Where the Light Won't Find Us

2 Capítulo II — Nothing Ever Lasts Forever


— Onde está indo? — A pergunta surgiu na escuridão do cômodo. Clarke acabara de abrir a porta do casebre silenciosamente para ir se encontrar o contato da polícia.

Ela parou e virou-se para encontrar Lincoln. Ele tinha os braços cruzados e uma expressão irritada no rosto. Clarke engoliu em seco. Geralmente, conseguia se livrar das pessoas com quem morava perguntando aonde ia na calada da noite, mas aparentemente hoje a sorte não estava ao seu lado.

— Eu... ahm... — gaguejou, tentando pensar rápido em uma desculpa. Ela tirou a bandana que usava para esconder seu rosto do pescoço antes que Lincoln ligasse a luz e a visse. — Preciso visitar o Pike. Ele tá me devendo uma grana.

Lincoln estreitou os olhos e se aproximou de Clarke. Ele podia sentir uma mentira há quilômetros de distância.

— Clarke, eu sei o que você faz à noite — sussurrou Lincoln. — Não precisa inventar histórias para mim. Seu estoque acabou há um mês, por aí, quando você disse que tinha tropeçado e caído em cima de um cachorro.

Clarke ficou quieta por um minuto inteiro, tentando digerir a fala dele. Ela sabia que não era muito boa em mentiras, mas todo mundo tinha acreditado nelas nos últimos meses. Era de se esperar que Lincoln também fizesse o mesmo — ou pelo menos tivesse a decência de fingir que acreditava.

— Você não pode contar para ninguém, Lincoln — murmurou Clarke após recuperar sua voz. Ela se aproximou do amigo e colocou suas mãos ao redor das dele. — As coisas estão perigosas. Se alguém descobrir que sou eu, vocês serão usados como isca. Não posso permitir isso.

Lincoln se desvencilhou gentilmente de Clarke e a englobou em um abraço caloroso. O peso do Beco da Perdição inteiro pareceu sair dos ombros da mulher. Ele tinha aquele poder, de fazer tudo parecer mínimo na sombra de um carinho.

— Vá pegá-los, Clarke — disse Lincoln. — Só não se machuque muito. Sabe como Raven fica quando você fica incapacitada para lutar.

Clarke riu baixinho. As lutas de Pike retornariam dali duas noites e ela não poderia perder, como da última vez, ou Raven a faria comer lama da parte baixa do Beco. Dando um último abraço em Lincoln, ela saiu porta afora, em direção à mais informações sobre o Assassino.

Ela colocou a bandana e subiu no cano de escoamento de seu casebre para navegar pelos telhados do Beco. Clarke avisara para o informante que encontraria ele na última rua do bairro. Ironicamente, o Beco ficava próximo de um bairro de classe alta de Washington, e a maioria dos que tinham empregos ali trabalhavam como capacho dos ricos da cidade.

O informante já estava esperando. A lua não brilhava no céu naquela noite, trazendo tranquilidade para os dois que não queriam ser identificados. A bandana cobria parte do rosto de Clarke e ela se sentiu encorajada a se aproximar mais do garoto. Quando estavam a três metros de distância, o informante falou.

— Pode ficar aí — disse, tentando utilizar a mesma técnica que Clarke usava para esconder sua voz. Contudo, ele era apenas um menino fingindo voz grossa.

Ele tirou da camisa que usava uma pasta e a empurrou para Clarke. Ela a pegou e folheou, tentando tirar ao máximo do que podia com a fraca luz que vinha dos postes do bairro rico embaixo deles.

— Não temos muita coisa no Assassino — explanou o garoto. — Sabemos o modus operandi e só. Ele gosta de fatiar as vítimas. Tirar seu sangue. A detetive não faz ideia do porquê.

Clarke virou de costas para o informante e acendeu o isqueiro que sempre carregava no bolso. As fotos do arquivo do Assassino eram arrepiantes. Os outros crimes tinham sido tão cruéis quanto os de Harper. O que o garoto falara também estava lá nos laudos: nenhum sangue e órgãos fatiados. Quem seria tão ruim para fazer tais atrocidades?

Virou a página do dossiê e se deparou com várias fotos em má qualidade de um mesmo símbolo. Eram três triângulos entrelaçados. Ela tinha visto aquele símbolo no corpo de Harper, dias antes. Parecia ter sido prensado contra o corpo dela, provavelmente deixando o local onde fora marcado em carne viva logo em seguida.

— O que sabem sobre o símbolo? — perguntou Clarke, ainda de costas para o garoto.

— Como já disse, não muito — respondeu ele, esgotado. Clarke continuou observando a página com os símbolos. Pelas fotos, os corpos eram marcados em lugares diferentes. — A detetive não consegue fazer a ligação entre os crimes e ele.

— Eu já vi esse símbolo, bem aqui no Beco — confessou a mulher, fechando o dossiê e virando-se para o informante. — Não lembro onde, mas vou encontrá-lo de novo.

Clarke devolveu a pasta da mesma forma que o garoto lhe tinha entregado. Ela estava assustada, pois não tinha feito a ligação antes. Ao ver o corpo de Harper em seu casebre, já tinha visto o símbolo do Assassino. Em algum outro lugar, mas no bairro onde morava. Precisava tirar um tempo para perambular pelo Beco. Só assim voltaria a esbarrar com aquele símbolo macabro.

— Vou passar o que disse para a detetive — disse o garoto. — Quando será o nosso próximo encontro?

— Sábado — revelou Clarke. — Perto do boticário.

A sombra do garoto balançou a cabeça, assentindo, e desceu o telhado, sem fazer nenhum barulho. Clarke ficou impressionada em como ele melhorara seus passos em tão pouco tempo. Ela ainda ficou por alguns instantes ali, ponderando tudo o que acontecera naquela noite.

Lincoln sabia seu segredo. Ele ficaria de boca fechada, tinha certeza, mas não deixava de ter medo pelo amigo. Se algum dos figurões do Beco soubessem que ele poderia ter uma pista que levasse a ela... Lincoln seria torturado antes que Clarke pensasse em ter a chance de salvá-lo. Não poderia viver sabendo que era o motivo da dor dele e de Octavia.

A tal da detetive Woods também não saía da sua cabeça. Queria poder vê-la novamente... Talvez no próximo encontro, ela aparecesse e não seu informante. Clarke duvidava disso, mas não poderia deixar de ter esperanças. Havia algo que a atraía àquela mulher e tinha quase certeza de que ela sentia o mesmo.

Agora, trabalhavam juntas sem realmente saber. Quanto tempo levaria até elas se encontrarem oficialmente, vigilante e detetive?

Clarke ouviu um barulho, tirando-a de seu devaneio. Ela apurou os ouvidos e pulou de teto em teto até se aproximar da confusão. Tinha que se preparar para voltar a lutar nas noites seguintes e nada melhor do que um treino batendo em potenciais estupradores e ladrões.

