O coelho tinha orelhas grandes demais.

Ichigo girava o pequeno dispositivo entre os dedos enquanto caminhava pela rua. O plástico branco refletia a luz da tarde e a cara ridiculamente feliz do boneco parecia zombar dele. O Kikanshinki, que Ichigo preferia chamar de “Coelhinho da Amnésia”.

— Sério… — murmurou.

Por um segundo, ele quase conseguiu ouvir a voz de Rukia de novo.

Não era exatamente uma lembrança clara, mas algo mais próximo de um eco.

Rukia segurava o dispositivo na frente dele, olhando com aquela mistura familiar de autoridade e impaciência que sempre surgia quando ela tinha certeza de estar certa — o que, na cabeça dela, era praticamente sempre.

— Se algum humano ver algo que não deveria — disse ela, erguendo o coelho como se fosse um artefato sagrado — Use isso.

Ichigo franziu o cenho.

— Por que um coelho sorridente?

— Porque funciona.

— Isso não responde à minha pergunta.

E ela respondeu primeiro com um pequeno soco educativo na cabeça dele.

— Porque funciona.

E a memória terminava exatamente ali.

Ichigo soltou um suspiro baixo enquanto o presente voltava ao lugar. O coelho ainda estava na palma de sua mão, leve demais para algo que carregava uma decisão tão simples — e tão irritante ao mesmo tempo.

Ele ergueu os olhos.

Tatsuki caminhava alguns passos à frente, braços cruzados e passos firmes, como fazia sempre que estava irritada. A expressão dela ainda carregava aquela mistura de determinação e frustração que ele conhecia desde a infância. Talvez tivesse sido uma ideia melhor trazer Inoue junto. Inoue sempre sabia como acalmar a amiga que tinha visto demais.

Ichigo apertou o Kikanshinki por um instante.

Um clique, e tudo poderia acabar ali.

Luz.

Memórias falsas.

E Tatsuki voltaria a ser apenas a amiga que brigava com ele no dojo e reclamava quando ele faltava aos treinos.

Simples. Seguro. E gentil.

Mas ele acabou guardando o coelho no bolso.

— Não dá… — murmurou para si mesmo.

“Ela merece saber”.

— Ichigo — a voz de Tatsuki veio sem que ela sequer se virasse — Você está andando muito devagar.

— Tô pensando.

— Pensar não combina com você.

— Valeu.

Ela finalmente parou diante de uma pequena loja cuja placa simples balançava levemente acima da porta:

URAHARA SHOP

Tatsuki olhou primeiro para a placa e depois para Ichigo.

— Então… — disse ela — É aqui?

Ichigo enfiou as duas mãos nos bolsos.

— É.

Ela estreitou os olhos.

— Você me trouxe para um antiquário.

— Não é um antiquário.

— Parece um antiquário.

Ichigo abriu a porta.

— É o seguinte… — disse ele, entrando — Aqui é o nosso “pit stop espiritual”.

Tatsuki entrou logo atrás dele e imediatamente franziu o cenho.

Ichigo já sabia o que ela estava percebendo. Todo mundo percebia a mesma coisa na primeira vez: a loja era muito maior por dentro do que deveria ser. As prateleiras se estendiam até o fundo, abarrotadas de objetos estranhos, caixas antigas, ferramentas de aparência suspeita e coisas que pareciam ter sido retiradas diretamente de algum templo abandonado.

— Eu odeio quando isso acontece — murmurou Tatsuki.

Uma voz alegre surgiu do fundo da loja.

— Ara ara! Temos uma ilustre visitante!

O homem deslizou para o campo de visão como se tivesse surgido das sombras. Chapéu de listras verdes, sandálias de madeira, leque aberto e aquele sorriso suspeito que sempre dava a impressão de que ele sabia algo que ninguém mais sabia.

— Kurosaki-san! — disse Urahara, animado. — Vejo que trouxe uma amiga.

