radar sobrenatural que o impedisse de deixar Nova Iorque. Sem outra opção, tiveram que comprar passagens de ônibus.
O transporte era extremamente concorrido durante as férias, então só havia passagens disponíveis para as duas da tarde. Nico ficou inquieto na rodoviária enquanto matavam tempo, praguejando por não poder viajar pelas sombras e chegar muito mais rápido ao seu destino. Percy apenas fingiu que não estava escutando.
Quando finalmente embarcaram no ônibus, Nico se acomodou no assento da janela com Percy ao seu lado. Antes mesmo do veículo deixar a rodoviária, ele já tinha caído no sono.
Acordou atordoado alguns minutos depois, com a cabeça encostada no ombro de Percy. Ergueu o pescoço, acanhado. Percy o olhava com divertimento.
— Me desculpe…
— Você pode dormir mais, se quiser — disse ele. — Ainda tem muito chão pela frente.
Nico olhou pela janela, haviam acabado de pegar a estrada. A chuva insistente ainda banhava a paisagem, mas dessa vez as nuvens escondiam o sol, deixando o céu em um azul pálido sem vida. O frio ameno só servia para aumentar ainda mais a sonolência de Nico. Ele teria dado ouvidos a Percy e voltado a dormir se o ônibus não tivesse reduzido a velocidade.
Pela janela observou o congestionamento na rodovia, alguns metros a frente duas viaturas policiais cercavam uma área da estrada, permitindo que passasse apenas um veículo de cada vez. Alguns carros e motos eram parados para inspeção.
Nico e Percy se entreolharam. Uma ruga de preocupação surgiu entre aa sobrancelhas do garoto.
— Devem estar procurando um fugitivo, ou algo do tipo — disse ele.
O ônibus seguiu na fila até ser parado pelos policiais. Nico encostou a testa na janela para ver melhor. Um dos oficiais fez sinal para que o motorista encostasse.
— Isso não é bom.
Um burburinho começou entre os passageiros do ônibus quando o motorista deu ré e estacionou ao lado das viaturas. As duas saídas se abriram. Nico olhou para trás, por sorte estavam sentados próximo a saída traseira, caso precisassem correr.
Um policial fardado entrou pela porta da frente. Ele começou a caminhar lentamente no corredor entre os bancos e quando tirou os óculos escuros e Nico deu uma boa olhada em seu rosto, seu coração congelou.
Percy imediatamente se virou para ele de olhos arregalados, também reconhecendo o manticore que os perseguira na escola e na festa de Mia.
— Saída. Agora — disse Percy, já se levantando do banco com a mochila em uma mão e a caneta na outra.
Nico o seguiu pelo corredor, os mortais passageiros os olharam com estranhamento.
— Vão a algum lugar rapazes? — perguntou o monstro disfarçado em uma voz alterada.
Nico cometeu o erro de olhar para trás. O rosto do policial se transfigurava. lentamente e ele começava a assumir sua verdadeira forma. Nico cutucou as costas de Percy.
— Rápido!
Os garotos correram até a saída, assustando os passageiros.
— Feche aquela porta! — o manticore gritou para o motorista, mas eles já haviam alcançado os degraus.
Uma outra policial se colocou na frente deles e bloqueou a saída. Ela arreganhou os dentes para eles, tinha presas no lugar dos caninos e garras onde deviam estar suas unhas.
— Não tão rápido, crianças!
Percy a empurrou com um chute no peito e pulou dos degraus para o asfalto. Nico aterrissou ao seu lado, bem a tempo do manticore, já totalmente transformado, se lançar da saída traseira, quebrando algumas janelas e colocando pânico nos passageiros dentro do ônibus.
Mais dois policiais se aproximaram com as armas em riste e miraram o manticore, totalmente confusos e assustados. O monstro girou a cauda de escorpião e os empurrou para longe.
— Deixe eles em paz! — gritou Percy, com Contracorrente reluzindo nas mãos. — É a nós que você quer!
E investiu contra o manticore.
Nico puxou a espada do cinto e o segundo monstro se colocou em sua frente, estava descabelada pelo empurrão. Trajava farda, mas Nico pôde ver uma perna de burro se sobressaindo sob o pano, e a outra perna metálica reluzindo onde a barra da calça terminava.
A empousa rasgou o ar com as garras em sua direção. Nico se defendeu com a lâmina negra e a golpeou logo em seguida. Ela se esquivou por pouco e saltou para cima dele. Nico bateu com as costas no asfalto molhado com a empousa sobre ele, cortando o ar com as garras. Ele desviou a cabeça por pouco e ela atingiu o chão, deixando três marcas profundas na pedra. Nico a golpeou por baixo com o joelho e se desvencilhou, atirando-a para o lado. Agilmente ela se equilibrou nas pernas irregulares e se pôs de pé.