***

Clarke tinha certeza de que ganharia essa. Seu oponente já estava cambaleando e ela se mantinha firme, os pés presos no chão, a guarda alta. Ele tentou lançar um soco com o punho esquerdo, mas ela rapidamente desviou e deixou que o homem, que tinha o dobro da sua largura, tombasse no chão.

O juiz correu até ele, batendo três vezes no tatame. Aguardou. Os segundos para a vitória eram os mais excruciantes em uma luta. Até lá, não saberia dizer se ganharia ou perderia. Agora, tudo estava nas mãos de um homem insano, se ele voltaria a lutar mesmo machucado ou não.

— Vitória para Griffin! — exclamou o juiz finalmente, levantando o braço de Clarke no ar.

Ela abriu um sorriso sangrento para Raven e Octavia, que estavam na sua frente no ringue. Os outros espectadores comemoraram. Dois homens entraram no ringue e ajudaram o brutamonte a se levantar. Seus olhos reviravam. Ela até tentou sentir pena dele, mas não havia tempo para tais sentimentos numa luta.

— Obrigada, obrigada, obrigada! — disse Raven assim que se juntou a elas. A mulher abraçou Clarke com força, pouco importando com o fato de que a amiga tinha acabado de enfrentar uma bateria de cinco lutas. — Ganhei 100 pratas! Se um dia eu te critiquei, não lembro.

— Eu lembro — retrucou Clarke, se desvencilhando de Raven, mas ainda assim sorrindo. — Vividamente.

Raven deu de ombros. Clarke revirou os olhos e cumprimentou as pessoas que iam embora do quintal de Pike. Tinham sido lutas relativamente fáceis. Eram oponentes que Clarke já enfrentara antes. As lutas diminuíram bastante o ritmo depois que o Assassino começou a atuar no Beco. Um mês antes, Clarke teria de enfrentar no mínimo oito pessoas para garantir o prêmio principal de Pike. Quem continuava lutando era porque tinha aquilo como sua única fonte de renda.

O lugar estava quase vazio quando ela viu Aden encostado numa parede. O garoto estava com os braços cruzados e olhava fixamente para Clarke. Ela não ouviu o que Octavia discutia com Raven e foi na direção dele. Aden não mudou a sua expressão ao ver Clarke se aproximando.

— Não resolveu lutar hoje? — ela indagou, mexendo em suas mãos, tirando a faixa que usava em uma delas para proteção.

— Não, hoje não — respondeu Aden impassível. — Estou observando meus concorrentes. Você lutou bem.

— Bem o bastante para te vencer, tomara.

Aden soltou uma risada seca.

— Não vai ter uma carreira no ringue se ficar só observando, garoto — ela disse calmamente.

Algo despertou na mente de Clarke. Ela fitou Aden atentamente, como se esperasse que ele a atacasse a qualquer momento. Da primeira vez em que tinham se encontrado, ele não falara nada. Mas agora... depois de dois encontros com o tal informante da polícia, Clarke poderia reconhecer sua voz.

Os dois continuaram se encarando pelo que pareceu horas a Clarke. Ela só se afastou do garoto quando Pike a chamou para seu escritório, que ficava dentro de seu casebre, no andar de cima.

— Nos vemos por aí — disse Clarke, ainda intrigada pela presença de Aden.

O garoto assentiu, sem se mexer dali. Clarke seguiu para onde tinha sido chamada. A casa de Pike era uma construção modesta, como todas no Beco, mas ele tinha feito o melhor para transformá-la na maior habitação dali. Clarke sabia que os móveis eram caros e pagos com apostas que aconteciam em seu quintal. A mulher suspeitava que Pike fosse também um traficante de bebidas, porém nunca encontrara evidências para incriminá-lo.

Também, como poderia? Tinha dias que a única felicidade da população do Beco era as lutas de Pike. Clarke não poderia acabar com aquilo. Passou pelos dois seguranças que guardavam a porta do escritório de Pike e sorriu para eles. Já quebrara três dentes de um e o pulso do outro em outras noites.

— Minha garota! — gritou Pike assim que a viu, abrindo os braços para lhe dar um abraço desengonçado. — Você lutou bem hoje! Finalmente pegou de volta seu posto de campeã.

Clarke teve vontade de compartilhar as inseguranças que tinha sobre Aden perambulando por aí, mas se conteve. Alguma informação extrapolada podia dar a Pike uma pista de quem realmente era. Já bastava Lincoln saber seu segredo.

— Griffin, Griffin... — disse Pike ao voltar para a mesa de trabalho e abrir uma das gavetas. Clarke esperou pacientemente onde estava. — 150 pratas para você. É mais do que sua amiga Raven fez nas apostas, certo?

— Sim — respondeu Clarke, sem estar surpresa. Pike sabia de tudo o que acontecia no Beco e, principalmente, dentro de seu quintal. Se Raven tirasse mais dinheiro do que o necessário dele, o homem não seria tão misericordioso.

Ela pegou o dinheiro e sorriu a Pike. Antes que pudesse lhe agradecer, no entanto, um de seus seguranças enfiou a cabeça para dentro do cômodo, com sua mão encostada no batente da porta.

Foi quando Clarke viu. O homem usava um anel no mindinho. Nele, estava os três triângulos interlaçados que o informante da polícia mostrara para ela em seu último encontro. O corpo de Clarke enrijeceu.

— Senhor, se me permitir, já vou — o segurança disse tranquilamente, sem olhar para Clarke. — Minha mulher está esperando.

— Claro, claro — disse Pike amigavelmente. — Seb pode fechar tudo. E, de novo, obrigado pelos serviços.

— Eu que agradeço, senhor.

O segurança fechou a porta. Clarke ainda estava tensa, o que foi notado por Pike.

— Aconteceu algo, Griffin?

— Nada — respondeu Clarke, despertando de seu torpor. Ela acenou com a cabeça para Pike e abriu um sorriso forçado. — Obrigada.

— Não perca mais, ouviu? — Pike riu da própria piada e enxotou Clarke de seu escritório.

Clarke abriu a porta do escritório tremendo. Sem querer, ela esbarrou no outro segurança, Seb, e caminhou cambaleante para fora da casa de Pike. Raven e Octavia já tinham partido. Aden também não estava em nenhum lugar à vista.

O segurança não poderia estar muito longe. Ninguém tinha carro no Beco. Clarke precisava saber. Senão, como poderia encontrar o informante da polícia se não teria nenhuma informação relevante?

Ela saiu da casa de Pike e subiu no primeiro cano que encontrou. De lá, ela conseguia ver melhor as ruas. Clarke colocou a bandana no rosto e procurou com um olhar atento pelo segurança. Encontrou o homem duas ruas abaixo da casa de Pike, andando tranquilamente. Ele não parecia ser inteligente o suficiente para ser o Assassino, mas ainda assim Clarke tinha que checar. Era seu dever enquanto Vigilante.

