Where the Light Won't Find Us

3 Capítulo III — So Glad We've Almost Made It, So Sad They Had To Fade It


Clarke insistiu em seguir Lexa até a cena do crime. Elas não conversaram muito durante a viagem, mas Clarke perguntou quem eram as vítimas e se havia mais alguém da polícia as esperando.

— Charlotte e Callie Cartwig — contou Lexa. — Eram irmãs.

— Eu sei quem eram — respondeu Clarke. Sua voz estava rouca. — Callie não tinha mais do que a minha idade. Charlie... tinha só 14 anos.

O estômago de Lexa afundou. Em algum lugar da sua mente ela podia até entender o desejo irrefreável do Assassino em matar mulheres, mas crianças? Era doentio, até para um assassino em série.

Clarke indicou uma viela estreita onde Lexa podia parar o carro sem atrair atenção desnecessária e as duas desceram. Andaram por dois quarteirões até que Lexa identificasse uma multidão perto de um casebre e a polícia tentando contê-la. Um dos policiais era o homem que tinha feito comentários nojentos sobre ela ao sair do distrito durante a tarde.

— Ah, a grande detetive apareceu — comentou ele, afastando pessoas para que Lexa pudesse passar. Ao ver Clarke, no entanto, o policial a impediu com um empurrão violento. — Só policiais podem entrar, Assassina.

Ele cuspiu nos pés de Clarke. Lexa sentiu uma ira desconhecida passar pelo seu corpo. Ela puxou o policial pela gola do seu uniforme e o jogou contra a parede do casebre onde ocorrera os assassinatos, prendendo-o em uma chave de pescoço.

Você vai deixá-la entrar, sim, seu palerma — Lexa disse, ciente de que a população inteira do Beco a observava. O olhar do policial era de total desespero. — Eu digo quem me acompanha nas minhas investigações, e não você. Se der um passo em falso aqui fora, se maltratar qualquer pessoa que está acompanhando a morte de um ente querido, vou fazer questão de que esse seja seu último trabalho dentro da corporação, entendeu?!

O homem assentiu desesperadoramente. Ela o deixou preso em seu aperto por mais alguns segundos antes de soltá-lo. Assim que o fez, Lexa lançou um olhar para Clarke, que encarava tudo com um semblante assustado, e ela prontamente a seguiu para dentro da casa.

— Sabe, elas moravam sozinhas — sussurrou Clarke, aparentemente ainda apavorada, quando Lexa ligou a única lâmpada da casa e fechou a porta atrás dela. — Os pais morreram na guerra.

— Ele não precisa saber disso — disse Lexa com um sorrisinho macabro.

A detetive observou a cena do crime. A adrenalina por ter enfrentando um de seus subordinados sumiu tão logo ela começava a entender o que acontecera com as irmãs Cartwig.

Tal como a casa de Harper McIntyre, o casebre das Cartwig tinha apenas um cômodo, uma sala que servia como quarto e cozinha. A mais nova, Charlie, estava deitada com o rosto virado para o chão. Sua mão estava a centímetros de uma faca de cozinha enferrujada. Sangue ainda saía de seu pescoço. O Assassino cortara sua garganta; contudo, não tivera tempo de terminar o serviço e drenar seu sangue.

Seguindo a trilha sanguinolenta, Lexa encontrou Callie sentada no sofá. Seus olhos estavam abertos em pânico. Sua camisola de dormir estava rasgada e um de seus seios tinha desaparecido. Parte de seu abdômen estava aberto e uma olhada foi o bastante para a detetive descobrir que havia órgãos faltando. Saberia quais eram assim que a perícia chegasse. Como nas outras vítimas, não havia sangue em nenhuma de suas feridas.

— Lexa, vem aqui! — sussurrou Clarke animadamente. Ela estava próxima à porta que levava para o quintal da casa das Cartwig. — Olha isso!

Clarke segurava uma folha de papel amassada. Sem luvas, Lexa pegou um pano de prato das irmãs e tirou a folha das mãos de Clarke, fazendo um som de reprovação ao ver que a mulher simplesmente brandia uma suposta prova sem nenhuma proteção.

— “Não me deixaram matar apenas uma, então matarei duas” — Lexa leu em voz alta. Estava claro que era um recado do Assassino. Ele não usara caneta ou algo do tipo para escrevê-lo, e sim recortes de jornais diversos. — Eu não acho que ele conseguiu o que queria.

— Como assim? Ele claramente matou as duas! — disse Clarke, indignada.

— Não, Clarke, olha! — Lexa apontou para a faca perto da mão de Charlie. — Ele entrou como sempre entra, certo? Deve ter ido na Callie primeiro, porque ela é a mais velha e está na faixa-etária das suas vítimas. Callie deveria dormir no sofá porque, bem, ela quer o melhor para a irmã, certo?

Clarke assentia a tudo que Lexa dizia vigorosamente. Enquanto contava a sua versão do que poderia ter acontecido, Lexa andava para lá e para cá, tentando não encostar nas vítimas ou no sangue de Charlie jorrado no chão. Ela deixou a carta bizarra do Assassino em cima da pia.

— O Assassino fez assim... — Lexa fingiu ter uma faca e atacou Callie no sofá, virada de costas para Clarke, que acompanhava tudo ainda no mesmo lugar onde encontrara o bilhete — e não viu que Charlie provavelmente tinha acordado com os gritos abafados da irmã!

Lexa mudou de posição agora, voltando para a parte do único cômodo que era a cozinha. Ela continuava fingindo ter uma faca na mão e andava pé ante pé atrás da suposta sombra do Assassino.

— Charlie foi salvar a irmã, mas ela acordou tarde demais. — Lexa apontou para o peito nu de Callie, sem um dos seios e com o abdômen dilacerado. — Ele já estava pronto para atacar novamente.

A detetive virou de costas rapidamente, dessa vez fingindo ser o Assassino. Ela passou a sua faca imaginária na garganta da Charlie imaginária que estava na sua frente e fez um barulho estranho com a boca, como se pudesse ver o sangue começando a jorrar do pescoço da menina.

A expressão de Lexa se tornou triste subitamente. Essa era a pior parte do seu trabalho, pensar em como os crimes tinham acontecido. Imaginar que Charlie tentara lutar com o Assassino da melhor maneira que podia, mesmo sabendo que o mais inteligente seria fugir dali, tudo para proteger a irmã que já estava morta... Era doloroso demais.

— Ela provavelmente gritou ao ser atacada — colaborou Clarke. — Só isso teria feito o Assassino fugir. Só por isso ele... ele não terminou o trabalho.

Lexa assentiu. Ela olhou novamente ao redor do cômodo, se perguntando se haveria alguma coisa ali... qualquer coisa... que poderia levá-la ao Assassino. A única coisa que ele deixara era aquela carta bizarra, indicando que mataria mais se lhe dessem a liberdade.