O caos tomava a rodovia. Os mortais tentavam quebrar o bloqueio atropelando-o. Buzinavam e gritavam em pavor. Alguns passageiros haviam corrido para fora do ônibus e atravessado a estrada em busca de refúgio, outros estavam apavorados demais para descer. O manticore havia destruído uma das viaturas paradas com uma chuva de espinhos e pulava sobre a outra, amassando completamente o teto. Percy lutava como um soldado espartano renegado, do mais alto ranque.
A empousa investiu contra Nico mais uma vez, ele se esquivou no último segundo e abriu um talho em sua perna de burro com a espada. Ela urrou de dor e arreganhou as presas.
— Oh não, meu garoto. Por que não resolvemos isso de outro jeito?
O rosto da empousa começou a se transformar novamente, voltando a ser um rosto humano comum e muito belo, de olhos chamativos e lábios grossos. Os cabelos loiros perderam a aparência despenteada e agora pareciam emoldurar perfeitamente as maçãs altas de seu rosto. Ela sorriu para Nico enquanto se aproximava lentamente e ele precisou se segurar para não rir. Já tinha ouvido falar de como as empousai seduziam suas vítimas. Ela só não esperava que aquilo não funcionaria com ele.
— Boa tentativa.
Nico cortou o ar com a lâmina negra, abrindo uma fenda na barriga da empousa, e a empurrou para trás com um chute no mesmo lugar da ferida. Ela se contorceu e gritou, segurando a barriga. Seus olhos faiscaram e ela rosnou para Nico, seu rosto voltando a assumir a forma monstruosa.
Ele viu pelo canto do olho Percy transformando o manticore em pó com uma investida de Contracorrente. A empousa assumiu uma expressão nervosa, ela estava em grande desvantagem.
— Acabou — Nico ergueu a espada, o ferro estígio reluziu com seu brilho púrpura contra a luz pálida do dia.
— Não! — rosnou a empousa.
Seus cabelos se incendiaram, tornando-se um emaranhado de chamas bruxuleantes no topo de sua cabeça. Os olhos demoníacos faiscaram e um sorriso medonho formou-se em seus lábios. Nico ofegou e deu um passo para trás, a espada em riste.
— Você perdeu, filho de Hades! — sibilou a empousa, avançando contra ele.
Um golfo de ar quente atingiu seu rosto quando ela investiu em sua direção, as chamas em seus cabelos se intensificando.
— Nico! — gritou Percy por trás.
O garoto correu em sua direção e o empurrou. Seu corpo se chocou contra o chão com o peso de Percy por cima, protegendo-o. O fogo foi expelido com força da empousa, engolindo-a em uma fração de segundo. Então ela desapareceu, liberando uma explosão na estrada.
Nico e Percy foram empurrados violentamente pelo impacto, aterrissando no asfalto há alguns metros. Nico protegeu sua cabeça com os braços enquanto seu corpo rolava pelo chão descontroladamente. Encontrou-se deitado encarando o asfalto úmido, o cheiro de fumaça queimando sua narinas e fazendo lacrimejar seus olhos. Tudo o que ouviu por alguns segundos foi um som agudo distante que abafava todos os outros ruídos; percebeu que o som vinha de dentro de seu ouvido. Sua visão escureceu momentaneamente quando ele se ergueu. A rodovia saía de eixo diante de seus olhos.
A explosão deixara uma enorme mancha preta no asfalto, uma viatura policial estava de cabeça para baixo com as sirenes amassadas piscando de forma irregular e uma nuvem negra e densa tomava o ambiente, complementando a chuva de cinzas que se misturava com a chuva verdadeira. O trânsito havia sido completamente congestionado, alguns mortais gritavam ao longe e desciam dos veículos para ver o que estava acontecendo. Nico observava a tudo ainda atordoado. Foi só quando avistou Percy que ele despertou. Foi como um choque trazendo-o de volta a realidade. Seu coração descompassou.
O garoto estava caído de costas para cima, desacordado. Suas roupas estavam todas chamuscadas e soltando fumaça, e seu braços… Nico nunca tinha visto queimaduras como aquelas. Cambaleou até ele e se ajoelhou ao seu lado. A pele de seus braços se retorcia em carne viva. Suas mãos não sabiam o que fazer diante de seu estado.
— P-Percy?
Ele tossiu fracamente, mas Nico imaginou que não teria forças para se levantar. Sirenes ecoaram ao longe, anunciando a chegada de mais viaturas, e dessa vez seriam policiais de verdade. Se os encontrassem ali em meio ao desastre da explosão estariam muito encrencados.
Nico engoliu em seco e segurou Percy pelo braço, puxando-o para cima, e se arrependendo imediatamente. Percy abriu minimamente os olhos e soltou um som sofrido, como se não tivessem forças ao menos para gritar de dor. Ele conseguiu se colocar de pé, mas Nico era quem sustentava a maior parte se seu peso. Envolveu as costas de Percy e passou um de seus braços por cima dos ombros e o carregou aos tropeços até a sombra mais próxima.
