Where are you?
1 Fios
Notas iniciais
Eu poderia ter sido o primeiro ser humano da terra. Poderia ter roubado um dos anéis de Saturno. Poderia ter sido comido por um tubarão. Poderia ter me tornado o presidente dos Estados Unidos. Poderia ter ganhado o Prêmio Nobel, ou ter naufragado em uma ilha deserta. Mas o meu milagre foi bem diferente do que o planejado. Vou lhes contar qual foi o meu milagre: de todas as casas existentes nos Estados Unidos, eu era o vizinho de Violetta Castillo.
No bairro onde morávamos, simplesmente estava repleto de assaltos. Todo dia, pelo menos uma casa era vitima desses assaltos. Até que meus pais e os de Violetta, decidiram se mudar para casas vizinhas, em um outro bairro. Violetta e eu tínhamos somente cinco anos.
Logo Violetta e eu já tínhamos uns dez anos. Nossas mães eram muito amigas, e por isso, sempre nos encontrávamos para brincar em um parque no centro da cidade.
Sempre que descobria que minha mãe iria se encontrar com a mãe de Violetta, ficava bem nervoso. Até porque, ela era a coisinha mais linda que Deus criou na face desta terra. Ela estava com aqueles seus cabelos castanhos em cachos perfeitos soltos, uma calça legue azul, um casaco lilás, e uma camiseta com a estampa de bolinhas cor-de-rosa, cheias de glitter e tudo mais.
O dia estava frio como sempre. Um frio de uns 13 graus. A avistei pedalando em minha direção, com sua bicicleta de uma das princesas da Disney. Com aquele sorriso no rosto, que matava qualquer um que a visse. Pelo menos comigo era assim.
Eu estava com o meu mapa, do nosso esconderijo, se é que podemos dizer assim. Na verdade, era apenas uma cabana, que estava abandonada no meio do parque. Mas mesmo assim, era o nosso esconderijo.
— León. — chamou Violetta, num sussurro tão baixo, que quase nem a ouvi.
— Sim? — Andei em sua direção.
Ela estava olhando para um corpo. Sim um corpo. Era um homem. Sua cabeça sangrava, e em sua mão havia uma arma. Moscas voavam ao redor do homem a nossa frente. Sua boca estava incrivelmente aberta. O que era estranho.
— Ele deve estar morto — disse ela. Ele não deve estar morto, e sim estar morto. O que é bem diferente.
Andei para trás. Eu estava assustado. Acabei batendo em uma árvore, fazendo um estrondo. Mesmo assim, ela não mexeu um musculo, ficou olhando para o corpo caído no chão, nem sequer piscou os olhos.
No instante que me virei para olhar se vinha alguém, Violetta deu três passos, assim como eu, só que para frente.
— Ele parece estar vivo — disse ela, o olhando fixamente.
— Precisamosvoltarparacasa.
— Achei que ele estava morto. Mas bem, ele pode estar morto. Não sei ao certo.
— Violetta. — falei com calma. — Vamos, antes que nos vejam. — Ela ignorava tudo o que eu dizia.
— Ele deve ter se matado — falou olhando para a arma na mão do homem.
Eu queria sair correndo dali imediatamente. Porém não poderia. Violetta estava ali. Não a deixaria sozinho, e não a deixaria pensar que eu não era corajoso. Mas bem, eu não era.
Tomei coragem, e caminhei em direção dela. Olhei o homem deitado no chão. Um olho aberto e o outro fechado. Parecia que ele estava nos vigiando. Parecia que realmente estava vivo. Sangue escorrendo por varias partes de seu corpo. Aquilo me dava um frio na barriga.
— Violetta, temos que ir agora!
— Ok.
Escondemos nossa cabana entres os arbustos grossos que aviam ali. E voltamos até o centro do parque. Uns caras, que pareciam policiais, passaram do nosso lado, indo pelo caminho que traçamos. O caminho da cabana. O caminho do cara morto.
O problema é que, Violetta me fez prometer, prometer que eu não contaria nada do que vimos no parque para ninguém. E promessa de dedinho nunca pode ser descumprida. Pelo menos foi o que ela disse. E eu acreditei.
