When the Strawberry meets the Sky
18 Cats on the roof
Ichigo estava deitado no quarto, braço sobre os olhos, encarando o vazio atrás das pálpebras fechadas. Finalmente um pouco de silêncio.
Depois daquela noite absurda com Yammy e Ulquiorra, da volta inesperada da Rukia, da conversa no Urahara Shop e da sensação irritante de que tudo estava prestes a piorar, o próprio corpo parecia ter decidido desligar por alguns minutos. Então:
“Heeeeeey, Rei!”
Ichigo nem precisou abrir os olhos.
“Vai embora. Não enche.”
“Cruel... E eu aqui preocupado em respeitar o seu momento romântico!”
Ichigo abriu um olho lentamente.
O céu do quarto havia desaparecido. No lugar dele: edifícios invertidos, sombras líquidas escorrendo pelas laterais e o horizonte branco infinito do Mundo Interior.
Shirosaki estava sentado no topo de uma placa torta, a postura relaxada e um largo sorriso no rosto pálido. Aquele sorriso irritante.
— Achei melhor te deixar sozinho um pouquinho — continuou ele, com a já conhecida voz de dois tons. — Cê tava tão ocupado prestando atenção na sua garota...
— Ela não é “minha garota”.
— Aham.
Ichigo já sentia a veia latejando na testa.
— E eu estava ocupado lutando, idiota.
— Ah, claro. Porque você definitivamente prestou atenção na luta inteira depois que ela apareceu.
Ichigo cerrou os dentes. O pior era: talvez ele tivesse prestado menos atenção mesmo. Shirosaki era muito perceptivo e nada sucinto quando abria a boca para falar.
— OOOOOOH, então eu acertei!
— Cala a boca!
O Hollow gargalhou alto, inclinando a cabeça para trás.
— “Combina com você”.
— …
— “Nome maneiro”.
— …
— “Não fica convencida”.
Então Ichigo estava a um passo de sacar Zangetsu... Só que ela estava em posse do Hollow.
— Tsc... Eu ainda vou te matar, cara!
— Nããão vai não! Cê tá feliz demais hoje!
Isso irritou Ichigo mais do que deveria. Não apenas aquele idiota do Mundo Interior estava novamente segurando a sua espada como se dele fosse, como também havia notado... Que era verdade.
Mesmo depois daquela luta absurda.
Da sensação horrível deixada pelos Arrankars.
Da ameaça implícita no nome de Aizen.
A volta de Rukia tinha mudado o ar ao redor dele, como havia mudado na primeira vez em que ele a viu. Era como se alguma peça tivesse voltado para o seu respectivo lugar, e isso era irritante de admitir até para si mesmo.
Shirosaki observou a expressão dele por alguns segundos, então o sorriso diminuiu um pouco... Mas só um pouco.
— Mas, aqueles caras…
— …
O tom mudou rápido demais.
— Eles são diferentes.
Ichigo também ficou mais sério.
As imagens voltaram imediatamente: o buraco no peito; a pressão espiritual pesada; os olhos vazios de Ulquiorra; a sensação de Hollow misturada com algo pior.
— Tsc.
— Você sentiu também, né?
Ichigo não respondeu. Não precisava.
Shirosaki abriu um sorriso menor. Mais afiado. Ao que apoiava o lado oposto do fio de Zangetsu sobre um dos ombros.
— Isso aí vai ficar divertido.
— Pra você, talvez...
— Pra nós dois, Rei!
Ichigo fez uma careta irritada.
— Você parece animado demais com isso.
— E eu deveria estar preocupado? — o Hollow inclinou levemente a cabeça. — Aqueles são Hollow, então, tecnicamente, pertencem ao meu mundo.
— “Seu”? Desde quando alguma coisa aqui é “sua”?
Shirosaki gargalhou.
— Ah, cê ainda não entendeu mesmo, hein?
O sorriso dele se alargou outra vez. Largo demais. Branco demais.
— Eu fico mais forte a cada dia graças a você.
Ichigo permaneceu em silêncio. Aquilo não era novidade, mas ouvir dito daquele jeito foi um tanto desagradável.
Shirosaki girou Zangetsu pela faixa que normalmente a envolvia, de forma bem casual.
— Honestamente? Eu até gostaria de arrancar a minha máscara, e sair por aí fazendo algumas bagunças…
Ichigo imediatamente estreitou os olhos.
— Nem pense nisso.
— Relaxa, Rei. Já disse: não preciso disso.
O Hollow apoiou a espada no ombro novamente.
— Seus poderes de Shinigami são suficientes para manter a nós dois.
Silêncio.
A expressão de Ichigo endureceu um pouco. Aquilo… Era verdade também. Em toda luta, toda explosão de reiatsu, todo momento em que ele atravessava os próprios limites... Shirosaki estava lá, não apenas testemunhando, como crescendo junto.