A cena caótica na rodovia se dissipou na escuridão, os ecos das sirenes desaparecendo lentamente no ar. Nico desejou ir para longe, para um lugar seguro. Seus músculos tremiam com o esforço e o impediam de pensar com clareza. Percy ameaçava tombar para o lado, a cabeça pendurada para frente. Nico podia ver que ele lutava para se manter acordado.
Quando deu o próximo passo, as sombras desapareceram, entregando-os a um lugar completamente diferente. Não teve tempo de identificar onde estavam. Era um lugar vazio, isso bastava.
O peso sobre seus ombros começou a se intensificar e Percy foi escapando de seus braços.
— Não, não se atreva-
O garoto despencou para o chão, levando Nico consigo. Percy apagou de vez.
Nico forçou-se a se levantar, mesmo sonolento e cansado. Não estava esgotado, o que significava que não haviam ido muito longe. Olhou ao redor, e para sua surpresa reconheceu o lugar. Era o galpão antigo de uma fábrica abandonada. Estava totalmente vazio, a não ser por algumas garrafas de vidro espalhadas num canto. Algumas paredes haviam sido pichadas. Do teto alto em formato de "v" erguiam-se grandes janelas iluminando todo o local com a luz fraca do dia. Ele já estivera ali, uma vez, quando ainda estava aprendendo a viajar nas sombras e acabava indo parar em lugares aleatórios e desconhecidos. Não sabia exatamente onde ficava aquele lugar, mas sabia que estavam seguros por ora.
Apressou-se para sua mochila e tirou o cantil de néctar e o saco de dormir. Desenrolou o saco no chão ao lado de Percy e empurrou o garoto para cima. Em seguida abriu o cantil e tomou um gole da bebida dos deuses, uma parcela de suas energias foram recarregadas no mesmo instante, levando o sono e o cansaço embora, como combustível sendo aplicado em suas veias. Com mãos trêmulas despejou o líquido sobre os braços de Percy, agradecendo mentalmente por ele não estar acordado para sentir aquilo. O néctar penetrou nas queimaduras e lentamente começou a curá-las, fazendo com que a pele avermelhada voltasse ao seu estado normal. Por fim pingou algumas gotas do líquido em suas costas, entre os buracos que as chamas haviam deixado em sua camiseta. Aplicou o mínimo possível da bebida, uma quantidade elevada de néctar em contato com a pele de um mortal poderia fazer um estrago muito pior do que o fogo. Pressionou as costas da mão na testa de Percy, para se certificar de que ele não derreteria.
Repousou o cantil agora quase vazio ao lado e descansou o rosto nas mãos, com um longo suspiro. Suas mãos ainda tremiam e os efeitos da adrenalina começavam a baixar, trazendo um peso invisível para cima de seus ombros. Um nó se formava em sua garganta. Enquanto olhava Percy desmaiado, tão frágil e indefeso, tão ferido... seu peito se fechou e seus olhos arderam levemente. Ele estendeu a mão e limpou uma mancha no queixo de Percy. Seus dedos começaram a passear pela linha de sua mandíbula, sem ter ciência do que estavam fazendo, até recuarem subitamente.
Percy respirava tranquilamente. Enquanto dormia parecia tão… Em paz. Nico fechou os olhos e tentou redirecionar a ele sonhos bons. Como filho de Hades, tinha suas vantagens no mundo do subconsciente. Não era exatamente fácil, mas ele se esforçou. Percy já tinha passado por coisa suficiente naqueles dois dias de viagem, não precisava de pesadelos lhe atormentando.
Quando foram atacados por aquela presença no beco escuro, Nico viu nos olhos do garoto todos os seus terrores. Ele não precisou dizer nada, Nico sabia o que era aquilo. Quando ele caiu contra a parede, totalmente pálido e tremendo, sem ar… O peito de Nico encolheu ainda mais com a lembrança.
— Não era pra ser assim… — verbalizou seus pensamentos em um sussurro.
Por mais que tentasse, não podia negar que havia gostado da ideia de atravessar o país com Percy ao seu lado, e mais ninguém. Por quanto tempo havia almejado ficar na companhia do garoto? Mas seu estômago se corroía por dentro ao pensar no que tinha acontecido para que aquilo fosse possível… Se ela estivesse viva, nada daquilo seria real. Às vezes Nico se pegava pensando que não deveria ter ido até Percy naquele dia, não deveria tê-lo trazido de volta ao acampamento. Annabeth estava errada, ele não era pessoa certa para isso. Era egoísta demais, se ela sequer soubesse… Se soubesse a verdade, nunca teria pedido nada dele.
Ele ainda podia vê-la, quando fechava os olhos. Em um vestido de estilo grego e sandálias, os cachos loiros soltos caindo sobre os ombros, à sombra de um limoeiro. O elísio mergulhado em uma tarde harmoniosa eterna, risos e cantoria, o aroma das flores e o cheiro de churrasco perfumando o ar.