O segurança seguiu reto pela viela, assoviando alguma melodia que Clarke desconhecia. A lua brilhava distante no céu. Não havia outra pessoa na rua além dos dois. O homem virou na primeira esquerda e Clarke continuou a acompanhá-lo a uma distância segura. Às vezes, ela tinha a impressão de que ele sabia que era seguido, pois parava por alguns instantes, virando a cabeça para os dois lados.

Quando o homem parava, Clarke prendia a respiração e abaixava, rezando para que ele não virasse para trás e visse a sombra dela agachada no telhado. Se ela fosse pega... Clarke não queria nem imaginar o que Pike faria.

Por fim, depois de muitas subidas e descidas, o segurança parou na frente de um casebre e entrou. Clarke empoleirou na beirada do telhado anverso à casa do homem e esperou. Pelo que, ela não fazia ideia. Contudo, era melhor aguardar se ele sairia dali mascarado e com um facão na mão.

Clarke refletiu sobre sua vida naquele momento, perseguindo alguém que matava mulheres por diversão. Que gostava de matar, e provavelmente não iria parar até ser preso. Fazia seu sangue ferver de raiva. Queria invadir o casebre do segurança e forçá-lo a confessar. Ela queria que alguém pagasse por isso. Uma de suas amigas estava morta, e outras três mulheres do Beco tinham deixado filhos e parentes por conta da vontade alucinada de alguém.

Ela gostava da adrenalina, do perigo, quando o máximo que fazia era socar estupradores em potencial. Agora, Clarke sentia que estava falhando com todos ao seu redor. Mais uma noite sem capturar o Assassino significava mais uma noite com ele planejando outra morte. Outra mulher que apareceria sem os órgãos na manhã seguinte. Outra vida ceifada cedo demais.

— O ASSASSINO! — O grito de pavor quase fez Clarke cair do telhado. — O ASSASSINO! ME AJUDEM!

Clarke não perdeu tempo e ficou em pé como um gato. Correu rapidamente na direção do grito, sem se importar se arrancaria telhas ou enfiaria o pé no teto de alguém. Uma pessoa precisava de ajuda e ela era a única que poderia ajudar.

Ela avistou um vulto preto que agarrava uma mulher com uma chave no pescoço. O vulto jogou sua vítima no chão violentamente e a prendeu no chão com um pé em sua garganta. A mulher tentava se soltar dele, mas seus braços estavam cansados demais. De longe, Clarke não poderia ver, mas a mulher tinha cortes de faca nos dois braços.

Clarke correu o mais rápido que conseguia. No momento certo, pulou em cima do Assassino, tentando tirar a máscara que ele usava. Parecia presa no seu rosto, mas ela não desanimou. Puxou o Assassino para longe da vítima, e acabou derrubando os dois no chão. Clarke ficou em cima e logo enfiou dois socos direto no nariz do Assassino.

Ele tentou contra golpear, mas Clarke era mais rápida. Desviou dos golpes do Assassino e pressionou seu braço contra a garganta dele, sufocando-o.

— É bom, não é? — ela sussurrou, cara a cara com o Assassino. O capuz do homem fez com que Clarke não visse seus olhos, mas sentia ele buscando por ar. — Você vai pagar por cada morte, filho da...

Clarke não terminou o xingamento, no entanto. O Assassino conseguiu sua faca novamente e a enfiou com força no ombro dela. Ela urrou de dor, se soltando do homem e afastando dele. O Assassino se levantou prontamente, apesar de ter apanhado bastante, e caminhou em direção a ela.

A mulher engoliu em seco. Desesperada, também ficou em pé, olhando na direção da vítima. Ela estava desacordada e Clarke rezou para que estivesse viva. Não se perdoaria se mais uma mulher morresse. Não poderia chegar na detetive Alexandra e dizer que tinha deixado o Assassino fugir por conta de uma mísera facada no ombro.

Talvez essa raiva incontrolável que tomava conta do seu corpo tenha sido o combustível necessário para que ela voltasse a avançar contra o Assassino. Ele pareceu surpreso com a investida de Clarke, mas conseguiu desviar do primeiro soco. O segundo golpe foi mais certeiro e atingiu novamente sua máscara. Clarke sentiu algo quebrando contra sua mão e imediatamente soube que era o nariz do homem.

— Toma essa, idiota! — ela exclamou, extasiada.

O Assassino tropeçou para trás e colocou as mãos no rosto. Clarke poderia dizer que o homem estava assustado. Ele nunca enfrentara uma mulher no seu nível. Era um covarde que só atacava as mais fracas. Pensar nisso só deu a Clarke mais um motivo para derrubá-lo naquele instante.

Ela jogou mais um soco na direção do Assassino, porém ele afastou o golpe com a mão e, com um uppercut, acertou Clarke em cheio no queixo. No mesmo instante, ela sentiu um dente quebrar por conta da força do impacto. Com a boca sangrando, Clarke cambaleou.

Antes que Clarke pudesse retribuir o golpe, um berro de pavor eclodiu pela rua. Ela olhou para o lado da vítima e viu que uma das portas em frente ao corpo dela estava aberta. Uma senhora olhava apavorada a mulher desacordada no chão e não parecia ter notado o Assassino ou Clarke, lutando a poucos metros dali.

Ao voltar sua atenção para seu oponente, Clarke notou que o homem desaparecera. Sumira na noite, assim como ela tantas vezes fazia após derrotar um bandido. Se sentindo derrotada, Clarke tropeçou até a vítima do Assassino, tirando a bandana e a escondendo dentro de sua jaqueta.

Clarke ajoelhou em frente à mulher e checou seu pulso. Estava muito fraco. Ela duvidava que sobreviveria ao nascer no sol. Os braços picotados pelo homem tinham parado de sangrar, mas uma poça de sangue consideravelmente grande a circundava.

— Você... — a senhora que gritara momentos antes agora falava com Clarke — Você matou ela...

Clarke levantou a cabeça e fitou a mulher, sem ter certeza de que a ouvira corretamente.

— Você matou essa mulher! — a senhora repetiu, assombrada.

— Se eu a matei, então por que eu voltei para tentar ajudá-la?! — indagou Clarke, exasperada. Ela queria sensibilizar a senhora, mas parecia impossível. Ela já tinha colocado na cabeça quem era o Assassino e não pararia. — Eu estou com uma faca no ombro, pelo amor de Deus!

— O que está acontecendo aqui?! — Outra voz surgiu atrás de Clarke. Era menos desesperada e mais imponente que a da velha maluca.

Clarke virou-se e encontrou dois policiais com as mãos nos cassetetes. Ela quis gritar de ódio. Ninguém da polícia trabalhava no Beco depois da meia-noite. As chances de isso acontecer eram mínimas. Clarke tinha que admirar a sua falta de sorte.

— Ela matou essa mulher! — exclamou novamente a senhora, apontando o dedo na cara de Clarke.