Tatsuki olhou para ele, piscou uma vez e apontou diretamente para o homem.

— Esse é o cara em que você confia pro seu “pit stop espiritual”?

Ichigo suspirou.

— Este é o Urahara-san.

— Isso é nome ou cargo?

— Os dois.

Urahara inclinou a cabeça educadamente.

— Arisawa Tatsuki-san, imagino.

Tatsuki estreitou os olhos imediatamente.

— Eu não lembro de ter me apresentado.

Urahara abanou o leque com tranquilidade.

— Oh, mas você não precisa…

Ichigo apontou para ele.

— Ele sabe tudo.

— Mas eu não sei tudo — disse Urahara.

— Sabe sim. E sempre sabe demais!

Antes que a conversa continuasse, uma nova voz surgiu de cima.

— Humm… Arisawa Tatsuki, imagino?

Tatsuki levantou os olhos. Sentada casualmente sobre uma estante estava uma mulher de pele escura, olhos dourados e um sorriso preguiçoso, com as pernas cruzadas como se aquele fosse o lugar mais adequado do mundo. Ela saltou para o chão com a leveza de um gato.

— Yoruichi-san — disse Ichigo.

Tatsuki piscou.

— Espera…

Ela apontou lentamente.

— Você… Não deveria ser um gato?

Yoruichi sorriu.

— Quem disse?

Tatsuki virou-se para Ichigo e ficou em silêncio por exatos três segundos antes de encará-lo.

— Por que você me disse que era um gato?

— Bem, eu… — respondeu ele, uma mão coçando a cabeça — Acho que me enganei.

— Isso não melhora a situação. Como se confunde uma pessoa com um gato?

Ichigo abriu a boca para responder, mas foi interrompido pelo som de passos pesados vindo do interior da loja. A figura enorme de Tsukabishi Tessai surgiu das sombras e caminhou calmamente até Urahara.

— Tenchō — disse ele — Devo preparar o chá para a convidada?

Tatsuki olhou para ele e depois para Ichigo.

— Por que todo mundo aqui parece saído das sombras?!

— Eu também me perguntava isso nas primeiras vezes — respondeu Ichigo. — Depois você acostuma.

Urahara fechou o leque com um estalo.

— Então… Kurosaki-san — disse ele — Imagino que haja um motivo específico para trazer Arisawa-san até aqui.

Ichigo apontou.

— Ela consegue ver.

O silêncio caiu por um segundo.

O sorriso de Urahara diminuiu, mas quase imperceptivelmente. Yoruichi inclinou a cabeça. Tessai permaneceu imóvel.

Tatsuki colocou as mãos nos quadris.

— É isso aí! Eu vejo.

Então ela encarou diretamente o homem do chapéu listrado.

— Então alguém aqui vai me explicar por que o Ichigo anda por aí vestido de samurai, pulando prédios e cortando monstros invisíveis… E por que parece que todo mundo sabia disso menos eu.

Urahara abriu o leque lentamente.

— Oya…

Uma nova voz interrompeu.

— Yo, Ichigo!

Ichigo congelou.

Tatsuki virou a cabeça.

Encostado em uma das prateleiras estava o homem da boina, como se estivesse ali desde o começo. Sorriso preguiçoso, olhos atentos, cabelo em um corte estranho de chanel.

— Você demorou — disse Shinji.

Ichigo lançou um olhar incrédulo para Urahara.

— Você… O conhece?!

Tatsuki piscou, confusa, olhando de um indivíduo a outro.

— Vocês não se conheciam??

Shinji inclinou a cabeça e sorriu.

— Aah… Uma nova aliada arrastada para o nosso mundo?

Ichigo ia começar a protestar quando uma explosão de energia atravessou a loja.

— FINALMENTE!

Uma figura pequena de cabelo loiro repartido e preso em dois rabos-de-cavalo curtos e uma voz que parecia forçadamente áspera surgiu de trás do balcão.