— Por favor, Nico. Ele precisa dos amigos… — dissera ela. — Ajude-o a seguir em frente. Você entende melhor que ninguém.
— Não… Percy não precisa de mim, ele…
— Você não faz ideia do quanto ele se importa com você. Do quanto ele sentiu por você ter se afastado.
Ele se lembrava do choque que lhe atingiu ao ouvir aquelas palavras. E de como, mesmo assim, relutou. Todo o arrependimento que carregava trazendo um gosto amargo em seus lábios.
— Eu não sou quem você pensa, Annabeth.
Ela lhe lançou um sorriso triste e se aproximou dele, segurando seu ombro. Sua mão se tornou pálida e translúcida quando ela o tocou.
— Você tem um coração bom, Nico. Sei que vai fazer a coisa certa.
A voz da garota ainda ressoava em sua mente, como um eco distante. Ali sentado e encolhido diante de Percy, aquela lembrança era inevitável. Ele deveria ter contado a verdade a ele, ter contado como se refugiou no Mundo Inferior depois que as mortalhas foram queimadas, e como ele voltou para vê-la mais de uma vez. Ela sempre o esperava com aquele sorriso genuíno que o fazia querer cavar um buraco no chão, pular dentro e esconder-se para sempre. Ela não fazia ideia. Percy não fazia ideia. Ele jamais olharia para Nico da mesma maneira se soubesse.
O filho de Poseidon estava totalmente imerso em seu sono, as feridas começavam a desaparecer de sua pele. Nico imaginou que dormiria por mais algumas horas. Levantou-se, sacudindo as roupas da fuligem. Caminhou até a extremidade do galpão, os passos ecoando pelo vazio gigantesco do ambiente. Empurrou a porta enferrujada e espiou o lado de fora. A garoa fina ainda cortava o ar e as nuvens cinzentas cobriam o céu, com trovões baixos ressoando ao longe. Olhou para trás uma última vez antes de sair. Puxou o capuz do moletom de Percy, guardou as mãos nos bolsos e começou a andar pelos terrenos da fábrica, examinando se havia algo ali que indicasse em que lugar do mapa estavam. A propriedade externa era tão deserta quanto sua parte interna. Ficava numa região industrial antiga, à beira de um rio lamacento e poluído, provavelmente bem longe da zona urbana.
Em alguns longos metros de caminhada, Nico rodeou toda a propriedade. Encontrou na área central, diante dos prédios, dois mastros. Um com uma bandeira velha e rasgada dos Estados Unidos, e ao lado o outro com a bandeira azul-marinho com uma tocha dourada cercada por estrelas; o símbolo do estado de Indiana, que ficava apenas há algumas horas de onde estavam quando os monstros atacaram. Por sorte a habilidade de Nico com a viagem nas sombras era mais precisa do que ele lembrava, e não tinham ido parar no meio de um deserto ou na China, como já havia acontecido antes.
Estava prestes a fazer o caminho de volta quando uma sensação familiar o preencheu. Todos os pelos de sua nuca se eriçaram. Ele parou onde estava, sua mão instintivamente deslizou para fora do bolso e pousou sobre o cabo da espada. Olhou por cima do ombro, o céu escureceu, a temperatura do ar caiu.
De novo não.
— Oh sim — respondeu uma voz afiada, dentro de sua mente. — Não achou mesmo que tinha acabado, achou?
— Quem…
Nico foi silenciando quando os terrenos da fábrica foram engolidos pela escuridão. De repente ele estava preso entre paredes de bronze novamente, com espaço apenas para manter suas pernas encolhidas diante do corpo, o topo de sua cabeça pressionado contra a superfície dura, sem poder erguer o pescoço ou ao menos esticar a coluna. O ar pesado e podre dentro do jarro o sufocava lentamente. Ele queria gritar, mas sabia que ninguém o ouviria.
— Não… Por favor, não...
Fechou os olhos com força, a respiração ofegante esgotando rapidamente seu suprimento de ar. O pânico o preenchendo por dentro, corroendo seu peito, o silêncio o sufocando.
— Admita, garoto — a voz voltou. — Você sabe, no fundo, que merecia ter ficado nesse jarro pra sempre.
— Não…
— Não?
As paredes viraram fumaça diante de seus olhos e Nico caiu em um vazio escuro, com nada a ser ouvido além de sua respiração ofegante. Ele se levantou, desequilibrado. Suas pernas tremiam, suas mãos suavam frio.
— Quem é você? Por que está fazendo isso? — perguntou para o vazio.
— Você não sabe? — disse a voz, com divertimento. — Pense Nico. Pense bem.
Nico se virou e deparou-se com os fantasmas de sua irmã e sua mãe, paradas lado a lado. Maria di Angelo trajava seu vestido escuro, as luvas e o chapéu sobre o cabelo preso. Ela sorria com o olhar carinhoso que sempre dirigia a ele. Bianca ainda estava com sua parca prateada de caçadora, a trança caindo pelo ombro. Ela estendeu a mão para ele.
