When the Strawberry meets the Sky

3 (not so) Discreet observers


Se alguém dissesse a Kurosaki Ichigo que sua vida estava “voltando ao normal”, ele provavelmente responderia com um olhar vazio e um “Defina ‘normal’.” Porque, aparentemente, “normal” agora incluía: ir para a escola, entregar trabalho criativo e purificar três Hollow antes do almoço.

O emblema vibrava no bolso do uniforme com uma frequência que já começava a parecer ofensiva.

Ichigo suspirou.

— Eu devia cobrar hora extra…

— Cobrar de quem? — Chad perguntou, caminhando ao lado dele.

Ichigo piscou.

— Hã?

— Você falou em voz alta.

—Ah... Estou virando aquele tipo de pessoa.

Orihime inclinou a cabeça, sorrindo.

— Tipo… Escritor introspectivo?

— Tipo internado em observação.

Ela riu.

Desde a noite anterior, eles tinham decidido — ou melhor, simplesmente começado — a acompanhá-lo. Não por necessidade estratégica, pois Ichigo realmente não precisava de ajuda contra Hollow comuns, mas eles estavam ali assim mesmo. Tipo apoio moral.

O emblema vibrou. Ichigo parou no meio da calçada.

— Lá vem.

Chad olhou ao redor, sério.

— Quantos?

— Um. Talvez dois.

Orihime juntou as mãos.

— Vamos?

Ichigo encarou os dois por meio segundo.

— Vocês não precisam…

— Eu sei — Chad respondeu.

— A gente só vai ficar olhando mesmo, Kurosaki-kun! — Orihime completou, animada demais para alguém prestes a testemunhar um monstro mascarado sendo cortado ao meio.

Ichigo revirou os olhos, mas não mandou eles irem embora. Ele apertou o emblema e o seu corpo humano tombou para trás — Chad segurou antes de cair no chão.

— Eu seguro — ele disse, como se estivesse falando sobre uma mochila.

Forma espiritual ativada. O Hollow surgiu entre prédios, grande demais para alguém que claramente não tinha agenda marcada.

— Vocês ficam atrás.

— Sempre — Chad respondeu.

Nem tanto.

O Hollow avançou.

Ichigo cortou.

Fim.

Simples. Direto. Quase automático. E isso era o que estava incomodando.

O emblema vibrou de novo.

— Outro? — Orihime perguntou.

— Não. Só… Eco.

Ichigo franziu a testa.

— Isso não está normal.

Chad cruzou os braços.

— Aumentou.

— Muito.

Orihime piscou.

— Aumentou como quando tem promoção no mercado?

Ichigo olhou para ela.

— Você compara invasão espiritual com desconto em cebola?

— Cebola é importante, Kurosaki-kun!

Chad assentiu, solidário. Ichigo suspirou.

— Não é só quantidade. É… Padrão.

Ele olhou para o emblema.

— Eles não estão só vagando. Estão convergindo.

Silêncio.

— Vindo pra cidade? — Orihime perguntou.

Ichigo hesitou.

— Talvez.

Ele não queria dizer a outra possibilidade, mas ela estava ali: talvez eles estivessem vindo atrás dele.


Do outro lado da rua, encostado no muro como se estivesse esperando o ônibus da vida, Ishida Uryuu observava.

Ele não estava participando, mas também não estava indo embora. As mãos nos bolsos. O uniforme impecável. A expressão neutra demais.

Ichigo notou, claro que notou, mas não falou nada.

Depois que purificaram o quarto Hollow do dia, Ichigo voltou ao corpo. Chad o soltou com cuidado.

— Você está ficando mais rápido — comentou.

— Estou ficando mais cansado.

Orihime se inclinou para frente.

— Kurosaki-kun…

— Hm?

— Você está preocupado.

Ele bufou.

— Óbvio que estou.

— Não é só pelos Hollow.

Silêncio.

Ela era assustadoramente perceptiva às vezes.

— É estranho — ele admitiu. — Eles aumentaram muito depois que voltamos.

Chad olhou para ele.

— Depois da Soul Society.

— É.

Ele encarou o céu.

— Parece que alguém abriu uma porta.

Ou... Alguém está testando alguma coisa.

Do outro lado da rua, Ishida virou o rosto levemente como se tivesse ouvido, mas não atravessou.


Mais tarde, quando Chad e Orihime foram embora, Ichigo ficou parado por um momento.

