Se alguém dissesse que a Urahara Shop era apenas uma lojinha simpática de bairro, essa pessoa estaria tecnicamente correta. Tecnicamente. Na prática, era um ponto de encontro para:

ex-capitães exilados,crianças com energia demais,cientistas sorridentes,e gatos falantes.

Shinji apareceu na porta da loja como quem aparece para pedir açúcar emprestado ou dois ovos para fazer um bolo.

Bateu duas vezes.

Esperou.

Nada.

Empurrou a porta. O sininho tocou.

— Ô de casaaa?

— Tá fechado! — gritou uma voz lá de dentro.

Shinji piscou.

— Eu consigo ver você, pirralho.

Jinta apareceu atrás do balcão, apoiando o queixo nas mãos.

— Ah, é você.

— Que recepção calorosa...

— O chefe não tá.

— “Não tá”… Tipo “saiu para comprar leite” ou tipo “sumiu misteriosamente”?

Jinta pensou.

— Hm… Ele deve aparecer já já.

— “Deve”?

— É.

— Isso não me tranquiliza.

Jinta deu de ombros.

— Ele provavelmente ainda tá acordando.

Shinji inclinou a cabeça.

— Acordando, a essa hora?

— É. A Yoruichi-san chegou ontem.

Silêncio.

Shinji piscou devagar.

— E…?

Jinta o encarou como se ele fosse particularmente burro.

— E eles provavelmente estão acordando agora, ué!

Shinji cruzou os braços.

— Você tá insinuando alguma coisa?

— Não tô insinuando nada — Jinta respondeu, completamente sério. — Só que eles moram juntos. Pessoas que moram juntas normalmente acordam no mesmo lugar, duurt!

— Você tem dez anos.

— Mas não sou burro!

Shinji levou a mão ao rosto.

— Eu não precisava dessa informação às nove da manhã...

— Você que perguntou.

— Eu não perguntei isso!

— Mas eu respondi.

Antes que Shinji pudesse argumentar sobre lógica distorcida infantil, uma porta lateral abriu.

— Ara ara… Que conversa interessante…

Urahara Kisuke surgiu ajustando o chapéu, sorriso suave no rosto, como se não tivesse acabado de ouvir absolutamente tudo.

— Oh, Hirako-san! Que visita agradável!

Shinji o analisou de cima a baixo: roupa arrumada, sandálias no lugar, expressão tranquila. Suspeito demais.

— Eu nem vou perguntar... — Shinji disse.

Urahara abriu o leque.

— Eu agradeço.

Jinta apontou.

— Eu só disse que—

— Jinta-kun — Urahara interrompeu, ainda sorrindo. — Vá verificar o estoque.

— Mas eu já verifiquei o—

— Vá verificar de novo.

Jinta saiu resmungando. Shinji esperou o silêncio se instalar.

— Ele acha que você e a Yoruichi dormem juntos.

Urahara inclinou levemente a cabeça.

— Ah.

— Como “ah”? Você não vai desmentir?

— Não vejo necessidade.

Shinji estreitou os olhos.

— Isso é estrategicamente ambíguo demais pra mim.

Urahara riu baixo.

— E então? A que devo a honra?

Shinji não respondeu imediatamente. Ele deu alguns passos pela loja.

— Eu vou abordar o garoto.

O leque parou por meio segundo.

— Kurosaki-san?

— Você conhece outro garoto de cabelo laranja e espiritualmente radioativo em Karakura?

Urahara voltou a sorrir.

— Finalmente decidiu?

— Ele já tá sendo observado demais.

— Por você?

— Por mais do que eu.

Silêncio breve.

O humor da sala mudou um grau. Urahara caminhou até o balcão e apoiou os cotovelos ali.

— O fluxo aumentou.

— Você sentiu.

— É claro que senti.

Shinji inclinou a cabeça.

— Não parece natural.

— Não é.

— Você sabe por quê?

