Notas iniciais
Demorei mas voltei! Espero que gostem, boa leitura

Nico nunca tinha ido a uma festa.

Não uma que envolvesse um bando de adolescentes loucos e bêbados, pelo menos.

A música que vinha de dentro da casa retumbava pela vizinhança e ele podia ver através das janelas e das varandas que o interior estava muito mais abarrotado de gente do que ele gostaria. Ótimo, pensou consigo mesmo, multidões e barulho, as duas coisas que mais detestava juntas em um só lugar. A noite seria longa.

Os três garotos — bem, dois garotos e um meio bode — caminhavam em direção a casa tentando parecer que eram convidados da festa. Willow se esforçava para se equilibrar nos pés falsos enquanto Percy usava seu andar descolado e seu melhor sorriso de sou um adolescente americano normal que Nico achava um tanto bobo e que ao mesmo tempo fazia seu estômago rodopiar toda vez que olhava. Mia havia lhe emprestado uma camisa de flanela xadrez para amarrar na cintura e esconder a espada negra que ele trazia pendurada ao cinto, embora ele não achasse isso necessário. A névoa normalmente servia para confundir a espada com um taco de beisebol ou algo parecido aos olhos dos mortais. Pelo menos ele não teria que responder porque carregava um taco amarrado no cinto.

— Nós vamos ficar bem — disse Percy enquanto entravam no pandemônio. — Só temos que nos misturar e agir normalmente.

Nico cruzou os braços e fechou a cara enquanto Willow olhava para as latas de cerveja e refrigerante vazias espalhadas no balcão da cozinha como se fossem um suculento pedaço de pizza.

— A qualquer sinal de problema pegamos a menina e damos o fora — disse Nico, incomodado por ter de elevar seu tom de voz devido ao barulho. Percy concordou com a cabeça.

Mia havia chegado mais cedo para ajudar a amiga a preparar a casa enquanto os garotos ficaram do lado de fora vigiando e esperando a festa começar. Nico detestava a idéia, sabia que as coisas dariam errado no fim do dia, porquê diabos Percy havia concordado com aquilo?

— Certo, vamos seguir o plano — disse o filho de Poseidon.

— O plano — repetiu Nico. — Espero que seja melhor com planos do que é com decisões.

— Ei! — Percy protestou, mas ele já tinha dado as costas ao garoto e se afastado.

Sua parte no tal plano era ficar de olho em Mia enquanto Percy e Willow vigiavam os arredores da casa e ficavam atentos por qualquer sinal do professor de matemática ou alguma outra ameaça.

O ambiente até seria agradável, não fosse por todas aquelas pessoas dançando, falando alto ou cantando, derrubando suas bebidas no chão e fazendo brincadeiras idiotas. A casa era grande, dois andares, cômodos largos e confortáveis, móveis caros, janelas altas e piso de madeira. Nico imaginou que seus donos não ficariam felizes quando voltassem de viagem e descobrissem o que a filha e os amigos haviam feito com o lugar.

Ele seguiu por um corredor estreito desviando de um casal que praticamente se devorava contra a parede e saiu em uma saleta com uma mesa de sinuca rodeada de gente e uma porta de vidro que dava para a piscina.

— Nick! — ele ouviu a voz a Mia do outro lado da sala e viu a garota com os braços abertos e um copo de plástico na mão. Ele se aproximou dela e dos amigos.

— É Nico. E eu estava te procurando — disse ele, lançando um olhar sério a garota e silenciosamente tentando lembrá-la que sua vida estava risco enquanto ela se divertia.

— Ei, não fique tão sério! Pegue uma bebida.

Mia virou-se para uma mesa de madeira atrás dela com garrafas de todos os tipos e começou a misturar as bebidas em um copo vermelho. Nico reparou que suas amigas lhe avaliavam da cabeça aos pés e davam risadinhas.

— Aqui — Mia empurrou o copo para ele e se pôs ao seu lado. — Meninas, e meninos, é claro, esse é o Nico, meu amigo do… acampamento de férias que eu falei.

Nico olhou para ela confuso e a garota lhe deu uma cotovelada de leve.