Era o primeiro recado que o Assassino deixava e ela sinceramente esperava que fosse o último. Se ele tinha entrado em uma casa para matar duas irmãs pois tinha sido interrompido no último serviço, o que ele faria agora que acontecera quase a mesma coisa novamente?

— Ei, Lexa... — A voz de Clarke a trouxe de volta à cena do crime. — Elas... as meninas não estão com a Valmut tatuadas.

Lexa levou um tempo para decifrar o que Clarke queria dizer com Valmut. Ela abriu um sorriso amistoso para a mulher. Seus olhos se encontraram e Clarke corou.

Valknut, você quis dizer. — Lexa voltou a se aproximar do corpo de Callie e, realmente, não havia nenhuma marca recém-feita a fogo. — Ele não teve tempo de marcá-las. Isso quer dizer que...

— Ele deve ter um tipo de ritual — complementou Clarke — para marcar as vítimas. Quanto tempo ele ficava com cada uma delas, hein?

— É difícil dizer, porque só as encontramos pela manhã. Provavelmente a noite toda.

O semblante de Clarke era de puro nojo. Lexa se simpatizou com a mulher, afinal sentia o mesmo. Ela deu um último olhar para a cena do crime. Não havia mais nada ali para ela. A única coisa que restava era esperar os legistas para que levassem os corpos das irmãs.

Lexa deu uma espiada para fora da casa através da cortina esfarrapada. Os policiais permaneciam lá, mas a multidão se esvaziara bastante. A população do Beco já estava acostumada com aquele tipo de tragédia, ela imaginou. Ninguém se chocava mais com a morte de mulheres no meio da noite.

— Então... o que a gente faz agora? — indagou Clarke, sentada de maneira desconfortável no balcão da pia.

— Esperamos os legistas — disse Lexa, ainda olhando para fora da janela. — Eles já devem estar a caminho.

Ela olhou no seu relógio de pulso. Passava das duas da manhã. Sem dormir há quase duas noites, Lexa sentiu sua mente finalmente alcançar o cansaço do seu corpo. Seus olhos pesavam enquanto ela tentava manter-se vigilante. Sabia que a sua próxima noite de sono viria apenas quando capturasse o Assassino.

— Ei, não precisamos esperar por eles — falou Lexa de repente, tendo uma ideia. — Eu sei que você não vai concordar comigo, mas podemos ir ao ringue do Pike agora.

Lexa virou-se para encarar Clarke. Os corpos começavam a feder e ela não queria ficar ali mais tempo do que necessário. Ela tinha que seguir a única pista que possuíam. Ficou surpresa, no entanto, ao ver a mulher assentindo à sua ideia.

— Vamos, eu te mostro o caminho — disse Clarke, se levantando.

Clarke se aproximou de Lexa, que estava próxima à porta de entrada. Elas se encararam por alguns segundos antes de Lexa impulsivamente beijar uma das bochechas de Clarke. As duas se afastaram, com Clarke tentando olhar para o lado de fora da janela, na esperança de ninguém ter visto a cena.

Lexa abriu a boca para explicar o motivo do seu movimento repentino, mas Clarke a calou com um dedo nos seus lábios. Ela engoliu em seco e abriu a porta para que as duas saíssem pela noite, mais uma vez em busca do Assassino.

***

Clarke já encarara o portão da casa de Pike inúmeras vezes antes, mas aquela vez foi diferente. Ela sabia que sairia dali com a fé no homem balançada. Tinha uma sensação estranha de que tudo acabaria naquela noite. Ela olhou de soslaio para Lexa e bateu palmas para chamar o homem. Pike provavelmente dormia, uma vez que passava das três da manhã.

— Podemos invadir? — indagou Clarke depois da terceira salva de palmas e nenhuma resposta.

— É claro que não! — disse Lexa, levemente indignada.

Clarke soltou um muxoxo de impaciência. Não gostava de seguir as regras policiais de Lexa. Tudo precisava de um papel para assinar e horas sentada numa cadeira dura na delegacia. Ela se tornara Vigilante pela liberdade de não precisar preencher um memorando até o fim do expediente para ir atrás de um ladrão.

Ela deu batidinhas insistentes no portão de Pike, esperando que ele ouvisse o barulho irritante e saísse para reclamar com quem estivesse acordando-o altas horas da madrugada. Não saiu como esperava: um dos vizinhos colocou a cabeça para fora da porta com um semblante nada amigável.

— Vão embora! — ele exclamou, irritado.

— Senhor, sou detetive da polícia de Washington, queria uma palavra com Charles Pike — disse Lexa antes que Clarke pudesse retrucar o homem. — É muito urgente.

— Pike não está aí, não é óbvio? — respondeu o vizinho, mal-humorado. — Disse que iria resolver algo com um de seus seguranças. Agora, saíam daqui antes que eu chame a polícia de verdade!

O vizinho bateu a porta com força na cara de Lexa, que se aproximara na esperança de obter mais informações. A detetive virou-se para encarar Clarke na escuridão da rua, sua expressão perdida.

— Você pode começar indo na casa do segurança que eu comentei — disse Clarke. Ela voltava a encarar o barraco de dois andares onde Pike morava. Depois da guerra, ele fora um dos primeiros que voltaram a morar no Beco e comprara dois lotes a preço de banana. A casa de Clarke também tinha dois andares, mas era ínfima comparada a de Pike.

Você? Como assim? Você não vai comigo? — questionou Lexa, franzindo o cenho.

Clarke balançou a cabeça, determinada. Talvez, se as duas se separassem, tinham mais chances de capturar o Assassino. Ela continuaria ali na casa de Pike. Um frio na barriga a fazia pensar que tinha algo escondido ali e ela investigaria, Lexa permitindo a invasão ou não.

Lexa parecia saber o que passava pela cabeça de Clarke e não fez nada além de assentir, soltando um suspiro de derrota.

— Gosto da sua rebeldia — ela disse baixinho.

Não tinha ninguém na rua. Estava tudo escuro. Clarke não resistiu aos seus desejos e puxou Lexa para um beijo. Foi a mesma sensação que sentira da última vez. Ela sentiu seu estômago revirar de prazer e sorriu quando terminou de beijar a detetive.

— A casa dele é subindo a rua — disse Clarke, ainda com os braços ao redor da cintura de Lexa. — Vire à esquerda e pare na terceira casa, também à esquerda. É na esquina, não tem erro.

— Certo. — Clarke podia ver as engrenagens do cérebro de Lexa tentando memorizar o endereço. Ela repetiu as instruções mais uma vez. — Estou indo. Se o vizinho estiver correto, talvez possamos pegá-lo em minutos.