— Vou ter que pedir para que você se afaste do corpo, senhora — disse um dos policiais para Clarke. Algumas pessoas saíam de suas casas para saber o que estava acontecendo na rua naquele momento. — Não faça nenhum movimento brusco enquanto meu colega coloca as algemas em você.

Clarke sabia que não adiantaria discutir. Ela sentiu seu estômago afundar. O que contaria para os Blake e Raven quando eles tivessem que buscá-la na prisão no dia seguinte? Já tinha sido presa várias vezes quando era mais jovem, mas ela nunca enfrentara uma falsa acusação antes. Perguntou-se se aquilo era um plano bem armado do Assassino, culpar outra pessoa pelos seus crimes.

— Ela está viva — disse Clarke enquanto um policial a algemava. — Chama uma ambulância, por favor. Não sei se ela pode sobreviver até o amanhecer.

Clarke estava mais preocupada com a vítima do Assassino do que com si mesma. Sabia que estava segura se continuasse com a faca no ombro. A partir do momento que alguém decidisse tirá-la... era outra história. O policial que estava atrás dela pouco se importou com o que tinha falado. Não duvidava que eles a deixariam morrer se possível.

— Vou levá-la para o distrito — informou o policial que a algemou. O povo que observava a cena começara a entender o que tinha acontecido e pediam pela cabeça de Clarke.

— Chamem uma ambulância, seus covardes! — gritou Clarke para que todo mundo ouvisse. O policial a obrigou a se levantar, empurrando-a pela multidão. — Ela vai morrer e a culpa vai ser de vocês! O sangue dela vai estar nas suas mãos tanto quanto está nas mãos do Assassino!

A multidão sussurrou entre si o que acabara de escutar. Clarke e o policial atravessaram pelo grupo da melhor maneira que conseguiram. Eles se afastavam rapidamente e Clarke conseguiu ver as expressões de nojo e desgosto que tinham em seus rostos. Não demorou muito e eles estavam na última rua do Beco.

— Você vai pagar pelo que fez — disse o policial, colocando Clarke a força no banco de trás da viatura.

Clarke suspirou, cansada. Não adiantava discutir. Sua única esperança era que Alexandra Woods a encontrasse. Porque ela sabia que a detetive seria a única que acreditaria em suas palavras.

***

O estômago de Lexa deu uma reviravolta completa quando ligaram na lanchonete embaixo do seu apartamento no meio da noite para contar que Clarke Griffin tinha sido presa com alegações que ela era a Assassina do Beco. A detetive não acreditou nas palavras de Gustus, que estava de plantão naquela noite, mas vestiu um de seus terninhos e desceu para a delegacia de qualquer maneira.

Clarke não era nem um pouco o tipo de pessoa que procurava. Ela tinha certeza de que o Assassino era um homem — ou pelo menos queria acreditar que sim. Tudo na perícia a levava a acreditar naquele fato. Clarke era pequena e ágil, pelo o que Aden contava, e não tinha o que era necessário para picar as vítimas como o verdadeiro Assassino fazia.

Ela chegou na delegacia dez minutos após a ligação de Gustus e o distrito estava em polvorosa. A imprensa já fazia sala do lado de fora do prédio e ela teve que desviar deles para poder entrar. Indra acenou para ela da recepção e pediu para que Lexa a seguisse. As duas pararam em frente a sala de interrogatório 2.

— Titus está aí dentro com ela — disse Indra. Lexa fingiu não reparar no tom que a mulher usou na última palavra. Beirava ao nojo. — Você pode entrar assim que ele sair.

Lexa assentiu. Indra voltou para a recepção e ela ficou sozinha no corredor. Seu relógio de pulso marcava quase quatro da manhã. Perguntou-se onde Aden estaria. Tinha mandado o garoto para o Beco naquela noite para espionar e trazer algumas informações. Sabia que Aden tinha conversado com a Vigilante na noite anterior e ela teria prometido trazer um significado concreto para as tatuagens que o Assassino fazia em sua vítima.

A detetive refletiu. Em seu íntimo, ela sabia que Clarke provavelmente era a Vigilante, mas não queria atirar no escuro. Mesmo se conseguisse livrar Clarke do enforcamento por supostamente ter matado aquelas mulheres, não a tiraria da berlinda por perambular pelos telhados do Beco enquanto fazia justiça com as próprias mãos.

Passou uns bons dez minutos até que Titus finalmente saísse da sala. Seu rosto estava vermelho de raiva e isso estendia até sua careca brilhante. Ele apenas encarou Lexa fervorosamente, e deu espaço para que ela entrasse no cômodo.

— Ela não me deu nada, só ficou fazendo piadas com a facada que levou — disse ele no ouvido da detetive. — Espero que consiga tirar algo dela.

Lexa assentiu nervosamente, engolindo em seco. Aquele era seu caso, a sua chance de se provar para o departamento de polícia. Não tinha feito a captura de uma suspeita, então deveria fazer o impossível para arrancar dela uma confissão. Ela pegou a pasta com o caso da mão de Titus e entrou, se empertigando. Parecer confiante era a primeira coisa que tinha aprendido na academia.

— Sabe, quando você disse que ia me chamar para conversarmos, eu não imaginei que seria assim — falou Clarke assim que Lexa se sentou na cadeira na sua frente.

Lexa fitou a mulher, analisando sua postura. Clarke estava com o ombro enfaixado por baixo de sua blusa azul, provavelmente onde tinha levado a tal facada que Titus mencionara. Seu cabelo estava emaranhado, sujo de lama e gravetos. Havia sangue seco ao redor da sua boca e, quando sorriu, Lexa viu que lhe faltava um dente.

— Você levou uma surra e tanto — apontou Lexa, abrindo a pasta que tinha em mãos em cima da mesa. — Com quem lutou para ficar assim?

— Com o Assassino do Beco — respondeu Clarke amargamente.

A detetive arqueou as sobrancelhas, surpresa. Ninguém tinha lhe contado o que acontecera com Clarke ou como tinham capturado ela. Será que Titus queria que fosse assim? Que ela tirasse as coisas de Clarke como se fosse uma conversa casual?

— Acho isso meio difícil de acontecer, uma vez que está presa aqui por ser o famoso Assassino.

Clarke soltou um suspiro de derrota e colocou a cabeça na mesa da melhor maneira que conseguiu. A algema a prendia de um lado e a atrapalhava a fazer qualquer movimento brusco. Lexa sentiu pena da mulher.

— Eu já expliquei o que aconteceu pro seu chefe, tá bom? Não precisa falar comigo de novo sobre tudo isso.

— Mas acontece que eu não estava aqui, então terá, sim, de me contar tudo de novo.

Lexa e Clarke se encararam pelo o que pareceu horas. Havia algo nos olhos cansados de Clarke que diziam a ela que era inocente naquilo tudo. Que ela estava tentando apenas ajudar alguém. Um misto de admiração e entendimento passou pela seu semblante, algo que Clarke não deixou de perceber.

— Você sabe, não sabe? — perguntou baixinho, com medo de que Titus ou algum dos policiais estivessem escutando.

