When the Strawberry meets the Sky
24 Borderline
O relatório chegou à 1ª Divisão antes do nascer completo do sol.
Não havia marcas de sangue sobre o documento, tampouco pedidos de socorro escritos às pressas. O texto era objetivo, frio e excessivamente técnico, como praticamente tudo o que saía dos laboratórios do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento da Seireitei:
“Unidade de Monitoramento Avançado — Rukongai Oeste
Oito pesquisadores destacados para monitoramento passivo.
Equipamentos de medição spiritual-espacial parcialmente destruídos.
Perímetro tático comprometido.
Contato direto com grupo armado não catalogado.
Três feridos em estado não grave.
Nenhuma baixa registrada.
Autenticação:
12ª Divisão — Capitão Kurotsuchi Mayuri.”
A tinta negra, seca há poucas horas, exalava o aroma metálico característico dos reagentes de preservação que Mayuri impunha aos seus documentos. Sobre a pesada mesa de madeira de carvalho centenário do Quartel-General, o papel parecia quase insignificante diante da vastidão silenciosa do recinto.
O silêncio durou apenas alguns segundos, espesso e carregado pela presença esmagadora que sempre habitava a sala do Comandante-Geral.
Sasakibe Chōjirō deu metade de um passo à frente, ajustando os punhos do seu uniforme tradicional antes de erguer discretamente os olhos em direção à figura monumental postada diante da janela central.
— Devemos convocar o Capitão Kurotsuchi?
Yamamoto Genryūsai permaneceu imóvel. Seus olhos permaneciam fechados, a barba alva caindo reta como uma tapeçaria sobre a túnica. O peso do milênio parecia condensado no ar ao seu redor, tão denso que a própria névoa matutina vinda dos jardins recusava-se a entrar pela abertura da sacada.
— Já o fez?
A voz de Yamamoto não rugiu, ecoou como pedra sobre pedra, raspando no fundo da garganta com uma autoridade que prescindia de volume.
— Sim.
Respondeu Sasakibe, curvo e solícito.
E como se tivesse sido chamado pelo próprio comentário — ou talvez simplesmente porque apreciava quebrar a liturgia solene do lugar —, o som de engrenagens de madeira e o deslizar seco da porta de correr cortaram a atmosfera.
— Ah...
A voz arrastada e anasalada de Mayuri atravessou a sala antes mesmo que o contorno grotesco de seu ornamento de cabeça despontasse no limiar da porta. Ele caminhava com passos curtos e calculados, as solas de suas sandálias estalando levemente contra o assoalho polido.
— Então já receberam meu relatório.
Nenhum pedido de desculpas pelo atraso. Nenhuma reverência formal ao homem que liderava a Gotei 13 desde a sua fundação. Apenas a curiosidade quase infantil e desapegada de um cientista observando espécimes em uma placa de Petri.
Yamamoto não se virou imediatamente. Abriu apenas um dos olhos, a íris escura e severa fixando-se no capitão da 12ª Divisão.
— Capitão Kurotsuchi. Houve um ataque contra pesquisadores sob seu comando.
— Houve.
Mayuri respondeu sem hesitação, virando a cabeça em um ângulo não totalmente natural para inspecionar um frasco de amostra entre os dedos pintados de branco.
— Pretende responder?
Mayuri parou. Inclinou levemente a cabeça, a luz do amanhecer batendo contra o metal reluzente de sua prótese auricular e a tinta branca que cobria sua face.
— Responder...?
Um sorriso lento, retorcido e desprovido de qualquer calor humano rasgou os lábios pintados por baixo da máscara.
— Mas eu acabei de receber uma resposta.
Um silêncio pesado instalou-se imediatamente na sala. Sasakibe franziu discretamente o cenho, a mão repousando com mais firmeza sobre o punho de sua Zanpakutō. A insolência tática de Mayuri era bem conhecida, mas falar em enigmas diante do Comandante-Geral flertava perigosamente com a insubordinação.
Mayuri continuou, dando dois passos lentos para o lado, o sobretudo branco de seu uniforme balançando suavemente:
— Minhas cobaias... digo, meus pesquisadores, foram interceptados com uma precisão quase matemática no Rukongai Oeste. Não por uma turba de almas desesperadas ou por rebeldes sem rumo.
Ergueu um dedo longo e de unha proeminente.
— Hierarquia.
Ergueu o segundo dedo.
— Coordenação.
Mais um, estalando a articulação.
— Disciplina suficiente para executar uma operação silenciosa, desarmar sensores da 12ª Divisão e despachar três dos meus homens sem causar fatalidades desnecessárias. Eles não quiseram matar. Quiseram estabelecer um limite territorial.
O sorriso do Capitão da 12ª Divisão abriu-se ainda mais, revelando dentes impecavelmente brancos e alinhados.
— Confesso que minhas expectativas para aquele lugar miserável foram superadas.
O som ecoou seco e definitivo.
TAK.
