Where Is The Edge

4 I Hate Everything About You


Notas iniciais
Hey, gente! Esse capítulo tem novas informações sobre a vida da Lyric, apesar de ser meio parado. Aproveitem!

– E então, o que foi isso? – William perguntou enquanto andávamos ainda por aquela rua. Devíamos estar voltando para o hotel, ou assim eu supunha – não prestava atenção no caminho, pois ainda tentava entender o que havia acabado de acontecer. Minha alma ainda pulsava rápido, como se eu revivesse aquele ataque.

– Eu é que pergunto – retruquei. Já estava sem paciência para o jeito que ele tinha de extrair todas as informações de mim. Caramba, eu ia ter que ficar junto dele pela eternidade. Será que não podia nem me dar um desconto?

Vários minutos se passaram sem que nenhum de nós dissesse uma palavra. Continuávamos caminhando, e em dado momento chegamos ao hotel. Entramos no saguão e nos dirigimos ao elevador. William abriu a porta do quarto para que eu entrasse e logo depois a trancou, também se encostando nela, ainda de pé. Cruzei os braços, sem me mexer.

– Você sabe lutar, é isso? – perguntou em tom neutro.

– Que tipo de pergunta é essa? – eu não estava irritada, apenas um pouco abalada pela minha mais nova experiência de quase morte. Ele estivera perto de mim por toda minha vida, nem precisava estar perguntando aquilo. – É claro que não sei. O Athanasios me atacou e tocou em alguma coisa dentro da minha alma, e então eu agi por instinto. Pelo menos é o que acho.


Ele piscou uma vez, parecia satisfeito com a resposta. Olhei pela janela, me distraindo. Parecia bem mais tarde agora. Era bom saber que eu ainda tinha algumas necessidades humanas, como dormir. Aliás, era bem provável que essa fosse a única. Sem ligar para mais nada, nem para o demônio à minha frente, subi na cama e me deitei, puxando o cobertor até a cabeça.


A escuridão me deu as boas-vindas quando acordei. Claro, ele havia feito com que eu voltasse para dentro de seu corpo, de algum modo que eu desconhecia. Eu me sentei, ainda sonolenta, já ouvindo o tilintar das correntes, e dessa vez conseguia sentir o aperto em cada parte presa.


Suspirei, sabendo que não adiantaria reclamar – estava me acostumando com aquilo. Quando você descobre que vai ficar dentro do corpo de um imortal pela eternidade – embora você não tenha a mínima noção de quanto vai durar – nada mais te surpreende. ‘’Por que estou sentindo as correntes agora?’’ perguntei em voz alta, eu sabia que iria ser ouvida. No entanto, não houve resposta. ‘’Olá?’’ tentei de novo, apenas para ser ignorada.


Bufei, cruzando os braços. ‘’Escuta aqui, William! A adolescente sou eu! Me ignorar é muito infantil da sua parte, não era você que estava ansioso para que o contrato se cumprisse? Agora vai ter que me aguentar pra sempre’’. Ainda assim não tive resposta. Agarrei meus cabelos. Depois de tudo que passei eu tinha o direito de ficar estressada, certo?


Eu devia ter ficado dormindo, concluí, com amargura. Foi então que apareceu uma luz ao meu lado, do nada. Apareceu um rosto humano, de uma garota que parecia uns três ou quatro anos mais velha que eu. Devia ser uma das outras seis almas. Mas se ela havia sido destruída, o que estava fazendo aqui?


Logo vi que se formava um corpo ao meu lado! De fato, uma garota mais alta do que eu estava ali. Ela era ruiva e tinha olhos verdes, e senti um nó na garganta ao perceber que era parecida com minha irmã, Ashley. A garota estava presa de um modo muito pior, completamente imobilizada, deitada. Reparei que só conseguia mexer a cabeça. Eu, por outro lado, tinha até certa liberdade de movimentos, conseguia sentar e deitar, por exemplo.


‘’Quem é você?’’ perguntei curiosa. ‘’O William devorou uma alma nova?’’ era engraçado perguntar aquilo, como quem pergunta se há um aluno novo na escola. Bem, para mim estava se tornando quase... normal. ‘’N-não lembro m-meu nome, mas m-me chame de... Lauren.’’, respondeu a garota de voz arrastada, era como se ela estivesse aprendendo a falar. ‘’V-v... você é a... –alma mais... nova’’, falou com dificuldade e muito devagar. Era difícil entendê-la, como se estivesse falando uma língua estrangeira.


