Where Is The Edge
5 See Who I Am
Notas iniciais
Drake suspirou.
Ele estava de volta a Orlando, na antiga casa de Lyric Angel, e andava de um lado para o outro no quarto dela, tentando entender o que acontecera para o corpo dela ainda estar vivo, mesmo depois de a alma ter sido retirada. É claro que ele havia trazido o corpo dela consigo — que William lhe entregara há algumas semanas, — do longínquo Canadá. William havia dito que esse era o último desejo da garota.
Por isso, voltou imediatamente a Orlando e deixou o corpo da garota sobre a cama dela, sem querer enterrá-lo enquanto ainda estivesse vivo. Normalmente o corpo já devia ter morrido, mas passado quase um mês nada havia acontecido, o que deixava Drake preocupado, pois ele não sabia o que fazer, estava de mãos atadas.
Sentou no chão e Lunick, o gato preto de Lyric, se aconchegou em seu colo, como se quisesse consolá-lo. O baú com a armadura e a espada estava a seu lado, aberto, pronto para ser usado.
Será que algum dia ele veria Lyric novamente?
***
Lauren foi a primeira pessoa que apareceu em minha mente quando acordei. Eu queria entender o que tinha acontecido a ela para que tivesse sido destruída – qual era seu passado – e o motivo de William não me deixar falar com ela. Ela tinha dito que um destino terrível me aguardava. Se isso era verdade, porque ele nunca tinha dito nada?
A solidão estava me deixando agoniada. Precisava falar com alguém sobre tudo isso, precisava de alguém ao meu lado, já que Lauren havia sido afastada de mim e era impossível voltar aos meus amigos. Desse modo, minha única opção era Drake. Ignorando o fato de que não fazia a menor ideia de onde ele estava, pensei nele com todas as forças, até enxergá-lo em minha mente.
Concentrei minha energia nesse pensamento, eu precisava saber se ele estava bem. E então, como num sonho, eu o vi em meu antigo quarto. Meu corpo estava sobre a cama e ele estava sentado no chão com Lunick em seu colo. Estranhei o fato de meu corpo não ter sido enterrado – afinal, porque Drake guardaria um cadáver?
Senti uma imensa alegria e saudade, mas também tristeza ao lembrar que nunca mais os veria. Se ainda tivesse uma chance, iria ficar com eles. Eu sabia que estava chorando por dentro. A imagem de Drake e Lunick em minha casa parecia nítida, até que algo pareceu errado.
Drake levantou – Lunick se afastou — e correu até meu corpo, murmurando meu nome. Pegou um lenço e limpou alguma coisa que escorria dos olhos fechados. Sangue, como pude ver quando ele colocou o pano de lado, e o sangramento não parava. Se meu corpo estava ‘’chorando’’, então isso significava que ele estava vivo!
Então entendi porque Drake não o havia enterrado. Meu corpo humano estava vivo, por algum motivo! A tristeza subitamente deu lugar à esperança e porque não, alegria.
A atmosfera mudou ao meu redor. A primeira coisa que notei foram as cores, principalmente a luz do sol que entrava pela janela aberta. Isso significava que eu não estava mais no corpo de William. Era como se estivesse despertando de um longo sono. A luz forte machucou meus olhos, mas não me importei. Estava no canto do quarto, sentada, abraçada aos joelhos e encostada em uma das paredes.
Drake estava de costas para mim, cuidando de meu corpo. Obviamente ainda não havia notado minha presença. Levantei e olhei para meu braço; eu estava etérea e transparente como da última vez que saí do corpo de William.
Um miado me fez baixar os olhos para Lunick. Ele me olhava curioso, com a cabeça virada para um lado. Abaixei-me até ficar bem perto dele e estendi a mão, hesitante. Will dissera que apenas criaturas como ele poderiam me ver. Se Lunick tinha me notado, então isso queria dizer que ele era também uma criatura sobrenatural – a resposta veio no momento seguinte, quando o gato se aproximou e esfregou a cabeça em minha mão estendida, ronronando.
– Lunick! – balbuciei, ainda transtornada, e algo que poderia ser choro turvava minha visão. Eu o peguei no colo, sem poder acreditar. Eu havia, de fato, saído do corpo de William. Toda aquela comoção fez com que Drake se virasse, e assim que nossos olhos se encontraram – os dele também estavam marejados – eu me levantei, fazendo com que Lunick saísse, e nos atiramos nos braços um do outro. Ele segurou meu rosto nas mãos por um momento, como se quisesse provar que eu era real e estava ali.
