When the Strawberry meets the Sky

13 Everyone wants a cat's life


O primeiro pensamento que passou pela mente de Yūshirō foi simples demais para alguém em sua posição: era barulhento.

Não o tipo de barulho que incomoda — não exatamente. Era um barulho que não pedia permissão para existir. Vozes que se sobrepunham sem organização, passos que não seguiam ritmo algum, risadas que não eram contidas antes de acontecer. Havia vida ali, mas não havia controle. E, por um instante, parado no alto de um dos telhados do Rukongai, ele apenas observou, os olhos atentos percorrendo o cenário como se estivesse diante de algo que ainda não sabia como classificar.

Ninguém parecia notar. Ninguém parecia se importar.

Aquilo, por si só, já era estranho.

No Distrito dos Nobres, até o silêncio possuía estrutura. Havia um momento certo para falar, um momento certo para se mover, um momento certo até para respirar em presença alheia. Cada gesto era aprendido, repetido, refinado — não por necessidade prática, mas por tradição. No Kizokugai, a ordem não era apenas esperada; era assumida como natural.

Ali... Ninguém parecia se preocupar com isso.

Yūshirō inclinou levemente a cabeça, como se um novo ângulo pudesse tornar aquilo mais compreensível. Não tornou.

Ele não estava exatamente escondido. Seu corpo apenas fazia aquilo naturalmente. A respiração se mantinha controlada, os passos — quando necessários — não chamavam atenção, e sua presença espiritual era reduzida ao mínimo, como se ele mesmo tivesse aprendido a existir em uma frequência mais baixa do que o mundo ao redor, não em esforço, mas em hábito.

Era mais fácil assim.

As roupas que vestia ajudavam. Simples, sem qualquer símbolo ou traço que o identificasse. Tecidos leves, discretos, escolhidos não por estilo, mas por função. Não pertenciam a ele — ou melhor, não eram o tipo de vestimenta que lhe pertenciam —, e talvez fosse exatamente por isso que funcionavam tão bem. Não havia nada nelas que sugerisse posição, autoridade ou origem.

E, ainda assim, ele ainda não se sentia parte daquele lugar. Nem de longe.

Havia dito a si mesmo que voltaria rápido. Que seria apenas uma observação. Uma breve saída, um momento de curiosidade antes de retornar àquilo que lhe era esperado.

Mas...

“Yoruichi-neesan.”

O nome surgiu sem esforço em sua cabeça, atravessando qualquer tentativa de racionalização.

Ela havia voltado! Depois de 100 anos com o seu paradeiro completamente desconhecido!

E, aparentemente, havia feito isso sem qualquer impedimento real. Sem restrição. Sem necessidade de justificar cada movimento.

Se ela podia sair… Se ela podia ir e vir... Tal como um gato...

Yūshirō desviou o olhar, observando uma figura que passava apressada por uma das ruas abaixo.

Havia algo de irregular na maneira como ela se movia. Não era descuido, mas também não era controle. Os passos eram rápidos demais, como se houvesse algo a ser resolvido, algo a ser alcançado antes que se perdesse. As mãos ocupadas, o corpo levemente inclinado para frente — não por etiqueta, mas por necessidade.

Ele franziu o cenho.

Aquilo não lhe era familiar. No Kizokugai, movimento possuía intenção. Aqui, parecia possuir urgência.

Disseram-lhe, certa vez, que as almas do Rukongai eram como folhas ao vento. Não no sentido literal, mas no que importava: sem origem clara, sem continuidade, sem algo que as ligasse a um nome que permanecesse. Famílias existiam, claro, mas não eram legítimas. Não eram reconhecidas. E, sem reconhecimento... Não havia peso. Ao menos, era assim que lhe haviam ensinado, sem necessidade de aprofundar e sem espaço para questionamento.

Yūshirō apoiou levemente a mão sobre o telhado, o olhar ainda fixo na movimentação abaixo.

Se aquilo era verdade... Então por que parecia haver tanto… Vínculo? Tantas pessoas se chamando, tantas vozes respondendo, tantos olhares que claramente sabiam para onde ir e para onde voltar. Aquilo não parecia ausência, mas algo que ele simplesmente não sabia nomear.