O Hollow observou a reação dele e abriu um sorriso satisfeito.
— Vamos atrás daqueles caras. Eu gostaria de sentir o gosto deles...
Ichigo desviou o olhar por um instante, e lembrou: a máscara; o Hollow tomando o controle da situação; Byakuya; a luta contra Kenpachi; o medo crescente de perder o próprio corpo; e, por fim… O homem de óculos escuros.
— Muito bem. Chega disso.
Shirosaki ergueu uma sobrancelha. Ele o encarou como quem perguntava “Chega... Do quê?”.
— Eu vou encontrar aquele cara.
O sorriso do Hollow aumentou imediatamente.
— Qual deles? Tem vários caras querendo acabar com a sua vida ultimamente e que eu adoraria devorar.
— O tal Hirako Shinji.
Pela primeira vez desde o começo da conversa, Shirosaki pareceu genuinamente interessado.
— Ooh?
— E vou aprender a te colocar nos trilhos de uma vez!
Shirosaki começou a rir. Não alto. Não exagerado. Pior: aquela risada curta que ele soltava quando parecia realmente se divertir.
— Rei… Rei… Rei…
Os olhos dourados ergueram-se lentamente.
— Você ainda acha que tá segurando as rédeas disso aqui?
A pressão espiritual explodiu ao redor deles por um instante. O horizonte branco do Mundo Interior vibrou. Sombras negras escorreram pelos prédios invertidos. E o sorriso do Hollow cresceu outra vez.
— Então vem. Eu também quero ver até onde você aguenta...
Orihime foi a primeira a se levantar quando Rukia entrou na pequena cozinha do Urahara Shop.
— Kuchiki-san! — disse com um sorriso no rosto.
Não era falso. Era verdadeiro, luminoso, mas... Um pouco difícil.
Rukia piscou.
— Inoue.
— Bem-vinda de volta! — Orihime respondeu rápido demais, como se tivesse segurado aquilo desde o instante em que a vira reaparecer naquela rua destruída. — Parece que faz tanto tempo...
Rukia demorou um segundo antes de relaxar os ombros.
— …Sim. Parece mesmo.
Do outro lado da cozinha, Chad observou a cena em silêncio por alguns instantes só enquanto terminava de beber um pouco de água, e então disse:
— Ichigo não veio com você?
Rukia balançou a cabeça.
— Na verdade eu saí mais cedo que de costume, para trocar uma palavra com Yoruichi-sama.
Algo dentro de Orihime se apertou, porque ela imediatamente lembrou que Rukia tecnicamente morava com Ichigo. Claro… Não “morar junto” do jeito que todo mundo entendia. Ela sabia disso.
Sabia que Kuchiki-san precisava usar o gigai quando estava no Mundo Humano e que a casa dos Kurosaki era o lugar mais natural para ela ficar desde o começo. Ela sabia de tudo isso. Mas, ainda assim…
A ideia de Rukia dividindo o cotidiano com Ichigo parecia pertencer a um espaço ao qual Orihime nunca realmente conseguira chegar: quarto, café da manhã, discussões bobas, brigas, silêncios, dever de casa, rotina. Coisas pequenas que, talvez, fossem justamente as que mais machucavam. Ela apertou os dedos na própria roupa por um instante, antes de relaxá-los novamente quase no mesmo segundo.
Nada daquilo era culpa de Kuchiki-san. E também não era culpa de Kurosaki-kun.
Os dois apenas…
Se combinavam de um jeito muito natural. Ela já havia percebido desde muito antes de conseguir admitir para si mesma.
Rukia caminhou até a mesa aparentemente sem notar a breve mudança na expressão dela. Ou talvez tivesse notado e decidido não comentar. Com Kuchiki Rukia, honestamente, era um pouco difícil de saber.
— Yoruichi-sama parece preocupada — comentou Rukia enquanto se sentava. — Embora esteja tentando esconder.
Chad cruzou os braços.
— O irmão desapareceu. É compreensível.
Orihime assentiu rapidamente, feliz pela conversa ter seguido outro rumo antes que os próprios pensamentos começassem a incomodá-la mais do que deveriam. Mesmo assim…
Ela acabou observando Rukia por mais alguns instantes. O cabelo curto. A roupa humana que vestia. A postura mais firme. A forma como parecia mais segura de si do que antes. Rukia tinha mudado. Não de um jeito ruim, só... Mais distante. Mais bonita, talvez.
Orihime sentiu o peito apertar outra vez ao perceber o próprio pensamento e imediatamente desviou os olhos para o chá que era trazido por Tessai.