Pisquei algumas vezes, confusa, olhando para a garota. Se já estava aqui há um tempo, então ela havia sido destruída; ou William mentira para mim, o que era algo bem possível. Antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa — agora um pouco curiosa — Lauren gritou e seus olhos se reviraram, mas as amarras não permitiram que ela se movesse, como já era de se esperar. Fiquei paralisada, esperando que voltasse ao normal. Ao cabo de alguns segundos — que para mim pareceram horas -, o que quer que tivesse atingido Lauren pareceu ir parando, até que ela pôde me fitar. Parecia bem agora, tanto que desembestou a falar daquele jeito devagar e contido.


‘’L-l-yric...’’ perguntei-me como ela sabia meu nome, ‘’eu fui... destruída... mas... consegui f-f-fazer contato com v-v-você.’’ Parou para respirar e percebi que falar algumas frases a deixava cansada. ‘’F-fique longe de William, não... acredite nele. T-tem coisas que ele... não te contou... um destino... cruel... te espera.’’


Mordi os lábios e minha alma pulsou uma vez, o que me preocupou. Olhei Lauren, e então respondi. ‘’Não deve haver coisas muito piores do que isso. E quero saber como você conseguiu vir aqui, achei que William controlasse... as almas destruídas. Como veio parar aqui, afinal?’’


‘’S-sim, e-ele controla...’’ Lauren tremia toda vez que mencionava o demônio. Bem, acho que eu também teria medo dele se ele tivesse destruído minha essência. ‘’N-não me lembro, t-todas as memórias... s-se foram... dói muito.’’, ela se referia à ter a alma despedaçada. Estremeci ao lembrar que chegara bem perto disso há poucas horas, mas não fazia ideia de como era o depois. Pensar nisso já me amedrontava. ‘’E-e-ele... ainda não percebeu... que... vim aqui, mas... tome cuidado’’. Lauren parou para tomar fôlego novamente após essa declaração. Notei que não havia motivos para não confiar nela, já que minha antiga vida acabara há muito, e tudo o que tinha a perder agora era eu mesma.


Uma pulsação muito forte de minha alma me fez perceber o quanto Lauren estava se arriscando ao vir falar comigo. Eu nem podia imaginar o que aconteceria com ela quando o garoto descobrisse. ‘’Lauren! Obrigada, vou seguir seus conselhos, mas você tem que voltar agora!’’. A garota olhou no fundo de meus olhos e vi que se para ela era difícil até mesmo falar, devia ser inimaginável o esforço que fazia ao me dar um meio sorriso de compaixão.


Senti lágrimas caindo aos montes de meus olhos, e não me importei em limpá-las. Até nessa nova vida eu era afortunada, por não haver sido despedaçada como ela. Desejei com todas as minhas forças que pudesse ajudar a ela e às outras almas, ou então para que isso fosse um pesadelo e eu acordasse em minha cama em Orlando, com meus pais vivos novamente e Drake ao meu lado.


Um barulho igual ao de um trovão me assustou, e tampei os ouvidos com as mãos. Lauren gritou, o terror dominava suas feições agora. O estrondo veio novamente, bem mais forte, junto com a voz de William. ‘’LAUREN!’’ foi a única coisa que vociferou, e no mesmo minuto a garota desapareceu, ainda gritando de dor.

Continuei a chorar em silêncio, e senti um calafrio ao notar que a presença de William ainda não tinha sumido. O que provava que ele não viera só para buscar a garota. ‘’Posso saber por que você estava fazendo contato com uma das minhas almas?’’. Sua voz ainda estava furiosa, e parecia prestes a perder a paciência.


‘’Eu não devo satisfações a você. ’’, retruquei tranquila. Ele não insistiu, só disse que tinha ouvido uma parte de nossa conversa e que eu não ousasse contatar ninguém. Me deixou sozinha assim que terminou de falar, e dei de ombros. Se eu nem sabia onde essas almas estavam, é claro que não falaria com elas.


Não consegui dormir. Estava preocupada com Lauren e com o que ela me contara. A julgar pelo modo como disse que um destino terrível me aguardava, não havia nada que pudesse ser feito para impedir. Por isso fiquei pensando em Drake – de algum modo era reconfortante vê-lo em minhas memórias. Já mais tranquila, aos poucos fui me rendendo ao cansaço e finalmente adormeci sentada.


Notas finais
Espero que tenham gostado. O próximo já está praticamente pronto :D
beijos