O salto entre os telhados foi silencioso, preciso. O tipo de movimento que não exigia pensamento consciente, apenas execução. Ele se deslocava com naturalidade, como se o próprio espaço ao redor já tivesse sido mapeado antes mesmo de ser explorado. De certa forma, havia sido — não aquele espaço, especificamente, mas qualquer espaço que exigisse discrição.

Ainda assim, havia algo diferente ali. O mundo não estava tentando esconder nada, e isso tornava tudo mais difícil de prever.

Foi quando ele os notou. Não de imediato, nem como um ponto fixo, mas como uma irregularidade.

Quatro figuras, movimentando-se juntas, mas não de forma casual.

Não havia uniformes, mas também não havia desordem. Eles ocupavam espaço de forma consciente demais para serem apenas residentes comuns. A postura, o ritmo, a maneira como se posicionavam em relação ao ambiente — tudo aquilo carregava um tipo de disciplina que não deveria estar ali, mas estava.

Yūshirō diminuiu levemente o ritmo, ajustando sua trajetória para manter uma distância segura enquanto os observava. Seu olhar percorreu cada detalhe com atenção calculada: espadas visíveis, vestimentas organizadas ainda que informais, presença firme, mas não oficial. Aquilo não fazia sentido.

Se fossem Shinigami, estariam uniformizados. Haveria sinais claros, diretos, reconhecíveis.

Se não eram... Não deveriam se mover daquela forma. Isso não se encaixava em nenhuma categoria conhecida.

Ele franziu levemente o cenho e, então, decidiu segui-los. Não como alguém curioso, mas como alguém que precisava entender.

Eles entraram em um pequeno estabelecimento. Simples, funcional, sem qualquer pretensão estética além do necessário para existir. Yūshirō pousou no telhado logo acima e desceu com cuidado até encontrar um ponto de observação.

A estrutura era aberta o suficiente para permitir vislumbres do interior, e foi ali que ele percebeu o primeiro detalhe que realmente importava:

Ninguém hesitou. O dono do lugar não perguntou nada. Não negociou. Não demonstrou qualquer tipo de receio. Apenas se aproximou e começou a servir, como se aquilo já fosse esperado. Como se não houvesse alternativa.

Yūshirō observou em silêncio.

Aquilo não era pagamento... Mas também não era roubo. Era aceitação. Ele se aproximou mais para ouvir o máximo que pudesse. Felizmente, as quatro figuras estavam perto o suficiente.

— Você devia vir mais vezes para o Leste...

A voz masculina quebrou o fluxo de seus pensamentos. Yūshirō ajustou levemente a sua posição, erguendo os olhos até que ficassem em altura suficiente para ele conseguir espiar.

Quem falava era uma das três figuras masculinas — postura firme, olhar direto, presença naturalmente dominante e uma beleza evidente: longos cabelos azuis escuros, quase pretos, presos em um rabo-de-cavalo baixo, pele alva e trajes quase nobres nas cores branca e azul claro. Havia confiança ali. Não a confiança forçada de quem tenta se impor, mas a de quem já se vê no lugar onde acredita pertencer.

— Já tenho trabalho suficiente — respondeu a única garota do grupo, sem sequer olhar diretamente para ele.

Yūshirō a observou com mais atenção.

Cabelo castanho preso em um rabo-de-cavalo alto, imperfeito o suficiente para não parecer intencional. Alguns fios escapavam na base, criando uma leve desordem que contrastava com o resto de sua postura. A franja, longa, se dividia de forma natural, enquadrando um olhar atento demais para alguém que estava, aparentemente, apenas conversando. Ela não parecia descontraída. Ela só parecia presente.

— Comigo ficaria mais interessante — continuou o homem, com leve insistência.

A garota ergueu o olhar, encarou o companheiro brevemente e voltou sua atenção novamente ao prato que lhe fora servida pelo dono do estabelecimento. Um gesto simples, mas que havia significado: era um aviso para ele não insistir, estabelecendo um limite naquilo.

Yūshirō então desviou o olhar brevemente. O sujeito falava como alguém acostumado a ser ouvido. Ela não parecia acostumada a escutar tanto.

— O Oeste está mais instável... — continuou, mudando o tom. — Se continuar assim, talvez...

E Yūshirō se inclinou levemente, tentando captar melhor o restante da frase.

— ...alguém precise intervir antes que a situação saia do controle.