Começamos a rir feito bobos no momento seguinte, sem acreditar que aquele reencontro estava acontecendo. Então iniciamos um beijo apaixonado e intenso, na verdade, com tal intensidade que quando notei, nossas roupas estavam muito amassadas e eu me encontrava em cima de Drake. Ri no começo e logo fiquei um pouco sem-graça – Drake parecia sentir algo parecido. Sentamos no chão, encostados em minha antiga cama, para recuperarmos o fôlego.
– Hum... então – puxei assunto, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha – me conte o que aconteceu durante todo esse tempo que eu estive fora. Por que o meu corpo está aqui? E o que é esse baú enorme? – eu não tinha deixado de notar o grande baú que estava ao meu lado, fechado.
Drake fez um gesto com as mãos para eu me acalmar antes de começar a responder. – Uma coisa de cada vez, Lyric. Não aconteceu nada de novo comigo desde que você foi levada pelo William. O seu corpo, bem, eu ia enterrá-lo logo depois que William me entregou, mas veja uma coisa – ele se levantou e me puxou gentilmente pela mão, em direção à cama, onde meu corpo se encontrava. Aproveitei para ver se estava muito debilitado. Os olhos estavam fechados, como se estivesse dormindo, e a pele tinha uma coloração muito pálida, como se o sangue tivesse parado de correr nas veias. Mas o que me surpreendeu mesmo foi o fato de estar respirando!
– Isso é impossível! – exclamei, chegando ao ponto de encostar minha cabeça na região do colo, para confirmar se havia batimentos cardíacos. E qual não foi a minha surpresa quando eles vieram, num ritmo bem lento. – Meu... meu corpo não pode, não deveria estar vivo! William arrancou a minha alma, me arrancou! Como um corpo pode viver sem alma? Deveria ser uma concha vazia – gesticulei e balancei a cabeça.
Drake passou um braço por meus ombros e suspirou. – Pois é, eu venho tentando entender isso desde que você se foi. Quando recebi o seu corpo, ele ainda respirava – eu esperava que morresse dentro de algumas horas ou dias. Mas as semanas se passaram e ele continua do mesmo jeito, como se esperasse você para acordar. Os humanos provavelmente diriam que ele está em estado vegetativo, mas isso não se resume a um problema médico. Nunca vi nada parecido.
– Mas Drake, como meu corpo pode estar esperando eu entrar nele para supostamente acordar, se William acabou com esse laço? Ele deixou bem claro que não tenho mais nada a ver com meu corpo, e a dor que eu senti quando ele se alimentava também é uma prova.
– Bem... talvez a gente descubra daqui a algum tempo. Eu não sabia o que ia fazer quando vi que seu corpo não morria, então achei melhor não enterrá-lo. De qualquer modo – o anjo mudou de assunto, se afastando do meu corpo e voltando a sentar no chão – como você fez pra escapar?
Assenti, aprovando a atitude dele, e voltei ao seu lado, encostando minha cabeça em seu ombro. Então fiquei pensativa, tentando entender como tinha chegado ali. Eu apenas visualizara Drake e Lunick com toda a minha força, mas nunca imaginara que aquele era um meio de escapar. – Na verdade, eu não escapei, pelo menos acho que não... nem tenho ideia de como aconteceu, só pensei em você e em Lunick, desejando saber se vocês estavam bem, e quando vi, tinha chegado aqui. Ainda devo estar presa a William. Eu devo ter adquirido uma espécie de poder desde que fui separada de meu corpo.
Drake se mostrou muito interessado no que eu tinha a dizer, principalmente na última frase, então decidi contar-lhe tudo o que acontecido desde que nos separáramos há tanto tempo. Não deixei nada de fora – falei do submundo ao qual William me levara, Athanasios e nossos encontros desastrosos, inclusive minha mais recente experiência de quase morte, onde eu tinha revelado um poder oculto. Falei sobre como Will era gentil de vez em quando e também cruel e dissimulado na maioria das vezes, já que eu não entendia sua mudança repentina de comportamento. No entanto, o que mais me intrigava era Lauren (bem como as outras almas) e o modo como eu tinha me defendido de Athanasios quando ele quase me devorou de verdade.
