O lugar não tinha nome. Nem céu, nem chão — só uma extensão quebrada de sombra e eco, como se o mundo tivesse sido abandonado no meio do caminho. Era ali que Grand Fisher se escondia, não por covardia, mas porque ódio precisa de silêncio para crescer. A máscara aberta parecia deixar o ar mais cru e mais doloroso. Cada fragmento de pensamento vinha afiado, martelando sempre no mesmo ponto:

Kurosaki Ichigo.

Um Shinigami Substituto, patético, sem treino, sem Shikai, sem direito algum de vencê-lo.

Fisher fechou as garras, sentindo o espaço ao redor vibrar levemente, o mundo parecendo reagir ao seu rancor, como se reconhecesse aquela raiva antiga.

Então, aconteceu: uma pressão espiritual considerável atravessou o vazio. Ele congelou. Não era forte do jeito correto, nem era limpa ou estável. Era só… Errada. Barulhenta.

— … — o Hollow inclinou a cabeça, sentindo o fluxo passar como uma lâmina cega.

Aquilo não era um Shinigami comum, mas também não era humano. O cheiro indicava ruído espiritual. Aquele jeito desajeitado de existir no mundo, como se a própria alma estivesse sempre grande demais para o corpo.

— Você… — Grand Fisher rosnou, os dentes rangendo sob a máscara parcialmente forçada.

A reiatsu era dolorosamente familiar, como lembrar de um golpe recebido sem ver o braço que o desferiu.

Kurosaki Ichigo.

O ódio borbulhou instantâneo, espesso, quase sufocante. O espaço reagiu, ondulando ao redor dele. Fisher se lançou para frente, seguindo o rastro como um animal farejando sangue fresco. Cada passo fazia o vazio estremecer. Estava ali, mais à frente, e se movia rápido.

— Não adianta correr… — murmurou, mesmo sabendo que, provavelmente, não era ouvido.

Mas algo estava errado. O rastro não era firme. Ele meio que saltava. Explodia em picos caóticos e depois sumia, como se a alma do alvo estivesse tropeçando no próprio poder.

O Hollow acelerou, rasgando o espaço com brutalidade. Estava chegando perto e, então... A reiatsu disparou. Não como um ataque ativo, mas como um reflexo, beirando o medo. Uma descarga instintiva, crua, desordenada, que atravessou a dimensão como um trovão mal contido.

Fisher recuou meio passo, surpreso. Aquilo… Não era um Shinigami treinado. Não podia ser. Era alguém fugindo.

— Covarde… — ele sibilou, retomando a perseguição.

Mas o rastro já estava se desfazendo. A pressão espiritual se espalhava em direções erradas, confundindo o espaço, como se o próprio caminho estivesse sendo arrastado para fora do eixo.

O Hollow tentou forçar passagem, cravando a reiatsu no vazio. Nada. O alvo estava escapando — não por habilidade, mas por descontrole, talvez até desespero.

— Volte aqui! — rugiu, furioso.

O espaço respondeu com silêncio. O rastro sumiu de vez, engolido pela instabilidade da dimensão. Grand Fisher ficou parado por um instante longo demais. O ódio não diminuía. Era pior: ele se condensava.

— Você voltou… — murmurou, mais para si mesmo do que para o vazio. — Mesmo fraco… Mesmo perdido…

As garras se fecharam, tremendo.

— Então, eu também vou voltar.

A máscara fragmentada estalou, rachaduras se aprofundando, como se algo por trás estivesse pressionando para sair, tal como um filhote prestes a deixar o ovo.

O Hollow ergueu a cabeça, o rancor tomando forma, peso, intenção. Se aquele Shinigami Substituto podia crescer, então ele também podia. E, da próxima vez… Não deixaria fugir.


A porta da Clínica Kurosaki abriu com um ruído discreto demais para quem conhecia Urahara Kisuke.

Ele entrou como quem não queria chamar atenção — chapéu baixo, sorriso quase ausente, leque fechado. Uma calmaria incomum.

— Você costuma aparecer quando algo está dando errado... — comentouKurosaki Isshin, sem se virar da bancada onde mexia em frascos e papéis médicos que já tinham visto dias melhores.

Urahara suspirou.

— Fico ofendido. Às vezes eu apareço um pouco antes de dar errado.

Isshin riu de leve, mas o riso morreu rápido demais.

— Então chegou, né?

Urahara se apoiou na porta, finalmente levantando o olhar.

— Chegou.

O silêncio que se seguiu não foi exatamente desconfortável. Meio pesado, do tipo que só existe entre duas pessoas que já enterraram algumas verdades juntas.

— Hirako Shinji-san já foi atrás dele — continuou Urahara. — Vai se aproximar do Kurosaki-san.

Isshin fechou o frasco com força um pouco maior do que o necessário.

— Certo. Então eles decidiram que ele já pode saber.

— Não exatamente “saber” — corrigiu Urahara, com calma. — Reconhecer.

Ele fez uma pausa breve.

— A máscara não é algo que se explica. É algo que se aceita ou se rejeita até consumir quem a usa.

Isshin respirou fundo, passando a mão pelos cabelos.

— É, eu sempre soube que esse dia ia chegar... — Ele ergueu o olhar. — Só esperava que demorasse um pouco mais para chegar.

— Eu também — admitiu Urahara. — Mas o fluxo de Hollow mudou, sem naturalidade e sem aleatoriedade. E alguns deles… — ele fechou o leque devagar — Não são mais problemas que o Kurosaki-san consegue resolver enquanto aprende a respirar como um Hollow.

Isshin suspirou.

— Heeh... Está certo. Agradeço o aviso.