— Isso não é real — Nico sussurrou para si mesmo e fechou os olhos. — Não é real.
A voz riu dentro de sua cabeça, uma risada fria carregada de satisfação.
Quando abriu os olhos, o vazio havia desaparecido, assim como Bianca e sua mãe. E deram lugar a algo muito pior.
As chamas dançavam e a fumaça se espalhava pelos campos da colina meio-sangue. O cheiro metálico impregnava o ar. Ele estava em sua armadura, o sangue ainda fervendo pela batalha recente, quando viu de longe Percy cruzando o gramado com uma garota inconsciente nos braços. Quando se aproximou, ele teve a confirmação do que havia sentido mais cedo. Annabeth se fora.
— Você finalmente conseguiu o que queria — a voz voltou a atormentá-lo. — Duas vitórias no mesmo dia.
— Eu não…
O cenário mudou novamente. Ainda estava no acampamento, mas agora todos estavam reunidos diante de uma grande fogueira; os rostos abatidos, cabeças baixas. Uma mortalha cinza de seda com uma coruja bordada queimava lentamente. Ele nunca esqueceria a expressão no rosto de Percy naquele dia.
— Admita o que sentiu, filho de Hades. Você nunca foi tão grato. Você a odiava.
— Não é verdade…
— Não minta para mim.
Seus próprios pensamentos começaram a crescer em sua mente, sobressaindo-se um dos outros. Lembranças, pensamentos antigos, desejos, angústias:
Eu queria odiá-la. Por que é tão difícil odiá-la? Ela fala como se os dois fossem um só. Estão de mãos dadas de novo, eu não posso… O que ele vê nela? Por que tem que ser assim? Por que eu tenho que ser assim? Por que ele não nota? Eu estou bem aqui. Eu queria que eles nunca tivessem se conhecido. Queria que ela… Queria que ela desaparecesse!
Nico caiu sobre os joelhos, as mãos cobrindo os ouvidos. Sua cabeça estava prestes a explodir. Seus olhos ardiam, as lágrimas insistiam em transbordar, mas ele não deixaria.
— Pare!
Sua própria voz se repetia em sua mente, um looping de pensamentos repugnantes.
— Eles são todos seus — disse a voz. — Mesmo que tenha vergonha deles agora.
— Não era verdade… Nada disso era verdade — sua voz saiu embargada, desequilibrada. — Eu nunca quis isso, deuses, eu nunca quis isso!
— Tem certeza? Então talvez o destino devesse ter levado a outra pessoa.
Uma figura se materializou diante dele, há alguns metros. Caída ao chão, em uma poça de sangue. Nico cambaleou até ele e ajoelhou ao seu lado. Tentou dizer seu nome, mas sua voz travou na garganta.
Percy mantinha os olhos sem vida fixos em algum lugar do horizonte. Nico pousou uma mão sobre seu peito e apertou o tecido laranja da camiseta entre os dedos. Seu corpo balançava para frente, tremendo. As lágrimas finalmente transbordaram diante da visão, escorreram até seu queixo e caíram sobre a pele pálida de Percy.
— Não é real. Não é real.
Ele fechou os olhos novamente, esperando que tudo aquilo desaparecesse. Mas quando os abriu ainda estava no mesmo lugar, e Percy ainda estava morto diante de si.
— O que você quer? — vociferou para o vazio.
— Apenas que admita como você ficou aliviado por ter sido ela… E não ele.
Nico baixou os olhos para Percy novamente.
— Como você almejou por aquilo por tanto tempo… E finalmente conseguiu.
Ele balançou a cabeça em negação.
— Não...
— E como você tem pavor que ele descubra sua verdadeira natureza.
A cena desapareceu diante de seu olhos e de repente Nico estava de volta nos terrenos da fábrica, caído de joelhos sobre o chão de cimento.
Um homem o encarava a distância. Trajava uma jaqueta de couro por baixo de uma camiseta vermelha. Era pálido, de cabelos escuros, aparência jovem e expressão sádica. De início, Nico achou que estava de frente com o deus da guerra, Ares. As semelhanças estavam todas ali. Mas quando olhou melhor, percebeu que se tratava de outro deus, talvez muito pior.
O dono da voz balançou a cabeça em reprovação.
— Tsc, tsc, tsc. Tantos medos para uma alma tão jovem… Tantos medos…
Medos.
Nico ergueu os olhos em fúria. As respostas se tornando claras como o dia em sua mente.
— Fobos.
O deus do medo riu, satisfeito.
— Muito bem, Nico. Agora…
Nico não deixou que ele terminasse seu joguinho. Em um movimento rápido se pôs de pé, puxando a espada do cinto, e correu até Fobos pronto para o ataque. O ferro estígio retiniu contra o chão com o impacto. O deus havia desaparecido no último segundo, materializando-se atrás dele.
— Vai precisar fazer melhor do que isso.