Lexa olhou através do ombro esquerdo de Clarke e a beijou mais uma vez. Ela não conseguia parar de sorrir. Mesmo na perspectiva de capturar o Assassino naquela noite, Clarke não parava de pensar em Lexa, no seus lábios e no seu corpo prensado contra o seu. Era reconfortante, lhe dava um motivo para continuar sua caçada.

As duas se separaram e Lexa seguiu seu caminho. Clarke tinha certeza de que a detetive lançou uns dois olhares para trás, a fim de saber como ela entraria na casa de Pike, mas Clarke só começou a subir o cano de escoamento do vizinho brigão quando viu a sombra de Lexa virar a esquina na rua que ela mencionara.

No telhado, ela colocou a bandana, guardada cuidadosamente no bolso de trás da sua calça jeans esfarrapada desde que saíra da cadeia, tantas horas atrás. Ela andou vagarosamente, tomando cuidado para não pisar em falso. Tinha uma visão direta do segundo andar da casa de Pike e, pela fresta de uma das janelas, ela podia ver a luz fraca de uma vela.

Clarke franziu o cenho, confusa. Pike era o homem mais rico do Beco. Se alguém tinha dinheiro para colocar eletricidade em sua casa, era ele. O que aquela vela estava fazendo acesa, se a casa supostamente estaria vazia?

Ela se preparou para pular no quintal de Pike. Apesar da ideia ter sido sua, não gostava de invadir a casa de alguém. Pike a acolhera quando chegara no Beco e Clarke precisava de um emprego. É claro, ele ofereceu a saída ilegal, mas não se importava com isso. O homem estivera lá por Clarke desde o começo e isso era muito importante.

Clarke checou se não havia nada embaixo que impedisse sua caída e pulou. Seus joelhos tremeram com o peso do seu corpo, mas nada muito diferente de quando ela fazia o mesmo nas ruas. Na sua frente, o ringue de luta parecia triste e vazio sem ninguém se enfrentando nele. Ela não parou por muito tempo e logo se encaminhou para a casa de Pike.

Tinha se preparado para invadir o casebre com um pequeno grampo que roubara da casa das irmãs Cartwig, mas não foi necessário. A porta estava aberta em um vão minúsculo. Clarke mordeu o lábio, e, pela primeira vez naquela noite, estava receosa. E se alguém tivesse chegado a Pike antes dela?

Cautelosamente, ela abriu a porta mais um pouco para que pudesse passar. A sala de estar estava totalmente escura. Clarke não trazia nada com que pudesse iluminar a passagem até o segundo andar. Rezando para não derrubar nada, ela tateou o caminho inteiro até chegar na escada.

Seus olhos foram se acostumando com a escuridão e o silêncio que rondava os cômodos da casa. Clarke se lembrou da primeira vez que entrara ali. Tinha só 20 anos e acabara de vencer uma luta particularmente difícil contra um homem com o dobro do seu tamanho. Quebrara alguns dentes, torcera o tornozelo e seu braço estava em um ângulo estranho. Mas ela estava feliz e Pike também, porque ele lhe dera uma nota de 50 dólares, algo que ela nunca tinha visto na vida. Clarke pagou o ano inteiro de aluguel dos Blake com esse dinheiro.

O escritório de Pike estava com a porta entreaberta e pela fresta podia-se ver a luz da vela bruxuleando nas paredes. Clarke se apressou. Ao abrir a porta do escritório, ela não viu nada no primeiro instante. Seus olhos piscaram loucamente para tentar se acostumar com a iluminação, um pouco forte comparada com a do corredor totalmente escuro.

A porta se fechou com um estrondo. Clarke virou-se para ver o que tinha acontecido e se deparou com alguém escondido nas sombras.

— Você não devia ter vindo aqui — disse a pessoa em tom de desaprovação. — Não era para você ter vindo hoje, Clarke, por que não entendeu isso?

Era Pike. Ele se mantinha escondido, mas Clarke reconhecia aquela voz em qualquer lugar. Não havia mais animosidade em seu tom. Ele não era o Pike que brincava quando ela não ganhava uma luta. Não era o Pike que a ajudava. Era um homem diferente, e Clarke sentia isso apenas ouvindo sua voz.

Clarke se lembrou subitamente que ainda tinha a bandana sobre seu rosto, mas Pike provavelmente sabia que ela era a Vigilante há tempos. Ela não sabia o que sentir. Ele deu um passo na sua direção. Clarke recuou e bateu contra a mesa de Pike.

— Por que fingiu que não estava em casa? — Clarke indagou honestamente. — Lexa só queria conversar com você sobre seu guarda-costas.

Pike riu. O som ecoou pelo cômodo até os ouvidos de Clarke, que sentiu o estômago retorcer de horror. Era uma risada fria, sem humor, bastante diferente das que ele dava enquanto discutiam seu pagamento.

— Nunca imaginei que veria você correndo junto com uma porca, Clarke — ele admitiu. Porco era o apelido preferido do Beco para os policiais, mas Clarke não ouvia a alcunha há meses. — Eu estou muito surpreso com isso. Você deveria ter continuado batendo apenas em ladrões e estupradores.

— O Assassino matou uma amiga minha — retrucou a mulher, irritada. — Eu tinha que intervir.

— Ah, sim — concordou Pike. — Harper McIntyre, não foi? Ela foi difícil...

Um pequeno clique se fez no fundo da mente de Clarke. Ela se segurou na mesa de Pike, franzindo a testa como se não acreditasse no que ouvia. Lexa tinha levantado a hipótese, mas Clarke sabia mais da vida no Beco para acreditar nos anos de polícia da detetive.

Não era possível, porque Pike ajudava o Beco da Perdição. Pike levantava a economia local. Pike trazia uma distração para os moradores daquele lugar desesperador. Ele a acolhera. Ele era um homem bom. Veterano da guerra. Que tipo de homem doente atravessava noites e noites depenando mulheres em suas casas?

Pike saiu da escuridão que o englobava. Seu nariz estava coberto por um grande curativo amarelado. Clarke tinha certeza de que se o tirasse, poderia ver o nariz do homem quebrado num ângulo para a direita, assim como ela quebrara o nariz do Assassino na noite anterior.

— Por quê? — Era a única coisa que Clarke conseguia pensar e ela disse em voz alta. Pike mantinha uma distância pequena dela e, embora não carregasse sua adaga, parecia pronto para uma luta.

— Porque é divertido — disse Pike levianamente, começando a andar pelo cômodo. A luz da vela bruxuleava em suas feições e o Assassino nunca pareceu tão assustador. — Você sabe que eu fui capturado durante a guerra. Lá, adquiri um gosto... peculiar... por tortura. Os alemães sabem muita coisa sobre tortura. Ao escapar, comecei a praticar meu novo hobby com os inimigos. Os generais dos quarteis faziam vista grossa. Se eu tivesse a informação, estava tudo bem. Como eu mesmo aprendi, ninguém dá a mínima para prisioneiros de guerra.

