O relatório repousava aberto sobre a mesa de metal polido.

O silêncio do Gijutsukaihatsu Kyoku* era interrompido apenas pelo riscar constante de uma caneta sobre papel e pelo zumbido grave dos monitores espirituais ao fundo.

Kurotsuchi Mayuri não parecia interessado na narrativa dos acontecimentos políticos que faziam o Conselho dos Capitães tremer. Seus olhos dourados, frios e cirúrgicos, percorriam exclusivamente os dados brutos.

Ele ignorava os termos "novo membro da família Shiba" e "filho de Shiba Kūkaku", deslizando as unhas longas sobre as páginas sem dar a mínima para a linhagem caída da nobreza.

Sua mão parou no terço inferior da terceira folha.

"...energia espiritual fragmentada e dispersa..."

Mayuri parou. Lêu de novo. E então mais uma vez.

O capitão da 12ª Divisão inclinou a cabeça levemente, soltando um ruído baixo na garganta. Não era algo teatral para impressionar os subordinados; era uma vocalização íntima, quase involuntária.

— Fragmentada...

Murmurou, folheando a página seguinte.

— Dispersa...

Mais uma página.

— Drenada continuamente.

O silêncio retornou ao laboratório. Mayuri batia a ponta do dedo indicador ritmicamente contra a superfície da mesa metálica.

— E, ainda assim...

A boca pintada curvou-se nos cantos.

Viva.

Akon, que permanecia a dois passos de distância ajustando as leituras de um visor portátil, ergueu os olhos sem alterar a expressão apática.

— Presidente... Acredita que o objeto esteja mantendo essa alma artificialmente estável?

Mayuri nem respondeu de imediato. Levantou-se da cadeira com um roçar ruidoso de tecido e caminhou até a grande lousa de vidro no centro da sala. Pegou o giz e desenhou rapidamente um círculo perfeito. Logo ao lado, desenhou outro. Ligou os dois por uma linha reta e firme.

— Errado.

Ele fez um risco rápido cortando a linha.

— Se fosse apenas um recipiente...

Outro risco, estilhaçando a forma geométrica.

— ...ela já teria rompido sob a própria pressão interna.

Silêncio. E então Mayuri abaixou a mão, a ponta do giz tocando o centro do primeiro círculo.

— O objeto não contém a alma...

Ele faz uma pausa.

— Ele conversa com ela.

Akon piscou, o ritmo de suas anotações desacelerando por um milésimo de segundo. As ramificações de uma interação bilateral entre um amuleto e um fluxo espiritual desordenado abriam portas que a 12ª Divisão jamais havia catalogado.

Mayuri virou-se de costas para a lousa, a ordem saindo curta e cortante:

— Akon, selecione oito pesquisadores.

Akon prontamente anotou no dispositivo.

— Instrumentação portátil. Três barreiras de observação. Sensores passivos. Nada de contato direto.

— Entendido — confirmou o assistente. — Devemos abordar Shiba Sora se o indivíduo deixar o perímetro da propriedade?

Mayuri olhou para ele por cima do ombro, os olhos fixos como se tivesse acabado de ouvir uma estupidez sem precedentes.

— Claro que não.

Ele fechou o relatório copiado de Soi Fong com um estalo seco.

— Vamos observar um fenômeno.


Uma mudança brusca.

Nada de metal, luzes esterilizadas ou telas flutuantes. Apenas vento, madeira podre e árvores antigas.

Nos limites externos do 80º Distrito do Rukongai Ocidental, o ar úmido da tarde trazia o cheiro de folha queimada e terra batida. Um acampamento improvisado começava a tomar forma na clareira fechada pela vegetação densa.

— Nunca pensei que o Presidente nos mandaria para os últimos distritos.

Reclamou um dos pesquisadores da 12ª Divisão, ajustando as tiras de couro de uma caixa de transporte pesada.

— Esse lugar cheira a mofo.

— Reclame menos e feche o circuito.

Respondeu o segundo, ajoelhado junto às raízes de um carvalho secular, enterrando pequenos bastões metálicos dotados de cristais de sekkiseki** na terra úmida.

A operação era cirúrgica e extremamente organizada. Dispositivos de rastreamento passivo eram cravados no solo; outros, camuflados nos galhos altos. Um terceiro Shinigami desenhava selos invisíveis de isolamento no ar para garantir que a presença da equipe não fosse notada pelas almas locais.

Até que pequenas anomalias começaram a acontecer.

Bip.

O pesquisador junto à mesa de mapas olhou para o monitor preso ao pulso. O indicador do sensor número quatro havia oscilado. Nenhuma leitura de reiatsu anormal. Apenas um solavanco de frequência.

Ele piscou, ajustou o mostrador e continuou o trabalho.

Alguns minutos se passaram.

Bip.

Agora no sensor instalado a cinquenta metros ao norte. Uma assinatura extremamente fraca. Tão sutil que parecia o roçar de um inseto espiritual na barreira. Apenas um segundo... e desapareceu.

— Estranho...

Murmurou o homem, ajeitando os óculos.

— Algum animal?

Perguntou o colega, sem interromper a calibração de um receptor de freqüência.

— Talvez... Algum cão selvagem do distrito baixo.

Voltaram ao trabalho.

Mais dez minutos e outro sensor ativou. Desta vez, dois ao mesmo tempo — em direções diametralmente opostas. A leitura durou a fração de um piscar de olhos antes de evaporar completamente no ar calmo da mata.

O primeiro pesquisador parou de digitar. Um calafrio incômodo desceu por sua nuca.