"O Oeste". "Instável". "Intervir". As palavras se organizaram rapidamente na mente dele, criando uma estrutura que ainda não fazia sentido completo, mas já indicava algo. Ele precisava ouvir mais, mas, ao fazer isso... Seu olhar acabou encontrar o da garota, que, agora claramente, o encarava. Yūshirō havia sido descoberto.

Ele congelou por um breve instante. Não por medo, mas por cálculo. Aquilo não deveria acontecer. Sua supressão era precisa, refinada e muito bem testada. Mas, ainda assim, ela o havia encontrado. Então Yūshirō rapidamente se retirou dali e escalou o telhado mais próximo, rumo a ser perdido de vista. Será que a garota de cabelo castanho e trajes roxos o seguiria?


...


O telhado seguinte o recebeu em silêncio. Depois outro. E outro.

Yūshirō não desacelerou imediatamente. O movimento vinha antes do pensamento, uma sequência contínua de decisões que não precisavam ser formuladas em palavras: distância, ângulo, altura, cobertura. Tudo se organizava com precisão quase automática, como se o próprio corpo dele já tivesse calculado o caminho antes mesmo decidir segui-lo.

Só quando o ritmo da própria respiração voltou ao normal é que ele parou. Quer dizer, não completamente, mas o suficiente.

Ela havia percebido.

Aquilo não deveria ser possível.

Yūshirō manteve-se agachado na beirada do telhado, os olhos voltados para a rua abaixo, mas o foco claramente distante. Sua presença continuava suprimida, controlada, refinada — exatamente como deveria ser.

E, ainda assim... Ela havia percebido.

Então não era apenas técnica. Era... Enfim, ele interrompeu o pensamento. Reavaliar era mais útil do que insistir.

O olhar voltou a se mover, desta vez com mais cautela. Não procurando o grupo novamente — isso seria um erro e poderia ser crasso —, mas observando o entorno: fluxos, movimentos e padrões. E foi aí que ele notou outra coisa. Mais sutil, mais comum, e, ainda assim, estranha:

Dois homens discutiam em um canto da rua. Não era exatamente uma briga, mas também não era normal. O espaço entre eles era um tanto curto demais. As mãos pareciam tensas. O tom baixo demais para ser casual. E, ao redor, ninguém interferia. Ninguém olhava por mais de um segundo.

Yūshirō franziu levemente o cenho. Aquilo... Parecia errado. Não pela situação em si, mas pela ausência de reação. No Distrito dos Nobres, aquilo jamais passaria despercebido. Haveria intervenção imediata. Ordem restaurada antes mesmo que a tensão pudesse crescer. Aqui... Nada.

Ele se moveu, dessa vez com mais cuidado, descendo um nível, depois outro. Aproximou-se sem pressa, utilizando os pontos cegos naturais do ambiente. Sua presença permanecia contida, quase inexistente, enquanto ele buscava um ângulo melhor. As vozes começaram a se tornar audíveis:

— Eu já disse que não tenho mais nada.

— Você sempre tem.

— Não tenho.

— Então vai arrumar.

“Cobrança.”

A palavra surgiu rápida demais na mente dele, mas havia algo errado ali também. Não era formal, não havia autoridade declarada. No entanto, havia pressão. Yūshirō inclinou levemente a cabeça. Aquilo não era uma estrutura. Era algo mais solto, desorganizado. Mas, ainda assim, funcionando.

Um dos homens deu um passo à frente. O outro recuou. Só um pouco. Instintivo. Aquilo bastou para Yūshirō se mover. Não de forma impulsiva, mas direta. Um salto curto, silencioso e controlado. Ele pousou atrás de uma das estruturas próximas, já calculando o ponto de intervenção, a distância ideal, o momento exato...

— O que você tá fazendo?

A voz surgiu ao lado dele. Não era alta, não era ameaçadora; só baixa, sem pressa, como se não houvesse necessidade alguma de ser mais alta do que aquilo e, ainda assim, impossível de ser ignorada.

Yūshirō não reagiu imediatamente. O corpo registrou primeiro e a mente processou. Então, ele virou o rosto.

O garoto estava ali, encostado casualmente na parede, como se sempre tivesse estado ali, olhando diretamente para ele. Cabelo preto, postura relaxada demais para alguém naquela área, olhos verdes e atentos. Devia ter a sua mesma idade.

Não havia pressão espiritual evidente, nem postura de combate ou ameaça, nem nada que justificasse aquela presença.