“Quando voltei, tentei seguir em frente. É uma vida difícil, ser um veterano de guerra. As pessoas agradecem pelo seu serviço, mas não oferecem empregos. Eu estava na berlinda, tentando resistir a esse sentimento estranho que apossava meu corpo... o de matar. Voltei para a fazenda dos meus pais. Eles queriam que eu fosse açougueiro, como meu pai tinha sido, e aprendi muito do ofício com ele. Talvez tenha sido seu maior arrependimento, porque os matei com as facas que ele usava para fazer os cortes das carnes que vendia.”

Clarke sentia vontade de vomitar suas entranhas. O jeito que Pike contava sua história... a normalidade da sua voz... queria fugir dali, embora soubesse que ele não permitiria. Sua única opção era deixá-lo falando, pois sabia que Lexa iria voltar em algum momento. Juntas, poderiam ter uma chance contra ele.

— Assim que consegui vender a fazenda, inventando uma história trágica de como meus pais haviam morrido enquanto dormiam e eu os tinha enterrado sozinho no cemitério da família, voltei para Washington. — Pike parou na frente de Clarke e a fitou. A mulher sentiu todos os ossos do seu corpo congelarem. — Eu tentei parar, Clarke, juro que tentei. Eu queria parar. Mas quando mudei para o Beco, percebi que poderia fazer algo aqui que jamais suspeitariam de mim.

— Muitos meninos sem família vinham lutar no ringue — disse Clarke de repente. Ela lembrou de uma história que Bellamy contara muito tempo atrás. — E eles sumiam, nunca mais voltavam. Mas ninguém nunca procurava por eles.

— Você me lisonjeia com o “muitos” — falou Pike, assentindo com a cabeça. — Foram só cinco. Os rumores se espalharam, quase perdi minha fonte de renda e meu principal refúgio. Foi quando eu pensei que tinha ido longe demais. Talvez, eu era mesmo um monstro que jamais se saciava... Pensei em tirar minha vida e nunca mais tocar no fio de cabelo de alguém.

A curiosidade mórbida de Clarke queria perguntar a Pike o que fazia com os corpos, mas se conteve. As autópsias da polícia e a visão dos corpos de Harper e das irmãs Cartwig ainda estavam frescas em sua memória.

— Mas... eu não poderia ir embora sem um último grande ato. Sabe, eu era adorado no exército. Tinha uma reputação, entende? Com o final da guerra, perdi isso tudo. Voltei a ser mais um pé rapado que recebia pensão do Estado. Imaginei que poderia orquestrar vários assassinatos e mostrar para o mundo a única coisa que eu sei fazer: matar.

“Eram seis assassinatos, seis mulheres diferentes com vidas ridículas aqui no Beco. Nenhuma delas importava muito para a sociedade, assim como aqueles alemães de quem arranquei os dedos nas trincheiras. Dessa vez, não dissolveria os corpos em ácido, ah, não. Eu os deixaria à mostra, para todo mundo ver. Claro, não poderia esquecer meus talentos como açougueiro. Como que ninguém nessa cidade pensou em fazer isso antes?!”

— Talvez porque ninguém deseja se tornar um assassino em série — Clarke murmurou.

Pike fingiu que não escutara. Estava absorto demais na sua própria história para se importar com Clarke. A mulher andou alguns centímetros para a direita, na expectativa de ter uma visão melhor do lado de fora da janela. Não havia uma alma viva na rua e nenhum sinal de Lexa. Onde será que estava a detetive?

— Ha, mas deu certo! Meus assassinatos se tornaram famosos! Tenho uma gaveta aqui com os jornais que me deram a primeira página. — Os olhos de Pike brilhavam contra a luz fraca da vela. Clarke deu mais alguns passos em direção à janela. — Ninguém desconfia que sou eu. Ninguém exceto por... você, Clarke.

Ela parou em chofre. Pike virou-se para ela e diminuiu a distância entre os dois com apenas alguns passos. Ele a estudou atentamente, e depois olhou para a janela. Clarke sabia que ele estava juntando dois e dois...

— Você poderia ter pensado na porta, Clarke Griffin — disse Pike, soltando uma risada. — Não vou deixar minha melhor lutadora sair pela janela assim, sem aviso. Como descobriu que eu estava envolvido?

— Não descobri — respondeu Clarke honestamente. — Mas desconfiava de um de seus guarda-costas. Ele usava o anel com a Valmut.

Ela se xingou mentalmente por jamais ter gravado o nome dos triângulos que se entrelaçavam. Pike riu. Não era um som alegre.

— Ah... — ele fez, ainda próximo de Clarke. — Valknut. Eu não fazia ideia do que era até que ele me contou um dia. Achei que seria uma boa adição para os corpos, sabe? Dar um ar de mistério que só poderia ser solucionado se soubesse o que o símbolo significa.

— Deu certo, não deu? — retrucou Clarke, com o mínimo de coragem que ainda restava em seu corpo. — Aqui estamos.

Clarke voltou a lançar um olhar para o lado de fora da janela, mas isso não passou despercebido por Pike. Ele pegou Clarke pelo pescoço e a empurrou com força na direção da janela. A mulher tentou revidar, socá-lo ou chutá-lo de algum jeito, mas nenhum dos seus membros o alcançavam. Pike a colocou contra o batente da janela, pressionando metade do seu corpo para fora da sala.

— Você quer tanto fugir, não quer, Clarke? — ele questionou acima dela, sua voz soando mais aterrorizante do que antes. — Parece que não ouviu direito as histórias.

Com um impulso, Pike a jogou de novo para dentro do cômodo. As costas de Clarke bateram com força contra a mesa de escritório, mas ela se recusou a gritar. Não daria esse gosto a ele. Clarke se levantou, percebendo que ainda tinha a bandana em seu rosto e a tirou. Ela abriu um sorriso a Pike, que retribuiu.

— Não quero matar você, Clarke, não mesmo, mas você sabe meu segredo agora, então sei que não tenho opção.

Clarke permaneceu em silêncio, sentindo dores em suas costelas.

— Não posso fazer meu ritual como fiz com as outras mulheres... — Parecia que Pike estava considerando algo. Ele tinha a mão no queixo e continuava a fitar Clarke com interesse. — Vou fazer uma aposta no seu jogo, Clarke. Vamos lutar. Se você ganhar, pode ir embora e encontrar a polícia mais próxima. Prometo que não vou fugir. Se eu ganhar... bem, você vai estar tão machucada que não posso fazer nada a não ser terminar o serviço.

Ela abriu a boca e fechou, tentando processar tudo o que Pike falara. Seria possível que o Assassino acabara de lhe desafiar em uma luta? Clarke já o vencera uma vez, e isso tivera consequências desastrosas. Ainda assim, era a melhor opção que tinha. Estava começando a ficar preocupada com Lexa. Onde diabos aquela mulher se metera?