— Não gosto disso.

O colega soltou uma risada curta, empurrando o equipamento para o centro da mesa.

— Você está vendo coisas. O Rukongai Oeste é um deserto de indigentes, não há nada aqui que...

...

Na mata densa, o silêncio era absoluto.

Nenhuma folha se movia fora do ritmo do vento. Nenhum galho estalava. Entre as sombras copiosas de dois galhos trançados, a dez metros acima do solo, um par de olhos castanhos observava a movimentação no acampamento. Os contornos marcados e atentos acompanhavam cada movimento dos homens de branco.

A garota fechou os olhos por um segundo e expirou o ar de seus pulmões de forma lenta, contínua. A pouca assinatura espiritual que seu corpo emitia evaporou completamente. Ela tornou-se apenas mais uma sombra entre as árvores.

Mais adiante, o ar oscilou. Dois vultos trajando quimonos escuros moveram-se pela copa das árvores sem produzir um único ruído. Depois três. A comunicação entre eles não utilizava palavras; apenas sinais discretos com os dedos no ar. Tão rápido quanto surgiram, eles se desdobraram pela periferia do acampamento, cercando os limites do perímetro.

...

O pesquisador finalmente sentiu o peso do ambiente.

— Esperem...

Ele ergueu a mão, encarando o painel totalmente apagado. Levantou a cabeça devagar, a garganta seca.

— Alguém está...

THUNK!

Uma adaga de lâmina curva e fosca atravessou o mapa de couro preso à mesa de madeira, cravando-se até a metade do cabo a milímetros dos dedos do pesquisador.

Ninguém foi atingido. Apenas o mapa fora perfurado.

Silêncio absoluto.

Amarrado ao pomo da arma, um pedaço de tecido negro tremulava com o vento. Sem brasões. Sem símbolos da nobreza. Sem divisões.

— Invasores!

Gritou um dos Shinigami, a mão disparando para a bainha da Zanpakutō.

Os oito homens puxaram suas lâminas seladas em sincronia, assumindo posturas de combate defensivas. Mas já era tarde demais.

Uma a uma, sem o som de incantações de Kidō ou explosões de energia, as lanternas espirituais dispostas ao redor do acampamento apagaram-se. Não por falha técnica, mas como se uma presença invisível estivesse simplesmente caminhando entre elas e cortando seus fluxos de ar com a ponta de uma lâmina.

A escuridão da mata avançou sobre o pequeno perímetro iluminado.

Então, vinda do alto da copa das árvores, surgiu uma voz. Calma. Ritmada. Sem qualquer tom de hesitação ou raiva:

— A Divisão Oeste não permitirá postos avançados da Seireitei em território do Rukongai.

O silêncio engoliu o acampamento novamente. Os pesquisadores giraram sobre os próprios calcanhares, tentando localizar a origem do som, mas o vento parecia mover a voz para todas as direções ao mesmo tempo.

— Recolham seus equipamentos...

Um passo leve soou sobre a grama úmida. Da penumbra das árvores, a silhueta feminina emergiu devagar. Os cabelos castanhos presos firmemente em um rabo-de-cavalo alto, as braçadeiras escuras cobrindo os antebraços e uma katana parcialmente embainhada na lateral do corpo.

— ...ou nós faremos isso por vocês.

Apenas o som de metal colidindo e gritos abafados cortou a noite nos minutos seguintes.

A luta não durou. Não era um duelo de esgrimistas; era uma varredura tática efetuada por agentes que conheciam cada raiz e cada declive daquela terra.


Nos corredores frios do Instituto de Pesquisa e Tecnologia na Seireitei, as portas duplas do laboratório de Mayuri se abriram.

Um dos pesquisadores enviados à missão cambaleou para dentro, a roupa branca rasgada e manchada de fuligem, o ombro esquerdo ensanguentado. Ele segurava contra o peito apenas um pedaço de papel parcialmente queimado e amassado.

Akon interceptou o homem antes que ele caísse no chão, pegando o documento de suas mãos trêmulas e entregando-o diretamente ao Presidente do Instituto.

Mayuri pegou o papel rasgado. O texto continha apenas uma frase escrita às pressas sob o impacto do ataque:

"Não era um único alvo. Há uma organização no Rukongai."

Kurotsuchi Mayuri encarou o papel amassado por longos segundos. Lentamente, a boca pintada abriu-se em um sorriso largo e perturbador — o primeiro sorriso real em dias.

Ele não estava irritado pela perda do equipamento ou de seus subordinados. Pelo contrário: sua hipótese inicial acabara de se provar pequena demais para a realidade.

Omoshiroi...

Murmurou Mayuri, a voz grave vibrando no silêncio do laboratório.

— Então, não é apenas um Shiba.

E ele pegou o relatório original de Soi Fong sobre a mesa o fechando com um único movimento definitivo. Nemu, pouco atrás dele, moveu-se minimamente.

— Não encontrei um espécime. Encontrei um hábitat.

Notas finais
*技術開発局, é o Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento dos Shinigami. **殺気石, literalmente "Pedra da Intenção Assassina", é um dos minerais mais raros, perigosos e estrategicamente valiosos da Soul Society. Sua estrutura possui propriedades que bloqueiam e repelem a energia espiritual (霊力 "reiryoku"), razão pela qual é utilizada na construção de locais de contenção máxima. A gigantesca muralha branca que circunda todo o Seireitei e a Cela de Arrependimento (懺罪宮 "Senzaikyū"), onde Rukia permaneceu presa antes de sua execução, são feitas desse material.