When the Strawberry meets the Sky
9 The White Cape and Me
O coelho tinha orelhas grandes demais.
Ichigo girava o pequeno dispositivo entre os dedos enquanto caminhava pela rua. O plástico branco refletia a luz da tarde e a cara ridiculamente feliz do boneco parecia zombar dele. O Kikanshinki, que Ichigo preferia chamar de “Coelhinho da Amnésia”.
— Sério… — murmurou.
Por um segundo, ele quase conseguiu ouvir a voz de Rukia de novo.
Não era exatamente uma lembrança clara, mas algo mais próximo de um eco.
Rukia segurava o dispositivo na frente dele, olhando com aquela mistura familiar de autoridade e impaciência que sempre surgia quando ela tinha certeza de estar certa — o que, na cabeça dela, era praticamente sempre.
— Se algum humano ver algo que não deveria — disse ela, erguendo o coelho como se fosse um artefato sagrado — Use isso.
Ichigo franziu o cenho.
— Por que um coelho sorridente?
— Porque funciona.
— Isso não responde à minha pergunta.
E ela respondeu primeiro com um pequeno soco educativo na cabeça dele.
— Porque funciona.
E a memória terminava exatamente ali.
Ichigo soltou um suspiro baixo enquanto o presente voltava ao lugar. O coelho ainda estava na palma de sua mão, leve demais para algo que carregava uma decisão tão simples — e tão irritante ao mesmo tempo.
Ele ergueu os olhos.
Tatsuki caminhava alguns passos à frente, braços cruzados e passos firmes, como fazia sempre que estava irritada. A expressão dela ainda carregava aquela mistura de determinação e frustração que ele conhecia desde a infância. Talvez tivesse sido uma ideia melhor trazer Inoue junto. Inoue sempre sabia como acalmar a amiga que tinha visto demais.
Ichigo apertou o Kikanshinki por um instante.
Um clique, e tudo poderia acabar ali.
Luz.
Memórias falsas.
E Tatsuki voltaria a ser apenas a amiga que brigava com ele no dojo e reclamava quando ele faltava aos treinos.
Simples. Seguro. E gentil.
Mas ele acabou guardando o coelho no bolso.
— Não dá… — murmurou para si mesmo.
“Ela merece saber”.
— Ichigo — a voz de Tatsuki veio sem que ela sequer se virasse — Você está andando muito devagar.
— Tô pensando.
— Pensar não combina com você.
— Valeu.
Ela finalmente parou diante de uma pequena loja cuja placa simples balançava levemente acima da porta:
URAHARA SHOP
Tatsuki olhou primeiro para a placa e depois para Ichigo.
— Então… — disse ela — É aqui?
Ichigo enfiou as duas mãos nos bolsos.
— É.
Ela estreitou os olhos.
— Você me trouxe para um antiquário.
— Não é um antiquário.
— Parece um antiquário.
Ichigo abriu a porta.
— É o seguinte… — disse ele, entrando — Aqui é o nosso “pit stop espiritual”.
Tatsuki entrou logo atrás dele e imediatamente franziu o cenho.
Ichigo já sabia o que ela estava percebendo. Todo mundo percebia a mesma coisa na primeira vez: a loja era muito maior por dentro do que deveria ser. As prateleiras se estendiam até o fundo, abarrotadas de objetos estranhos, caixas antigas, ferramentas de aparência suspeita e coisas que pareciam ter sido retiradas diretamente de algum templo abandonado.
— Eu odeio quando isso acontece — murmurou Tatsuki.
Uma voz alegre surgiu do fundo da loja.
— Ara ara! Temos uma ilustre visitante!
O homem deslizou para o campo de visão como se tivesse surgido das sombras. Chapéu de listras verdes, sandálias de madeira, leque aberto e aquele sorriso suspeito que sempre dava a impressão de que ele sabia algo que ninguém mais sabia.
— Kurosaki-san! — disse Urahara, animado. — Vejo que trouxe uma amiga.
Tatsuki olhou para ele, piscou uma vez e apontou diretamente para o homem.
— Esse é o cara em que você confia pro seu “pit stop espiritual”?
Ichigo suspirou.
— Este é o Urahara-san.
— Isso é nome ou cargo?
— Os dois.
Urahara inclinou a cabeça educadamente.
— Arisawa Tatsuki-san, imagino.