— Você quer fazer isso aqui ou...? — Clarke começou a perguntar, mas logo teve que se desviar de um soco que Pike lançara. — Tudo bem, então!

O cômodo era pequeno demais para que uma luta de fato acontecesse, e o primeiro pensamento de Clarke foi correr para a porta. No entanto, Pike pensara a mesma coisa e ficou na frente dela, os braços erguidos em guarda. Ele jogou um soco de direita em sua direção, mas Clarke desviou novamente.

Ao contrário de como se sentia nas outras lutas, essa não dava a Clarke a excitação de estar no ringue. Estava literalmente lutando por sua vida. Nada mais parecia tão assustador. Ela olhou para os lados, procurando algum objeto que ela pudesse usar contra Pike, mas nada saltou aos seus olhos.

Clarke continuava se desviando dos golpes de Pike, caminhando para trás até bater em uma prateleira. Nela, estava a vela que os iluminava milagrosamente após tanto tempo. Desesperada, Clarke pegou a vela com a mão esquerda e enfiou o objeto no peito de Pike.

O homem soltou um grito de pavor, e foi o suficiente para ela. Clarke correu para a porta e lançou-se para fora do cômodo, ecoando os gritos de Pike em seus ouvidos. Ela não parou de correr até estar do lado de fora da casa. Ao olhar para cima, porém, descobriu que Pike de alguma forma sumira de seu escritório. Ele a procurava pela residência.

— CLARKE! GRIFFIN! — ele berrou, escancarando portas da sua casa em busca da mulher. — Eu tentei ser legal com você! Tentei jogar seu jogo! Mas agora você passou dos limites! Não há velas em um ringue de luta!

— Eu usei o que tinha disponível! — Clarke gritou de volta, sabendo que o atrairia para fora.

Dessa vez, estaria pronta. Usaria todo o ódio que borbulhava em seu corpo desde que descobrira Harper morta em sua casa, uma eternidade atrás. Não havia como esperar por Lexa mais. Clarke tinha que fazer isso sozinha.

Pike surgiu no batente da porta com um sorriso escárnio no rosto. A vela não causara muito dano além de um pequeno furo em sua camisa. O Assassino estava equipado com a mesma adaga que ele usara para atacar Clarke na noite anterior.

Clarke avançou primeiro. Deu um gancho de esquerda em Pike e o acertou precisamente no queixo. O curativo em seu nariz saiu voando. Ela sabia que Pike não estava jogando limpo e logo se afastou, mantendo os braços levantados. Pike se recuperou rapidamente e ao mesmo tempo se aproximou de Clarke, com uma das mãos segurando a adaga. Ele tentou desferir um golpe com a faca, mas Clarke se afastou em tempo.

Ela avançou novamente, dando dois chutes com a perna direita, mas Pike foi mais rápido dessa vez. No primeiro chute, Clarke acertou o braço do homem, porém no segundo chute, Pike perfurou a canela dela com a adaga que segurava.

Clarke urrou de dor e perdeu o equilíbrio. Olhando para baixo, viu que sua calça jeans sangrava. Ela tentou colocar o pé no chão, e o firmou ali. Doía muito, mas ela pensou que conseguiria segurar a luta se não se movimentasse muito. Ela voltou a fitar Pike com desprezo em sua expressão. O Assassino sorria.

Pike, tendo a vantagem de poder se movimentar livremente, atacou Clarke de todos os lados. Em poucos minutos, ela já tinha vários cortes em seus braços e no rosto. Jogando sujo como seu adversário, Clarke o puxou pela gola da camisa e desferiu dois socos em seu estômago. Pike caiu de quatro com o impacto e ela aproveitou para dar-lhe uma joelhada com a perna machucada, tremendo de dor.

Em seu momento de fraqueza, Clarke pegou a adaga de Pike, pisando em sua mão para que ele a soltasse. Ela a olhou atentamente, sentindo repulsa só por encostar nela. O sangue de Harper estivera ali, como o seu estava agora. Diabos, Pike a usara horas antes para picotar as irmãs Cartwig.

— Você é doente — Clarke disse com aversão para o homem aos seus pés. Ele não se mexera desde que fora atacado. — O que fez com o sangue delas? Com os órgãos que tirou delas?

— Você sabe o que eu fiz — respondeu Pike, tossindo. Clarke sentiu uma satisfação macabra ao olhá-lo e ver que ele cuspia sangue. O homem continuava agachado no chão.

Clarke sabia, era óbvio desde que encontrara com Aden e vira as autópsias. Ela permaneceu encarando-o, esquecendo de que estava em uma luta. Por outro lado, Pike sabia muito bem da sua posição e fez uso dela. Ele levantou-se em um salto rápido e agarrou o braço de Clarke que empunhava a adaga na tentativa de recuperá-la.

A mulher se esquivou, surpresa, mas se desequilibrou e caiu no chão, com Pike em cima dela. Pike socou Clarke três vezes no rosto, com tanta força que ela ficou aturdida. Seus ouvidos zuniam e ela sentiu o sangue começar a escorrer em seu rosto.

Piscando várias vezes para retomar sua visão, ela se recusou a soltar a faca do Assassino. Mesmo com Pike prendendo seu braço esquerdo, Clarke começou a bater nele com o outro punho, na tentativa pífia de fazê-lo sair de cima dela.

— Noite passada, você quebrou meu nariz e me deixou desacordado — Pike dizia enquanto golpeava Clarke repetidas vezes no rosto. Ela mal tinha tempo de respirar antes que ele aplicasse outro soco certeiro. — Eu vou fazer o mesmo com você. Clarke Griffin, você perdeu. Quando acordar, não estará nesse mundo mais.

Pike segurou a cabeça de Clarke e a bateu contra o chão. Ela começou a ver estrelas. Tudo rodava. Havia dois Pike em cima dela e ela não conseguia se livrar de nenhum. A adaga, tão firmemente presa em seus dedos, começava a se soltar. Clarke não tinha força para mais nada. Ela conseguia ouvir a risada escancarada de Pike enquanto prosseguia lhe dando socos no rosto e ocasionalmente batendo sua cabeça no chão.

Era isso, Clarke pensou, sentindo os olhos cada vez mais pesados. Morreria ali, assassinada justamente pela pessoa que tentara capturar. Nunca mais beijaria Lexa. Nunca mais percorreria os telhados do Beco na esperança de salvar uma mulher em apuros. Nunca mais daria uma risada com os Blake. Nunca mais iria conversar com Lincoln.

Talvez fosse a força desse sentimento, da negação das coisas que ela jamais faria novamente, que fez Clarke levantar a faca e posicioná-la do melhor jeito que conseguia. Com um pouco da força que seus amigos lhe passavam, enfiou a adaga nas costelas de Pike.

