Notas iniciais
Olá queridxs! Que saudade eu estava de aparecer por aqui. Demorei bastante dessa vez, tem sido meio difícil achar inspiração pra escrever. Queria a agradecer a quem está acompanhando, favoritando/comentando. Vocês me incentivam muito a continuar com a história! Boa leitura

Percy nunca foi tão grato por seu cérebro de semideus funcionar tão rápido e claro quando estava em perigo.

Correu o olhar pela casa, buscando todas as saídas possíveis, calculando o dano que causaria se lutasse ali, com todas aquelas pessoas amontoadas… Não, tinha que atraí-lo para fora. Mas ele ao menos sabia que tipo de monstro era aquele.

Quase como se lesse sua mente, o professor começou a se transformar. Sua forma aumentou de tamanho enquanto as pernas e os braços transformavam-se em patas enormes e os cabelos grisalhos davam lugar a uma juba laranja. Seu rosto permaneceu o mesmo, mas os olhos agora eram duas fendas e assumiram um brilho demoníaco.

Por favor não tenha uma cauda, pediu Percy silenciosamente.

Tarde demais. A cauda de escorpião surgiu e o monstro rugiu para Percy.

— É claro que tinha que ser um Manticore — disse ele, puxando a caneta do bolso.

— Você não sabe o quanto esperei por esse momento, Percy Jackson — sibilou o monstro, erguendo a cauda. Os adolescentes ao redor gritaram e correram para longe da criatura.

— É mesmo? Que pena que não é recíproco!

Quando Contracorrente formou-se em sua mão ele pulou da escada para o ataque. O Manticore o rebateu com a cauda e para sua sorte Percy foi arremessado contra as almofadas do sofá. A cauda o teria amassado ali mesmo, mas ele rolou para o lado. Apoiou-se nos joelhos recuperando o equilíbrio.

— Criança estúpida! — o monstro ergueu a cauda novamente e disparou um espinho em sua direção. Percy desviou no último segundo e o míssil passou zunindo por seu ouvido e cravou-se na parede.

— Ah, cara… vai ser uma longa noite.

Então se levantou com um impulso e correu para fora da sala, empurrando os jovens ao seu redor. Mais espinhos voaram mas ele não teve tempo de se virar para ver o que tinham acertado. Disparou na direção do jardim e passou pela porta de vidro que levava a piscina, jogando-se para o lado segundos antes de um espinho explodir a porta às suas costas. Os estilhaços o encharcaram, mas a adrenalina correndo em suas veias o impedia de sentir o estrago causado. No lado de dentro a música parou e tudo o que se ouvia agora era uma constante gritaria enquanto os mortais corriam e se esbarravam tentando fugir da casa.

O Manticore aterrissou em sua frente, a causa preparada para mais uma saraivada de espinhos letais.

— Percy! — a voz de Mia do outro lado da piscina o alarmou ainda mais. A garota empalideceu ao ver o monstro. — O que… V-você…

— Fique fora disso, garota! — O Manticore girou e atirou contra a garota. Percy não teve tempo de reagir. Por um breve momento ele achou que seria o fim de Mia, mas os espinhos a rodearam, pregando-a pelas roupas na cerca de madeira que ladeava a piscina.

Aproveitando o momento, Percy brandiu Contracorrente e avançou, cortando o ar com a lâmina de bronze. Para seu azar, os Manticores eram muito mais rápidos que os outros monstros e ele se desviou com facilidade. Percy lutou contra a cauda que tentava espetá-lo e lançava projéteis sem dar-lhe chance de ao menos respirar, destruindo tudo ao seu redor. Tudo o que conseguia fazer era se desviar. Amaldiçoou-se brevemente por ter ficado tanto tempo sem treinar, se tivesse voltado antes ao acampamento talvez estaria melhor preparado para aquela luta… Todos aqueles meses comendo salgadinhos e doces sem levantar da cama começavam a pesar em seus músculos.