Lentamente, Lexa assentiu. Clarke crispou os lábios, e a detetive não soube dizer se a mulher estava com raiva ou apenas decepcionada por não conseguir se esconder tão bem como imaginava.

— Me conte o que aconteceu essa noite — pediu Lexa. — Eu posso te ajudar.

Clarke se ajeitou na cadeira e começou a falar. Contou que estava voltando para casa quando ouviu uma mulher gritando e correu para ajudá-la. Como ela já lutava, conseguiu dar um safanão no Assassino e tinha certeza de que quebrara o nariz dele. Mas o Assassino sabia lutar tão bem quanto ela e enfiou a faca em seu ombro e, antes que pudesse “acabar com ele”, uma senhora encontrou o corpo da vítima no chão e gritou pela polícia. Clarke era a única pessoa na cena do crime.

— Ela está bem, não está? — Clarke indagou, desesperada. — Seu chefe não quis me contar.

Lexa deu de ombros, sem saber responder. Ninguém falara que tinha uma vítima na cena. Sua mão tremeu de raiva e ela errou uma palavra no depoimento de Clarke. Mesmo sendo uma boa detetive, uma detetive a quem tinham jogado o fardo de capturar o Assassino, ninguém lhe respeitava o bastante para contar o que tinha acontecido realmente naquela noite.

— Tem mais uma coisa — disse Clarke, chamando a atenção de Lexa com um tilintar na algema. — Coisa dele.

A detetive soube imediatamente que era algo relacionado ao trabalho dela como Vigilante e as noites em que Aden a encontrara no Beco. Não poderia falar sobre isso ali, em uma das salas de interrogatório da delegacia. Ela precisava de uma desculpa para tirar Clarke dali e ter uma conversa franca com a mulher.

— Obrigada pelo seu depoimento — disse Lexa, se levantando. — Eu tenho certeza de que o Assassino será trazido à justiça, seja lá quem ele for.

Clarke assentiu, sem entender, e acenou para Lexa quando ela saiu da sala. A detetive se deparou com Titus, andando em círculos pelo corredor, esperando por ela.

— Ela confessou? — ele perguntou assim que a viu.

— Confessou que ela encontrou com o Assassino e deu uma boa surra nele — disse Lexa, azeda. — Você não me disse que ele estava matando uma mulher ao encontrar Clarke. Como ela está?

— Vai sobreviver — o chefe respondeu, displicente. — Você acha que não é ela?

— Não. — Lexa estava com raiva. Ódio de como Titus ignorava a vítima do ataque, de como queria incriminar Clarke a qualquer custo apenas para ter uma resposta rápida para a imprensa que aguardava do lado de fora. — Eu quero pedir algo. Quero que solte Clarke e a deixe em minha custódia.

Titus parou por um instante e fitou Lexa como se ela fosse insana.

— Se acha que ela é inocente, por que a precisa debaixo da sua asa?

— Porque, caso tenha esquecido, eu ainda sou a detetive encarregada desse caso e você tinha me dado duas semanas para resolvê-lo. Clarke é importante no Beco e seu apoio pode ser o que precisávamos para encontrar o Assassino. Se não fosse a loucura dela de atacar o homem, nós não estaríamos aqui.

Titus fez uma cara feia para Lexa. Ele sabia que ela tinha razão e não queria admitir. Seu chefe poderia ter lhe dado uma chance tempos atrás, mas ele ainda era um homem. Ele ainda a via como inferior, como se não tivesse capacidade de pegar o Assassino. Lexa ia prová-lo errado. Ia provar para todos que eles estavam errados em duvidar dela.

— Tudo bem — ele concordou depois de algum tempo. — Mas você se vira com a papelada. Eu tenho que lidar com a imprensa.

***

Titus tinha razão em preferir lidar com os repórteres que perambulavam por ali ao invés da papelada para livrar Clarke de ser indiciada. Até que Lexa conseguisse informar todos os dados da mulher e convencesse Indra que ela ficaria sob a sua vigilância pelos próximos dias, já era quase meio dia e a delegacia já tinha voltado ao seu ritmo normal.

Clarke pareceu desconfiada quando Lexa voltou a aparecer na sala depois de tantas horas. Ela permanecia presa na cadeira, uma vez que Titus não lhe dera o mesmo benefício da dúvida que dera a Lexa. A detetive nem conseguia imaginar como era ficar na mesma posição por horas a fio, algemada.

— Boas notícias — Lexa disse, tirando a chave das algemas do bolso de trás da calça e liberando Clarke de sua prisão particular. — Você está livre para ir.

— Por que eu estou sentindo uma pegadinha nisso? — Clarke questionou, massageando os pulsos. Ela tinha um olhar desconfiado na direção de Lexa.

— Você vai ter que ficar sob minha custódia por uns dois dias. Eu dei meu nome como referência para que você pudesse ser liberada.

Lexa coçou a parte de trás da cabeça, de repente interessada na mobília da sala ao invés de encarar Clarke prontamente. Agora que pensara no assunto, não parecia a melhor das ideias colocar a Vigilante dentro do seu apartamento.

— Vamos, temos que ir. Você provavelmente está faminta, e eu também.

Clarke, meio mancando, meio andando, atravessou a sala e saiu, com Lexa aos seus pés. Ela murmurou algo que a detetive não conseguiu ouvir, talvez uma reclamação sobre seu ombro machucado. Lexa a guiou até os fundos da delegacia, onde alguns policiais almoçavam alegremente, comentando sobre as batidas que tinham dado durante a manhã. Ninguém a cumprimentou.

— Ei, Woods! — chamou um policial quando Lexa saía da delegacia. — Tá levando a Assassina para onde? Vai fingir que tá capturando ela?

Os outros policiais riram. Clarke, que a esperava do lado de fora, franziu o cenho para Lexa, que permaneceu com a mão na maçaneta da porta. Seus lábios se curvaram em uma linha fina, e ela sentiu suas mãos tremerem.

— Eu sempre soube que era burrice dar essa vaga para uma mulher — um outro policial disse. — Não sei com quem ela transou para ter esse trampo...

Clarke escutou o que o policial tinha dito e suas narinas inflaram de raiva. Ela subiu novamente os degraus, na tentativa de provavelmente falar algo, mas a detetive a parou com um aceno de mão.

— Não vale a pena — ela sussurrou para Clarke, fechando a porta enquanto os policiais de folga riam da sua aparente falta de resposta. — Eles continuariam o dia inteiro se desse corda.

Lexa fechou a mão em punhos para que parasse de tremer. Ela caminhou na frente de Clarke, não querendo encará-la, seu rosto queimando de vergonha. Passara os últimos cinco anos de corporação sofrendo com falas preconceituosas como as dos guardas, mas agora parecia mais pessoal que nunca...