Yamamoto bateu a extremidade inferior do seu cajado de madeira que ocultava a lâmina mais devastadora da Soul Society contra o assoalho. A onda de choque espiritual foi sutil, mas o suficiente para fazer a maquiagem no rosto de Mayuri parecer tremer sob a pressão repentina.
— Capitão Kurotsuchi.
A única chamada bastou. Não houve alteração no tom de voz, mas a temperatura da sala pareceu subir instantaneamente três ou quatro graus. O sorriso de Mayuri diminuiu alguns milímetros, seus olhos estreitando-se sob a moldura do teto de sua máscara.
— Não confunda uma coleta de dados bem-sucedida com uma autorização para ignorar um ataque contra oficiais da Gotei 13. O Rukongai Oeste permanece sob a jurisdição da Seireitei.
Mayuri deu de ombros, um gesto de aparente indiferença que escondia a plena consciência do perigo que o velho à sua frente representava.
— Não pretendo enviar outra equipe.
Declarou o Shinigami cientista, com a voz caindo para uma aridez quase monótona.
— O monitoramento passivo concluiu a fase preliminar. Eles já obtiveram tudo o que eu precisava. A leitura de massa espiritual daquela anomalia e a confirmação do cordão de isolamento local já estão processadas.
Outro breve silêncio pairou.
O Comandante-Geral não questionou os métodos ou as intenções veladas de Mayuri em relação àquele "elemento novo" do Rukongai, pois Yamamoto conhecia a natureza da 12ª Divisão. Sabia onde a ciência terminava e onde a ambição pessoal de Kurotsuchi começava.
Devagar, o velho Genryūsai virou o corpo inteiro, encarando o seu Tenente.
— Informe o Capitão Zaraki.
Mayuri arqueou uma sobrancelha oculta sob a maquiagem, o interesse brilhando novamente por trás de suas lentes.
— A 11ª?
Yamamoto não respondeu ao Capitão da 12ª Divisão, mantendo os olhos cravados em Sasakibe, que já curvava a cabeça em sinal de obediência.
— Se há indivíduos armados operando sob uma estrutura militar e impedindo deliberadamente operações da Gotei 13 dentro das fronteiras da própria Soul Society...
A voz do Comandante-Geral permaneceu inabalável, fria e inescapável como uma sentença antiga:
— A 11ª Divisão se encarregará de verificar do que são capazes.
A notícia chegou à 11ª Divisão como quase todas as notícias realmente importantes chegavam àquele quartel: através de alguém interrompendo um treino.
O pátio principal de cascalho batido cheirava a suor, ferro e à poeira fina levantada pelo choque incessante de aço contra aço. O estrondo de dois bokken colidindo em velocidade brutal ecoou contra os muros de pedra no exato instante em que um mensageiro da 1ª Divisão, visivelmente hesitante, atravessou o portão lateral.
— Capitão Zaraki!
O Kenpachi sequer olhou.
Seu corpanzil estava curvado para a frente, o peso do torso pressionando o adversário infeliz — um oficial de assento intermediário — contra a terra batida com um sorriso abertamente selvagem no rosto. A “lâmina” de sua espada de madeira empurrava a guarda do homem, fazendo os dentes do subordinado rangerem de puro pânico.
— Que foi?
A voz de Zaraki saiu num grunhido rouco, sem liberar o oficial do peso.
— Ordem... ordem direta da 1ª Divisão!
O mensageiro ergueu o pergaminho com a mão levemente trêmula.
Agora ele parou. A pressão esmagadora de sua reiatsu diminuiu apenas o suficiente para o oficial no chão conseguir puxar o ar de volta para os pulmões. O sorriso de Zaraki, no entanto, permaneceu cravado em seu rosto marcado por cicatrizes.
— Hãa?
Kenpachi soltou o homem, que ruiu na poeira, e deu três passos pesados em direção ao recém-chegado, pegou o pergaminho sem qualquer delicadeza e o abriu apenas o bastante para passar o olho único sobre as primeiras linhas.
“Grupo armado... Rukongai Oeste... Pesquisadores atacados... Sem baixas mortais...”
Ele soltou uma gargalhada curta e seca, um som estalado que fez os pássaros dos telhados próximos voarem.
— Pesquisadores...
Ele dobrou o pergaminho ao meio com uma única mão, amassando levemente as bordas do papel oficial.
— Mandaram cientistas para fazer um trabalho de campo. Queriam o quê?
Atrás dele, antes mesmo que a poeira baixasse totalmente, o cabelo rosa de Yachiru surgiu. Ela balançava as pernas com entusiasmo infantil sobre os ombros largos do capitão, segurando-se nas pontas do cabelo dele como quem se segura no selim de uma montaria.
— Ken-chan!
Ela exclamou, abrindo um sorriso enorme que ia de orelha a orelha.
— Tem briga?
— Parece que sim.
Respondeu, o brilho de antecipação voltando aos seus olhos.
— Ebaaa!