– Bom, eu não posso dizer nada sobre essa garota que você conheceu, porque ninguém que foi devorado por um demônio sobreviveu para contar a história, então não sei como ela fez isso nem o que pode significar – ele piscou para mim ao dizer que ninguém na minha situação tinha sobrevivido para contar a história – mas se ela previu um destino terrível, você deve ficar atenta. Quanto a William, ele não seria um demônio se entendêssemos quem ele realmente é. – Ri um pouco com essa afirmação. Até nos piores momentos Drake conseguia me animar. – Pelo menos eu posso te ajudar com esse... poder que você descobriu.
– Mesmo? O que você sabe sobre isso?
– Já ouvi falar de almas que descobriram poderes ocultos depois de terem sido separadas de seus corpos. Porém, só as almas mais puras possuem esse tipo de poder. E quanto mais pura for a alma, mais forte ela é. – Lembrei-me de quando Athanasios me disse que minha alma era realmente pura, o que me tornava muito atraente para seres como ele. Fazia sentido agora. – E como você é muito pura, isso te dá vantagem em relação aos demônios. Talvez você até possa matá-los se souber usar esse poder. Isso é tudo que sei.
Ouvir aquilo me deu esperança, algo que eu não sentia há realmente muito tempo. Esperança, pois agora eu tinha alguma chance contra William, Athanasios e todos os outros demônios. Disse isso a Drake e vi que ele sentia o mesmo que eu. Quem sabe podíamos dar um jeito de ficar juntos novamente, e dessa vez em definitivo?
– Muito bem – anunciei, pronta para fazer uma pergunta – me conte sobre esse baú aqui ao meu lado. Você esteve se esquivando para falar dele desde que nos encontramos.
– Você não perde uma, não é? – Drake replicou, divertido, mas eu podia ver uma sombra de receio em seus olhos azuis. Ele começou a mexer as mãos, nervoso. – Eu realmente não devia contar-lhe isso, mas sei que você não vai sossegar até satisfazer sua curiosidade. E é uma longa história, porém, para encurtá-la vou dizer que eu era um anjo guerreiro, eras atrás. – Comecei a arregalar os olhos enquanto ele explicava. De fato, eu não sabia nada sobre o passado de meu namorado, só que ele viera do Alabama. E talvez nem isso fosse verdade. Eu compreendia, é claro. – Veja, eu usava essa armadura e Snovek, a espada, para exterminar criaturas como William e até outras piores. Só que esse trabalho também fazia com que eu e os outros guerreiros acabássemos ceifando vidas humanas, muitas vezes de inocentes, porque essas criaturas são ótimas em se esconder. Muitas vezes possuíam humanos ou se transfiguravam em um, e não tínhamos opção a não ser matar esses inocentes para atingir os demônios. Você não conseguiria imaginar quantas vidas Snovek já tirou – disse, segurando a grande espada dourada, embainhada, nas mãos – eu mesmo já perdi a conta.
Um dia decidi que estava cansado de ser uma máquina de matar. Então abri mão de meus poderes como guerreiro, o que me deixou incrivelmente mais fraco, e então assumi a forma humana que tenho agora. É por isso que muitas vezes não consigo, ou não conseguia, fazer frente a William quando ele te ameaçava. Porém, guardei Snovek e a armadura durante todos esses anos, no Alabama, e agora sinto que chegou a hora de usá-las novamente. Lyric, vou protegê-la e farei o meu melhor para libertá-la desse martírio. – Drake pôs a espada no chão e beijou minha testa ao terminar de falar.
– Drake, eu estou sem palavras. Não sei o que dizer. O que você está fazendo por mim... entende, nunca ninguém se arriscou tanto por mim. Só consigo imaginar você e a minha irmã, Ashley, fazendo isso. Cada vez eu tenho mais certeza de meu amor por você. – Drake sorriu com minha revelação e me olhou com uma ternura que eu nunca vira naqueles olhos claros. Ele não precisava dizer nada; eu sabia que ele sentia o mesmo.
Antes que pudéssemos fazer qualquer coisa, ouvimos Lunick sibilar, começando a rosnar no momento seguinte. Seus pelos se eriçaram – eu nunca o tinha visto tão bravo. Era óbvio que ele tinha sentido algo estranho. Atentos ao aviso de Lunick, eu e Drake levantamos, ainda abraçados. Ele pegou a espada – Snovek – com um movimento rápido e a desembainhou, deixando-a pronta para o combate. Eu nunca tinha visto uma espada tão de perto. Não conseguia ver todos os detalhes, só via que era branca e dourada e que runas estavam gravadas na lâmina, além de uma safira enorme no punho.