Sua visão clareou um pouco ao perceber que Pike não estava mais em cima dela. Com um esforço descomunal, ela conseguiu levantar a cabeça, tão dolorida que parecia pesar uma tonelada. Tudo girava, porém Clarke conseguiu enxergar uma sombra cambaleando em sua direção.

No entanto, ao invés de atacá-la, a sombra caiu ao seu lado, desacordada. Ela não tinha forças para celebrar. Não me deixe morrer, foi o último pensamento que ecoou em sua mente antes de desmaiar.

***

Duas semanas depois, a cena de Clarke desacordada ao lado do corpo imóvel de Pike ainda causava calafrios em Lexa. Frequentemente, sonhava que segurava o corpo de Clarke em seus braços e clamava por vingança, uma vez que o Assassino escapara novamente. Era difícil dormir nas noites depois do acontecido. Mas ela sabia que, no fim, tudo daria certo — mesmo que isso levasse muito mais tempo que pensava.

Pike, ferido quase que mortalmente no abdômen por Clarke, sobrevivera pela clemência de Lexa. Os policiais que a acompanharam na cena do crime não desejavam chamar uma ambulância para o homem. Levou muito tempo para que ela os convencesse de que tê-lo vivo era melhor do que morto. Ele estava em um hospital de uma prisão ao norte da cidade, e Lexa iria visitá-lo quase diariamente.

Lexa esperava que tudo acabasse quando o Assassino fosse pego, mas isso foi só o começo. Titus a levou em todas as entrevistas que podia com os jornais da cidade; ela encontrou o prefeito diversas vezes e contava em detalhes como tinha solucionado o mistério; ela não conseguia mais entrar na lanchonete de Anya sem que um repórter ou um curioso a observasse de longe. Da noite para o dia, ela era uma celebridade.

Então, na semana seguinte à captura, um rumor começou a circular pelo Beco, algo que Lexa sabia que sairia um hora ou outra. As pessoas sussurravam sobre a ajuda que ela obteve do Vigilante no caso. E que o Vigilante era ninguém menos que Clarke Griffin, a menina dos olhos de Pike, que magicamente estava junto com o Assassino, mortalmente ferida, quando ele foi preso.

Lexa inventou uma desculpa para Titus assim que Clarke e Pike estavam seguros numa maca de hospital para que ele não suspeitasse de nada. Ele não quis acreditar em suas palavras, mas Titus confiava em Lexa e em seu trabalho, mesmo que não demonstrasse isso muitas vezes. Ele prometeu que abafaria os rumores sem pedir por nada em troca, como uma desculpa pelo comportamento de antes.

Agora, a detetive estava sentada na cadeira desconfortável para visitantes no quarto de Clarke, esperando a ligação que talvez custaria seu emprego. Ela lia um dos jornais que Bellamy deixara ali durante sua visita matutina. O Assassino ainda ganhava algumas matérias para si, mas a cada dia que passava, ele perdia o protagonismo.

Washington era uma cidade grande, a capital de um país. Um assassino em série somente podia ganhar um pouco de holofote em duas semanas. Havia coisas piores acontecendo.

— Ei... — chamou uma voz fraquinha, que não seria escutada se o quarto estivesse mais barulhento.

Lexa olhou para os lados e se deparou com os olhos de Clarke abertos na sua direção. Ela jogou o jornal no chão sem cerimônia e se aproximou da maca de Clarke, segurando sua mão com força.

— Quem é você? — questionou Clarke, tentando se desvencilhar da mão de Lexa contra a sua.

O estômago de Lexa afundou. Ela sabia que a cabeça de Clarke tinha sido horrivelmente machucada durante a luta com Pike. Não imaginava que afetaria a sua memória o tanto de pancadas que levara. Os médicos não avisaram nada do assunto. Eles disseram que, quando acordasse, Clarke sentiria mais dores do que qualquer outra pessoa, mas nada muito anormal para alguém em coma.

— Você realmente não me conhece? — indagou Lexa com um fiapo de voz.

Clarke a encarou por um tempo, franzindo o cenho. Depois, para surpresa de Lexa, ela abriu um sorriso fraco.

— Te peguei — riu Clarke. Ela soltou um gemido de dor logo depois.

Lexa soltou um suspiro exasperado. Ela soltou da mão de Clarke e a passou no próprio rosto, como se não acreditasse no que ouvia. Deveria saber que Clarke era uma sacana e provavelmente faria isso quando acordasse.

— Se não estivesse tão machucada, eu lhe daria uns sopapos — disse Lexa, embora sorrisse. — Como você está se sentindo?

— Como se eu estivesse dormindo por meses — respondeu Clarke, olhando ao redor pela primeira vez. Ela observava o quarto do hospital com interesse. — Eu não tenho dinheiro para pagar isso. O que aconteceu enquanto eu estava fora?

— Bom, Pike foi preso — começou Lexa. — Ele ainda está vivo, preso num hospital do Estado. Tive muita sorte em encontrar vocês na hora que encontrei. Os médicos acreditam que, se demorasse mais, vocês dois poderiam ter morrido.

— Onde você estava?! — Clarke parecia se recordar da fatídica noite onde tudo mudara. — Eu lembro de enrolá-lo por horas, esperando por você. Eu sabia que não tinha chance contra ele, e ainda assim, você nunca chegou.

Lexa engoliu em seco, mexendo as mãos em seu colo. Ela evitou o olhar de Clarke. Tinha sido uma burrice gigantesca ter seguido a dica do vizinho de Pike, ela agora sabia. Se tivesse aceitado a ideia de Clarke para invadir a casa dele, ela não estaria deitada naquela maca desconfortável em coma por duas semanas.

— Eu cheguei na casa e não havia ninguém — contou Lexa após um tempo em silêncio. — Estava tudo escuro, como deveria estar. Contrariando o que tinha dito cedo, invadi a casa do segurança, afinal ele era um suspeito e, tecnicamente, posso fazer isso quando houver necessidade.

Clarke revirou os olhos e disse “Policiais!” entre suspiros. Lexa abriu um sorriso ínfimo.

— Mas eu estava certa: não havia ninguém lá. Passei a olhar tudo o que eu podia encontrar pela frente à procura de pistas e não encontrei nada. Meia hora depois, o segurança apareceu. Ele disse que estava acompanhando Pike em algum lugar que não poderia mencionar e então me toquei. Pike nunca tinha saído. Ele estava na casa o tempo inteiro. É claro que, até eu tentar convencer o segurança que era uma policial de verdade, levou um tempo verdadeiramente longo...

“Voltei para a casa das Cartwig e peguei dois policiais para levar junto. Foi nesse momento, enquanto nós voltávamos para a casa de Pike na viatura, que eu me toquei que estava certa o tempo inteiro. Ele era o Assassino. Só não conseguia entender como e porque ele tinha cometido todos aqueles crimes.”