Ela parou em frente ao seu carro, um Ford A do início da década, com dois bancos, um para o motorista e outro minúsculo na parte de trás para passageiros. Sua cor era verde-escuro, com detalhes em preto. Estava sujo pelos dias que Lexa se preocupava mais com o Assassino do que manter seu carro limpo, mas ainda continuava bonito e atual. Tinha custado seu salário de um ano inteiro, porém a detetive não se arrependia da compra.

— Tem muito tempo que eu fui de bom grado convidada a andar de carro — comentou Clarke, talvez para animar o espírito de Lexa.

A detetive sorriu fracamente. Elas entraram no carro e Lexa logo deu partida. Ao passarem pela parte da frente da delegacia, percebeu que ainda havia alguns repórteres ali, procurando pelo furo que jamais chegaria. Eles não notaram que a detetive encarregada do caso acabara de sair junto com a mais nova suspeita.

O caminho até a casa de Lexa foi sossegado. Não nevava há dias e as ruas estavam limpas. As duas permaneceram em silêncio, remoendo o que acontecera nas últimas horas. Lexa, pessoalmente, confiava em discutir as informações que Clarke tinha apenas em sua casa, que ela sabia ser à prova de qualquer escuta. Ela não confiava em ninguém naquela delegacia a não ser Aden e, talvez, Indra.

Lexa estacionou seu Ford em frente à lanchonete que ocupava o térreo do conjunto de apartamentos onde morava. Ela convidou Clarke a entrar e as duas se sentaram em uma das cabines vazias, o que foi difícil considerando o horário. Anya, a garçonete, era um pouco mais velha que Lexa, que trabalhava ali desde antes dela mudar para o apartamento de cima. Ela sempre elogiava Lexa por estar na força policial de Washington.

— Detetive! — exclamou Anya, tirando o bloquinho do avental e se preparando para anotar o que Lexa fosse pedir. — Qual o pedido de hoje?

— O de sempre — disse Lexa, sorrindo, sem precisar olhar no cardápio.

— E você...? — Anya virou sua atenção para Clarke.

Clarke, por outro lado, não parecia prestar atenção em Anya. Olhava tudo ao seu redor atentamente, como se nunca tivesse ido naquela parte da cidade. Ela levou algum tempo para responder à garçonete.

— O mesmo que ela pediu — disse.

Assim que Anya saiu, Clarke virou-se para Lexa, embasbacada.

— Aqui é tão... humano — falou, sem acreditar. — No Beco, não temos isso. — Ela fez um sinal com os braços embarcando toda a lanchonete. — Nunca pensei que voltaria a pisar os pés em uma.

Lexa teve vontade de rir da reação de Clarke, mas se conteve. Ela também nunca tivera muita coisa enquanto crescia. Se não fosse por Titus, provavelmente ela ainda estaria vagabundeando pelas ruas de Washington, pedindo esmola nos bairros ricos da cidade. Algo na forma como Clarke expôs seus sentimentos fez o seu coração errar uma batida.

Quando os pratos pedidos por Lexa chegaram (sanduíches com batatinhas chips e duas Cocas), ela ficou observando a expressão surpresa de Clarke por um tempo desnecessariamente longo. Seus olhares se encontraram e Clarke abriu um sorriso para Lexa, agradecendo a comida com um aceno de cabeça. Lexa entendeu que estava parada por tempo demais e começou a se deliciar com seu almoço.

— Espera até Raven saber disso! — Clarke disse, feliz, com a boca cheia de batatinhas. Então, algo pareceu bater em sua cabeça, pois sua expressão mudou para desespero. — Ah, merda! Nenhuma delas sabe onde estou! Os rumores de lá correm com o vento. Octavia deve pensar que estou morta, ou coisa pior. Preciso de um jeito de avisá-las que estou bem. E viva.

— Tem um telefone no final do corredor, à esquerda — disse Lexa.

— O único telefone funcional do Beco fica a três quadras da minha casa. Nenhuma delas vai atender. Não tem como eu voltar para lá mesmo?

Lexa negou veementemente com a cabeça.

— Se Titus souber que você voltou para a cena do crime, ele me mata.

Clarke soltou um gemido de derrota. De repente, a comida não parecia tão apetitosa mais.

— Bom, ele disse que você não pode voltar lá... — Lexa pensou alto. — Mas não falou nada sobre algum ajudante meu.

— Seu pestinha bom de luta? — indagou Clarke, esperançosa.

— Ele não é pestinha — retrucou Lexa, levemente ofendida. — É um policial do departamento de polícia da cidade.

— Tá bom, tá bom — falou Clarke. Ela voltou a comer as batatinhas chips, animada. — Você pode mandá-lo visitar o Beco?

— Só com um telefonema — a detetive disse, presunçosa.

— Obrigada, Alexandra, nem sei como agradecer.

— Me agradeça chamando de Lexa. Eu odeio meu nome inteiro. Só uso em apresentações formais.

— Lexa... — disse Clarke, como se saboreasse o nome. A detetive gostou de como a palavra soava na voz dela. Sentiu seu rosto ruborizar com o pensamento. — Obrigada, Lexa. De verdade.

***

Clarke nem conseguia acreditar na própria sorte. Poucas horas antes, encarava a forca por conta de um ataque que não tinha cometido e agora estava junto com a detetive que comandava o caso, em seu apartamento, livre de acusações. Ela tinha que admitir que era estranho estar em um lugar tão limpo e confortável, mas era infinitamente melhor do que a possibilidade de passar o resto dos dias na cadeia.

O apartamento de Lexa era pequeno e ficava em cima da lanchonete onde tinham almoçado. Clarke ficou maravilhada com tudo. Era muito organizado e limpo, algo que ela nunca tinha visto no Beco. Até mesmo seu casebre, que era o mais arrumadinho do bairro, não conseguia manter o brilho que o apartamento da detetive tinha. Clarke imaginou que era a diferença entre os bairros. O de Lexa era infinitamente melhor.

A detetive convidou Clarke para sentar-se em seu sofá, e ela assim o fez. As duas se encararam por alguns instantes. Clarke voltou a elogiar a beleza de Lexa em sua mente, como fazia na última semana. Suas entranhas deram uma volta completa ao imaginar como tinha se aproximado dela nas últimas horas.

— Você disse que sabia algo — Lexa iniciou a conversa, assumindo seu tom de policial que usara quando a interrogara na delegacia. — Algo que não podia me contar, porque era sobre seu trabalho como...

— Vigilante — Clarke completou, assentindo com a cabeça. Ela olhou pela sala e viu um bloquinho de notas em um móvel. Com a permissão de Lexa, Clarke pegou o bloquinho e desenhou em uma das folhas o símbolo do Assassino. — Eu vi esse símbolo em um anel de um dos capangas de Pike ontem, depois da luta. E eu o segui até sua casa, na esperança de alguma coisa acontecer. Mas o cara tava limpo. Tem mulher e filhos. Foi aí que eu ouvi os gritos da vítima do Assassino.

— E era ele?

