As portas duplas do salão principal abriram com um baque seco, cortando os murmúrios casuais entre os capitães. Soi Fong entrou a passos firmes, a postura impecável e a expressão de quem trazia uma heresia embrulhada para presente.

Ela não foi até o seu lugar na fileira. Parou exatamente no centro, sob os olhos atentos do Capitão-Comandante.

— Relatório de reconhecimento do Rukongai Oeste concluído.

Anunciou, a voz ecoando clara pelas paredes de madeira.

— Comandante, trago notícias sobre o perímetro externo. O princípe Shihōin Yūshirō foi localizado, e já se encontra em segurança no Kizokugai. No entanto, o retorno do príncipe não é o fato mais alarmante desta incursão.

Ela fez uma breve pausa.

— O Onmitsukidō deparou-se com uma ramificação imprevista nas sombras dos últimos distritos do Rukongai Oeste. Uma anomalia que parece ter conseguido escapar dos registros oficiais do Seireitei ou, convenientemente, foi ignorado.

Soi Fong endireitou a postura uma última vez, os olhos faiscando na direção dos capitães.

— Nós descobrimos um Shiba novo. Um jovem que se apresentou como Shiba Sora. Uma linhagem que esta farsa de nobreza aparentemente tentou varrer para debaixo do tapete por pelo menos 80 anos.

Um silêncio desconfortável se instalou. O anúncio caía como uma bomba silenciosa.

Rostos se contraíram em surpresa, e alguns capitães se moveram onde estavam, absorvendo o peso político de mais um sobrevivente daquela família caída que vivia nos arredores do Rukongai.

Ukitake sentiu um aperto familiar no peito, uma pontada fria que nada tinha a ver com a sua saúde frágil. Seus olhos fixaram-se na Capitã da 2ª Divisão, arregalados pelo choque inicial.

Um Shiba novo?

A mente dele viajou instantaneamente para Kaien, para Miyako, para a dor que aquela família já havia suportado em nome da Seireitei. Saber que havia mais um sobrevivente, escondido por oitenta anos nas franjas do Rukongai, era uma revelação que fazia suas mãos tremerem levemente sob as mangas do haori.

No entanto, antes mesmo que a implicação política assentasse em sua mente, as palavras finais de Soi Fong haviam ecoado de forma errada para seus ouvidos.

Ukitake endireitou a postura.

Ele não se moveu com a agressividade de um guerreiro prestes a iniciar um embate, mas com a solenidade de quem guardava os pilares morais daquela corte. Sua voz, embora gasta pela doença crônica, cortou o burburinho dos outros capitães com uma clareza serena e incontestável:

— Capitã Soi Fong.

O chamado fez com que a comandante do Onmitsukidō desviasse os olhos esverdeados na direção dele.

— Compreendo a gravidade do seu relatório e também a urgência que a situação no Rukongai Oeste exige...

Ele mantinha o tom calmo, mas com uma certa firmeza.

— No entanto, eu teria cuidado com minhas palavras ao me referir à família Shiba neste salão. Eles perderam seus privilégios dinásticos após os trágicos eventos do passado, mas a história da Soul Society foi construída sobre os sacrifícios de cinco Casas, não apenas quatro. Não me parece apropriado reduzi-los a "farsa de nobreza".

Soi Fong cerrou os lábios por um breve segundo, uma linha rígida expressando seu descontentamento por ser corrigida publicamente. Mas a autoridade moral de Ukitake Jūshirō era difícil de rebater sem parecer infantil.

— Capitão Ukitake, garanto que o desrespeito aos protocolos de segurança que encontrei naquela casa fará minhas palavras parecerem amenas. Se me permite prosseguir, o problema real não é o sobrenome que o sujeito carrega, mas o que ele traz em mãos.

Yamamoto ergueu os olhos.

— Explique, Capitã.

— Durante a abordagem, Shiba Sora não se comportou como um habitante ordinário do Rukongai. Ele demonstrou um domínio avançado das artes demoníacas. Mais especificamente, ele conjurou, com sucesso, o Bakudō de número sessenta e um, Rikujōkōrō.

Um novo murmúrio, desta vez mais agudo, percorreu o salão.