Os lábios de Nico se retorceram. Ele ajeitou a espada na mão e virou-se bruscamente, cortando o ar com a lâmina negra. Novamente, o deus o evitou com facilidade. Fobos apareceu em sua visão lateral. Por dentro, Nico sabia que seria inútil atacá-lo, mas estava tão tomado pela fúria que seu corpo não deu ouvidos a sua mente. Girou nos calcanhares, pronto para descer a lâmina contra o deus, mas suas mãos oscilaram, desapareceram por uma fração de segundo, e a espada foi para o chão.
Nico recuou com um arquejo. Seu corpo inteiro estava tremeluzindo, misturando-se as sombras e se solidificando novamente no mesmo instante. Ele tropeçou e caiu sentado. Segurou o pulso, a mão trêmula sumiu diante de seus olhos.
Foi tomado pelo pânico novamente. Seu cérebro ignorando que aquilo não podia ser real, tomado pelas memórias do ano anterior, quando seu corpo estava desaparecendo lentamente a cada dia, quase fundindo-se às sombras para sempre.
Ele viu Fobos se aproximando a passos lentos, mas estava absorto demais em seu próprio terror para fazer qualquer movimento contra ele.
— Tantos medos… — a voz do deus soou repleta de uma admiração perturbadora. — Tanta escuridão.
O deus se abaixou diante dele e pegou sua espada do chão, analisando-a com olhos divertidos, mas Nico não conseguiu dar importância para aquilo. Ele começou a afundar no chão. Se forçava contra a superfície, tentando se elevar, mas era inútil; suas mãos atravessavam o solo. Seus olhos registraram o deus se afastando e levando consigo sua espada. Ele nem sequer manifestou o desejo de correr atrás de Fobos, estava ocupado demais tentando não morrer.
— Vou ficar com isso, por enquanto — disse Fobos. — Estarei te esperando, Nico di Angelo.
Nico desistiu de tentar se erguer e encolheu-se sobre os joelhos, os olhos fechados com força, as mãos sobre a cabeça. Precisava pensar em qualquer outra coisa, esquecer o que seus olhos viram. Se concentrou na imagem de Percy sorrindo para ele no dia anterior, diante da vista do cume. Pensou no cheiro da chuva, nas árvores dançando contra a brisa, na voz do garoto e em seus olhos iluminados pelo sol pálido no fim da tarde…
Quando Nico finalmente ergueu o pescoço, percebeu que estava alucinando sozinho. Não estava afundando, estava encolhido sobre o chão de cimento. Esfregou as pontas dos dedos, não estava mais desaparecendo. Nunca estivera. Levantou-se ainda trêmulo, Fobos não estava em lugar nenhum a vista. Havia partido e levado consigo a espada de Nico.
Um vento forte soprou sobre ele, trazendo consigo um folheto de papel que dançou no ar até aterrissar aos pés de Nico. Ele se abaixou e apanhou o pedaço de papel. Era um panfleto com uma foto de um aquário enorme com peixes de todos os tipos e tamanhos e outra foto ao lado, com mergulhadores dentro de um tanque de tubarões. Seus olhos se estreitaram diante das letras que se embaralhavam e distorciam as palavras, mas com esforço conseguiu identificar que se tratava de um lugar chamado Downtown Aquarium, com o endereço logo abaixo indicando a cidade de Denver, no Colorado. Junto ao logo do aquário, os dizeres: venha viver uma experiência arrepiante!
Nico retesou a mandíbula. Não havia como um panfleto vir voando até ele magicamente do Colorado. Era óbvio que aquilo era obra de Fobos, o deus estaria esperando por ele com sua espada. Mais uma armadilha para qual Nico teria que caminhar de bom grado. Amassou o papel e o enfiou no bolso do casaco, amaldiçoando a si mesmo por ter caído no jogo de Fobos. Como pôde ser tão cego? Como pôde se entregar tão facilmente ao medo?
Por sorte não havia nada por perto que ele pudesse quebrar. Percebeu tardiamente que uma rachadura havia sido aberta no chão aos seus pés. Se tivesse se descontrolado um pouco mais, a fenda teria caminhado até um dos edifícios mais próximos da fábrica. Velhas como aquelas paredes eram, teriam desabado ao menor toque.
Sacudiu a cabeça e se colocou no caminho de volta para o galpão, tentando deixar os acontecimentos para trás e controlar suas emoções.
Puxou a porta enferrujada e adentrou o espaço coberto, saindo finalmente da chuva. Caminhou até o local onde Percy estava deitado sobre o saco de dormir e parou há alguns metros dele, empalidecendo ao lembrar-se da visão do garoto morto sobre uma poça de sangue. Sua respiração ainda descompassada alertou que ele não conseguiria superar aquilo tão facilmente.
Percy ergueu os olhos para ele e se apoiou nos cotovelos. Percebeu que ele estava acordado já há algum tempo, havia trocado a camiseta chamuscada por uma limpa. Nico se aproximou.
— Está acordado… Graças aos deuses.