Chegamos em nossas casas. Meus pais logo me perguntaram o porque da demora. Acabei inventando uma desculpa. A desculpa de sempre. Eu e Violetta acabamos perdendo a hora. E meu pai, acabava sempre acreditando, o que era bom. Mas minha mãe não. Não abri o jogo com ela, até porque prometi a Violetta que esse seria um segredo nosso, e como diz o ditado, promessa é divida.
Corri para meu quarto e me joguei na cama. Pude ver Violetta pela janela esquerda do meu quarto. Ela estava limpando seu short, que estava sujo de sangue. O sangue do cara morto. Então, acabei adormecendo.
Acordei e a situação de minha colega de brincadeiras e eu, ter encontrado um cara morto, com a bocona aberta, perto da nossa cabana secreta era demais para mim. Não conseguia manter segredo. Eu já estava ficando meio biruta. Sei que as pessoas costumam sempre ver pessoas mortas todo dia, principalmente as que trabalham em laboratórios, mas e daí? Eu não sou elas. Mas o problema, é que se eu pirasse toda vez que visse alto do gênero, iria acabar morrendo de tanta preocupação.
Desci as escadas para jantar. A mesa estava feita. Meu pai era um dos melhores cozinheiros daquela cidade. A comida estava maravilhosa, eu estava acostumado com isso.
Escovei os dentes e fui direto para cama, eu estava muito cansado, e minha mente estava pesada por eu não ter contado nada aos meus pais. Me cobri e me virei de lado. Vi Violetta Castillo parada olhando para mim. Ela foi até sua escrivaninha branca, pegou um caderno cheio de desenhos de corações rosas e voltou a janela.
— Nesse meio tempo fiz umas anotações e gostaria que você ouvisse — falou ela, colocando a tampa da caneta preta na boca.
Concordei com ela. Ela estava muito seria. Violetta olhou para o caderninho em suas mãos, escolheu uma pagina cheia de rabiscos e começou a ler.
— Hoje de tarde voltei para o parque, e a Sra. Jackie, lá da nossa escola estava lá e disse que o nome do homem era Anderson Likeivin. Ela também disse que ele morava na rua de cima, e que era seu vizinho. E sabe aqueles policiais que passaram por nós? Então eles também estavam lá. Perguntaram o que eu fazia ali, e disse a eles que eu precisava fazer algumas perguntas, eles ainda perguntaram se eu era jornalista, mas León, pense comigo, por que uma garotinha como eu de dez anos seria jornalista? Mas enfim, ele me contou que o homem morto, tinha vinte e dois anos de idade, e era casado. E ele também se matou com aquela arma que vimos na mão dele. Além da doença que ele tinha, que eu não faço ideia de qual era, ele ainda foi deixado pela mulher e pelos dois filhos, por isso decidiu se matar. Perguntei o motivo dela tê-lo deixado, mas ele se negou a dizer o porque. Talvez nem soubesse o motivo.
Ela continuou olhando para mim, como se precisasse falar mais alguma coisa. Seus olhos redondos e castanhos ficavam me olhando com uma expressão estranha.
— Que trágico. — disse. — Muitas pessoas são deixadas pelos familiares, mas não se matam por esse motivo.
— É. — falou ela empolgada. — Foi isso que eu pensei, mas ai o policial disse que... — E virou as paginas do caderno — Ele também sofria de transtornos mentais. Perguntei o que era isso, mas ele disse que agora só deveríamos orar por ele. Ai eu disse tchau, e voltei pra casa.
Fiquei em silêncio, a esperando continuar, mas ela não continuou, só guardou o caderninho, e voltou para a janela.
— Acho que sei o que queria dizer.
— Oque? — perguntei.
— Amanhã continuamos a nossa conversa.
Pensei que ela me daria boa noite, apagaria a luz do seu quarto, deitaria na sua cama e dormiria, mas não, ela só ficou ali me olhando. Sorri e disse “boa noite” a ela. Mas ela não disse nada afinal. Suspirou e acenou para mim, fechou sua janela e apagou as luzes.
Violetta sempre gostou de mistérios, acabei pensando, que ela gostava tanto de mistérios que um dia acabaria sendo um deles.
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