Yachiru deu dois tapinhas na cabeça dele.
— Vai ter bagunça no Rukongai!
Zaraki virou-se devagar para a multidão de oficiais que havia parado o treino para assistir. Ele nem precisou procurar muito entre a fumaça de poeira.
— Ikkaku.
O terceiro oficial, que até então estava encostado numa pilastra de madeira limpando a cera de sua Hōzukimaru, ergueu imediatamente a cabeça. Os olhos afiados sob a sombra vermelha brilharam de prontidão.
— Sim, Capitão!
— Vai lá descobrir quem anda batendo nos quatro-olhos do Kurotsuchi.
E Ikkaku deu um passo à frente, abrindo um sorriso largo e perigoso que lembrava em quase tudo a expressão do seu próprio capitão.
— Finalmente uma missão decente! Já tava ficando mofado de tanto quebrar os dentes dos recrutas aqui. Que falta faz o Kurosaki!
Kenpachi então desviou o olhar para o canto oposto do pátio, onde a única figura que não cheirava a suor excessivo observava a cena.
— Yumichika.
— Sim, Capitão?
Ele ajeitou a manga de seu uniforme decorado, dando um passo elegante à frente antes de suspirar de forma abertamente teatral.
— Sempre sobra para mim acompanhar um brutamontes...
Ikkaku bufou, virando o pescoço com um estalo alto.
— Tá reclamando por quê, Yumichika? Você se diverte...
— Porque, inevitavelmente, serei eu quem terá de explicar às pessoas do Rukongai que você não resolve absolutamente tudo na base da pancada.
— Eu resolvo, sim.
Retrucou Ikkaku, ajustando a bainha na cintura com um bater de nós de dedos.
— Você acredita nisso. Há uma diferença sutil.
— Funciona. Toda vez.
Yumichika apenas puxou o leque preso à cintura e o fechou com um estalo seco e elegante de madeira.
— Se você diz...
Então Zaraki deu as costas para os dois, já caminhando de volta para o centro do campo de treino e chutando o oficial que ainda tentava se levantar do chão para que pegasse a espada novamente.
— Descubram quem são.
A voz dele ecoou por cima do ombro e ele fez uma breve pausa, o olho fixo no horizonte além dos muros da divisão.
— E tentem não matar ninguém antes de eu descobrir se vale a pena enfrentar pessoalmente.
O portão Oeste da Cidade dos Shinigami ficou para trás em menos de vinte minutos.
À medida que a vegetação limpa e as ruas organizadas da capital dos espíritos davam lugar às estradas de terra batida do Rukongai, a postura de Ikkaku mudou. A caminhada relaxada cedeu lugar a um passo cadenciado, os sentidos apurados para o vento que descia das colinas do Oeste.
Não era a primeira vez que ele ia ao Rukongai para resolver problemas, mas algo naquele relatório trazia um gosto diferente.
— Os quatro-olhos do Capitão Kurotsuchi não são atacados por qualquer canalha com um pedaço de madeira afiada...
Comentava Ikkaku, a voz baixa, os olhos varrendo as ramagens secas à beira da estrada.
— Os caras carregam armadilhas, venenos e sensores até nas solas das sandálias. Para alguém desarmar uma equipe de pesquisa inteira sem deixar um único morto...
— Requer disciplina.
Completou Yumichika, caminhando ao seu lado com a postura impecável de costume, embora o olhar atento traísse sua guarda levantada.
— Um bando de arruaceiros teria chacinado todos para roubar o equipamento ou teria fugido na primeira ameaça. Quem quer que esteja controlando aquela área sabe exatamente o que está fazendo.
Ikkaku deu um sorriso de canto. A tintura vermelha ao redor de seus olhos parecia esticar-se com a expectativa.
Ele não se importava se eram disciplinados, se tinham uma hierarquia ou se se intitulavam protetores dos distritos. O que realmente fazia o sangue de Ikkaku pulsar mais rápido era a perspectiva da incerteza.
Os cientistas do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento lutavam com números, fórmulas e relatórios frios. A 11ª Divisão media a realidade no peso da lâmina e no calor da intenção de matar.
— Se for um bando de falastrões, eu mesmo me encarrego de dar uma lição.
Murmurou, a mão repousando suavemente sobre a haste de sua Zanpakutō.
— Mas, se houver alguém lá na frente que saiba empunhar uma espada de verdade...
Ele fez uma pausa, os olhos fixando-se no cume de uma colina à distância, onde a jurisdição informal daquele "grupo armado" começava a desenhar suas fronteiras.
— ...então a viagem já terá valido a pena.
Yumichika olhou para o companheiro e apenas balançou a cabeça com um sorriso contido. Ele sabia exatamente o que Ikkaku estava procurando.
E, ao longe, a brisa do Rukongai Oeste soprava com um cheiro diferente — não o cheiro da miséria comum dos distritos periféricos, mas o odor distinto de aço limpo, fogueiras controladas e vigias atentos.
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