When the wild wind blows
2 07/02/14, Rivnat
Nunca fiquei tão contente em estar errado. Agora, vou me aprofundar mais um pouco na minha fuga de Washington. Após muitas horas ou talvez dias, eu ouvi tiros. Não apenas um ou dois, distantes e que logo paravam. Não.
Tiros de rifles de assalto, de pistolas, metralhadoras. Parecia que haviam dezenas de atiradores, pois quando um parava, outro prosseguia. Porém, depois de alguns minutos, os tiros súbitamente pararam. E foi ali que vi minha janela para fugir de Washington.
Ao botar a cabeça para fora do BTR, confirmei o que pensava: todos os malditos haviam ido em direção aos tiros. Pela primeira vez em um bom tempo, a rua estava limpa. Então, em cerca de segundos, recolhi minha mochila com os meus últimos mantimentos: a garrafa de um litro que já havia sido reduzida a 200ml e duas latas de atum. Sempre tive frescuras para me alimentar e agora toda a comida que eu tinha era um pouco de água e atum. Nem sequer uma Coca-Cola, nem sequer uma barrinha de chocolate. Merda.
O BTR fedia. Fedia muito. É óbvio que um ser humano precisa fazer suas necessidades, mas isso não tornava o cheiro mais agradável. Então, sai do BTR, me preparando para correr. Mas, quando encostei o pé no chão, quase não consegui me afirmar. Talvez o tempo encolhido no BTR tenha me feito mal, mas eu não tinha tempo para pensar nisso agora. Olhei em frente e me pus a correr.
Existiam tantas coisas que poderiam dar errado naquela situação e, como a Lei de Murphy diz, todas deram errado.
Minha fuga levou aproximadamente cinco ou seis dias. Nesse meio tempo, minha comida e água acabaram, fugi de uma horda passando por cima dela, lutei contra três zumbis e quase perdi minha cabeça para um sniper psicopata.
Mas, vamos detalhar melhor. Depois de um bom tempo correndo, encontrei Eles novamente. Ocupavam uma rua inteira, mas só fui percebê-los depois que virei a esquina e entrei nela. Era uma verdadeira multidão de canibais apodrecidos que estavam ansioso para me mandar direto para o game over. Mas eu não iria deixar. A multidão era separada por vários carros e até um ônibus. Todos estavam abandonados, manchados de sangue e alguns tinham buracos de bala. Porém, elaborei um plano, enquanto me escondia atrás de um dos carros.
Os carros estavam praticamente enfileirados e, quase no fim da rua, um ônibus escolar estava quase em cima da calçada e, de cima dele, era possível pular para a janela de um apartamento. Não pensei duas vezes — e nem tive tempo para isso — e me lancei no primeiro carro.
Não olhei para baixo, não olhei para os lados. Apenas para a frente. Corria, pulava de carro em carro e gritava de pavor cada vez que algum dos mortos-vivos conseguia encostar a mão nos meus pés. Pular de carro em carro não é nada silencioso: em poucos segundos toda a rua estava tentando me matar. Mas, como meus inimigos eram lentos e, literalmente, podres, eu consegui fugir antes de que algum tivesse a sorte de segurar minha perna e me derrubar.
Quando fui pular para o ônibus, um dos mortos-vivos soltou um grunhido que me gelou a espinha. Olhei para trás e vi a multidão que tentava desesperadamente me alcançar, de boca aberta e os braços estendidos na qual minha direção.
– Pau no cu de vocês, seus filhos de uma puta! – soltei, apresentando o dedo do meio para eles todos, com toda a educação que eu já havia recebido.
Agora, eu sorria descontroladamente. Da parte de cima do ônibus, eu me sentia intocável. Nenhum dos mortos-vivos fazia algo além de bater nas laterais do ônibus. Mas, quando ele começou a ser sacudido pelos desmortos, decidi pular pela janela do apartamento.
Tirei meu moletom e enrolei ele na mão, dando um soco na janela, que se rompeu em centenas de cacos de vidro. Desenrolei o moletom e vesti ele novamente, sem pressa, esperando que se algo estivesse dentro do apartamento, já teria reagido.
Pulei pela janela, tomando cuidado para não encostar nos pontudos cacos de vidro. Me vi em uma cozinha, passando por cima de um balcão. A cozinha era pequena, cerca de 3x3. Mas parecia uma imensidão comparada ao BTR.
Havia um balcão na frente da janela, pelo qual eu havia passado, uma pia bem grande ao lado dele, um armário do meu tamanho do lado da pia e, do lado do armário, uma geladeira.
Ao passar por cima do balcão, eu havia chutado uma garrafa de plástico, cheia de um conteúdo transparente. Depois de observá-lo, vi que era álcool. Uma garrafa de vodca pela metade que estava jogada em cima da pia chamou minha atenção: já sabia o que fazer. Criaria uma distração maior ainda, enquanto eu corria ao lado contrário.
Peguei a garrafa de álcool e derramei seu conteúdo dentro da garrafa de vodca. Rasguei um pedaço da manga da minha camiseta, enrolei e coloquei dentro da garrafa, com uma pequena parte de fora. O pavio do meu molotov.
Fui até a janela e vi que os desmortos ainda estavam tentando derrubar o ônibus. Eles sacudiam o ônibus de um lado para o outro — afinal, era uma multidão. Ao me ver na janela, alguns deles estenderam os braços para mim, soltando grunhidos aterrorizantes. Mas não para mim. Não aqui.
Peguei meu isqueiro e acendi o pavio do molotov. Ao ver o fogo começando a consumir a manga da camiseta, joguei a garrafa no meio da multidão, do lado de lá do ônibus. Passou por entre dois mortos vivos e, subitamente, uma chama subiu no meio deles. O fogo começou a consumir a pele em decomposição dos desmortos. Sorri ao dar as costas a ele e ir em direção a porta que ficava do lado contrário da cozinha.
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