Tatsuki estreitou os olhos imediatamente.
— Eu não lembro de ter me apresentado.
Urahara abanou o leque com tranquilidade.
— Oh, mas você não precisa…
Ichigo apontou para ele.
— Ele sabe tudo.
— Mas eu não sei tudo — disse Urahara.
— Sabe sim. E sempre sabe demais!
Antes que a conversa continuasse, uma nova voz surgiu de cima.
— Humm… Arisawa Tatsuki, imagino?
Tatsuki levantou os olhos. Sentada casualmente sobre uma estante estava uma mulher de pele escura, olhos dourados e um sorriso preguiçoso, com as pernas cruzadas como se aquele fosse o lugar mais adequado do mundo. Ela saltou para o chão com a leveza de um gato.
— Yoruichi-san — disse Ichigo.
Tatsuki piscou.
— Espera…
Ela apontou lentamente.
— Você… Não deveria ser um gato?
Yoruichi sorriu.
— Quem disse?
Tatsuki virou-se para Ichigo e ficou em silêncio por exatos três segundos antes de encará-lo.
— Por que você me disse que era um gato?
— Bem, eu… — respondeu ele, uma mão coçando a cabeça — Acho que me enganei.
— Isso não melhora a situação. Como se confunde uma pessoa com um gato?
Ichigo abriu a boca para responder, mas foi interrompido pelo som de passos pesados vindo do interior da loja. A figura enorme de Tsukabishi Tessai surgiu das sombras e caminhou calmamente até Urahara.
— Tenchō — disse ele — Devo preparar o chá para a convidada?
Tatsuki olhou para ele e depois para Ichigo.
— Por que todo mundo aqui parece saído das sombras?!
— Eu também me perguntava isso nas primeiras vezes — respondeu Ichigo. — Depois você acostuma.
Urahara fechou o leque com um estalo.
— Então… Kurosaki-san — disse ele — Imagino que haja um motivo específico para trazer Arisawa-san até aqui.
Ichigo apontou.
— Ela consegue ver.
O silêncio caiu por um segundo.
O sorriso de Urahara diminuiu, mas quase imperceptivelmente. Yoruichi inclinou a cabeça. Tessai permaneceu imóvel.
Tatsuki colocou as mãos nos quadris.
— É isso aí! Eu vejo.
Então ela encarou diretamente o homem do chapéu listrado.
— Então alguém aqui vai me explicar por que o Ichigo anda por aí vestido de samurai, pulando prédios e cortando monstros invisíveis… E por que parece que todo mundo sabia disso menos eu.
Urahara abriu o leque lentamente.
— Oya…
Uma nova voz interrompeu.
— Yo, Ichigo!
Ichigo congelou.
Tatsuki virou a cabeça.
Encostado em uma das prateleiras estava o homem da boina, como se estivesse ali desde o começo. Sorriso preguiçoso, olhos atentos, cabelo em um corte estranho de chanel.
— Você demorou — disse Shinji.
Ichigo lançou um olhar incrédulo para Urahara.
— Você… O conhece?!
Tatsuki piscou, confusa, olhando de um indivíduo a outro.
— Vocês não se conheciam??
Shinji inclinou a cabeça e sorriu.
— Aah… Uma nova aliada arrastada para o nosso mundo?
Ichigo ia começar a protestar quando uma explosão de energia atravessou a loja.
— FINALMENTE!
Uma figura pequena de cabelo loiro repartido e preso em dois rabos-de-cavalo curtos e uma voz que parecia forçadamente áspera surgiu de trás do balcão.
— O Morango radioativo!!
O chute veio rápido.
Ichigo voou uns dois metros para trás pelos cálculos de Tatsuki.
— Hiyori!!! — gritou Shinji, em uma tentativa claramente vã de repreendê-la.
Tatsuki avançou imediatamente.
— EI!
Hiyori virou-se para ela e as duas se encararam.
Silêncio.
Yoruichi cruzou os braços.
— Isso ficou bom...
Hiyori apontou primeiro.
— Quem é essa?!
Tatsuki apontou de volta.
— Quem é você?!
Ichigo ainda estava no chão quando tentou replicar:
— Eu… Não…
Mas era tarde demais.
— Você é amiga desse idiota?! — perguntou Hiyori.
— Sim!
— Então deve ser idiota também!
— Quer testar?!