Dominar um Kidō de nível sessenta e um era uma façanha que exigia o treinamento rigoroso de um oficial ou de um prodígio da Academia Shinō. Para Ukitake, a confirmação de que o rapaz usava técnicas tão refinadas e tipicamente associadas ao clã Shiba — conhecidos por sua genialidade e controle de energia espiritual — era quase como um soco no estômago. Não havia outras ramificações conhecidas da família além da de Shiba Isshin, desaparecido há décadas, e o único membro da família principal proficiente em Kidō de alto nível era Shiba Kūkaku.

— Mas a proficiência em Kidō é o menor dos agravantes.

Continuou Soi Fong, a voz cortante resgatando a atenção absoluta do conselho.

— Acredito que o verdadeiro perigo reside na estrutura de sua alma e no equipamento que carrega consigo, algo como um amuleto espiritual atípico; uma espécie de dispositivo disfarçado de pingente que pulsa em sincronia com seu próprio batimento espiritual.

Ela fez uma pausa cirúrgica, deixando que os demais capitães processassem a infração técnica.

— O comportamento da reiatsu dele é estranho. Não se trata apenas de uma quantidade massiva de poder, mas de uma energia fragmentada e dispersa, que parece estar sendo constantemente desviada e drenada por aquele objeto. Pelas leis do fluxo de energia espiritual, uma alma com tal magnitude e instabilidade deveria colapsar sobre si mesma.

Kurotsuchi Mayuri, até então muito quieto, arregalou os olhos. Mas todos sabiam que não era choque; era interesse.

— Então... Temos um Shiba recém-descoberto utilizando um artefato ilegal que parece atuar como um ralo de energia espiritual??

Soi Fong revirou os olhos.

— O que importa é que ele está usando uma tecnologia não autorizada para conter e mascarar uma anomalia espiritual.

Ela fez uma pausa antes de concluir.

— Além disso, Shiba Kūkaku o assumiu como seu filho. Ele pertence, portanto, à principal ramificação da Família Shiba!

O silêncio que se seguiu à revelação da existência de um filho de Shiba Kūkaku foi ainda mais denso.

Se as implicações técnicas de uma anomalia espiritual já perturbavam a todos, a certeza de que a principal engenheira de fogos e artilharia do Rukongai — uma mulher que já guardava rancor suficiente da Seireitei — tinha um herdeiro direto com um grande poder destrutivo mudava o peso da balança.

Ukitake permaneceu imóvel, em um misto de choque e apreensão. Ele não imaginava que Shiba Kūkaku tivesse um filho... Mas o que realmente o preocupava era o alvo que Soi Fong estava pintando em suas costas.

Antes que Mayuri pudesse sugerir uma expedição de coleta, a ponta do cajado de madeira de Yamamoto Genryūsai bateu contra o assoalho do salão, o som seco e pesado cortando qualquer intenção de diálogo.

O Comandante abriu os olhos por completo, e a mera menção de sua pressão espiritual fez o ar do recinto parecer subitamente escasso.

— Silêncio.

Ordenou com voz ancestral, firme como uma montanha antiga.

— A existência de um novo herdeiro da Casa Shiba e as irregularidades de seu fluxo espiritual são assuntos que a Central 46 certamente exigirá explicações em momento oportuno. No entanto, este conselho não deve esquecer quais são as suas prioridades no momento.

Ele varreu o salão com um olhar severo que fez até mesmo Kurotsuchi Mayuri morder o lábio, embora contrariado.

— O traidor Aizen Sōsuke e seus cúmplices continuam foragidos no Hueco Mundo. A reestruturação das divisões e a segurança da Soul Society são a nossa urgência absoluta neste dia. Não desviaremos nossa atenção principal para disputas domésticas no Rukongai enquanto a fundação da própria Sociedade das Almas estiver sob ameaça externa.

Então Yamamoto voltou sua atenção diretamente para a capitã da 2ª Divisão.

— Capitã Soi Fong. O Onmitsukidō manterá o monitoramento discreto da propriedade da Família Shiba. Nenhuma ação direta ou tentativa de custódia contra o indivíduo Shiba Sora deve ser realizada sem a minha ordem expressa ou uma diretriz assinada pela Central 46.

