When the Strawberry meets the Sky

2 The Strawberry doesn’t get days off


Ichigo não teve tempo de pensar.

Ele teve tempo de cair pela janela, sentir o vento bater no rosto e ouvir Kon berrando algo dramático sobre “me abandonar de novo”, mas, pensar mesmo? Não. A pressão espiritual estava espalhada pela cidade como cheiro de queimado. Não era um Hollow. E também não era exatamente organizado.

Era bagunçado. Instável. Como se alguém tivesse aberto a porta errada e deixado coisa demais escapar.

— Ótimo… — Ichigo murmurou, já em forma de Shinigami, Zangetsu pesando nas costas. — Segundo dia oficial de volta, e já tem fila.

O emblema ainda vibrava na mão dele, mas agora o som tinha mudado. Não era mais o grito desesperado. Eram… Pulsos. Pequenas vibrações direcionais. Ele virou o pulso e a vibração ficou mais intensa. Virou para o outro lado e ela ficou mais fraca.

Ichigo parou.

— Ah.

O emblema não era só um alarme, era uma bússola.

— Claro que é — ele resmungou. — Porque minha vida não pode ser simples.

Ele saltou entre prédios. A cidade parecia a mesma. Luzes acesas, pessoas atravessando ruas, carros passando, ninguém olhando para cima. Mas ele sentia aquele gosto metálico no ar.

Quando ele alcançou o primeiro Hollow, percebeu outra coisa: ele não estava procurando, ele já sabia onde estava. O emblema vibrava antes mesmo de o Hollow aparecer completamente.

— Então, você detecta antes… — Ichigo murmurou.

O Hollow avançou.

Instinto.

Um único golpe.

Purificação.

Silêncio.

E o emblema parou de vibrar.

Ichigo ficou parado no telhado por alguns segundos. O celular da Rukia fazia exatamente isso. Ela sempre sabia onde ir. Agora ele sabia.

— Então é isso. — Ele respirou fundo. — Não acabou.

Ele não tinha sido “liberado do serviço”, ele tinha sido promovido. Sem treinamento formal, sem manual de instruções e sem salário.

Ichigo bufou.

— Pelo menos, podia ter uma bonificação de risco.

O emblema vibrou de novo.

— Já vai...

E ele foi.


Três Hollows purificados. Uma corrida pelo centro. Um quase-acidente com um poste de luz. Ichigo pousou no telhado do Urahara Shop.

— Eu odeio quando a calmaria dura cinco minutos...

Ele desceu pela entrada lateral. A loja estava iluminada. Urahara estava sentado como se estivesse esperando porque, claro, ele estava.

— Ah, Kurosaki-san! Que visita agradável. Já testou o brinquedinho novo?

Ichigo levantou o emblema.

— Ele grita.

— É um design funcional.

— Ele parece uma gaivota sendo atropelada.

Urahara abanou o leque, divertido.

— Mas funciona, não funciona?

Ichigo ficou em silêncio por alguns segundos.

— Ele detecta antes.

— Sim.

— E aponta a direção.

— Sim.

— E não vai parar.

Urahara sorriu de leve.

— Não.

Silêncio.

A loja estava estranhamente quieta. Ururu e Jinta não estavam ali. Tessai provavelmente organizava alguma coisa no fundo. Ichigo deu alguns passos para dentro.

— Então, é isso? — ele perguntou. — Eu sou oficialmente “o cara de Karakura” agora?

— Você sempre foi.

— Não oficialmente.

Urahara inclinou a cabeça.

— E isso muda algo?

Ichigo apertou o emblema.

— Muda quando você descobre que ninguém pretendia te contar.

O leque parou no ar.

Ah... Ali estava. Urahara fechou o leque lentamente.

— Estamos falando do Hōgyoku, imagino.

Ichigo cruzou os braços.

— Eu fui atrás de Aizen. Lutei contra capitães, fui quase executado junto com a Rukia, e você achou que eu não precisava saber o que estava no centro de tudo isso.

Urahara não respondeu de imediato, mas o sorriso dele não desapareceu, só ficou menor.