Quando Pike estava bem o suficiente para ter uma conversa sensata com a polícia, Titus e Lexa se sentaram ao lado de sua maca e destrincharam tudo o que podiam sobre o Assassino. Eles escutaram atentamente a história de Pike, desde criança, seu tempo na guerra, sua volta para os EUA e a sua vida em Washington depois que matara os pais.

Lexa sentia aversão pelo Assassino, algo que beirava ao nojo. Pike sofrera muito em vida, mas nada justificava sua caçada pela fama da forma mais grotesca possível. Ela ficava feliz em ter ajudado a colocá-lo na cadeia. Estava feliz em ver que ele iria apodrecer lá.

— Imagino que tenha sido mais doloroso para você do que para mim — ela disse para Clarke, depois estar perdida em seus pensamentos.

Clarke soltou um muxoxo irritado. Ela levantou a mão enfaixada e apontou para a própria cabeça.

— Acho que foi só um pouquinho mais doído — ela disse sarcasticamente.

A cabeça de Clarke estava totalmente coberta por faixas. Poucos fios do seu cabelo loiro saíam. Lexa achava agora que ela parecia estar com um capacete feito por múmias, mas era muito mais aterrorizador acompanhá-la assim durante as últimas semanas.

Os médicos também afirmaram que o nariz de Clarke estava para sempre quebrado para a direita. Eles fizeram o que podiam, mas os socos de Pike tinham causado um estrago para além da medicina moderna. Clarke também agora teria um afundamento mínimo em seu crânio por conta das pancadas do Assassino. A detetive abriu a boca, se forçando a contar isso para Clarke, porém não conseguiu. Não era a hora certa. Ela estava tão feliz de ver Clarke viva e saudável. Não queria trazer más notícias — não mais do que o necessário, pelo menos.

— Você não pagou por esse quarto, né? — perguntou Clarke algum tempo depois.

— Você é testemunha chave da prisão do Assassino — explicou Lexa. — Eu convenci Titus a lhe dar o melhor quarto no melhor hospital da cidade. Ele ficou puto.

Clarke e Lexa riram entre si.

— Agora que está acordada, ele provavelmente vai querer te interrogar — a detetive disse, olhando em seu relógio de pulso. Estava quase na hora que Titus prometera ligar com notícias do seu emprego. — Eu deveria chamar uma de suas enfermeiras.

— Não, não! — Clarke fez menção de se levantar, mas a dor falou mais alto. Ela voltou a deitar na cama e, mais calma, disse para Lexa: — Não vá ainda. Sei o que me espera quando você avisar alguém que acordei. Eu quero esse tempo para nós.

Arqueando as sobrancelhas, Lexa não retrucou Clarke. Ela também sabia o que lhe esperava assim que saísse do quarto. Não queria enfrentar os problemas que tinha no momento, não agora.

— Você sabe dos meus amigos? — Clarke continuou o questionamento. Sua mão repousava preguiçosamente na de Lexa.

— Octavia e Raven estão aqui todas as manhãs, junto com Bellamy — disse Lexa. — Eu fico com as tardes. Lincoln vem raramente, dependendo da hora que está de folga do trabalho.

Clarke suspirou aliviada. Com a outra mão, coçou a parte de trás da cabeça. Sua testa franziu por alguns segundos, e Lexa soube que ela massageava a parte do seu crânio que afundara no combate com Pike.

— Caramba, Pike realmente me machucou, hein — comentou Clarke. Seus dedos agora corriam pelo seu rosto. Ela se soltou de Lexa para apreciar suas novas cicatrizes.

— Sim, mas você não deixou barato. Pike está destruído também.

— Tudo por conta daquela faca idiota. — O semblante de Clarke contorceu de ódio. — Não acredito que toquei naquele objeto imundo. Pike matou Harper e as outras mulheres com ela!

Clarke continuou murmurando por alguns segundos sobre a arma de Pike, mas Lexa não escutava. Seus olhos estavam focados no rosto da mulher. Em seu peito, sabia que passara a amar Clarke, independente do nariz para sempre torto ou da forma em como ela lidava com todos os seus problemas.

Antes que ela pudesse expressar o que sentia em voz alta, uma enfermeira entrou no quarto. Seus olhos arregalaram para Clarke, que ainda tocava em suas feições.

— Senhorita Woods, você deveria ter avisado que a paciente acordara! — a enfermeira disse, elegantemente chocada. — Precisamos chamar um médico para examiná-la imediatamente.

Lexa se levantou, pronta para ir embora. Sabia que estava extrapolando o horário de visitas, e só tinha essa concessão por conta do distintivo que carregava. Ela olhou para Clarke e sentiu seu coração doer um pouco. Enquanto a enfermeira saía do quarto para voltar com um médico, ela beijou a palma da mão de Clarke e sua testa profundamente.

— Acho que só vou vê-la amanhã, então — ela disse. — Provavelmente terei Titus comigo.

— Tudo bem. — Clarke não conseguia esconder o ressentimento na sua voz. — Obrigada por ter me salvado.

— Eu te salvaria melhor se estivesse lá com você.

— Mas você ainda assim me salvou. É isso que importa, Lexa. Deveria saber disso, sendo parte da polícia.

Clarke deu um sorrisinho sarcástico e enfim soltou a mão de Lexa. As duas se encararam por alguns segundos, Lexa sentindo aquele sentimento estranho de antes, aquela vontade esquisita de despejar tudo o que sentia no colo de Clarke, de deixar a mulher saber o que sentia por ela...

Ao virar para encarar Clarke uma última vez antes de sair do quarto, Lexa teve quase certeza de que ela sabia. Ninguém se tornava Vigilante por acaso. Ela abriu um sorriso mínimo e saiu.

***

Clarke imaginou que seu segundo interrogatório seria mais fácil de lidar do que o primeiro, uma vez que era a vítima e não a acusada, mas foi tão cansativo quanto. Lexa não estava presente, como ela prometera no dia anterior. Titus se irritava facilmente com suas repostas sarcásticas às perguntas óbvias e, no fim, ela teve certeza de que o chefe da polícia só não mandou prendê-la de novo por conta do carinho que tinha por Lexa.

Ele foi embora, agradecendo com a cabeça tudo o que Clarke disse. Assim que o homem saiu do quarto, ela sentiu um peso enorme sair de suas costas. Ela escondera sua dor através das piadas, mas a noite em que esfaqueara Pike ainda assombrava seus sonhos. Dormir no quarto do melhor hospital da cidade não fazia nada por sua sanidade mental. Ela queria voltar para sua casa, para o Beco, mesmo sabendo que nada mais voltaria ao normal.

Um pouco depois de Titus ir embora, Lexa entrou no quarto, trajando seu terninho preto tradicional. O coração de Clarke deu cambalhotas dentro do peito. Sentia vontade de levantar-se da cama e abraçar Lexa e enchê-la de beijos. Ainda não contara a Lexa que apenas sobrevivera pela vontade de encontrá-la de novo.