Percy sorriu fracamente para ele, analisando-o com olhos pesados. Ainda parecia um pouco atordoado, mas com certeza estava muito melhor do que antes.
— Ainda está usando meu casaco.
Com um sobressalto Nico se apressou para o zíper do moletom.
— Ah, me desculpe, eu…
— Não, não tire. Pode ficar com ele. Azul fica bem em você.
Nico baixou os olhos para o casaco, então voltou-se para Percy. Em circunstâncias normais ele provavelmente se derreteria por dentro com aquele comentário. Mas somado a isso, ele também sentiu sua garganta ressecada e o peso sobre os ombros aumentando. Não deveria se sentir bem com aquilo. Se ele sequer soubesse... Aquela voz interna voltou a atormentá-lo. Era sua própria voz dessa cez, disfarçada com a entonação de Fobos.
Percy se sentou com certo esforço e olhou ao redor com uma ruga entre as sobrancelhas.
— Então... Onde exatamente nós estamos?
— Indiana.
— Indiana? Nós atravessamos o estado? Ah, cara…
— Eu precisava nos tirar de lá rápido, não tive tempo para pensar muito pra onde estava indo.
Percy olhou para o próprio corpo, como se só agora tivesse se lembrado do incidente na rodovia. Nico se aproximou e se sentou diante dele. Colou as costas da mão em sua testa, para verificar sua temperatura.
Percy pigarreou.
— Obrigado por ter… Hum… Você sabe…
Nico virou o rosto.
— Não precisa me agradecer.
Percy se ajeitou sobre o saco de dormir.
— Quão ruim era o meu estado?
— Você estava mal. Eu pensei que… — Nico se interrompeu. — Por que fez aquilo?
— Quer dizer salvar você?
— Podia ter morrido.
Percy ergueu as sobrancelhas.
— Isso teria sido muito ruim, hein?
Nico lhe lançou um olhar carrancudo.
— Já vi elas fazendo aquilo, as empousai, explodindo daquele jeito — disse Percy. — Não podia deixar que você… Se machucasse, sabe.
Nico deixou o rosto pesar sobre as mãos e soltou um suspiro longo. Toda a adrenalina do dia se assentou, deixando um imenso buraco em seu peito.
— Me assustou pra caramba, não faça mais isso.
Percy abriu um sorriso provocativo, provavelmente teria feito uma piada, mas a expressão preocupada de Nico o silenciou. Ele segurou sua mão e buscou seus olhos. Uma corrente elétrica percorreu o braço de Nico ao toque do garoto.
— Ei, eu estou bem. Já passamos por coisa pior, lembra?
Nico paralisou diante dele. Tentou evitar o contato visual, mas se viu perdido na correnteza daqueles olhos verdes mais uma vez, sendo puxado em sua direção. Sempre que olhava para Percy daquela maneira seu corpo entrava numa batalha interna; parte de si queria esquecer de tudo e se entregar de uma vez por todas, não importava quais fossem as consequências. Enquanto a outra parte tinha que segurá-lo com unhas e dentes para que não fizesse besteira.
Ele soltou a mão de Percy e se levantou. Virou o rosto, desejando que o garoto não visse suas bochechas pegando fogo. Sacudiu os braços, inquieto. Era como se algo quisesse sair de dentro dele, algo que estava enjaulado ali há muito tempo. A visita de Fobos havia apenas agitado aquilo ainda mais, e agora Nico sentia que não seria mais capaz de segurar aquela coisa dentro de si para sempre. Cerrou os punhos, tentando se acalmar.
— Nico… Você está bem? — Percy perguntou com cautela.
Ele engoliu em seco.
— Sei quem está por trás daquelas visões. Não é Melinoe.
Percy se inclinou para frente.
— Aconteceu de novo?
Nico fechou os olhos por um segundo, desejando não ter que explicar. Então virou-se para Percy.
— Foi Fobos. Ele me enganou… Me deixou preso naqueles pesadelos… Depois roubou minha espada e desapareceu.
Percy franziu o cenho.
— O deus do medo roubou sua espada?
— Foi um dia estranho — assentiu Nico. Sua mão deslizou até o bolso do casaco e puxou o panfleto amassado do bolso. — Ele deixou isso pra trás.
Entregou o papel a Percy, que se demorou nas letras pequenas estreitando os olhos.
— Um aquário municipal? — Ele balançou a cabeça, tentando entender. — O que? Mas isso fica em Denver.
Nico pôs as mãos na cintura e começou a andar de um lado para o outro.
— No meio do caminho para São Francisco, sim. Muito conveniente.
— Então ele roubou sua espada e agora está te esperando pra ir buscá-la nesse lugar? Já vi deuses roubarem armas de outros deuses, mas de meio-sangues? É a primeira vez.
— A espada é só uma desculpa. Ele quer alguma coisa de nós.
Percy esfregou a nuca.
— Claro que quer… — Ele balançou a cabeça, irritado. — Eu já disse que odeio os deuses hoje?