E de fato, alguém bateu na porta. Não era uma batida qualquer, e sim um murro. As batidas foram aumentando de intensidade, o que fez Drake me colocar atrás de si de modo protetor, esticando os braços na minha frente. Fiquei impressionada, ele raramente fazia isso. Pouco tempo depois, a porta foi arrancada das dobradiças e jogada para longe no corredor com um estrondo, revelando um William furioso. Eu nunca vira tamanho ódio em seus olhos. Eu não o temia mais, porém confesso que fiquei receosa quando ele me fulminou com seu olhar.
– LYRIC ANGEL! – sua voz trovejou, tanto que cheguei a cobrir as orelhas com as mãos. Subitamente entendi como ele entrara: agora que eu não morava mais em minha antiga casa, ele não precisava mais ser convidado, podia entrar e sair quando quisesse. – VENHA AGORA E TALVEZ EU NÃO A DESTRUA!
Como eu não me mexesse, William partiu para cima de nós de imediato. No entanto, ele não contava com Drake, que o agarrou e imobilizou com uma rapidez incrível, suspendendo-o pelo pescoço com uma mão e apontando Snovek para seu peito com a outra mão. William pareceu surpreso com a atitude de Drake, o que nos deu alguns segundos de vantagem.
– Lyric, agora! – Drake gritou, como se tivéssemos alguma espécie de plano. Não tínhamos, por isso tive que improvisar, e só consegui pensar em meu corpo deitado na cama. Pulei na cama e me deitei sobre ele, esperando que tivesse algum efeito. Por algum milagre eu poderia acordar como humana novamente.
Minhas esperanças evaporaram em seguida. Foi como mergulhar em água gelada. Eu permanecia deitada sobre meu corpo, sem sentir nada, nenhuma ligação ou laço – como se nunca tivéssemos existido como um só. Fiquei olhando bestificada para meu próprio corpo, que respirava e fazia tudo por conta própria, ‘’recusando’’ minha alma dentro de si. Eu já suspeitava que poderia não dar certo, mas não imaginava que seria desse jeito, tal qual uma rejeição.
– Então esse era o plano idiota de vocês? Poupe-me, Lyric Angel, pensei que você fosse mais inteligente do que isso. – Drake apertou a garganta de William como resposta. Ele tossiu um pouco, mas pareceu não se importar muito. – Hilário, na verdade. Eu cortei tudo que a ligava a seu corpo. Você nunca vai poder voltar, nem mesmo se eu permitisse.
Essa revelação me atingiu como um tapa na cara. Drake não se surpreendeu, era quase como se esperasse por aquilo. – Ora Drake, não me importo se você me acertar com essa espada. Acha que não conheço seu passado? Acha que eu não sei que Snovek não é mais capaz de realizar os mesmos fatos memoráveis de tanto tempo atrás? E mesmo que ela seja, você abdicou de sua posição de guerreiro... mesmo que volte, nunca vai ser como da primeira vez.
Agora era Drake que parecia ter sido esbofeteado. William estava fazendo o que sabia fazer de melhor: dissimular e enganar as pessoas. Devo admitir que funcionou: Will se aproveitou da distração de Drake, se libertando e o jogando para trás. Drake continuou a me proteger enquanto Will tentava achar um modo de me alcançar.
Senti minha alma pulsar pela primeira vez desde que saíra de dentro do corpo dele, e a pulsação fez com que a luz branca viesse pela segunda vez, ficando em volta de minha alma e em cada centímetro dela. Pude sentir aquele poder oculto nas mãos, como se fosse uma bola de energia ou algo do tipo. Não pensei duas vezes antes de me defender.
– Não se aproxime de nós! – ameacei, mostrando a aura intensa que irradiava de minha alma. Drake apontou a espada para William novamente, como se concordasse.
– Vocês querem mesmo lutar comigo, não é? Não se arrependam depois. – Droga, eu não fazia ideia de como controlar meu novo poder. Tentei mexer os braços para ver se acontecia alguma coisa, e o resultado foi que lancei uma esfera de aura branca na direção de William; a luz era tão forte que poderia ter cegado um humano. Drake cobriu os olhos na dobra do outro braço – parecia que a intensidade da luz só não afetava a mim – enquanto William era jogado longe, no que pareceu uma pequena explosão. De fato, ouvi um barulho de estourar os tímpanos quando ele foi arremessado, atravessando duas paredes.
