When the Strawberry meets the Sky
14 The Cat has a brother?
O garoto que se chamava Sora não esperou por uma resposta. Ele apenas começou a andar. Sem olhar para trás, sem conferir se Yūshirō o acompanharia — como se aquilo já estivesse decidido desde antes de qualquer palavra ser dita.
Yūshirō hesitou por um instante. Não por dúvida, mas por cálculo. Ainda assim, deu o primeiro passo.
Os movimentos do outro eram estranhos. Não descuidados — longe disso —, mas livres demais. Os pés encontravam apoio sem esforço aparente, o corpo se ajustava ao espaço como se não houvesse necessidade de pensar sobre ele. Não havia rigidez, nem a contenção típica de alguém treinado para não errar. Ainda assim, não havia erro.
Yūshirō o seguia mantendo uma certa distância, observando. Foi quando Sora girou levemente o corpo para descer de um desnível no terreno que o tecido de suas costas se moveu com o vento, chamando a atenção dos olhos de Yūshirō por um instante nelas. Apenas um instante.
O padrão apareceu.
Um redemoinho. Simples, quase discreto. Mas... Inconfundível.
Yūshirō não parou, mas o seu passo seguinte não veio no mesmo ritmo. Aquilo... Não fazia sentido.
O olhar se manteve fixo por tempo demais para ser casual, analisando o tecido agora já novamente imóvel, como se o símbolo pudesse simplesmente não estar mais ali. Mas estava. E ele sabia que estava.
“Shiba...”
A palavra surgiu em sua mente sem esforço. Não como uma conclusão, mas como um reconhecimento. Yūshirō desviou o olhar, retomando o ritmo com precisão quase imediata, como se o atraso anterior jamais tivesse acontecido. Mas o pensamento não se desfez.
“Shiba.”
Até onde lhe constava, restavam apenas dois em toda a Soul Society: Shiba Kūkaku e Shiba Ganju. E nenhum dos dois se encaixava naquele garoto. Kūkaku por razões óbvias, e Ganju...
Yūshirō franziu levemente o cenho. Shiba Ganju não era... Definitivamente, ele não era um adolescente. A idade não condizia. Então, o que... Estava acontecendo ali?
O olhar voltou ao garoto à sua frente, agora com outro peso, outra intenção.
As roupas simples em tons pastéis — com exceção dos detalhes em verde escuro, como as faixas nos dois antebraços —, mas bem cuidadas. A postura despreocupada. O modo como se movia sem pedir espaço e, ao mesmo tempo, sem invadi-lo. Nada em Sora parecia nobre. E, ainda assim, o redemoinho dos Shiba estava lá, em suas costas.
— Tá acompanhando?
A voz veio sem aviso, arrancando o pensamento antes que ele pudesse se organizar completamente. Sora não havia parado nem diminuído o ritmo. Apenas inclinou levemente a cabeça, o suficiente para indicar que sabia que estava sendo seguido.
Yūshirō manteve a expressão neutra e respondeu apenas um:
— Estou.
— Hm!
Foi tudo o que veio em resposta.
Eles desceram para uma rua mais estreita, onde o fluxo de pessoas aumentava. Não havia ordem clara no movimento, mas também não havia caos. Era um tipo diferente de organização — uma que não seguia regras visíveis, mas ainda assim funcionava.
Alguém passou por Sora e o cumprimentou com um aceno leve, tratando-o por “Sora-kun”. Ele respondeu com outro aceno, igualmente simples. Sem formalidades, sem pausa. Mais à frente, uma mulher apoiada na entrada de um pequeno estabelecimento ergueu o olhar e disse:
— Sumido.
— É, eu estava por aí... — respondeu Sora com um sorriso na voz, mas ainda sem parar.
— Sempre está!
E ela fez um leve sorriso. Aquilo era relevante. Não havia anúncio de presença. Não havia troca formal de palavras. Mas havia reconhecimento sempre. Yūshirō desviou o olhar, absorvendo os detalhes sem interromper o passo e ouviu um:
— Você anda estranho!
A frase veio casual, como se fosse apenas mais uma observação qualquer.
— Estranho?
— É. Parece que espera ser atacado a qualquer momento! O Shitennō não vai mexer com você! Eles não agem assim, do nada.
Yūshirō não respondeu de imediato. Não porque não tivesse o que dizer, mas porque... Aquilo foi específico demais.
“Shitennō”.
— Hãa... Eu não estou esperando nada — disse, por fim, com uma voz firme e controlada, como deveria.
Sora soltou um leve som pelo nariz.
— Tá bom.
Simples. Direto. E já seguindo em frente.
— E você conhece bem eles, então? — Yūshirō continuou, ajustando o tom com cuidado, mas agora sem esconder completamente a curiosidade.
— Sim — respondeu Sora, dando de ombros. — Eles passam por aqui de vez em quando...
— “Passam”?
— É — ele inclinou levemente a cabeça, como se procurasse uma forma simples de explicar. — Tipo ronda. Só que sem aquele jeito autoritário de Shinigami.