Mia xingava alto enquanto tentava se desvencilhar dos espinhos, mas era inútil. Então Percy avistou Willow correndo em direção a piscina. O sátiro ergueu a flauta de bambu e começou a tocar uma canção horrorosa. O Manticore encolheu-se e Percy teve uma única chance de reagir. Arremessou contracorrente na direção do Manticore e o cabo da espada bateu contra o olho do monstro. Não era exatamente o que planejava, mas conseguiu distraí-lo por um breve segundo. Concentrou-se na água da piscina, agitou as mãos e vinte litros de água voaram pelo ar, engolindo o monstro.

Willow parou de tocar e correu para Mia.

Percy colocou toda sua energia numa tentativa de tentar conter o Manticore dentro da água, formando uma espécie de esfera ao seu redor. O Monstro rodopiava dentro do redemoinho. Percy sentiu suas entranhas repuxando e retorcendo-se a medida que controlava a água, mas não podia parar agora. Então fez algo que nunca achara que seria capaz de fazer. A água começou a tomar forma sólida. O ar condensou-se ao seu redor e o líquido transformou-se em gelo. O Manticore ficou imóvel dentro do gigantesco bloco irregular no meio do jardim em pleno verão.

Os joelhos de Percy cederam e suas mãos envolveram sua barriga. Ele se forçou a se colocar de pé e cambaleou até Mia. A garota o olhava, atônita, ainda pregada a cerca. Percy ajudou Willow a puxar os espinhos.

— Como você fez aquilo? — Mia parecia estar com mais medo dele do que do monstro.

— Não faço ideia — as palavras mal saíram de sua garganta.

— Isso não importa, temos que nos apressar, olhe! — Willow apontou o monstro.

O gelo começava a trincar e se derreter. Aquilo não seguraria o Manticore por muito tempo.

Com uma última descarga de energia ele conseguiu puxar os espinhos e libertar Mia, então seus joelhos cederam novamente e a garota o amparou.

— Nico… — foi tudo o que conseguiu dizer. Apontou para dentro da casa. — Lá… em cima…

— Vou buscá-lo — disse Willow e correu para dentro da casa.

Mia carregou Percy pelo jardim pendurado pelo ombro, ambos cambaleando até o interior da casa. A ponta da cauda do Manticore já se projetava para fora do gelo.

— Que loucura — a voz de Mia tremia. — É tarde demais pra dizer que eu devia ter escutado o Nico?

Percy tentou resmungar algo como "não deixe ele saber que estava certo" mas duvidava que a meia sentença que conseguiu produzir havia feito algum sentido. Mia o apoiou em uma parede perto da escada e logo Willow surgiu nos degraus com um Nico ainda meio adormecido, mas não tão bêbado quanto antes. Com a pouca lucidez que lhe restava, o garoto estreitou os olhos para Percy enquanto descia os degraus aos tropeços.

— O que… — começou ele, então seus olhos se arregalaram olhando para algo atrás dos dois. Percy não precisava se virar para saber que o gelo não estava mais lá. — Santo Hades!

Então Nico empurrou o sátiro e se jogou na direção de Percy e Mia. Os quatro desapareceram nas sombras segundos antes de uma saraivada de espinhos estourar a parede da sala.

X

Percy não se lembrava do quão radical era a viagem nas sombras. Seus cabelos voavam para trás e a pele de seu rosto parecia estar se descolando dos ossos enquanto a escuridão os engolia. Ele teria aproveitado mais se não estivesse tão fraco. Tudo o que ouviu durante aqueles poucos segundos foi Mia e o sátiro se agarrarem em pavor enquanto gritavam em uníssono.

Eles despencaram na colina do acampamento, em meio a madrugada. O pouso provavelmente teria sido melhor planejado por Nico em circunstâncias diferentes, mas o garoto estava praticamente inconsciente a essa altura, então deram de cara com a grama e saíram rolando colina abaixo.

