When the Strawberry meets the Sky
8 Amnesia Bunnies don't kick back
Tatsuki não acreditava em fantasmas. Ela acreditava em coisas que podia socar, em coisas que faziam barulho e, principalmente, no que os seus próprios olhos lhe diziam.
E, pela terceira vez naquela semana, seus olhos estavam lhe dizendo que Kurosaki Ichigo tinha perdido completamente o juízo.
— Ali, Orihime! Me diz que você está vendo também! — Tatsuki apontou, o dedo quase furando o vidro da janela da lanchonete.
Do outro lado da rua, Ichigo corria entre os carros. Ele não estava usando o uniforme da escola, mas um quimono preto, típico de funerais, com uma espada que parecia uma réplica exagerada de uma faca peixeira amarrada nas costas. Ele saltou sobre um poste com uma agilidade que desafiava qualquer lei da física que ela tivesse conhecido no karatê.
Orihime parou com a colher de iogurte com feijão e curry no meio do caminho, piscou os olhos grandes e olhou na direção do nada.
— Ver o quê, Tatsuki-chan? — ela sorriu, com aquele sorriso doce que normalmente desarmava qualquer um, mas que ultimamente estava deixando Tatsuki com os nervos à flor da pele. — Só vejo o caminhão de entrega e aquele gatinho ali na calçada... Acho que você está treinando demais. O cansaço faz a gente ver cada coisa!
— Cansaço, uma ova! Ele acabou de atravessar um outdoor, Orihime! — Tatsuki bateu na mesa, fazendo os copos tilintarem. — O Ichigo está fazendo cosplay de samurai no meio do trânsito, e todo mundo está agindo como se fosse uma terça-feira normal nas nossas vidas!
E Tatsuki não esperou a resposta. Ela se levantou, jogou o dinheiro do lanche na mesa e saiu pela porta antes que Orihime pudesse inventar outra desculpa gentil.
Ela não estava louca. O ar ao redor de Ichigo parecia vibrar, como se a realidade fosse uma folha de papel mal colada por onde ele estava rasgando o caminho. Ela atravessou a rua, ignorando o sinal, seguindo o rastro de estranheza que ele deixava para trás.
Ela o encurralou em um beco sem saída, logo atrás de um prédio de escritórios. Ichigo estava de costas, ofegante, a mão apoiada na parede. A peixeira gigante tinha sumido, mas a pressão no ar ainda estava lá — algo que fazia os pelos do braço da Tatsuki se arrepiarem.
— Já chega, Ichigo! — ela gritou, a voz ecoando no concreto.
Ele deu um pulo, virando-se tão rápido que quase se desequilibrou. Estava com o uniforme da escola agora, mas a camisa estava desalinhada e ele parecia ter acabado de correr uma maratona através de um liquidificador.
— T-Tatsuki?! O que... O que você está fazendo aqui?
— Não vem com essa de "o que você está fazendo". — Ela caminhou até ele, parando a centímetros do seu rosto, obrigando-o a olhar nos olhos dela. — A Orihime tentou me convencer de que eu estou sonhando acordada, mas eu vi! Eu vi a roupa, vi a espada e vi você pulando prédios.
Ichigo abriu a boca para falar a clássica frase de "você deve ter se confundido", mas a expressão de Tatsuki o cortou antes do primeiro som.
— Nem tenta, Kurosaki! Eu te conheço desde que a gente era criança. Eu sei quando você está escondendo algo e eu sei quando você está mentindo. — Ela cruzou os braços, firme como uma rocha. — Eu estou vendo tudo. O que diabos está acontecendo com você?! E não se atreva a dizer "nada"!
Ichigo travou. O "não é nada" morreu na garganta dele antes mesmo de virar som. Ele olhou para Tatsuki e, pela primeira vez, não viu a amiga de infância que ele podia enrolar com uma careta irritada. Viu alguém que estava olhando para o abismo, e o abismo estava devolvendo o olhar.
— Tatsuki... — ele começou, a voz saindo mais rouca do que pretendia. Ele passou a mão pelo cabelo laranja, um gesto nervoso que denunciava que estava perdendo o chão. — Você... Não devia estar vendo isso. Não é seguro.
— Não me venha com essa de "não é seguro"! — Tatsuki deu um passo à frente, quase encostando nele. — O que não é seguro é você sumir no meio da rua, aparecer com uma faca de cortar peixe gigante, e a Orihime agir como se estivesse sob o efeito de algum feitiço de felicidade!
Nesse momento, Orihime apareceu na entrada do beco, ofegante. Ela olhou para os dois e o sorriso forçado que ela tentava manter desmoronou instantaneamente ao ver a seriedade no rosto da Tatsuki.
— Tatsuki-chan... — Orihime murmurou, aproximando-se devagar, as mãos unidas em frente ao corpo.
— Orihime. Sem mentiras. Agora. — a voz de Tatsuki não era de raiva, mas de uma mágoa profunda por estar sendo deixada de fora de algo muito importante.
Orihime olhou para Ichigo, buscando uma permissão que ele não sabia como dar. Então, ela suspirou e caminhou até ficar entre os dois, colocando uma mão suave no braço da Tatsuki. O toque dela era quente e real, um contraste com o frio espiritual que ainda pairava no beco.