As duas deram um passo à frente ao mesmo tempo.
Shinji suspirou.
— Lá vamos nós…
Urahara abanou o leque com satisfação.
— Nada como um primeiro encontro emocionante para firmar uma grande amizade!
Ichigo finalmente se levantou.
— CHEGA! Quem diabos é você?! E o que vocês dois estão fazendo aqui?!
— A pergunta é — retrucou Hiyori — Por que diabos você trouxe uma humana para cá?!
— Ela vê Hollows! E vê a minha forma Shinigami!
Ele apontou primeiro para Shinji e depois para Hiyori.
— E vocês dois estão proibidos de falar pelos próximos dez minutos!
Shinji abriu a boca, provavelmente para retrucar, mas fechou.
— Justo.
Hiyori mostrou a língua.
E Urahara deu um passo à frente, sorrindo para Tatsuki.
— Arisawa Tatsuki-san… Bem-vinda ao lado alternativo da realidade!
Tatsuki ainda estava examinando a pilha de objetos estranhos espalhados pelas prateleiras quando o silêncio voltou a se dissolver em perguntas.
Entre os itens, havia um sino quebrado, uma caixa cheia de talismãs, uma máscara de caveira incompleta e algo que parecia suspeitamente com um braço — que ela esperava que fosse de um manequim.
— Isso é… Normal?
— Bastante — disse Yoruichi.
— Nem um pouco — respondeu Ichigo automaticamente.
— Absolutamente — concluiu Urahara.
Tatsuki virou-se lentamente para ele.
— Você não ajuda, Ichigo.
Urahara abriu o leque novamente, com aquele entusiasmo suspeito que sempre aparecia quando ele ia explicar alguma coisa que ele conhecia muito.
— Ah, mas ajuda sim! Veja, Arisawa-san, o mundo é composto basicamente por duas camadas principais…
Ichigo já recuava discretamente quando percebeu o sorriso de Shinji se abrindo um pouco mais.
— Ei, garoto…
Ele não se virou, mas a resposta já estava pronta:
— Não.
— Relaxa.
Shinji apontou com o polegar para o fundo da loja.
— Vem aqui um segundo.
Ichigo hesitou por alguns instantes.
Atrás deles, a tal da Hiyori ainda encarava Tatsuki como se estivesse avaliando se valia a pena começar uma briga ou não, enquanto Urahara parecia perfeitamente feliz em mantê-la ocupada com uma explicação sobre energia espiritual que provavelmente era metade ciência e metade emoção.
Ok.
Ichigo caminhou até o fundo da loja, seguido por Shinji, e os dois pararam perto de uma pilha de caixas velhas. A voz de Urahara continuava ao fundo, explicando com entusiasmo:
— …portanto, o fluxo de reishi se comporta de maneira semelhante a—
— Kisuke — interrompeu Yoruichi — Você está complicando conceitos. É o primeiro contato dela com o nosso mundo.
— Jamais, Yoruichi-san!
Ichigo cruzou os braços.
— Fala logo, Cabelo-de-Tigela.
Shinji inclinou a cabeça, observando-o com curiosidade.
— Direto assim?
— Eu tenho experiência com gente estranha.
— Ah, claro que tem — disse Shinji, enfiando as mãos nos bolsos e, por um momento, fazendo o próprio sorriso desaparecer — Seu Hollow é barulhento, hum?
Ichigo congelou.
— Não sei do que você está falando.
— Aah, sabe sim — ele rebateu calmamente, como se estivesse comentando o tempo — Sabe, o meu Hollow ouviu o seu.
A pressão no peito de Ichigo pareceu apertar de repente. Como assim?
— Ouviu…?
— É.
Shinji fez um gesto vago com a mão.
— Discussão interna. Xingamentos. E um pouco de ameaça existencial. É, na verdade, bem típico deles.
Ichigo não respondeu nos primeiros instantes, então Shinji continuou:
— Aquele dia na rua… Quando eu te mostrei a minha máscara... Eu não fui o primeiro a notar a sua personalidade.
Ichigo estreitou os olhos.
Shinji inclinou-se levemente para frente.
— Ele também. Aquele que vive dentro de mim.
Algo se moveu no fundo da mente de Ichigo.
Uma risada baixa.
Shirosaki.
Mas Ichigo decidiu ignorar.
— E daí?