Mesmo assim, parecia que havia algo errado. Sutil, quase imperceptível. Como uma oscilação que não chegava a se formar. Como algo que deveria estar ali, mas estava sendo… Contido, talvez?

— Não está prestes a fazer algo estúpido, está? — completou o garoto.

Silêncio. Yūshirō o analisou por meio instante e então respondeu:

— Aquilo não parece correto.

A voz saiu controlada, neutra, como deveria. O garoto desviou o olhar brevemente para a cena.

— É, parece que não.

— Então...?

— Mas não é problema seu, certo?

Direto e sem espaço para interpretação. Yūshirō estreitou levemente o olhar.

— Está acontecendo à minha frente.

— Sim... Mas não é o que você pensa.

— Se há um desequilíbrio, deve ser corrigido, não?

O garoto soltou um leve suspiro. Não irritado, mas cansado.

— Aqui não é o tipo de lugar onde você “corrige” as coisas.

Yūshirō permaneceu em silêncio por um instante a mais, avaliando e reavaliando.

— O que se faz aqui, então?

O garoto voltou a encará-lo, direto e sem hesitação, e disse:

— Você entende antes.

E, como em uma resposta às suas palavras, a movimentação à frente mudou: um dos homens recuou mais um passo. O outro avançou... E então parou. Algo havia mudado. Sutil, mas suficiente.

— Viu? — disse o garoto, inclinando levemente a cabeça.

Yūshirō observou com mais atenção agora. Mais aberto. A tensão não havia desaparecido, mas havia sido redirecionada. Meio que diluída.

— Não era uma ameaça de verdade — continuou o garoto de olhos verdes. — Era só pressão. Se você entrasse ali do jeito que estava pensando, você pioraria tudo.

Oh. Isso fez sentido. Mas não da forma que Yūshirō gostaria.

— Você hesitou... Poderia estar omitindo ajuda — disse, voltando o olhar para ele.

— Não.

— Então, o que?

— Eu observei primeiro. Só isso.

— E qual a diferença do que eu fiz?

O garoto deu de ombros.

— É que você já decidiu antes de observar.

— Mas é claro que eu observei!

— Só o suficiente pra agir — corrigiu o outro. — Não pra entender.

Certo. Aquilo... Não era exatamente incorreto. Mas também não era aceitável de cara.

— Mas, se há algum risco...

— Sempre há.

Direto. Sem pausa ou peso, como se aquilo fosse óbvio demais para precisar de explicação. Yūshirō estreitou levemente o olhar.

— Então você simplesmente não faz nada?

O garoto inclinou a cabeça de leve, como se considerasse a pergunta.

— Ah, eu faço sim...! Só não faço errado.

Enquanto isso, a movimentação à frente já havia praticamente se dissolvido. Um dos homens se afastava, o outro permanecia ali por mais alguns segundos antes de também seguir seu próprio caminho, como se nada tivesse acontecido. Como se aquilo fosse normal.

Yūshirō voltou o olhar para a rua e disse:

— Você sabia que aquilo ia acontecer...

Não era uma pergunta.

— Não — respondeu o garoto. — Mas eu sabia que não ia acabar como você achava.

Yūshirō tentou processar e reorganizar as ideias, mas desistiu.

— Você não pertence a esse lugar... Pertence? — disse, finalmente.

O outro garoto soltou um leve som pelo nariz, não exatamente um riso, mas um reconhecimento.

— Engraçado... — ele respondeu — Eu ia dizer a mesma coisa.

E ele abriu um sorriso de dentes completo. O vento passou entre os telhados, carregando consigo vozes distantes, passos, alguma risada que não chegou a se formar completamente.

— Você... Me percebeu — disse Yūshirō, voltando o olhar para ele.

— Você não é invisível.

— Para a maioria, sou.

— Eu não sou exatamente a maioria.

Yūshirō o observou com mais atenção agora, não como alguém avaliando uma ameaça, mas como alguém tentando encaixar uma peça que não parecia pertencer ao mesmo conjunto.

— Quem é você, afinal?

O garoto suspirou e endireitou a postura.

— Eu sou o Sora. E você?

— Yū...

E Sora logo assentiu, como se só “Yū” bastasse.

— Muito bem, Yū! Seja bem-vindo ao Rukongai, o lugar onde as coisas não funcionam como você acha.