— Me desculpa, Tatsuki-chan — disse Orihime, os olhos brilhando com uma honestidade dolorosa. — É que... Se você vê, você se torna parte disso tudo. E a gente só queria que você continuasse no mundo onde as coisas fazem sentido.
— O mundo parou de fazer sentido quando o Kurosaki começou a pular prédios e cortar vultos pela rua, Inoue! — Tatsuki relaxou os ombros, a postura de combate cedendo ao cansaço. — Eu não sou de porcelana. Vocês sabem disso.
Ichigo soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. Ele olhou para o céu de Karakura, que parecia estranhamente pesado hoje.
— Não é que você seja de porcelana, Tatsuki — Ichigo disse, finalmente encontrando a voz. — É que as coisas que eu enfrento... Elas não morrem com um soco. E eu não queria que você tivesse que carregar esse peso. Mas, se você está vendo... — Ele fez uma pausa, olhando para a Orihime, que assentiu tristemente. — Então o Urahara-san estava certo. As barreiras estão ruindo.
Orihime deu um passo à frente, tentando suavizar o clima, com aquele jeito que era só dela de transformar tensão em algo minimamente suportável.
— Vamos sair daqui, tá bem? — sugeriu Orihime, olhando ao redor como se as paredes do beco tivessem ouvidos. — Kurosaki-kun precisa respirar, e você merece uma explicação de verdade, certo? Mas não aqui. Vamos para algum lugar... Normal. Vamos?
Tatsuki olhou de um para o outro. Ela ainda estava furiosa, mas o medo nos olhos de Ichigo e a tristeza nos de Orihime a fizeram recuar.
— Tá. Lugar normal. Mas, se você tentar fugir pela janela do banheiro, Kurosaki, eu juro que te caço até no inferno!
Ichigo deu um meio sorriso torto, o primeiro lampejo do velho Ichigo.
— Eu não teria coragem de fugir de você nem se estivesse armada, Tatsuki.
Olhar para a Tatsuki brava era como olhar diretamente para um canhão carregado. Você sabe que vai levar um tiro. A única dúvida é se vai sobrar o suficiente de você para um funeral menos traumático.
Ichigo sentia o peso do Kikanshinki em seu bolso. O "Coelhinho da Amnésia" da Rukia. Um clique, um flash idiota e um bando de memórias falsas sobre vazamentos de gás ou um desfile de Cosplay que deu errado, e Tatsuki voltaria a ser apenas a garota que lhe dava rasteiras no dojô. Vida normal. Sem samurais invisíveis com espadas legais. Sem monstros complexados com máscaras esqueléticas de Halloween.
“Vai lá, Morango”, a voz de Shirosaki ronronou lá no fundo, com aquele tom de quem está assistindo a um desastre de camarote. “Apaga o brilho dos olhos dela. É mais fácil mentir para um vegetal do que para uma lutadora, não?”
“Cala a boca, desgraçado!”.
Ele olhou de novo para ela enquanto a acompanhava. Tatsuki não era "gente comum". Ela era o tipo de pessoa que, se encontrasse um Shinigami em um beco escuro, provavelmente perguntaria se ele tinha licença para portar aquela espada antes de chutar a canela dele. Tentar apagar a memória dela agora parecia… Errado. Quase como uma traição. E, honestamente? Com a sorte que ele andava tendo, o dispositivo provavelmente iria pifar, soltar faíscas e transformar a memória dela em algo como "Ichigo é um kigurumi mágico", o que seria, talvez, um destino pior que a morte.
— Kurosaki-kun? — a voz de Orihime o trouxe de volta. Ela o olhava com aquele jeito de quem sabia exatamente o que ele estava pensando e estava rezando para ele não fazer a escolha mais idiota.
— Eu sei, eu sei... — resmungou, tirando a mão do bolso. — Sem truques de mágica hoje.
— “Truques”? — Tatsuki arqueou uma sobrancelha, os olhos brilhando com uma periculosidade renovada. — Que tipo de truques, Kurosaki?
— Nada que funcione em você, Tatsuki. Acredite — ele suspirou, sentindo seus ombros caírem uns dez quilos. — Você é teimosa demais para esquecer o que viu, mesmo se eu usasse um laser de lavagem cerebral da NASA.
A verdade era um gosto amargo. Admitir que ela estava "dentro do jogo” significava que Ichigo não podia mais protegê-la ficando longe. O segredo era o seu escudo, mas Tatsuki tinha acabado de chutar o escudo para bem longe e perguntado por que ele estava escondendo uma espada atrás dele.
— Ótimo! — ela bufou, cruzando os braços. — Porque se você tentar me fazer esquecer, ou algo do tipo, eu iria garantir que a última coisa que você lembrasse fosse o formato do meu punho!
— É... — ele deu um sorriso torto, sentindo o sarcasmo voltando para o seu devido lugar, como um mecanismo de defesa confortável. — O bom e velho charme de Arisawa Tatsuki. Como eu senti falta disso.
E eles foram até a cafeteria, onde ele podia sentir a realidade de Karakura vibrando ao redor deles. O normal tinha morrido de vez. E o pior de tudo? Ele tinha a sensação de que, em algum lugar daquela cidade, um cara de boina estava rindo da cara dele de adolescente em crise existencial.
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