— Por que você não esteve aqui com Titus? — Foi a primeira coisa que ela perguntou para a mulher, embora quisesse falar tantas outras.

Lexa parecia impaciente. Ela ainda não se sentara na cadeira de visitantes do quarto, rodeando a porta de entrada, parecendo ter medo de se aproximar de Clarke. Ela ficou curiosa com o comportamento dela. Nunca a vira se comportar daquela forma.

— Titus sequer mencionou seu nome — disse Clarke, tentando manter uma conversa com Lexa. A detetive parecia não escutar. — Aconteceu algo?

Fuiexoneradadocargo — falou Lexa, tão rápido que Clarke teve que pedir para que ela repetisse a frase. Lexa respirou fundo e, mais calma, disse: — Eu fui exonerada do meu cargo.

Clarke buscou algo na expressão devastada de Lexa que dissesse que era mentira o que acabara de falar. Com muita força de vontade, Clarke sentou-se na cama do hospital e fitou a mulher de boca aberta.

— Mas... mas... — ela tentou formular uma frase, indignada. — Você pegou o Assassino! Pôs um fim em seu reino de terror no Beco! Você deveria ter ganho no mínimo um aumento!

Lexa parou de andar pelo quarto e finalmente sentou-se na cadeira. Ela e Clarke se encararam por alguns segundos.

— Eu não contei ontem, mas... — Lexa respirou fundo e pegou as mãos de Clarke entre as suas — as pessoas meio que descobriram sua identidade. Acredito que tenha ficado óbvio quando eu e os policiais te encontramos na casa de Pike. Ao investigarem a casa, encontraram sua bandana lá.

Clarke soltou um suspiro, decepcionada consigo mesma. Ela sabia que esse dia chegaria, mas não imaginaria que seria tão rápido. Era a Vigilante há quanto tempo? Quase um ano? Tinha sido um ano bom. Um ano cheio de aprendizado e muitos socos no nariz. Era triste que tudo acabaria assim que saísse do hospital.

— Eu sinto muito — disse Lexa alguns minutos depois. Ela ainda segurava as mãos de Clarke.

— Sente pelo que? — questionou Clarke, sendo honesta. — Foi eu a burra que deixou a bandana para trás na hora da luta. Deveria ter prestado atenção.

Clarke soltou-se das mãos de Lexa e esfregou o rosto, sentindo o curativo do seu nariz permanentemente quebrado. A enfermeira tinha mostrado como ela ficaria no dia a dia, e Clarke não sabia o que sentir. Não fazia muita diferença de longe, mas chegar mais perto dela causaria uma espantosa primeira impressão.

Mesmo se sua identidade não tivesse sido descoberta, ela teria que desistir das lutas e das noites acordadas como Vigilante. Por baixo da bandana, seu nariz retorcido seria facilmente reconhecido, para não mencionar seu crânio afundado na parte de trás do seu couro cabeludo. Clarke tinha que admitir: seus dias de luta tinham acabado.

— Mas o que descobrir sobre a Vigilante tem a ver com seu emprego? — ela questionou a Lexa.

— O prefeito viu com maus olhos nossa... hm... relação. — As bochechas de Lexa atingiram um tom leve de rosa. — Titus tentou convencê-lo de que sou uma boa detetive apesar de tudo, mas nada adiantou. A exoneração saiu no diário da prefeitura hoje. Uma pequena nota foi enviada a imprensa. Tenho que fingir que estou saindo por boa vontade, “para me encontrar em novos lugares”.

— Filho da puta — Clarke xingou entredentes.

— É, nem me fale. Mas eu andei pensando. Não preciso parar de trabalhar. Nem você precisa parar de ser a Vigilante.

O rosto de Lexa brilhava de emoção. Clarke não entendeu o que a mulher quis dizer.

— Podemos abrir nossa própria agência de investigação — disse Lexa. Ela sorria para uma Clarke confusa. — Temos experiência na área. Não vai ser difícil encontrar casos para resolver. Casos esquecidos pela polícia.

Lexa deu alguns minutos para que Clarke pudesse absorver sua ideia. Ela se recostou na cama do hospital, refletindo. Vivera na clandestinidade por tanto tempo que não sabia mais como o mundo normal funcionava. O mundo de Lexa. Sendo honesta consigo mesma, estava mais do que na hora de iniciar uma nova fase na sua vida.

— Nós podemos começar pequeno, atendendo as pessoas na lanchonete da Anya — sugeriu Lexa, depois que ela viu que Clarke não faria objeções à ideia. — Se der certo, a gente aluga um lugar próprio. Nosso escritório. E...

Clarke lançou um olhar curioso à Lexa. A detetive raramente hesitava. As mãos de Lexa se contorceram no seu colo e ela parecia vivamente interessada nas cortinas do quarto.

— Você poderia morar comigo. — O rosto de Lexa ficou tão vermelho como o sangue que Clarke costumava tirar de seus oponentes. — Sabe, enquanto a gente faz isso. Eu sei que você gosta de morar no Beco com seus amigos, mas... — Lexa puxou uma quantidade grande de ar em um suspiro e voltou a olhar para Clarke, dessa vez mais confiante. — Clarke, você é bem maior que aquele lugar.

Foi a vez de Clarke ficar com o rosto rosado de vergonha. Ela nunca tinha escutado alguém falar dela assim antes. Claro, Octavia e Raven a apoiavam tudo o que ela fazia, mas ouvir aquelas palavras de Lexa... tinha um gosto diferente. A mulher percebeu a sinceridade no tom de Lexa e sorriu francamente a ela.

— É uma ideia — disse Clarke, por fim. — Combatentes do crime durante o dia e colegas de quarto à noite? Eu ficaria lisonjeada de dividir isso com você.

Pela segunda vez em menos de 24 horas, a enfermeira responsável por Clarke as interrompeu. Ela ralhou com Lexa por ficar tanto tempo no quarto de alguém que acabara de acordar de um coma, mas Clarke não se importava. Ela ficou surpresa quando Lexa roubou um beijo seu enquanto a enfermeira arrumava algo no banheiro. Achou engraçado quando Lexa foi enxotada do seu quarto, dando um aceno alegre antes de sair.

Clarke pensou na oferta de Lexa. Sair do Beco, trabalhar legalmente... era demais para uma órfã que se apoiara metade da vida adulta em um assassino em série. Nunca imaginara que alguém como Lexa — bonita, inteligente, organizada, perfeita em todos os sentidos possíveis — pudesse acontecer com ela.

Murmurando apenas “sim” ou “não” às perguntas rotineiras da enfermeira, Clarke deixou sua imaginação viajar com as novas possibilidades do seu futuro ao lado da mulher que amava.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.