— Ainda não.
— Ótimo. Eu odeio os deuses.
Um trovão ribombou no céu bem acima da fábrica, o chão tremeu ligeiramente com a intensidade do estrondo. Nico parou de andar e voltou-se para Percy.
— Eu diria eu também, mas não estou afim de levar um raio na cabeça hoje.
Percy ergueu o panfleto na mão.
— O que vamos fazer sobre isso?
— Não temos muitas opções. Mesmo que eu não vá atrás da minha espada, Fobos vai nos seguir até ter o que quer. Seja lá o que for.
Ele engoliu em seco, lembrando de como o deus queria que ele admitisse sua culpa a qualquer custo. Mas por que ele estava fazendo aquilo? Era apenas uma brincadeira para ele? O Olimpo era assim tão entediante que os deuses tinham que sair para encontrar divertimento em atormentar crianças?
— Ele pode estar trabalhando com Melinoe — disse Percy. — Reyna descreveu as mesmas visões no cemitério aquele dia.
— Então por que está nos mandando adiante, em vez de nos fazer voltar? Ele nem sequer tentou nos impedir.
— Ele está nos atrasando… — Percy ponderou por um segundo. — Temos pouco tempo até o solstício, e ele está dificultando as coisas.
— Talvez. Mas o que Fobos ganha com isso? — Nico sacudiu a cabeça. — Não importa. Precisamos ir. Hazel e Leo estão ficando sem tempo.
Percy se levantou.
— Certo, podemos pegar outro trem… Deve ter alguma estação por aí, talvez...
— Não, chega de trens e ônibus, não temos tempo para lidar com outro acidente como aconteceu hoje — disse Nico. — Só temos três dias para ir e voltar. Vamos pelas sombras.
Percy abriu a boca para discordar, mas a fechou no mesmo instante. Ele devia saber que Nico estava certo. Precisaria ceder às sombras mais cedo ou mais tarde.
— Tem certeza disso? — perguntou ele, incomodado.
— Eu…
Nico parou de repente. Seus sentidos lhe alertaram da chegada de uma presença familiar. Ele olhou para trás, as sobrancelhas franzidas.
— O que? — disse Percy.
Nico correu para porta e saiu novamente para o frio ameno da tarde. Percy o seguiu, totalmente confuso. Um ruído de motor se aproximava e logo Nico avistou o veículo vindo na direção da fábrica por uma estrada de terra. Percy instintivamente puxou Contracorrente do bolso, mas Nico ergueu a mão.
— Não, está tudo bem.
O veículo reduziu a velocidade e Nico foi se aproximando. O Jeep preto estacionou diante dele, e através do vidro fechado ele avistou seu motorista particular, Jules Albert, segurando o volante e encarando fixamente o horizonte com seus olhos mortos.
Nico notou que estava sorrindo em seu reflexo no vidro do carro. Não conseguia acreditar que havia mesmo funcionado. Jules ouviu seu chamado, só precisou de um tempo para alcançá-los.
Percy se aproximou por trás, desconfiado.
— Por que tem um cara morto no volante?
— Ele veio nos buscar.
— Não quero ir para o Mundo Inferior hoje, obrigado.
Nico virou-se para ele.
— Esse é o Jules-Albert, meu motorista particular. Parece que não vamos mais viajar nas sombras até o Colorado.
Percy se inclinou para o lado e olhou através do vidro, então voltou-se para Nico.
— Você tem um chofer zumbi.
— Um chofer zumbi francês, sim.
Percy ergueu as sobrancelhas comicamente.
— Só entra no carro, Percy.
Jules-Albert esperou os garotos buscarem as mochilas no galpão, então deu partida quando pularam para dentro do Jeep e bateram as portas. Nico se acomodou no banco da frente, deixando Percy sozinho atrás.
Quando pegaram a estrada ele relaxou a cabeça no encosto do banco e tentou se livrar daquela sensação ruim que o atravessou quando as lembranças de Fobos cruzaram sua mente. Seus olhos pararam no retrovisor, onde conseguia ver Percy admirando a vista através da janela. Parecia bem por fora, embora talvez estivesse lidando com algo muito pior por dentro. Nico imaginou se algum dia eles se recuperariam de tudo isso, se conseguiriam deixar todas aquelas agonias no passado e viver propriamente, não somente tentar viver. Quando voltassem ao acampamento, quando as coisas se resolvessem… Talvez ele perdoasse a si mesmo, talvez não precisasse esconder de Percy todos os seus segredos… Talvez se sentariam na praia e observariam o mar em silêncio até que não existisse mais nenhuma mágoa. Os olhos de Percy encontraram os seus no retrovisor. Ele os desviou rapidamente, mas logo os voltou para o espelho novamente. Com um sorriso tímido, Nico virou-se para fora, para a vista da janela.
Sua farsa não vai durar para sempre.
Ele pegou aquela voz irritante dentro de sua cabeça com uma mão invisível e a atirou pela janela.
Não enche.
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