— Você pode vir falar, sabia? — disse sem olhar.

Ishida suspirou.

— Eu não estou escondido.

— Tá sim.

Ishida ajustou os óculos.

— Eu não estou envolvido.

Ichigo virou.

— Você sempre está envolvido.

— Não mais.

Aquilo doeu um pouco mais do que devia.

— Isso é sobre a Soul Society? — Ichigo perguntou.

Ishida ficou em silêncio.

Não era só sobre isso. Era sobre o fato de que ele tinha entrado lá com orgulho de Quincy… E saído sem poder nenhum.

— Você não precisa fingir que não se importa — Ichigo disse.

— Eu não estou fingindo.

— Tá sim.

Ishida estreitou os olhos.

— Você tem o seu papel agora, Kurosaki.

— E você?

Silêncio.

Ishida virou o rosto.

— Eu estou… Reconsiderando o meu.

Aquilo era o mais próximo de vulnerabilidade que ele daria naquele momento. Ichigo respirou fundo.

— Você não precisa lutar pra estar aqui.

Ishida olhou para ele.

— E você não precisa agir como se fosse o único responsável pela cidade.

Toque.

Eles ficaram se encarando por alguns segundos.

— Os Hollow aumentaram — Ishida disse por fim. — Isso não é aleatório.

— Eu sei.

— Está muito concentrado.

— Eu sei.

— E não é natural.

Ichigo franziu a testa.

— Você sentiu também?

— Eu posso não ter poder, mas eu ainda sei reconhecer padrão.

Silêncio.

Ali estava. Ele ainda estava ali. Só estava… Ferido.

— Então para de ficar do outro lado da rua — Ichigo disse.

Ishida levantou o queixo levemente.

— Eu não estou do outro lado.

— Tá sim.

Ishida ajustou os óculos de novo.

— Eu estou observando.

— Então observa mais de perto.

O vento passou entre eles. Ishida não respondeu, mas também não foi embora.


Mais tarde, sozinho no quarto, o emblema vibrou de novo. Ichigo não reclamou. Ele só olhou para o objeto.

— Tá. Eu sei.

Ele apertou. Kon entrou no corpo com o estalo costumeiro.

— Ichigoooo, você está popular~...

— Cala a boca.

Ele atravessou a janela de novo.

Mas dessa vez, enquanto saltava entre prédios, ele pensou: “Talvez não estejam vindo atrás da cidade. Podem estar atrás do Shinigami Substituto”.

E, se fosse isso… Ele não estava sozinho, mesmo que alguns ainda fingissem estar.

A noite parecia mais densa.

E, em algum lugar, algo observava. Não com ódio, mas com muito interesse.


...


Estava de pé, braços cruzados, expressão entediada, há vinte e três minutos, mastigando um palito de pirulito vazio, encarando a rua de cabeça para baixo como um morcego que analisa um campo de batalha — se é que existiam morcegos que faziam isso.

Na verdade, estava encarando Kurosaki Ichigo atravessar a faixa de pedestres como se fosse uma ameaça interdimensional de nível catastrófico, o que, tecnicamente, não estava tão errado.

— Hmmm…

Ichigo riu de alguma coisa que a garota de cabelo laranja disse. O cara moreno e forte caminhava ao lado dele, sério como sempre. O Quincy de óculos vinha alguns passos atrás, fingindo que não fazia parte do grupo enquanto fazia absolutamente parte do grupo.

Inclinou a cabeça.

— Tá evoluindo rápido demais… — murmurou.

O fluxo de Hollow em Karakura estava estranho, desorganizado, espalhado, mas direcionado. E Kurosaki Ichigo estava no centro disso. Ele não estava sendo atacado por acaso: ele estava sendo testado.

Descruzou os braços.

— A pergunta é: eu me apresento agora… Ou espero ele explodir mais um pouquinho?

Porque essa era a parte delicada. Kurosaki Ichigo ainda achava que:

Derrotou Aizen.Salvou Rukia.Estava de volta à vida normal.

Spoiler: ele não estava.

Suspirou.

— Haaah… Odeio quando eu preciso ser o adulto responsável.

Deu um último olhar para o garoto de cabelos laranja, que naquele momento estava discutindo com o leãozinho de pelúcia falante na calçada como se fosse completamente normal discutir com um brinquedo em público, e coçou o queixo.