Quando parou de rolar, Percy recuperou o fôlego. Ergueu-se lentamente, o mundo ao seu redor ainda girava. Willow choramingava encolhido na grama e Mia se ergueu com um pulo, olhando ao redor, ainda meio atordoada. Percy apressou-se então para Nico. O garoto estava imóvel, estirado com a barriga sobre a grama.

— Nico — Percy o virou e checou sua respiração. — Você está bem?

As feições do garoto se retorceram e ele emitiu um som abafado.

— Ainda…Vivo… — conseguiu dizer.

— Que lugar é esse? Como…. Como chegamos aqui? — perguntou Mia. Estava pálida como se tivesse acabado de ver uma assombração.

— Nico nos deu uma carona. É meio difícil de explicar... Bem-vinda a colina Meio-Sangue — disse Percy. Ele sabia que a garota devia ter um milhão de perguntas, mas não tinha energia para respondê-las agora. O vídeo de orientação do acampamento teria que ser suficiente.

Percy viu as luzes da Casa Grande se ascenderem ao longe e logo um pequeno grupo de semideuses corria em sua direção, liderados por Will Solace.

O filho de Apolo abaixou-se diante de Nico, avaliando a situação.

— Seu idiota teimoso — disse ele, ajudando o garoto a se levantar.

— Ei, nós conseguimos — disse Percy. — Ele nos salvou.

— É claro que salvou — disse Will. — E quase morreu no processo, como sempre.

Com a ajuda de outro semideus eles o levaram para a enfermaria.

— Ele vai ficar bem? — perguntou Mia.

Percy assentiu.

— Ele só precisa de uma soneca.

— E quanto a você? Está com um cara péssima.

Só então Percy conseguiu avaliar sua situação. Seu estômago doía como se estivesse sendo espetado por agulhas e suas pernas eram chumbo. Tinha cortes nos braços e provavelmente no rosto e suas roupas e cabelos estavam cobertas de estilhaços de vidro. Uma passada na enfermaria não lhe faria mal.

— Acho que eu também preciso de uma soneca.

Depois de pegar um pouco de Néctar e Ambrosia, Percy deixou Mia com Quíron e deu-se por vencido. A comida dos deuses curou seus ferimentos, mas ainda assim seus músculos estavam cansados demais. Dirigiu-se ao chalé 3 e adormeceu quase instantâneamente quando se deitou.

Acordou suado, algumas horas depois. As noites vinham sido muito mais turbulentas desde que retornara ao acampamento. O sonho era sempre o mesmo… Sempre a mesma visão, de novo e de novo. O sangue encharcando suas roupas e suas mãos, os cachos loiros caindo por seus braços enquanto ele a sustentava, as lágrimas inundando suas vistas.

"Está tudo bem, Percy…."

Aquelas foram as últimas palavras que ele a ouviu dizer. E não lhe faziam sentido algum.

Esfregou os olhos e se levantou. Sabia que não conseguiria voltar a dormir, mesmo que ainda precisasse.

O sol já se espreguiçava no horizonte, lentamente aquecendo o ar da manhã. Percy deixou o chalé e passou direto pelo pavilhão do refeitório, onde alguns poucos campistas começavam a se reunir para o café da manhã. Rumou para a Casa Grande que ainda repousava em silêncio e subiu os degraus para a enfermaria.

Os fracos feixes de luz solar invadiam o quarto pelas frestas das cortinas de linho. Percy aproximou-se da cama onde Nico ainda dormia com a cabeça fora do travesseiro, o rosto apoiado no colchão de forma a amassar sua bochecha, os lábios formando um biquinho e a franja caída pela testa. Percy quase riu com aquela visão. O garoto tinha uma expressão tão serena e inocente quando dormia, tão diferente da usual carranca e do olhar penetrante. Ficava totalmente imóvel, a respiração silenciosa. Percy quase precisou se certificar de que ainda estava vivo.