O sorriso de Urahara ficou mais fino.

— Eu tenho hipóteses.

— Eu odeio quando você tem hipóteses.

— Eu também.

Shinji cruzou os braços.

— Eu não vim pedir permissão.

— Eu sei.

— Mas achei educado avisar.

— Eu agradeço.

Silêncio.

Shinji encarou o teto por um momento.

— Ele ainda acha que salvou o mundo.

— E ele salvou.

— Não tudo.

Shinji apoiou o ombro na estante.

— Eu preciso que ele fique curioso.

— Ele já está.

— Mas não do jeito certo.

Urahara fechou o leque.

— Então você quer que ele venha até você.

— Quero que ele queira respostas.

— E você vai dar?

Shinji sorriu de lado.

— Algumas.

Urahara o observou em silêncio.

— Tenho um nome em mente: Grand Fisher. Te lembra alguma coisa?

Shinji arqueou a sobrancelha.

— Me lembra um certo Hollow que tem uma relação muito especial com o Ichigo.

— Exato. E o que você imagina que ele sabe sobre o Kurosaki-san?

— Que ele é um Shinigami Substituto com reiatsu absurda e tendência a se jogar na frente de qualquer perigo que respire errado.

Urahara inclinou a cabeça.

— Ele é mais do que isso e qualquer um é capaz de perceber.

O ar ficou levemente mais pesado.

Shinji não respondeu de imediato.

— Eu sei.

Urahara respirou devagar.

— Mas não acho que seja só ele que está se movendo.

— Eu sei.

— Não é só teste.

— Eu sei.

— Você ainda quer se aproximar agora?

Shinji sorriu.

— Especialmente agora.

Um segundo de silêncio.

— E você acha que ele vai confiar em você? — Urahara perguntou.

Shinji riu baixo.

— Ele mal confia em você, Kisuke.

Touché.

Urahara abriu o leque de novo.

— Justo.

Nesse momento, um vulto elegante surgiu no corredor lateral.

— Vocês dois já terminaram de medir egos masculinos ou eu já posso entrar na conversa?

Yoruichi apareceu apoiada na parede, braços cruzados, olhar preguiçoso demais para alguém que definitivamente já estava acordada há horas.

Shinji apontou para ela.

— Você tá sabendo da fofoca que o Jinta espalhou?

— Que ele acha que eu e Kisuke dormimos juntos? — ela respondeu, completamente tranquila.

— Então, você sabe?

— Ele acha isso há anos...

— E você nunca corrigiu?

Yoruichi fez um sorriso bem felino.

— Para quê? É divertido.

Urahara levou o leque à boca.

— Eu sou uma vítima inocente...

— Você gosta — Yoruichi retrucou.

Shinji suspirou.

— Eu vim falar de uma coisa séria e vocês estão num sitcon...

Yoruichi descruzou os braços.

— O garoto tá mudando...

— Todo mundo já sabe disso.

— Rápido demais...

— Também já sabemos.

— E o cheiro no ar não é só de Hollow.

Shinji a encarou.

— Este é o ponto.

Silêncio.

Urahara virou o rosto levemente para a rua.

— Ele ainda acha que está reagindo...

Shinji completou:

— Mas já está sendo puxado.

O vento entrou pela porta aberta. A loja de repente parecia pequena demais para aquela conversa. Yoruichi caminhou até a frente de Shinji.

— Não o empurre demais.

— Obrigado, mas eu sei dosar.

— Você acha que sabe.

— Eu sei. Não vou machucá-lo, prometo.

Ela inclinou o rosto para ele.

— Ele não é você.

Shinji piscou e descruzou os braços.

— Relaxa. Eu só vou provocar.

— Você sempre “só provoca” — Yoruichi murmurou.

Urahara fechou o leque com um estalo suave.

— Hirako-san.

Shinji virou.

— Hm?

— Se algo reagir quando você se aproximar…

— Eu vou saber.