E Soi Fong engoliu em seco, curvando a cabeça em um ângulo perfeito de respeito militar.

— Perfeitamente claro, Comandante.

— Então esta reunião está encerrada, com a resolução do incidente de Shihōin Yūshirō Sakimune. Todos deverão retornar aos seus postos.


O ar nos distritos mais baixos do Rukongai Oeste sempre parecia carregar o cheiro de terra seca e desespero.

Sawachika corria com as pernas magras protestando, os pés descalços batendo contra as pedras pontiagudas do beco estreito.

Com os cabelos escuros cortados curtos e repicados, o corpo franzino e a forma grosseira de falar, qualquer um a confundiria com um dos tantos moleques de rua que viviam pelos últimos distritos, não fosse o quimono feminino surrado e remendado que insistia em escorregar pelos ombros estreitos.

— Pega a pirralha! Ela foi por ali!

Uma voz rouca e violenta ecoou à distância, seguida pelo som de passos pesados.

Sawa não olhou para trás. Apenas apertou os braços contra o peito com ainda mais força, protegendo o volume trêmulo escondido sob o tecido do quimono. O filhote de gato eriçou os pelos e soltou um miado abafado. Um pobre animal que tinha cometido o erro fatal de roubar um pedaço seco de carne da banca de alguém.

Eles iam matá-lo. Mas Sawachika simplesmente não conseguiu assistir.

Ela dobrou uma esquina às pressas, a visão turva pelo suor. Foi quando o impacto aconteceu.

Sawa colidiu de frente com um garoto ligeiramente menor que ela, que certamente vinha correndo sem olhar para onde ia. O choque jogou os dois no chão poeirento. O gatinho soltou um guincho assustado dentro do quimono e Sawa instintivamente rolou para o lado para não esmagá-lo.

— Ei!

Resmungou o garoto, limpando o nariz sujo de fuligem.

Se parecia um pouco com ela, exceto pelo fato de ter cabelos completamente pretos e um par de olhos verdes e atentos que ajudavam a exalar uma hiperatividade quase elétrica.

Sawachika tentou se levantar rapidamente, ouvindo os passos dos perseguidores dobrarem a esquina do beco.

— Eles estão vindo...

Sussurrou em pânico.

O garoto não fez perguntas. Ao ver o medo nos olhos dela e o pequeno focinho felino espiando pelo tecido maltrapilho, ele apontou para um vão estreito entre duas cabanas de madeira podre.

— Por aqui! Rápido!

E eles se espremeram ali, encolhendo os corpos.

Mas havia um problema grave: o garoto por algum motivo provocada uma pressão no ar impossível de ser ignorada. A energia espiritual dele era um fluxo bruto, instável e barulhento, que vibrava no ar como um zumbido constante. Para homens acostumados a caçar nos distritos baixos, aquela assinatura espiritual gritante certamente era como uma trilha de sangue.

Os três bandidos pararam exatamente diante do vão entre as cabanas.

O líder, um homem alto com uma cicatriz no queixo, abriu um sorriso cruel ao notar a oscilação no ar.

— Ora, ora... Achamos a ladra de gatos e um brinde. Saiam daí antes que a gente quebre as pernas de vocês dois!

Ela encolheu-se contra a parede de madeira, o coração disparado e os braços recusando-se a ceder, enquanto o menino dava um passo à frente, tentando parecer ameaçador apesar do tamanho diminuto.

Os homens ergueram os pedaços de pau, encurralando as duas crianças, até que...

BRUUUUUUMMMMM!

Um estrondo repentino fez a terra tremer.

Antes que os bandidos pudessem reagir, uma nuvem colossal de poeira engoliu a entrada do beco, acompanhada pelo som de cascos pesados esmagando o chão e gritos de guerra desafinados.

— SAIAM DA FRENTE DOS GUERREIROS DE JAVALI!

Ecoou uma voz.

De dentro da fumaça, montado no topo de um javali enorme e visivelmente irritado, surgiu um rapaz. Atrás dele, mais garotos montados em montarias igualmente suínas e barulhentas avançaram como uma força de demolição. O javali-líder, que usava um enorme laço vermelho — o que devia indicar que era um fêmea — avançou direto contra o homem com a cicatriz, jogando-o contra um monte de caixas de madeira com um impacto seco.