‘’VOCÊ VAI PAGAR POR ISSO!’’ ouvi sua voz de longe. Então me surpreendi quando Will apareceu por trás de mim, me agarrou e me prendeu. Meu poder desapareceu assim que ele encostou em mim. Xinguei e me debati violentamente, e Drake aproveitou a oportunidade para perfurar William com a espada, no entanto ele só conseguiu acertar seu ombro. William gritou com a dor e tirou Snovek de imediato, jogando-a do outro lado do quarto. Fiquei surpresa ao ver sangue negro jorrando do ferimento, lavando o chão. Tentei recuperar meu poder, mas foi em vão. Will conseguiu me manter perto de si com um braço enquanto segurava o ombro ferido com o outro.
Drake mergulhou para pegar Snovek novamente, e logo já estava tentando acertar o demônio, enquanto eu ainda me debatia. Teria dado certo se William – depois de resmungar algo sobre ter que fechar o ferimento – não tivesse se inclinado para encostar seus lábios nos meus com truculência. Estávamos tão próximos e foi tão rápido que não pudemos fazer nada. Aquele mero roçar de lábios trouxe de volta a dor indescritível de quando ele separara minha alma do corpo, o que acabou com qualquer resistência que eu tinha. Isso fez com que o ferimento dele se fechasse.
Agora seus braços eram como correntes. Gritei e quase caí quando ele segurou meus ombros com um braço – me colocando como um escudo na frente de Drake – e me perfurou com o outro. Eu nem sabia que isso era possível. Não senti dor, apenas uma sensação gelada. – Largue a arma no chão. Agora. – Ordenou para Drake, que, vendo como eu estava, imediatamente obedeceu, colocando Snovek no chão e levantando as mãos acima da cabeça.
A sensação gelada aumentou quando senti William pegar alguma coisa em minha alma, que estaria na região do coração em um corpo humano. O mais estranho era que era algo sólido.
– Ah, aqui está. – Disse, satisfeito, fechando seus dedos na coisa sólida, parecida com um pequeno disco, que ele achara dentro de minha alma. Não ousei me mover. Embora não soubesse direito o que era, eu sentia que era algo importante. Drake permanecia calado e olhava para mim com uma expressão atônita, como se soubesse o que viria a seguir.
– Toda alma tem um núcleo – William explicou – que é isso que estou segurando agora. Você sente, Lyric Angel? – me senti obrigada a concordar com a cabeça, já que o que estava para acontecer era imprevisível. – Muito bem. É o que a mantém sólida e faz com que você possa tocar em objetos e seres sobrenaturais. Foi isso que Athanasios tentou tirar de você; e não, seu poder não irá contra mim como aconteceu com ele – ele apertou o tal núcleo com mais força ainda, o que me fez arfar e também causou uma sensação parecida com ânsia de vômito. – Se eu arrancar este núcleo, você será destruída e ficará para sempre despedaçada, como aquelas outras seis almas que você viu dentro de mim, inclusive sua amiguinha Lauren. Você vai me acompanhar quieta para o lado de fora. Faça um movimento brusco e arrancarei, Lyric Angel. Não tenho nada a perder, você pertence a mim há muito tempo.
Estremeci, temendo por Lauren ao escutar seu nome. Eu e Drake trocamos um olhar, uma despedida silenciosa. Assenti suavemente para William e ele me guiou para fora do quarto. Nos corredores pude ver o estrago que eu havia causado com meu poder oculto; nada menos que duas paredes estavam mesmo destruídas, as quais William atravessara. Justamente como eu tinha imaginado.
William me fez descer as escadas devagar. Achei que ele fosse perder a paciência e me tirar de lá carregada, mas isso não aconteceu, ele continuou agarrando o núcleo, apertando um pouco mais forte cada vez que eu hesitava para executar uma ação. Logo estávamos no jardim que eu cuidara com tanto esmero. William finalmente largou o núcleo e pude respirar aliviada. No entanto, ele não me soltou. De algum modo consegui olhá-lo nos olhos. Ele fez com que eu fechasse os olhos e encostou os lábios nos meus, de novo, com a mesma violência de antes.
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