— Não estou falando só do Grand Fisher.

Shinji sustentou o olhar por um segundo a mais.

— Eu também não.

A tensão não era pesada. Era elétrica. Contida. Então Jinta reapareceu do nada.

— Chefe! Eu já verifiquei o estoque três vezes!

Todo mundo piscou.

— Muito bem, Jinta-kun! — Urahara disse.

— Eu ainda acho que vocês—

— Jinta-kun.

— Tá boom!!

E o garoto saiu bufando.

Shinji respirou fundo.

— Tá. Eu vou indo...

Yoruichi inclinou a cabeça.

— Não se atrase demais.

— Eu não me atraso.

— Você enrola.

— Diferença técnica.

Urahara sorriu.

— Boa sorte.

Shinji caminhou até a porta, mas parou.

— Ele não está sozinho.

Urahara respondeu com leveza:

— Nunca esteve.

Shinji abriu um sorriso enviesado.

— Ótimo.

E finalmente saiu.

A rua parecia comum demais. Céu azul demais. Calma demais. E isso era o que mais incomodava, porque quando tudo parece normal em Karakura alguma coisa está definitivamente errada. Shinji enfiou as mãos nos bolsos e começou a caminhar.

— Tá bom, Kurosaki Ichigo…

Ele olhou para o céu.

— Vamos ver o quanto você aguenta antes de me mandar calar a boca.

E, pela primeira vez desde a Soul Society, alguém estava se movendo não para testar, mas para revelar.



O pátio do casarão estava em silêncio, exceto pelo som ritmado de mãos batendo contra a terra.

— Vinte e sete...! — Ganju grunhiu.

— Vinte e sete e meio — Kūkaku corrigiu, apoiada contra uma das colunas, cachimbo entre os dedos. — Sua bunda subiu antes do ombro.

— Waaa, eu não tenho uma bunda tão grande, Aneki!!

— Tem uma fraqueza grande.

— TRINTA...!

— Vinte e oito.

E Ganju caiu de bruços no chão.

— Você tá fazendo isso porque eu fui um completo inútil lá dentro, não é...?!

Kūkaku soltou uma baforada lenta.

— Estou fazendo isso para você continuar vivo.

Ele virou o rosto para encará-la, suado e irritado, mas consigo mesmo, não com a irmã mais velha.

— Eu sobrevivi.

— Sim, porque os outros lutaram mais que você!

Silêncio.

Ela não disse com crueldade. Disse com precisão. Ganju ficou alguns segundos encarando o chão.

— Eu ajudei...

— Ajudou. — ela assentiu. — E eu me orgulho disso.

Ele piscou, surpreso.

— Mas orgulho não salva ninguém quando a lâmina desce — ela completou.

O vento mudou de direção. Ela olhou para o horizonte por um segundo a mais do que precisava. Ganju percebeu.

— Tá se perguntando por onde ele anda, né?

— Sim.

E ele não perguntou mais nada. Conhecia aquele tom. Depois de alguns segundos, Kūkaku falou:

— E então?

— Então, o quê?

— O que você achou?

Ganju bufou, sentando no chão.

— Foi incrível. A Seireitei é gigante! Eu quase explodi uma muralha... E eu encontrei um Shinigami que não era um cuzão completo!

PAH! O tapa ecoou no pátio.

— NÃO É O QUE ESTOU PERGUNTANDO, IMBECIL!

— AAAAAI! O que é então, Aneki??!

— Eu não estou perguntando da sua excursão turística na Cidade dos Shinigami, seu animal!

Ela cruzou os braços.

— Estou perguntando de Kurosaki Ichigo!

Mais silêncio. O nome ficou pesado no ar. Ganju desviou o olhar.

— Ah, ele... Bem, ele é… Forte...

— Isso eu vi.

— Teimoso...

— Também vi.

— Irritante...

— Igual a você.

Ele respirou fundo.

— E ele é... Igual.