— Este não é só um aviso de um velho amigo — O sorriso torto voltou, mas sem humor. — É também um plano temporário de contingência, digamos assim.

Isshin ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo o peso daquilo e, no fim, começando a coçar a própria cabeça.

— Está dizendo que eu vou ter que sair da arquibancada...

— Bem. Seria bom se o mundo conseguisse sobreviver até a volta de Kurosaki-san.


Isshin sentiu o cheiro antes de ouvir o som. Algo como um gosto metálico no ar, denso e errado — como ferrugem molhada misturada com algo queimado. Ele parou no meio do passo, a mão indo quase por reflexo até a empunhadura de Engetsu.

— Tsc… — murmurou. — É, não é mesmo um Hollow comum... Mas devia ser.

O espaço à frente parecia torto. O ar ondulava como se a realidade estivesse sendo puxada para dentro de si mesma.

Então, ele saiu das sombras. A máscara quase totalmente arrancada, tendo restado apenas uma parte da arcada dentária, com fragmentos brancos ainda se desfazendo no ar, dissolvendo-se como cinzas, ao que a figura alta e grotescamente alongada avançava um passo. A pele era como Isshin lembrava, coberta por uma pelagem animal espessa, só que, agora, havia uma parte que não era peluda, mais humana, marcada por veios escuros. Os olhos eram famintos, mas muito mais humanos que Hollow e, numa das mãos, havia uma espada desnecessariamente grande e irregular.

— Heh… — a criatura riu, a voz arrastada, cheia de eco. — Então é aqui que eu vim parar…

Isshin franziu o cenho.

— Arrancar…? — Ele inclinou levemente a cabeça. — Então, você conseguiu evoluir.

Os olhos do Hollow se fixaram nele, avaliando-o e medindo-o. E então, o sorriso dele se alargou, torto.

— Você não é quem eu estou procurando.

Isshin suspirou e encolheu os ombros.

— Sempre dizem isso.

Grand Fisher deu mais um passo à frente e a pressão espiritual explodiu no ar — violenta, instável, cheia de ódio mal digerido.

— Mas você vai servir.

Isshin firmou os pés no chão.

— Engraçado… — disse, com um meio sorriso. — Geralmente, sou o último recurso, não o aperitivo.

A criatura riu de novo.

— Ele está brincando comigo… — rosnou. — Provocando. Cutucando. Se achando esperto demais...

Isshin piscou e perguntou, mesmo já sabendo de quem se tratava:

— Quem?

— Eu senti a reiatsu dele... — continuou o Hollow, os dedos apertando o cabo da espada. — Enquanto arrancava a máscara... Forte. Suja. Familiar.

O ar estremeceu.

— Não era idêntica, mas… — ele admitiu, mas com desdém. — Mas só podia ser ele.

Isshin sentiu um arrepio subir pela espinha. Não era de Ichigo, então, que Grand Fisher falava?

— Do que está falando...?

Os olhos do Hollow brilharam.

— Kurosaki Ichigo!

Isshin não reagiu de imediato. Respirou fundo primeiro.

— Certo… — murmurou. — Mas aqui estou eu, Kurosaki Isshin, pai do Ichigo. Lamento frustrá-lo, Grand Fisher.

O sorriso do Hollow se tornou cruel, mas ele ainda não parecia realmente prestar atenção nas palavras do Shinigami à sua frente.

— Depois que eu acabar com você… — ele ergueu a espada, apontando-a de forma teatral — Vou atrás dele. Vou rasgar aquela arrogância. Mostrar o que acontece com Shinigami Substitutos patéticos que se acham no direito de me derrotar sem nem saber empunhar uma espada de verdade!

Isshin sorriu, mas não havia humor algum ali.

— Ok… — Ele sacou a Zanpakutō.

A lâmina de Engetsu era curta e simples. Bem modesta. O Hollow gargalhou.

— Sério?! — debochou. — Isso é tudo?! Olha o tamanho da minha espada! Você realmente acha que—

E o golpe veio rápido. Seco e preciso. Isshin apareceu atrás dele no instante seguinte, a lâmina já limpa, o sangue evaporando antes mesmo de tocar o chão.

— Primeira lição... — disse calmamente. — Tamanho não decide nada.

Grand Fisher arregalou os olhos.

— O… quê…?

Isshin virou-se de frente para ele.

— Segunda lição... — continuou. — Quando você sente uma reiatsu parecida com a de alguém… Nem sempre é essa pessoa.

A criatura tentou se virar, mas o corpo já não obedecia.

— E terceira…

Isshin ergueu a espada uma última vez.

— Não se meta mais com a minha família.

A lâmina atravessou o peito do Hollow, e a pressão espiritual se desfez num instante — como um grito interrompido no meio da garganta. O corpo começou a se dissipar.

— Kuros…aki… — a voz se perdeu no nada.

Silêncio.

O ar voltou ao normal.

Isshin permaneceu ali por alguns segundos, respirando fundo. Lentamente, embainhou a espada.

— “Reiatsu familiar”… — murmurou, passando a mão pelos cabelos. — Tsc… Ichigo, o que foi que você andou atraindo agora…?

Ele lançou um último olhar para o espaço vazio onde o Hollow estivera. Algo em suas palavras não encaixava. Grand Fisher não parecia estar apenas em frenesi.

Isshin ruminou aquela sensação por alguns instantes, não de medo, mas de um certo incômodo.

— Hm…

Mas, no fim, virou-se e começou a andar. O vento soprou leve e, pela primeira vez em muito tempoanos, não havia nada puxando-o para trás. Ele havia pago a dívida.