— Não, não. — Clarke balançou a cabeça. — Ouvi os gritos na rua. Imaginei que não poderia ser o cara que estava seguindo, já que as luzes estavam desligadas e não tinha como ele sair de casa sem tê-lo visto. Corri até a cena do ataque e lutei com o Assassino. E o resto você já sabe.

Lexa tinha enviado Aden para o Beco a fim de contar a Raven e Octavia que ela estava bem. Machucada, mas viva e fora da prisão. O buraco do seu dente que o soco do Assassino arrancara ainda doía, e ela não gostava nem de pensar no seu ombro, que continuava com uma dor constante.

— Se o capanga de Pike usava o anel, não se pode pensar que o símbolo era de alguém para quem ele trabalhava? — pensou Lexa em voz alta, se levantando e andando pela sala minúscula.

— O que? Pike ser o Assassino? — Clarke riu da ideia. — Ele pode ser várias coisas, mas homicida não é uma delas. Ele é veterano de guerra, é verdade, mas...

— Não é ele que comanda o Beco inteiro? — insistiu Lexa.

— Como um vigarista e contrabandista. Olha, detetive, eu conheço ele. Pike não é uma pessoa má. Ele só faz coisas moralmente questionáveis.

Lexa a encarou com um semblante de descrença. Clarke não acreditava que estava defendendo Pike para a polícia. Em parte, confiava que havia algo de bom no homem, pois eles eram um pouco parecidos. Ela também fazia coisas de moral questionável para salvar seu bairro. Pike não era muito diferente.

— Tudo bem, vamos deixar essa linha teórica de lado por um instante — a detetive concordou, voltando a se sentar, na poltrona em frente a Clarke. — Não pode haver ninguém entre aquela... gangue... que poderia tramar algo assim?

Clarke refletiu. Os capangas de Pike sempre lhe pareceram burros demais para que pudessem realizar algo remotamente complicado, como organizar uma seita para assassinar as mulheres do Beco. Ela negou com a cabeça, e Lexa soltou um suspiro de derrota.

— Queria visitar esse lugar — a detetive comentou, cansada. — Parece que tudo volta para lá.

— A casa do Pike?

Lexa assentiu. Então, ela arregalou os olhos e apontou o seu ombro, o que fez Clarke franzir o cenho, confusa.

— Você machucou ele feio, não foi? — Lexa voltou a ficar em pé num salto e andava para lá e para cá, animada. — A questão é descobrir quem dos capangas parece estar mais machucado.

— Boa ideia, mas não podemos fazer isso, não agora — disse Clarke. Ao ver o rosto de Lexa murchar, decepcionada, ela acrescentou: — Não há lutas hoje e os seguranças ganham a noite de folga. Mas eu sei que eles recebem no dia seguinte a essa folga, então podemos ir lá pela manhã.

— Não acha que pela manhã ele já pode ter fugido?

Clarke deu de ombros, sem realmente saber.

— Parece estúpido esperar até amanhã para resolver um crime — a detetive falou, cruzando os braços na frente do peito. — E nem é um crime, é só uma pista de alguém que anda pelos telhados à noite.

Lexa olhou para Clarke como se não tivesse intenção de ser maldosa no seu comentário, mas a mulher apenas revirou os olhos e recostou no sofá.

— Como descobriu que eu era a Vigilante, de qualquer maneira? — indagou Clarke, tentando desviar o assunto e da atmosfera delicada que apoderara da sala.

— Não foi muito difícil quando eu percebi que você ajudava mais mulheres do que homens — respondeu Lexa, sentando-se ao lado de Clarke. — Aden disse que você era uma lutadora muito boa. Só juntei dois mais dois. É meu trabalho, afinal de contas.

Clarke olhou para Lexa de soslaio. Ela podia perceber o olhar de admiração que a mulher tinha ao olhá-la. Isso a deixou desconfortável. Clarke se ajeitou no sofá, sabendo que a adoração que Lexa tinha por ela era recíproca. Era estranho porque ela não esperava aquilo de uma detetive, uma mulher que sabia muito da vida e muito mais que ela.

Ao perceber que estavam próximas demais, Lexa se afastou com uma tosse falsa e disse que ia pesquisar em alguns livros que trouxera da biblioteca sobre o símbolo do Assassino. Convidou Clarke a se deitar no sofá e dormir quantas horas fosse necessário para que ela pudesse descansar propriamente.

Ela não tinha percebido o quanto estava cansada até se ajeitar no sofá de Lexa e fechar os olhos. Quase que imediatamente, começou a dormir — não antes de imaginar os lábios de Lexa nos seus.

Ao acordar, Clarke sabia que horas haviam passado. Um pequeno abajur estava ligado em uma mesinha perto da porta do banheiro, apenas para iluminar a sala. Pela janela, podia ver a lua no céu escuro. Ela se levantou, sentindo uma pontada de dor no ombro. Ao olhá-lo, percebeu que o ferimento voltara a sangrar e que ela provavelmente precisaria trocar as bandagens.

Clarke, ainda sonolenta, foi até a cozinha à procura de Lexa. Ela encontrou a detetive preparando algo no fogão. Tinha um cheiro delicioso e seu estômago voltou a roncar.

— Que bom que acordou! — exclamou Lexa ao ouvir o pigarreio de Clarke. — Estou tentando fazer algo para nós. Nada tão gostoso quanto a comida que você comeu na lanchonete...

— Quantas horas? — indagou Clarke, se aproximando timidamente.

— Quase meia-noite — disse a detetive, sem olhar para ela. Clarke não ficou surpresa. Já passara incontáveis noites em claro e vários dias dormindo. Essa era a sua rotina normal. — Você estava realmente cansada e não queria interromper seu sono.

— Tudo bem. O que está cozinhando?

— Salada de macarrão e feijões cozidos, nada muito chique.

Clarke soltou um muxoxo de impaciência. Só a panela que Lexa cozinhava o macarrão para a salada alimentaria os cinco que moravam em seu casebre por uma semana.

— Achou alguma coisa em sua pesquisa?

Lexa pareceu lembrar de algo. Ela soltou a colher que usava para misturar a maionese com o macarrão e saiu em direção à sala. Clarke esperou na cozinha, olhando de soslaio a comida que esquentava no fogão. Tinha a singela impressão que a detetive já deixara queimar suas refeições mais de uma vez.

— Descobri que o símbolo é... — Lexa parou de chofre e finalmente encarou Clarke pela primeira vez na noite. Seu olhar foi direto para seu ombro. Clarke notou que uma minúscula mancha vermelha se destacava no azul de sua blusa. — Caramba, precisamos trocar seu curativo! Como não disse isso antes?

Clarke abriu a boca e fechou, sem saber o que dizer. Lexa estava tão presa em seu mundo que ela nem se importou com seu ombro. Estava feliz apenas em olhá-la fazendo as coisas mais simples.

— Vem, vamos para a sala — chamou Lexa, desligando o fogo do macarrão e do feijão, sem observar se já estavam prontos ou não. — Tenho umas bandagens aqui no apartamento para casos como esse.