Na mesinha de cabeceira ao lado repousava um copo com néctar pela metade e um pouco de ambrosia. Percy nunca deixava de se impressionar com os poderes do filho de Hades, mas Nico sempre ficava esgotado depois de usá-los. Muito mais do que ele com o que quer que tivesse feito na noite anterior. Seu cérebro ainda estava processando aquilo.

A respiração de Nico ficou mais pesada de repente e seus olhos abriram-se lentamente e estreitaram-se diante da luz. Ele pareceu confuso por alguns segundos até que sua visão focou-se em Percy.

— Bem-vindo de volta ao mundo dos vivos — disse Percy.

Nico ergueu a cabeça como se estivesse tentando se situar em que planeta estava. Os cabelos eram uma massa negra desgrenhada. Sentou-se na cama e esfregou os olhos. Encarou o nada por alguns segundos e Percy esperou, divertindo-se.

— Ontem foi…

— Emocionante? — chutou Percy.

— … Exaustivo… — Nico assentiu lentamente. — Como escapamos vivos?

Percy cruzou os braços e encostou-se na cama ao lado.

— Ahn, uma coisinha chamada viagem nas sombras. Já ouviu falar?

— Eu sei. Mas… é estranho. Eu não me lembro de tudo… só alguns flashs.

— Você estava bem bêbado — lembrou Percy. — Acho que é normal não se lembrar de tudo.

— Bêbado? — Nico parecia estar processando a palavra. — Eu?

— Você tem todos os sintomas. Eu acho.

— Mas… — ele olhou para fora pela janela. — Como pude fazer isso? Droga, eu coloquei todos nós em perigo.

Percy queria concordar mas sabia que Nico já devia estar se martirizando muito bem sozinho.

— Deu tudo certo no final. Mas é, foi bem engraçado. Nunca achei que te veria daquele jeito.

— Ah meus deuses, o que foi que eu fiz?

Percy segurou o riso quando as imagens mentais de Nico dançando em meio a um monte de estranhos invadiram sua mente.

— Você não quer saber, vai por mim.

O garoto enterrou o rosto nas mãos. Percy o observou por alguns segundos em silêncio, seu pé batia involuntariamente contra o chão. Ele tinha que perguntar, só não sabia como...

— Então… Nico — ele esfregou o pescoço. O ar ficou mais quente de uma hora pra outra. — Você não se lembra de tudo mesmo?

— Só alguns flashs, como eu disse.

Percy balançou a cabeça.

— Então aquela hora… No quarto…. — ele tentou captar alguma lucidez no olhar de Nico mas o garoto apenas franzia o cenho, confuso. — Deixa pra lá.

— O que? O que aconteceu? — Nico se pôs de pé.

Percy sentiu as orelhas arderem ao lembrar-se do quão próximo o garoto estivera na outra noite. Ele abriu a boca para tentar inventar alguma história mas tudo o que saiu foi um monte de sílabas gaguejadas sem sentido. Desejou não ter começado a conversa. No fundo estava aliviado que Nico não se lembrava.

— Não é nada — disse Percy. — Esquece.

Nico parecia curioso, mas o simples ato de pensar parecia exigir demais dele naquele momento. Ele cobriu os olhos e se curvou.

— Deuses, é assim que é uma ressaca? Eu nunca mais quero chegar perto de álcool de novo.

Então se dirigiu ao banheiro murmurando algo sobre como sua cabeça estava prestes a explodir.

Pela janela Percy observou uma estranha movimentação. Aproximou-se e afastou as cortinas. Foi então que distinguiu um imenso dragão de bronze voando baixo, escoltando um grande grupo de semideuses vestidos de roxo marchando pelas extremidades da colina. Um pequeno sorriso involuntariamente formou-se em seus lábios. Tanta coisa havia acontecido, Percy mal tivera tempo de se lembrar que a reunião dos acampamentos aconteceria naquela semana.

— Ei, Nico. É melhor você se curar logo dessa ressaca. — disse ele. — Não vai querer que sua irmã te veja assim.