Yūshirō franziu o cenho.
— Este é o trabalho da 7ª Divisão.
A resposta veio automática, quase ensaiada, e então Yūshirō notou que havia falado demais.
Sora virou o rosto o suficiente para encará-lo, e então... Riu. Não alto, mas genuíno.
— Hmm, então você conhece bem os Shinigami! Será que, por um acaso... Você veio da Seireitei?
Yūshirō ficou em silêncio por algum tempo, que ele não soube mensurar quanto, o olhar congelado em Sora e o corpo hesitando em continuar a andar para mudar de assunto. O garoto não era ameaçador, mas ele tinha uma certeza nos olhos que gritava “Eu já saquei tudo!”. Então...
— Shihōin Yūshirō Sakimune. Você não me deixou terminar de me apresentar...
A voz saiu baixa, mas firme, sem anúncio, sem cerimônia. Só projetada no ar. Um silêncio esquisito se formou entre os dois, e quando Yūshirō achou que foi uma péssima ideia ter se entregado...
— HEEEH? — Sora arregalou os olhos, com uma sinceridade que não combinava muito com a tranquilidade de antes, e lhe apontou um dedo — Você é parente do gato?!
Silêncio.
Yūshirō piscou uma vez.
— Hã... “Gato”?
— Éee! Preto, que fala, some e volta do nada! Aquele gato!
Yūshirō uniu as sobrancelhas. Do que... Raios ele estava falando???
— Shihōin Yoruichi!
E os olhos de Yūshirō se arregalaram.
— Essa é a minha irmã! Por que está dizendo que...
— Porque É um gato!! Preto, de olhos amarelos, e macho!! Tem voz de homem!
— Mas... O que está dizendo?! Yoruichi-neesan não é gato coisa nenhuma! É uma mulher!
Sora cruzou os braços, olhando Yūshirō com uma expressão cada vez mais intrigada.
— Então… Você tá me dizendo que não é um gato e que é mulher?
— Exatamente! Como eu poderia ser irmão de um gato??
Sora estreitou os olhos, pensativo. Devia estar processando o que acabou de descobrir, tal como Yūshirō também estava.
— Então… — começou Sora novamente, devagar — Não é um gato…
— Não.
— E é mulher…
— Sim.
— Que fala…
— Evidentemente.
— E que... Não é um gato.
— Eu já disse que não!! — retrucou Yūshirō.
Silêncio.
Sora descruzou os braços.
— Então... Piorou.
— “Piorou”?!
— Muito!! Porque agora não faz sentido nenhum!
Yūshirō levou a mão ao rosto.
— Eu não estou entendendo como...
— Não, não, não! — Sora balançou a cabeça, andando em círculos curtos, claramente reorganizando as ideias — Eu vi!
— Ela... Pode se transformar...
A conclusão veio, óbvia, mas não imediata, à mente de Yūshirō. Será que era possível mesmo transformar-se em gato?
— Em um gato!
— Sim...
— Então é um gato!
— NÃO!
Os dois se encararam novamente. Sora arqueou as sobrancelhas de repente, como se algo tivesse lhe ocorrido, e determinou:
— Tá. A gente vai tirar isso a limpo.
Yūshirō franziu o cenho.
— “A gente”? “Tirar a limpo”?
— É! Vem.
— Mas... Para onde?
Sora olhou por cima do ombro, com um sorriso largo, empolgado demais, ao ver de Yūshirō.
— Pra minha casa, é óbvio!
Yūshirō arregalou os olhos. Então, ele iria para a residência dos Shiba? Isso seria interessante, mas... Será que ele deveria? Se a Seireitei o descobrisse lá... Será que isso não prejudicaria os Shiba?
— Hã, Sora-san, eu acho que n-...
Mas Sora segurou o braço dele, sem cerimônia.
— Você é o irmão do gato! Isso é muito importante!
— Isso não é...! Espera...!
Mas já era tarde. Sora já estava correndo e não parecia disposto a soltar. Yūshirō foi arrastado junto, o corpo reagindo antes da decisão.
— Sora-san! Isso é perigoso!
— Óbvio que não é! Por que a minha casa seria perigosa?!
— Você não entende a gravidade da situação! Se eu for descoberto...
— Não há situação! Só há a verdade: nossas famílias são amigas, então não tem por quê não o recebermos!
— TEM SIM! Waaa, Sora-san...!!!
E as vozes se perderam entre o movimento da rua, misturando-se ao fluxo, à vida. Pela primeira vez desde que havia saído de casa, Yūshirō não estava tentando entender o lugar. Ele estava apenas... Tentando não ser levado por ele.
— Sora-san, deixe-me explicar...!
— Você explica lá em casa! Anda, temos que chegar lá o quanto antes!
— Vocês podem ser prejudicados se eu for descoberto na sua casa!!
— Por que? Tá maluco?
— Porque eu fugi de casa!! Ninguém sabe onde eu estou!!