Shinji levantou um dedo.
— Daí que não é normal um Shinigami que perambula por aí com um Hollow vinculado a ele.
— É, eu sei...
— Não, garoto, você não sabe — sua voz ficou mais baixa — Um Hollow dentro de um Shinigami quase nunca termina bem.
Aquilo fez Ichigo ficar em silêncio, na expectativa de ouvir algo preocupante.
— Ou você domina ele… — Shinji fez uma pequena pausa, e então prosseguiu — Ou ele domina você.
Ichigo soltou um riso curto e desconfortável.
— Já ouvi essa história antes.
— Já ouviu — concordou Shinji — Mas ainda não entendeu.
Ele apontou para o centro do peito de Ichigo.
— Aquela coisa dentro de você não está adormecida, tampouco é passiva. Ele cresce.
Ao fundo da loja, Tatsuki levantava a voz:
— Espera aí! Então você está me dizendo que tem monstros invisíveis reais andando pela cidade em busca de almas humanas para devorar?
— Hollows — corrigiu Urahara calmamente.
— E o que isso significa?
Hiyori deu uma risada alta e sarcástica.
Shinji suspirou.
— Como eu ia dizendo... Meu Hollow disse que consegue ouvir o seu claramente.
Ichigo levantou os olhos, sentindo o estômago apertar.
— Está dizendo que ele ouviu… A nossa conversa?
— Quase toda — disse Shinji, cruzando os braços — Inclusive que você o trata por um nome que você mesmo o deu. “Shirosaki”.
A palavra saiu quase num sussurro.
— Um nome criativo, Ichigo. Irônico.
— Báa, cala a boca. Eu só não... Consigo conversar com alguém que sequer um nome tem!
— Funciona. Mas tem um problema — disse Shinji, dando de ombros e apontando para a própria cabeça — Se você não subjulga o seu Hollow interno, ele vai se libertando cada vez mais.
Ele fez pausa.
— E quando isso acontecer… Você não vai ser mais o dono do corpo. Vai ser o convidado.
Ichigo apertou os dentes.
Ao fundo, Tatsuki ainda discutia com Urahara:
— Então você está me dizendo que existe uma cidade inteira de fantasmas?
— Tecnicamente, uma sociedade espiritual. A Soul Society.
— E onde fica essa tal Soul Society?
Yoruichi parecia se divertir. Já Hiyori parecia pronta para tentar um novo chute voador.
Shinji deu de ombros.
— Então aqui vai o convite oficial — ele estalou os dedos — Vem treinar com a gente.
Ichigo levantou a cabeça.
— E se eu disser não?
— Então eu volto aqui em algumas semanas. E verifico quem está usando o seu corpo.
Ichigo apertou os dentes.
Shinji virou-se.
— Pense nisso, Ichigo — ele deu dois passos e então parou — Ah... Essa sua amiga é brava.
— Eu sei.
— Gostei dela.
— Não chega perto.
Ele riu.
No centro da loja, Tatsuki ainda trocava ideias com Urahara. Ichigo permaneceu parado por alguns segundos e, então, a conhecida voz dentro da cabeça dele finalmente falou:
“Heh…”
Pelo tom, Shirosaki parecia satisfeito, não temeroso, embora a ideia da conversa tivesse sido o como suprimi-lo.
“Cale a boca e me responde: você também consegue ouvir o Hollow dele?!”
“Quem, eu?! Beem...”
“...”
“Digamos que sim. Mas ele não tem um nome, o coitado. O Shinigami dele não é tão caloroso quanto você, Ichigoo!”
Ichigo franziu o cenho e suspirou.
“Isso não é engraçado...”
“Pra mim é...”
“Você ouviu o que ele disse.”
“Ouvi.”
“E então...?”
“Parece que vai ser muito divertido! Ichigo, você acha mesmo que consegue me subjulgar?! Você me deu um nome, e aceita a minha ajuda para resolver todos os seus problemas! Há alguma dúvida de quem, no fim, ficará no comando?!”
E Ichigo não respondeu mais, embora a risada de Shirosaki ainda ecoasse e sua mente. Ele fechou os olhos por um instante e, quando os abriu de novo, viu Shinji ainda encarando-o. Não sorrindo. Esperando.
— Tá, eu... Vou pensar.
O sorriso de Shinji reabriu lenta e completamente.
— Boa resposta.
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