Kūkaku não disse nada, dando-lhe uma chance para que ele próprio terminasse de explicar tudo.

— No começo, eu achei que era só uma impressão — Ganju continuou, voz mais baixa. — Que era só… Parecido.

Então ele engoliu seco.

— Mas quando ele ficou bravo...

Ela ergueu uma sobrancelha.

— O jeito que ele segurava a espada... O jeito que ele avança sem pensar... O jeito que ele ficava na frente dos outros como se o mundo todo fosse responsabilidade dele…

A voz dele falhou por um segundo.

— O sorriso torto...

Silêncio.

— Era o Kaien-aniki.

O nome saiu como algo guardado há tempo demais, tanto que soava como proibido ou inadequado. Kūkaku fechou os olhos por um instante.

— Exato...

Ganju a encarou.

— Tsc, é claro que você tinha percebido também...

— Desde que vi a cara daquele moleque pela primeira vez.

Ele ficou em silêncio.

— Foi estranho, Aneki... — ele admitiu, finalmente abrindo o peito. — Eu queria odiar ele...!

Ela o encarou com atenção real agora.

— Eu odeio Shinigami! Eu odeio tudo o que fizeram com o Kaien-aniki... Com a gente! Eu nunca vou esquecer o dia em que a Kuchiki apareceu aqui, arrastando o corpo dele como se fosse um saco de lixo, e... E...!

As mãos dele fecharam no tecido da própria calça.

— E aí, aparece um igualzinho à ele! IGUAL! Lutando por uma outra Shinigami... Arriscando a vida pela mesma organização que… — ele parou.

Respirou.

— E eu simplesmente não consegui odiá-lo...

Kūkaku não interrompeu.

— Eu tentei — ele confessou, voz mais baixa. — Tentei pensar que ele era só mais um... Mas ele não é. Ele é… O tipo de pessoa que o Kaien-aniki era. Não é só o rosto...!

Silêncio.

— Isso me deixou com raiva — Ganju continuou. — Porque parecia que, de repente, a Seireitei estava nos dando o Aniki de volta, mas… Mas não era ele.

A garganta dele apertou.

— E eu não sabia se ficava feliz ou se queria socar a cara dele!

Kūkaku caminhou até ele e sentou na beirada da varanda, ao lado do irmão.

— Você socou?

— Não.

— Então já amadureceu um pouco.

Ele bufou.

— Não faz graça.

Ela encarou o horizonte outra vez.

— Você já sabe o que isso significa, não sabe?

Ganju ficou imóvel.

— Eu… Pensei nisso.

— Pensou certo.

Ela cruzou os braços.

— Este Kurosaki Ichigo só pode ser filho dele.

O silêncio agora era diferente. Não pesado. Denso.

— Do tio? — Ganju perguntou, mesmo sabendo a resposta.

— De quem mais seria? — Kūkaku respondeu.

Ele ficou encarando o chão.

— Então… Ele é nosso... Primo.

Ela assentiu devagar.

— Provavelmente.

Ganju soltou um riso curto, descrente.

— Então, eu quase quis matar o meu próprio primo...

— E ele quase te matou.

— Família mesmo.

Ela sorriu de canto e o vento soprou outra vez. Kūkaku olhou para o horizonte com expressão diferente agora.

— Se ele é mesmo filho do tio… Então as coisas estão se movendo de novo.

— O que você quer dizer?

Ela não respondeu imediatamente.

— Quero dizer que nada na nossa família fica simples por muito tempo. Nem acontece por acaso.

Ela se levantou.

— E se o sangue Shiba está despertando em Karakura…

Olhou para Ganju por cima do ombro.

— Então alguém mais vai sentir.

Ganju entendeu imediatamente de quem ela falava. Dava pra sentir na pele. Tudo iria mudar, ele acreditava que em poucos dias... E, em algum lugar, aquele que carregava o mesmo céu nas costas logo menos cruzaria o caminho do morango.