Os outros dois bandidos mal tiveram tempo de berrar antes de serem caçados pelos outros javalis e seus respectivos cavaleiros, batendo em retirada pelo beco enquanto imploravam para não serem pisoteados.

Quando finalmente voltou a baixar, o rapaz desceu do javali-líder com um salto acrobático ligeiramente desajeitado, ajeitou a faixa na testa e cruzou os braços, bufando de irritação enquanto olhava para a fresta entre as cabanas.

— SORA!! Eu já falei mil vezes para não fugir de mim! A neesan vai me pendurar no teto se você sumir de novo!!!

Então ele parou, notando finalmente a garota maltrapilha e o gato.

— E... Quem é essa aí?

O garoto que se chamava Sora abriu um sorriso enorme, a energia espiritual instável voltando a oscilar com entusiasmo, completamente alheio ao perigo que acabara de passar. Ele olhou para Sawachika, que ainda processava o resgate caótico.

— Viu só? Eu disse que ia dar certo!

Exclamou, apontando para o suposto irmão mais velho.

— Esse é o Ganju! E eu sou o Sora! Como se chama?

Ela demorou a responder, olhando do filhote de gato para o garoto elétrico e o adolescente com o javali. Então afrouxou o aperto no quimono, agora respirando aliviada.

— Sawachika.

...

A sensação dos cascos dos javalis esmagando o chão e o eco do nome "Sora" dissiparam-se lentamente, como fumaça que sobe ao céu.

O peso dos anos seguintes cobrou o seu preço no instante em que as pálpebras de de Sawa tremeram, trazendo-a de volta ao presente.

Não havia mais o beco poeirento. Não havia o filhote de gato trêmulo em seus braços.

— Sawachika-kun.

O chamado firme e grave cortou a última névoa do devaneio. Ela piscou, os grandes olhos castanhos, cujos contornos perfeitamente desenhados costumavam render comparações com os traços dos olhos de uma gueixa, focaram no ambiente ao redor.

Ela não era mais a menina magricela e maltrapilha da periferia. Agora, com uma aparência muito melhor cuidada, mantinha os cabelos castanhos longos e presos em um rabo-de-cavalo alto e firme, deixando apenas a franja repicada cair ligeiramente desalinhada sobre as sobrancelhas.

O quimono que vestia, inteiramente preto com detalhes em roxo escuro nas costuras, remetia deliberadamente à silhueta de um shihakusho, complementado pelas braçadeiras firmes que cobriam seus antebraços até o dorso das mãos.

A postura era a de uma espadachim moldada pela Divisão Oeste.

Diante dela estava o homem que obedecia. Morida Hyōsuke. General do Rukongai Oeste. O homem cuja própria presença física justificava o título atrelado à região Oeste. Havia algo de predatório, mas contido, na forma como ele se movia. Uma imponência felina que fazia jus ao nome que carregava.

— Morida-sensei.

Sawachika endireitou os ombros e prestou a devida reverência.

— O pátio dos Shiba foi invadido pela Capitã da 2ª Divisão da Gotei 13.

Hyōsuke começou, a voz calma dispensando preâmbulos. Então ele deu mais um passo à frente, os olhos fixos nela.

— A essa altura, ela já cruzou os muros da Seireitei com o herdeiro dos Shihōin.

Sawa manteve o olhar atento, percebendo o tom de gravidade incomum na voz do superior.

— A Gotei 13 logo menos estará com os olhos voltados para nós e é por isso que você irá se mover agora.

A sua primeira missão de infiltração direta no perímetro dos Shinigami...

Ele deu um passo a mais, a pressão de sua presença tornando-se ainda mais palpável.

— Você vai coletar informações sobre a última movimentação da Seireitei em nosso território e irá destruir todo o resto, o que significa que estará chegando mais perto dela do que qualquer um de nós. Se for pega, as leis da Seireitei não se aplicarão a você como a uma alma comum, então tome cuidado.

Ela cerrou discretamente os punhos sob as braçadeiras de tecido grosso, mas não estava com medo.

— Entendido. Partirei imediatamente.