When the wild wind blows
4 09/02/14, 10/02/14, Rivnat
O dia começou mal. E tá cada vez pior. Não tô no clima pra escrever hoje... Vou deixar pra amanhã.
10/02/14
Ok. Tô escondido em uma casa perto do lugar onde deveria ser a casa do Doutor K. Ainda é meio-dia e tem muitos Deles lá fora.
Ontem, me acordei cedo e já me preparei para caminhar. Quando estava chegando perto da cidade, percebi que os pneus da bicicleta estavam furados e quase vazios. Decidi jogá-la num canto da estrada e seguir o resto do trajeto a pé.
Faltavam cerca de dois quilômetros quando eu vi, ao longe, a cidade. Morta como todas as centenas de mortos-vivos que estavam naquele trecho da estrada. Subi em outra árvore e percebi que, antigamente, havia sido montado um perímetro militar naquele trecho, com direito a uma enfermaria improvisada, uma horrorosa vala cheia de corpos queimados que me deu náuseas e alguns jipes militares perfeitamente estacionados. Infelizmente, toda essa zona estava infestada.
Minha esperança começou a minguar conforme eu me aproximava daquela área. Ah, agora eu tenho uma pistola, 9mm com quatro pentes. Provavelmente nunca irei usá-la: um mísero disparo alertaria todos Eles, num raio de vários quilômetros.
Voltando ao relato. Em minha cabeça, se a estrada estava naquela condição é porque todos os mortos-vivos haviam saído da cidade, tornando-a um lugar seguro. Na verdade, algo dentro de mim implorava para que eu estivesse certo.
Então, saindo da estrada e seguindo abaixado, contornando aquela 'mini-base' militar, cheguei a cidade. Uma placa anunciava 'Bem vindos a Rivnat. 341 180 habitantes.' Um arrepio cruzou minhas costas quanto me perguntei 'onde estão esses habitantes?'.
Mortos, eu diria. Desses 341 180 habitantes, provavelmente 80 sobreviveram. Os outros 341 100 morreram e agora estavam espalhados pela cidade, prontos para jantar qualquer sobrevivente desavisado.
Então, tentando enfrentar o desânimo, segui por algumas ruas secundárias. A princípio, a cidade parecia vazia. Vazia mesmo. Sem militares, sem sobreviventes. Até os mortos-vivos não eram muito comuns pelas ruas.
Com a pistola – que havia sido gentilmente tirada do corpo de um tal de Sargento Killborn – na cintura e a mochila quase vazia nas costas, decidi parar e entrar em uma casa. Era uma casa pequena, um andar só. O pátio era bem maior, com um escorregador e um balanço que provavelmente divertiam uma criança há pouco tempo.
A visão do balanço abandonado tocou fundo em mim. Crianças. É foda pensar que crianças morreram, que crianças vagam por aí junto com as hordas canibais. Que, em um futuro próximo, eu poderia ser forçado a matar uma criança. Caralho, é demais pra minha cabeça.
Bom, perdoem-me meu palavreado, caros leitores (que leitores?), mas foi nesse momento que eu fiz uma grande cagada.
Peguei minha pistola, minha única arma. Não sabia nem sequer atirar e contando apenas com a experiência de todos os Call of Duty zerados e de muitas noites jogando paintball, abri a porta da frente e adentrei a escuridão.
Estava segurando a arma da mesma maneira em que via nos jogos. As duas mãos segurando-a, dedo no gatilho, arma destravada e com passos extremamente cuidadosos. Bati algumas vezes com o pé na porta, fazendo barulho para que qualquer pessoa – ou monstro – que estivesse lá dentro ouvisse.
A escuridão me assustava – alguns trechos estavam mal iluminados pelas poucas janelas. A porta da frente levava direto a um corredor, que levava aos outros cômodos. O corredor estava vazio e todas as portas estavam abertas. O odor desagradável de putrefação que era comum em todos os lugares era mais forte ali dentro. Havia alguém morto ali. Minha esperança é que esse ser estivesse realmente morto e não no meio termo.
Haviam quatro portas, uma de cada lado do corredor. A primeira a esquerda levava a um banheiro sujo de um líquido vermelho-escuro. Parecia sangue, mas estava escuro demais para ser. O banheiro estava vazio.
O primeiro a direita era uma pequena sala de estar, iluminada por uma janela. Não estava suja e, por incrível que pareça, era extremamente agradável. Uma televisão, um sofá em L e uma mesa de centro. Uma pequena prateleira expunha alguns livros que me agradavam: O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams; a trilogia do Senhor dos Anéis, de Tolkien; e, por fim, Drácula, de Bram Stoker.
Já que minha mochila estava praticamente vazia, depois que eu revirasse a casa poderia levar alguns livros. Daria a alma por ter um deles pra ler em meu período no BTR.
Então, dei um passo a frente para ver os outros dois cômodos. O segundo a direita era um quarto, com uma cama de casal num canto e um guarda-roupa na parede. Um computador antigo ocupava uma mesa de escritório, com o gabinete em baixo e um monitor de LCD em cima. O mouse e o teclado estavam cobertos por uma camada de pó.
O quarto estava vazio. E o cômodo a esquerda era outro quarto, dessa vez menor e com apenas uma cama de solteiro. E foi ai que as coisas começaram a ficar tristes. Uma criança, provavelmente a que antigamente brincava no balanço e no escorregador da frente da casa, estava deitada na cama, amarrada.
Ele não havia me visto. Ele havia se transformado por algum motivo que eu não sabia: não tinha nenhuma marca de mordida. Podia ter sido infectado por comidas contaminadas, água contaminada.
Ele estava limpo, mas ele não tinha mais lábios. Provavelmente, a fome (será que essas coisas sentem fome?) havia forçado ele a comer os próprios lábios. Ele também havia alcançado o antebraço e havia mastigado uma boa parte dele. Uma lágrima solitária caiu conforme eu fechava a porta silenciosamente, para me afastar daquela amostra grátis de inferno.
Se Deus existe... Ele não é um cara legal.
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