— Tá… Talvez ainda dê pra esperar uns dias.

E desapareceu.


A casa era, oficialmente, um local de convivência.

Oficialmente.

Na prática, era um território de guerra com paredes. Hirako Shinji abriu a porta com a maior naturalidade do mundo, e nem chegou a tirar os sapatos.

— SHINJI CARECA!!!

A dupla voadora o atingiu em cheio no peito, quando ele nem sequer havia passado ainda do genkan*. Shinji foi arremessado de volta para a rua com a graça e a dignidade de um saco de arroz, mas conseguiu ter forças para voltar alguns instantes depois, resmungando:

— Hiy...oriiii...!!! Eu não sou careca...!!!

Ela agarrou a gola da camisa social dele, olhos arregalados, testa quase colada na dele.

— O QUE PORRA VOCÊ TÁ ESPERANDO, HEIN?!

Shinji piscou.

— Eu estava analisando a situação…

— ANALISANDO O QUÊ?! O outro já foi embora! Não tem mais pra que adiar!!!

Ela o sacudiu.

— Kuchiki Rukia já voltou para a Seireitei! A execução foi cancelada!! O moleque já virou oficialmente Shinigami!!! VOCÊ TÁ ESPERANDO ELE CRIAR BARBA PRA IR FALAR COM ELE?!

Shinji respirou fundo.

— Primeiro: ele já está na idade de criar barba. Segundo: estratégia exige tempo. Terceiro: você tá cuspindo na minha cara.

Hiyori soltou ele com um empurrão.

— Estratégia o caralho!! Você tá enrolando!!!

Lisa levantou os olhos do livro.

— Ele está.

Love mastigava alguma coisa no canto.

— Totalmente.

Kensei cruzou os braços.

— Tá com medo?

Shinji virou devagar.

— Eu? Medo??

Ele ajeitou a gravata.

— Eu só estou escolhendo o momento certo!

Hiyori apontou um dedo para o rosto dele.

— Você tá esperando ele ficar ainda mais forte pra depois reclamar que ele é forte demais!!

Shinji abriu a boca, mas fechou. Então abriu de novo.

— …Essa foi uma acusação ofensivamente precisa.

Hiyori cruzou os braços.

— E então...?!

Ele estreitou os olhos.

— Não fala alto.

Hiyori revirou os olhos.

— Ninguém tá ouvindo!!!

Ele inclinou a cabeça.

— Você não sabe disso.

Isso fez o clima mudar levemente porque aquele era um detalhe que importava.

“O outro”.

Aquele que tinha passado algumas semanas ali.

Hiyori bufou. Love ergueu uma sobrancelha.

— Você acha que eles vão se cruzar?

Shinji sorriu de lado.

— Acho que eles já quase se cruzaram...

Ele caminhou até a janela.

— O Ichigo tá mudando rápido demais...

Hiyori fez um som de impaciência.

— E daí?! Ele é nosso agora!

— Não é só isso.

Ele virou.

— O fluxo de Hollow aumentou muito depois que a Soul Society o reconheceu oficialmente.

Kensei estreitou os olhos.

— Teste de força?

— Ou isca.

Silêncio.

Lisa fechou o livro.

— Você acha que alguém tá empurrando as peças?

Shinji deu de ombros.

— Acho que o tabuleiro nunca ficou parado.

Ele passou a mão pelos cabelos loiros.

— Eu preciso que ele esteja curioso...

— Ele já é curioso — Lisa comentou.

— Não o suficiente.

Shinji fechou os olhos.

— Eu quero que ele venha até mim. Até nós.

Hiyori arregalou os olhos.

— Ah, claro! Porque isso sempre dá certo!

— Às vezes, dá.

— Não dá!!

Mas, havia algo ali. Algo que todos sabiam.

A presença de Kurosaki Ichigo mudava o equilíbrio, não só pela força, como também pela sua própria natureza: Shinigami, humano, e algo mais.

Shinji desencostou.

— Muito bem. Eu estou indo.

Hiyori piscou.

— Agora?

— Agora.

Ela cruzou os braços.

— Se você voltar de novo sem falar com ele~...

— Eu nunca volto de mãos vazias.

Notas finais
*o genkan (玄関) é a área de entrada tradicional para casas e prédios japoneses constituída de uma varanda, ou uma sala, com um tapete onde deve-se retirar os sapatos.