Aquilo era meio injusto. Porque ela realmente estava feliz que Kuchiki-san tivesse voltado. Kurosaki-kun também estava, o que, honestamente, era difícil não notar. A expressão dele tinha mudado completamente desde o encontro com os dois Arrancar, como se finalmente conseguisse respirar direito outra vez.
Orihime baixou os olhos para o reflexo tremido da própria xícara e sorriu de leve. Pequeno. Quase resignado. Porque, no fim… Ela já sabia.
— Orihime-san?
A voz grave de Tessai a fez piscar rapidamente. Ela ergueu o rosto e percebeu que o assistente de Urahara a observava enquanto colocava outra chaleira sobre a mesa.
— Você parece cansada.
Orihime imediatamente abriu um sorriso automático.
— E-Eu estou bem!
Chad lançou um olhar silencioso na direção dela. Aquele tipo de olhar que dizia claramente “Você não está.” e Orihime sentiu vontade de afundar dentro da própria xícara.
Rukia também percebeu alguma coisa, mas era notável em seus olhos púrpura que ela hesitava como se estivesse considerando perguntar algo e talvez achando um pouco inconveniente fazê-lo.
Orihime ficou agradecida por isso. Até nisso, Kuchiki-san era incrível...
O silêncio durou apenas alguns segundos antes da porta do Urahara Shop abrir de repente.
— Yo!
Yoruichi entrou como se absolutamente nada estivesse acontecendo. E Arisawa Tatsuki surgiu logo atrás dela.
Um silêncio de estranheza se estabeleceu entre todos.
Orihime piscou uma vez.
Chad piscou uma vez.
Rukia estreitou discretamente os olhos.
Tatsuki parou no meio da sala com as mãos nos bolsos da calça, expressão levemente irritada como alguém que claramente ainda estava tentando entender por que havia aceitado acompanhar aquela mulher.
— …Tá. Então aqui realmente é o pit stop espiritual.
— Eu sempre disse isso — respondeu Yoruichi casualmente.
— Você simplesmente apareceu na janela da minha casa às duas da manhã dizendo que queria ajuda com algo aqui.
— E funcionou.
— Esse não é o ponto!
Orihime arregalou os olhos.
— T-Tatsuki-chan?!
Tatsuki finalmente percebeu todo mundo olhando para ela.
— Ah. Oi, Orihime!
Então os olhos dela pararam em Rukia. A pausa durou meio segundo.
— Você voltou...
Rukia assentiu lentamente.
— Sim.
Tatsuki cruzou os braços.
— Hm.
Como se estivesse processando alguma coisa internamente.
Yoruichi então atravessou a sala e pegou uma xícara de chá, como a senhora da casa.
— Não olhem assim para a gente, sim?
Ichigo não estava presente para verbalizar o “Como exatamente devemos olhar para isso?”, então o silêncio acabou ficando ainda mais evidente.
Orihime alternou o olhar entre Yoruichi e Tatsuki.
— Yoruichi-san… O que aconteceu?
— Ué, nada.
— Ela me arrastou pra cima de um telhado — Tatsuki respondeu imediatamente.
— E você subiu.
— Porque você disse que tinha algo muito importante pra me dizer!
— E eu tinha.
Tatsuki fez uma expressão irritada.
— Já entendi o que o Ichigo quis dizer com você ser impossível...
Yoruichi sorriu preguiçosamente por cima da xícara e então Orihime percebeu: o jeito como Yoruichi observava Tatsuki; a postura dela; a atenção silenciosa. Aquilo... Não era casual.
Elas estavam... Com algum tipo de segredo.
“Espera...”, pensou Orihime.
Ela olhou discretamente para Tatsuki. Depois para Yoruichi. Depois para Tatsuki outra vez.
Telhados. Conversas misteriosas às duas da manhã. Yoruichi-san. Gatos.
Os olhos de Orihime se arregalaram lentamente.
“Tatsuki-chan... Vai aprender a se transformar em gato!!!”
A imagem mental apareceu imediatamente: Tatsuki surgindo na escola como um gato preto extremamente musculoso usando uma faixa preta de karatê; Ichigo claramente traumatizado; Keigo chorando no chão; e Yoruichi ao fundo dizendo:
“Ela aprende rápido!”.
Orihime levou a xícara até a boca numa tentativa desesperada de parecer normal.
— Orihime? — Tatsuki chamou, estreitando os olhos. — Por que você tá me olhando assim?
Ela quase engasgou com o chá.
— N-Não é nada, Tatsuki-chan!
— Você tá pensando em alguma bobagem sem sentido de novo, não é?
— N-Não estou imaginando a Tatsuki-chan virando um gato!!
Silêncio.
Tatsuki ficou parada.
Rukia desviou o rosto imediatamente.
Chad fechou os olhos.
Yoruichi começou a gargalhar.
— ORIHIME! — Tatsuki gritou, aparentemente horrorizada com a ideia.
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