— Ahn… É, nos conhecemos verão passado — ele se empenhou para colocar algum ânimo na voz mas não conseguiu.

Mia apresentou os amigos um por um e Nico fingiu estar interessado, mesmo que não se lembrasse de nenhum dos nomes quando ela terminou.

— Por que não está bebendo? Você tem permissão pra se divertir, sabe? — disse ela.

Nico notou que ainda segurava o copo cheio com o que quer que fosse que tinha dentro.

— Não estou aqui pra isso.

— Qual é, não tem mal nenhum em relaxar um pouco.

Nico se limitou a encará-la esperando que estivesse se fazendo de boba. Mia o puxou pelo braço e o afastou para um canto longe dos amigos.

— O quê está fazendo? — perguntou ela, em tom baixo e exasperado.

— O quê eu estou fazendo?— disse Nico, indignado — O que você está fazendo?!

— Pensei que a idéia era se misturar, sabe, agir como gente normal, sem essa loucura de… monstros.

— A idéia é não provocar um acidente e não acabar mortos por monstros — o garoto não tentou esconder a insatisfação nas palavras. — Você não faz idéia do risco que estamos correndo.

— Não faço ideia? — por um breve momento Mia pareceu se irritar muito com o comentário, mas então respirou fundo e tentou assumir um semblante sério — Olha, eu sei que estão fazendo um grande favor por mim me dando essa noite… Mas por que não aproveita que está aqui e se diverte um pouco também? Pelo que eu entendi, a sua vida como meio-sangue não é exatamente divertida.

Nico ficou em silêncio. Todas as situações de vida e morte que o garoto havia presenciado de repente passaram por sua mente como um filme.

— Não é de todo ruim… — ele tentou se defender.

— Tanto faz. Só tente esquecer disso um pouco e agir como um garoto normal, isso não seria legal?

Nico ergueu uma sobrancelha.

— Anda — insistiu Mia, apontando o copo nas mãos de Nico. — Um gole, pelo menos.

— Não.

— O que? Você nunca bebeu antes?

Ele sentiu as orelhas quentes com o tom provocativo que ela usou.

— Eu sou menor de idade. E você também.

— Agora você está sendo fofo — zombou Mia, cruzando os braços.

Alguma coisa em seus olhos e em sua expressão lhe era familiar — e lhe irritava muito.

Nico bufou, sabendo que ela não largaria de seu pé.

— Ta bem! — ele olhou para a bebida, vermelha como o copo com um cheiro doce enjoativo e deu um gole, já se arrependendo. Ele esperou que o líquido descesse queimando por sua garganta e deixasse sua boca amarga, mas não foi isso que aconteceu. A bebida era doce e suave na medida certa, com gosto de framboesa e um toque de hortelã. Era boa. E Nico imediatamente sentiu que queria mais.

— Viu só, não foi tão ruim — Mia lhe lançou um sorriso satisfeito, ignorando o olhar confuso do garoto. — Vou deixar você apreciar sua juventude. Divirta-se!

Ela sumiu por entre um amontoado de gente, mas Nico não se importou. De repente a presença de todas aquelas pessoas desconhecidas já não lhe incomodavam mais, nem mesmo a música alta que quase fazia tremer o piso da casa. Estava muito concentrado saboreando a bebida, um gole atrás do outro até esvaziar o copo.

X

Percy não sabia exatamente porque havia concordado em ir para a festa. Talvez parte dele só quisesse ficar longe do acampamento por mais algum tempo… Não estava com pressa de voltar e ficar cercado por todas aquelas coisas que lhe faziam lembrar… dela.

Ou talvez fosse sua juventude reprimida falando, afinal ele nunca tivera chance de agir como um adolescente normal. Talvez agora fosse sua chance de finalmente tentar se encaixar no mundo mortal.

Patrulhou o perímetro, como tinha planejado e ficou impressionado com o tanto que teve de andar para dar uma volta completa pela casa.

Quando o relógio finalmente anunciou que passava das nove, decidiu que era hora de checar os outros. Só que os outros não estavam em lugar nenhum.