— Eu não achei que você não merecia saber — ele disse, calmo. — Eu achei que você não precisava carregar aquilo.

Ichigo deu uma risada seca.

— Eu já estava carregando!

— Não a peça inteira.

— Você decidiu isso por mim.

Silêncio de novo.

Urahara andou até o balcão e apoiou as mãos ali.

— Você acha que eu subestimei você?

Ichigo não respondeu na hora porque a resposta não era simples.

— Eu acho que você me tratou como… — ele hesitou — …Como se eu fosse um moleque que só precisava brincar com uma espada maneira!

Urahara o observou por cima do leque.

— Você é um adolescente que balança uma espada gigantesca contra entidades sobrenaturais.

— Esse não é o ponto!

— É exatamente o ponto.

Ichigo respirou fundo. Ele odiava quando Urahara parecia calmo demais.

— Eu podia ter morrido sem saber!

— Você quase morreu sabendo de metade.

— Não é engraçado!

Urahara suspirou.

— Kurosaki-san… O Hōgyoku não é algo que se explica com um “aliás, boa sorte”. Ele é uma distorção. Um catalisador. Um erro meu.

Ichigo piscou.

“Erro”.

Não “criação brilhante”.

“Erro”.

— Eu não queria que você lutasse por causa dele. Eu queria que você lutasse por aquilo que já estava lutando.

Ichigo ficou parado. Porque isso… Era diferente.

— Você achou que, se eu soubesse, eu ia… O quê? Mudar? Talvez fugir?

— Eu achei que você ia carregar algo que não precisava carregar.

— Eu já carrego tudo!

O emblema vibrou levemente na mão dele, como se concordasse. Urahara olhou para o objeto.

— E continuará carregando.

Ichigo seguiu o olhar.

— Ele funciona como o celular da Rukia...

— Exatamente.

— Então ela não vai voltar para isso.

— Não.

Ichigo não percebeu quando relaxou os ombros. Talvez uma parte dele ainda estivesse esperando que aquilo fosse temporário.

Mas não era.

— Você sabia que ele também aponta direção?

— Eu fiz questão de incluir essa melhoria.

— Então eu não tenho desculpa pra errar o caminho.

— Nunca teve.

Ichigo revirou os olhos.

— Você gosta disso, né? Ficar um passo à frente.

— É confortável.

— É irritante!

Urahara sorriu de novo, mas dessa vez foi mais sincero.

— Você queria que eu pedisse desculpas?

Ichigo hesitou. Ele queria?

Talvez.

Mas só queria mesmo que alguém admitisse que ele não era mais “o garoto que precisava ser poupado”.

— Eu queria que você tivesse confiado em mim.

O silêncio que se seguiu foi mais pesado.

Urahara fechou os olhos por um instante.

— Eu confiei.

Ichigo franziu a testa.

— Confiei que você faria o que precisava ser feito, que protegeria seus amigos e que não desistiria.

Então, ele abriu os olhos.

— Mas eu não confiei que você deveria carregar o meu erro.

Ichigo ficou parado. O ar da loja parecia mais denso.

— Você não é responsável pelo Hōgyoku — Urahara continuou. — Eu sou.

— E Aizen.

— Sim. Mas fui eu quem o criou.

Ichigo nunca tinha ouvido aquilo naquele tom. Sem humor, sem leveza. Só responsabilidade.

— Eu não queria que você fosse arrastado por algo que nasceu da minha arrogância.

Ichigo soltou o ar devagar.

— Você devia ter me contado...

— Talvez.

— Isso não é uma resposta.

— É a única honesta.

Ichigo encarou o chão por um segundo. Então, levantou a cabeça.

— Eu não sou frágil.

— Eu sei.

— E eu não preciso ser protegido de tudo.

— Eu sei.

— Então para de agir como se eu fosse quebrar!

Urahara inclinou levemente a cabeça.

— Muito bem... — disse por fim, removendo o chapéu listrado da cabeça e o levando ao próprio peito enquanto abaixava a cabeça em um suave curvar do corpo para a frente — Eu sinto muito. De verdade.