Lexa fechou o livro pesado que carregava e pegou na mão de Clarke para guiá-la para a sala de estar. Eletricidade percorreu pelo corpo inteiro de Clarke e ela sentiu seu rosto ruborizar. Aparentemente, o mesmo tinha acontecido com a detetive, pois desviou o olhar e ficou sem falar até empurrar Clarke de novo para o sofá.

— Casos como esse? — repetiu Clarke, tentando ignorar a sensação gostosa que apoderara seu corpo. Ela queria encostar em Lexa de novo. — Você já trouxe indiciados por homicídios aqui antes, detetive? Porque se tiver, devo dizer que eu estou com ciúmes.

Lexa desapareceu em seu quarto e não respondeu. Clarke tentara quebrar o clima estranho que, novamente, se instaurara no apartamento com uma piada sem graça — sua especialidade, de acordo com Raven. Aparentemente, Lexa não gostava de humor caricato.

A detetive voltou cinco minutos depois com um kit de primeiros socorros. A caixa vermelha estava desbotada e a cruz adesivada estava pela metade. Porém, os itens dentro dela continuavam intactos e prontos para uso.

— Você tem que tirar sua blusa — falou Lexa seriamente.

O rosto de Clarke ficou escarlate.

— Para que eu possa tirar as bandagens — complementou a detetive ao ver a reação de Clarke. Ela mesma mal conteve o sorriso. — E examinar seu ferimento.

Ainda envergonhada, ela delicadamente desabotoou a blusa azul que usava e a abaixou até a cintura, tirando apenas a manga do ombro machucado. As faixas cobriam parte do seu pescoço e do ombro em si, não chegando aos seus seios. Ela observou Lexa cortar as bandagens com uma tesoura e as tirar lentamente, seus olhos fixados nos da detetive. As duas estavam tão próximas que Clarke sentia a respiração de Lexa contra seu rosto.

— Você tinha falado que descobrira o que significava o símbolo — ela falou após cinco minutos de puro silêncio, onde tudo o que podia se ouvir era o barulho da rua pela janela da sala.

Clarke não conseguia parar de encarar os lábios de Lexa. Tinha a estranha sensação de que a detetive sabia desse fato e não parava de mordê-lo de maneira ansiosa. Seu coração parecia querer sair do seu peito. Assim que Lexa tirou todas as faixas que encobriam seu ombro e encostou seus dedos longos no ferimento da faca, Clarke sentiu que derreteria.

— É um símbolo antigo, de origem viking — Lexa respondeu, aplicando um pouco de água na ferida com uma seringa. Clarke fez uma careta. — De Odin, o deus dos mortos e o grande chefe do panteão nórdico.

Lexa parou de jorrar água no ferimento e limpou com algodão. A expressão de Clarke não era a mais feliz. Doía muito cada toque da detetive em sua pele — e ela não sabia se era pelo machucado ou a tensão que crescia entre as duas.

— Deus dos mortos, é? — falou Clarke entredentes, assistindo Lexa colocar uma pequena quantidade de pomada em um pedaço de algodão e voltar a passá-lo em seu ombro. Ela fechou os olhos para tentar aliviar a dor.

— Se tatuado, o símbolo aceleraria a passagem do morto para a vida eterna — prosseguiu a detetive, segurando o outro ombro de Clarke para que a mulher não desviasse da limpeza do ferimento. — Chama-se Valknut. Quem o utiliza está disposto a viver e morrer por Odin.

— Não parece com nenhuma das nossas vítimas — contrapôs Clarke. Abriu um dos olhos e ficou aliviada ao ver que Lexa estava parada na sua frente, sem o pedaço de algodão.

— É, mas me fez pensar... Quem comanda o Beco? Quem tem capangas pra lá e pra cá no bairro? E se Odin na verdade for...

— Não teremos essa conversa de novo — interrompeu Clarke de maneira resoluta. Ela não queria ser obrigada a defender Pike pela segunda vez no dia.

Lexa rolou os olhos e pegou as bandagens limpas para colocar na ferida de Clarke. Ela continuou a tarefa em silêncio. Mesmo assim, Clarke não conseguia parar de sentir aquele reboliço em suas entranhas toda vez que Lexa a tocava. Ela não sentia tanta dor mais, então ficou apenas observando a detetive terminar seu trabalho.

— Novinha em folha — comentou Lexa minutos mais tarde, guardando as bandagens não utilizadas na caixa de primeiros socorros.

— Obrigada — Clarke agradeceu, colocando de volta a manga da blusa. — Sabe, essa não é a primeira vez que eu sou consertada no sofá de alguém. A última mulher que morreu... ela era minha amiga. Não sabia que eu era a Vigilante, mas ela sempre me ajudava quando eu voltava machucada demais para casa.

— Eu sinto muito — disse Lexa, fitando Clarke com pesar. — Vamos pegá-lo.

Clarke não respondeu. Não tinha ideia porque mencionara Harper naquele momento. Não era sua intenção fazer Lexa sentir pena dela. Mesmo assim, seus rostos estavam tão próximos, ela não sabia por quê. Não conseguia parar de fitar os lábios de Lexa com desejo.

Seu coração descompassado batia com tanta força que Clarke pensou que Lexa o escutaria. Suas mãos tremiam ao se segurar no sofá e se inclinar os poucos centímetros que restavam para tocar os lábios de Lexa com os seus.

Aquela era a melhor sensação do mundo. Parecia que tinha vencido vinte caras ininterruptamente no ringue de Pike. Os lábios de Lexa eram macios, assim como sua pele, que Clarke sentiu ao pousar suas mãos em seu rosto. Ela queria ficar ali para sempre.

No entanto, não era o que o mundo exterior desejava. Batidas insistentes na porta atrapalharam o sonho de Clarke. Ela continuou beijando Lexa, sem se importar com quem estava esperando do lado de fora. A detetive, por outro lado, terminou o beijo quase que obrigatoriamente.

— Deve ser algo importante — disse Lexa ao se separar de Clarke, soltando sua mão no último segundo quando as batidas na porta recomeçaram.

Clarke caiu para trás no sofá, ainda sem acreditar no seu azar. Quando teria a oportunidade de beijar Lexa novamente no meio daquele turbilhão de coisas acontecendo?

— Lexa, Titus está no telefone lá embaixo. — Clarke reconheceu a voz de Anya, a garçonete da lanchonete, assim que a detetive abriu a porta. — Parece que é importante.

Ela não ouviu a resposta de Lexa, apenas a porta se fechando rapidamente. Clarke se ajeitou no sofá. Para o chefe de polícia estar ligando aquela hora, coisa boa não era... Sua ansiedade a fez levantar e andar em círculos pela sala, como a detetive tinha feito horas antes.

Quando Lexa voltou, pouco mais de dois minutos depois, ela tinha certeza de que as notícias eram péssimas.

— Ele matou mais duas mulheres — disse Lexa, enjoada.