Procurou nos jardins, na área da piscina, na cozinha, nas diversas salas e até mesmo no banheiro. Nenhum sinal de Nico e dos outros.

Ta bem, já pode começar a ficar preocupado, disse a si mesmo.

Deu outra volta completa pela casa. Estava quase alcançando o corredor que lhe levaria de volta a entrada quando viu Nico do outro lado da sala. Percy parou, observando perplexo o garoto.

Nico estava dançando. Ou pelo menos era o que parecia. Sacudia os braços de um jeito estranho enquanto o resto do corpo se movimentava em um ritmo completamente diferente. Percy nunca desejou tanto ter uma câmera em mãos. Mas então lhe ocorreu que Nico e dança eram duas coisas que não existiam no mesmo universo. O que diabos estava acontecendo?

— Cara, o que você bebeu? — perguntou ao se aproximar.

Perrcyyy! — Nico abriu os braços como se esperasse um abraço dele. Percy imediatamente percebeu que sua voz estava alterada. Nada em Nico fazia sentido naquele momento.

— Você só pode estar brincando — murmurou.

O filho de Hades parecia totalmente fora de si, desequilibrando-se em seus passos desconexos de dança enquanto os jovens ao redor aplaudiam e incentivavam. Percy não conseguia acreditar nos próprios olhos.

Ele se meteu na roda e pegou Nico pelo braço.

— Tá bom, a festa acabou.

Nico cambaleou pela sala enquanto tentava cantar a música que claramente não conhecia, repetindo os versos atrasado.

— Espera aí — pediu ele quando percebeu que Percy o arrastava para longe da bagunça. — O que está fazendo? Percy, o que está fazendo?

— Você está bêbado — Percy sabia que era inútil se irritar com o garoto naquela situação mas não conseguiu se conter. — O que estava pensando? Não viemos aqui pra isso!

Nico riu de maneira exagerada, jogando a cabeça para trás. Ele se desequilibrou e esbarrou em alguns adolescentes que dançavam atrás dele.

— Eu não estou… — ele estreitou os olhos no meio da fala como se tivesse esquecido o que ia dizer em seguida. — Não estou!

Percy revirou os olhos.

— Cadê a Mia? Era pra você ficar de olho nela.

— Quem é Mia? — seu tom de voz era muito mais alto do que o normal.

— Eu não sei o que você bebeu, mas deve ter sido muito forte — disse Percy, com frustração.

Nico dobrou-se para frente segurando a barriga e Percy teve de segurá-lo para que não desse de cara com o chão.

— Por favor não vomite nos meus tênis.

O garoto endireitou-se e riu despreocupado.

— Alarme falso.

Ele não estava nada bem. Percy tinha que encontrar Mia e Willow para que pudessem dar o fora, não podia se dar ao luxo de esperar mais e correr o risco de ter de lutar contra monstros com Nico naquela situação. Ele tinha que melhorar. E rápido.

Pôs seu cérebro para trabalhar tentando achar uma maneira de trazer Nico de volta a sobriedade mas não tinha exatamente muita experiência com gente bêbada. Qual era o jeito mais eficiente de se acordar alguém?

— Água! — ele quase pôde ver uma lâmpada de idéia se ascendendo sobre sua cabeça.

— Não, obrigado — disse Nico debilmente.

Percy se adiantou com ele para o banheiro mais próximo onde um garoto dormia abraçado ao vaso sanitário. Abriu a torneira e passou as mãos molhadas nas bochechas de Nico, que recuou instantâneamente.

— Não, sra. O'lleary! No rosto não!

Percy começou a ficar realmente preocupado. Sabia que a bebida alterava as pessoas, mas não causava alucinações. Concentrou-se na água, no som do líquido saindo pela torneira e tentou fazer com que surtisse algum efeito em Nico. E é claro que não funcionou. Desejou que o líquido espirrasse na cara de Nico e o fio de água saindo da torneira se dobrou e avançou para o rosto de Nico com um belo splash que fez o garoto fechar os olhos e recuar. Mas então começou a rir ao recuperar-se e Percy sabia que um Nico sóbrio teria ao menos lhe fuzilado com o olhar.