O emblema vibrou mais forte. Ichigo suspirou.

— Ótimo. Mais um.

Ele começou a se virar.

— Kurosaki-san.

Ichigo parou.

— A calmaria pós-Soul Society não é calma.

— Eu percebi.

— Há movimentações. Silenciosas.

Ichigo estreitou os olhos.

— Que tipo de movimentações?

Urahara sorriu, misterioso, ao que recolocava o chapéu listrado sobre a cabeça.

— Do tipo que ainda não posso explicar.

Ichigo levantou a mão.

— Nem começa!

Urahara riu.

— Mas posso dizer uma coisa: você não está sendo observado como antes.

Ichigo sentiu um arrepio leve.

— Isso era pra me tranquilizar?

— Sim.

— Não funcionou.

Urahara fechou o leque.

— A Seireitei agora reconhece você oficialmente. Isso muda o tabuleiro.

Ichigo segurou o emblema com mais força.

— Eu não queria reconhecimento.

— Eu sei.

— Eu só queria que ela não tivesse quase morrido.

Urahara não comentou, porque ali não havia resposta técnica. Ichigo olhou para a porta.

— Eu ainda não terminei o trabalho da escola...

— Prioridades!

— Você acha engraçado?

— Um pouco.

Ichigo bufou.

— Eu volto.

— Volte sempre!

E Ichigo saltou para fora da loja.


A cidade parecia menor agora. Ou talvez ele estivesse maior. O emblema vibrava com menos intensidade. Ele já estava aprendendo o padrão. Curto = perto. Longo = mais distante. Frenético = múltiplos.

— Ótimo. Manual mental concluído.

Ele pousou no telhado da própria casa. A janela do quarto ainda estava aberta. Kon estava sentado na mesa, folheando o caderno.

— Ei! Não mexe nisso!!

— Eu estou revisando! Isso aqui precisa de mais drama, Ichigo!

Ichigo entrou pela janela.

— Eu já tenho drama suficiente!

Kon cruzou os bracinhos de pelúcia.

— Você discutiu com o homem de chapéu, né?

Ichigo ficou em silêncio.

— Eu ouvi daqui.

— Você não estava lá.

— Mas senti o clima pesado.

Ichigo tirou Zangetsu das costas e a encostou na parede.

— Ele disse que tentou me proteger.

— Adultos adoram isso.

Ichigo sentou na cadeira.

— Eu não preciso disso.

Kon inclinou a cabeça.

— Talvez ele precise.

Ichigo olhou para ele.

— Como assim?

— Talvez ele precise proteger alguma coisa. Nem que seja você, Ichigo.

Ichigo abriu a boca para retrucar e fechou.

Droga.

Ele odiava quando o boneco dizia algo que fazia muito sentido. O emblema vibrou suavemente.

Ichigo suspirou.

— Isso não para, né?

Kon sorriu.

— Você queria que parasse?

Ichigo olhou para a cidade lá fora. Para o céu.

— Não.

E era verdade. Ele não queria voltar a ser o garoto que via fantasmas e fingia que estava tudo bem. Ele queria continuar. Mesmo cansado. Mesmo irritado. Mesmo sem todas as respostas.

Ele pegou a caneta, olhou para a última frase inacabada e escreveu:

“E talvez o herói não estivesse pronto. Mas a cidade não esperava.”

Kon assentiu, satisfeito. O emblema vibrou outra vez. Ichigo levantou.

— Tá. Último antes de dormir!

— Você disse isso três vezes hoje.

— Cala a boca

Ichigo apertou o emblema e o seu corpo humano caiu na cama. Ele então o ergueu e o fez engolir a bolinha para que Kon entrasse automaticamente nele, ajustando-se com um estalo satisfeito.

— Ahhh, conforto!

Agora, já em forma espiritual, Ichigo atravessou a janela de novo.

A noite respirava e Kurosaki Ichigo entendia, finalmente: ser Shinigami Substituto não era um capítulo. Era um estado permanente que, aparentemente, não vinha com férias inclusas.