Eles dobraram uma esquina. Depois outra. O fluxo de pessoas havia diminuído. As construções se tornaram mais espaçadas e familiares. Aparentemente, à medida que se passava de um distrito para o outro, o aspecto do Rukongai mudava.
Sora agora já não estava mais desviando. Não estava mais se ajustando. Ele estava indo direto.
— Você faz isso com frequência?
— O quê?
— Arrastar pessoas desconhecidas para a sua casa...
— Não. Só quando elas são importantes.
Yūshirō franziu levemente o cenho.
— E eu sou importante por quê, exatamente?
— Porque você... É o irmão do gato! E é um fugitivo!!
— Sora-saaaaan...
— E também porque você claramente não sabe de metade das coisas que deveria saber.
Yūshirō não respondeu, tão atingido fora pelas palavras, mas o seu olhar mudou. Sora diminuiu o ritmo finalmente. E então... Parou.
Yūshirō ergueu o olhar.
Não era uma mansão.
Não havia portões imponentes.
Nem guardas.
Nem símbolos exibidos com orgulho como nos domínios do Kizokugai.
Mas havia:
um par de braços gigantescos segurando um grande rolo aberto com o nome “Shiba Kūkaku”,uma chaminé simplesmente enorme atrás da casa, com a boca lacrada,uma casa simples demais para alguém que, um dia, fora da nobreza da Soul Society.Yūshirō deixara o próprio queixo cair.
— Essa... É a sua casa?
— Sim! — respondeu Sora com as mãos apoiadas de cada lado da cintura , aparentemente muito orgulhoso do que mostrava para o mais novo convidado — Não é demais??
— Mas, é... Tão pequena...
— O que é pequeno?! — uma veia latejou numa das têmporas de Sora, o que deixou Yūshirō de repente temeroso. — Isso é só a fachada da minha casa, tá legal?! Você ainda não viu o resto!
Yūshirō piscou uma única vez.
“Fachada”.
O olhar dele subiu novamente. Para os braços. Para o rolo. E para a chaminé absurda. E então se voltou para Sora:
— Eu… Tenho receio.
— De quê?
— Do “resto”.
E Sora abriu um sorriso ainda maior.
— Relaxa! O pior já passou!
Isso não foi reconfortante, mas Yūshirō respirou fundo e o seguiu.
Como a tal casa era somente a fachada da residência dos Shiba, ele não fazia ideia. Como assim, “fachada”? A fachada não era a parte posterior de uma casa? Se aquela casinha era a fachada, onde estava, afinal, todo o resto da casa??? Pois, atrás, é que não estava...
Yūshirō, porém, não teve tempo de divagar mais sobre o assunto, pois seus olhos logo detectaram duas figuras vindas de pontos diferentes se aproximando rápido demais deles, o que o fez, instintivamente, assumir uma posição de defesa com os punhos erguidos. Um ataque? Então as duas figuras saltaram e aterrissaram bem diante dele e de Sora, que, até então, não movera um único músculo, parecendo nem ter notado o movimento.
Os dois homens eram parecidíssimos entre si, altos, musculosos, e vestiam trajes que Yūshirō tivera a impressão de já ter visto em algum lugar. Ele ainda estava tenso, quando os homens, inicialmente de braços cruzados, finalmente esboçaram uma reação.
— SORA-SAMA! — eles exclamaram, em uníssono.
Sora abriu um sorriso e Yūshirō entendeu: deviam ser servos remanescentes da antiga residência dos Shiba.
— Heh! Estou de volta, pessoal! E trouxe visita!
Quase no instante imediato em que eles puseram os olhos em Yūshirō, agora finalmente relaxado, eles voltaram a berrar, em uníssono:
— WOOOOOOOOOH?! YORUICHI-DONO!!!
Silêncio.
Yūshirō piscou.
Uma vez.
Duas vezes.
E então...
— “Y-Yoruichi-dono”? Aaah, não...! Eu não sou a Yoruichi-neesan!!
A resposta acabou vindo alta demais e rápida demais. Pela primeira vez desde que havia chegado, completamente fora do controle.
Os dois homens pareceram ficar confusos, mas ainda inclinados levemente para frente e ainda com os olhos arregalados.
— Não... É Yoruichi-dono??? — indagou um deles, hesitante.
— Não pode ser... Esta cor de pele, estes olhos... Este cabelo! — murmurou o outro, estreitando os olhos.
E Yūshirō respirou fundo, tentando recuperar qualquer resquício de compostura.
— Eu sou Shihōin Yūshirō Sakimune! Irmão de Shihōin Yoruichi!
— RÁAAA? — retrucou um dos gêmeos, se aproximando de Yūshirō com uma expressão de completa incredulidade — Mas não era um bebê???
— Bebês crescem, irmão!! — argumentou o outro gêmeo.
— Aah, é mesmo!! Koganehiko, faça os preparativos!! Devemos receber muito bem o irmão de Yoruichi-dono!!!
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