Então lhe ocorreu que assim como a água era uma fonte de poder e cura para os filhos de Poseidon, deveria existir algo equivalente para os filhos de Hades, certo? Não havia nenhum cemitério por perto que ele soubesse… Tinha que haver outra coisa. Talvez escuridão?

— Anda, vamos lá pra cima.

Pelo menos Nico não lutou. Seguiu Percy, que ainda o segurava pelo braço, pelo corredor e até as escadas como se estivesse fazendo um passeio turístico pela casa. Seguiram pelos degraus com o garoto tropeçando e escorregando até que Percy o puxou para um dos quartos.

Entrou sem acender a luz e sentou Nico na cama. Fechou a porta atrás de si abafando o som da música e selando a luz do lado de fora. Apenas o brilho suave do luar entrando pelas janelas fazia ser possível distinguir as formas da escuridão.

Esperou alguns segundos, torcendo para que o escuro tivesse algum efeito… e nada.

— Ah, droga. — apoiou-se nos joelhos, cansado por ter de carregar o menor pela escada.

Não conseguia enxergar Nico no escuro, apenas sua silhueta que parecia cutucar alguma coisa invisível no ar. Percy abaixou a mão do garoto, tentando atrair sua atenção.

— Nico. Presta atenção — ele não podia ter certeza se ele estava ouvindo, mas continuou. — Preciso que fique aqui enquanto eu procuro a Mia e o Willow. Pode fazer isso?

— Fazer o que?

Percy suspirou.

— Pode ficar aqui? — tentou falar da maneira mais clara possível.

— Aqui — repetiu Nico, como se não conhecesse a palavra. Seu tom de voz havia abaixado e agora parecia mais confuso e cansado. Talvez as sombras estivessem fazendo algum efeito.

— Sim, preciso que fique aqui e não saia, pode fazer isso? — Percy falava como se estivesse tentando se comunicar com uma criança que ainda não tinha aprendido a falar.

— Sozinho? — perguntou Nico, em um tom quase choroso. — Não quero ficar sozinho. De novo não.

Por alguma razão Percy sentiu uma coisa estranha no peito, como se um dedo gelado e pontudo tivesse cutucado seu coração.

Começou a ficar aflito e desejou ter ouvido Nico mais cedo quando o garoto dissera que a festa era uma péssima ideia.

— Percy? — a voz confusa do garoto preencheu o quarto.

— Sim?

— Você pode ficar comigo?

Ele olhou na direção de Nico, embora não pudesse enxergar seu rosto totalmente. Então o garoto fez algo que Percy não esperava.

Ele se inclinou para frente, lentamente diminuindo a distância entre os dois. Seus olhos pareciam vidrados em algo… Percy demorou para entender que este algo eram seus lábios. Nico ergueu a mão e passou o polegar suavemente pela linha de seu maxilar, subindo para a maçã do rosto, vacilando como se explorasse um caminho nunca percorrido.

A mente de Percy não sabia como reagir e seu corpo estava paralisado; tudo o que sentia era o toque de Nico em seu rosto enquanto suas bochechas ardiam. Uma sensação, quase como uma corrente elétrica, percorreu sua nuca. Nico estava quase encostando a ponta do nariz na de Percy quando desabou. Seus olhos se fecharam e seu corpo pesou para frente, caindo sobre o ombro de Percy. Ele fez um som como um ronco silencioso. Estava adormecido.

Percy ficou imóvel por alguns segundos, sentindo a respiração do menor fazendo cócegas em seu pescoço enquanto tentava processar o que havia acabado de acontecer. Chegou a conclusão de que era a bebida agindo, e não Nico. Tinha que ser.

Com todo cuidado para não acordar o garoto, deitou-o sobre o colchão e virou-se para sair, desejando silenciosamente que ele continuasse adormecido até que achasse Mia e pudessem partir.

Percy saiu para o corredor e fechou a porta com cautela. Desceu as escadas de volta a sala principal onde a festa fervia. Foi só então que percebeu o quanto estava ferrado: o professor de matemática de Mia estava parado diante da porta de entrada e olhava diretamente em seus olhos.