— O Morango radioativo!!

O chute veio rápido.

Ichigo voou uns dois metros para trás pelos cálculos de Tatsuki.

— Hiyori!!! — gritou Shinji, em uma tentativa claramente vã de repreendê-la.

Tatsuki avançou imediatamente.

— EI!

Hiyori virou-se para ela e as duas se encararam.

Silêncio.

Yoruichi cruzou os braços.

— Isso ficou bom...

Hiyori apontou primeiro.

— Quem é essa?!

Tatsuki apontou de volta.

Quem é você?!

Ichigo ainda estava no chão quando tentou replicar:

— Eu… Não…

Mas era tarde demais.

— Você é amiga desse idiota?! — perguntou Hiyori.

— Sim!

— Então deve ser idiota também!

— Quer testar?!

As duas deram um passo à frente ao mesmo tempo.

Shinji suspirou.

— Lá vamos nós…

Urahara abanou o leque com satisfação.

— Nada como um primeiro encontro emocionante para firmar uma grande amizade!

Ichigo finalmente se levantou.

— CHEGA! Quem diabos é você?! E o que vocês dois estão fazendo aqui?!

— A pergunta é — retrucou Hiyori — Por que diabos você trouxe uma humana para cá?!

— Ela vê Hollows! E vê a minha forma Shinigami!

Ele apontou primeiro para Shinji e depois para Hiyori.

— E vocês dois estão proibidos de falar pelos próximos dez minutos!

Shinji abriu a boca, provavelmente para retrucar, mas fechou.

— Justo.

Hiyori mostrou a língua.

E Urahara deu um passo à frente, sorrindo para Tatsuki.

— Arisawa Tatsuki-san… Bem-vinda ao lado alternativo da realidade!


Tatsuki ainda estava examinando a pilha de objetos estranhos espalhados pelas prateleiras quando o silêncio voltou a se dissolver em perguntas.

Entre os itens, havia um sino quebrado, uma caixa cheia de talismãs, uma máscara de caveira incompleta e algo que parecia suspeitamente com um braço — que ela esperava que fosse de um manequim.

— Isso é… Normal?

— Bastante — disse Yoruichi.

— Nem um pouco — respondeu Ichigo automaticamente.

— Absolutamente — concluiu Urahara.

Tatsuki virou-se lentamente para ele.

— Você não ajuda, Ichigo.

Urahara abriu o leque novamente, com aquele entusiasmo suspeito que sempre aparecia quando ele ia explicar alguma coisa que ele conhecia muito.

— Ah, mas ajuda sim! Veja, Arisawa-san, o mundo é composto basicamente por duas camadas principais…

Ichigo já recuava discretamente quando percebeu o sorriso de Shinji se abrindo um pouco mais.

— Ei, garoto…

Ele não se virou, mas a resposta já estava pronta:

— Não.

— Relaxa.

Shinji apontou com o polegar para o fundo da loja.

— Vem aqui um segundo.

Ichigo hesitou por alguns instantes.

Atrás deles, a tal da Hiyori ainda encarava Tatsuki como se estivesse avaliando se valia a pena começar uma briga ou não, enquanto Urahara parecia perfeitamente feliz em mantê-la ocupada com uma explicação sobre energia espiritual que provavelmente era metade ciência e metade emoção.

Ok.

Ichigo caminhou até o fundo da loja, seguido por Shinji, e os dois pararam perto de uma pilha de caixas velhas. A voz de Urahara continuava ao fundo, explicando com entusiasmo:

— …portanto, o fluxo de reishi se comporta de maneira semelhante a—

— Kisuke — interrompeu Yoruichi — Você está complicando conceitos. É o primeiro contato dela com o nosso mundo.

— Jamais, Yoruichi-san!

Ichigo cruzou os braços.

— Fala logo, Cabelo-de-Tigela.

Shinji inclinou a cabeça, observando-o com curiosidade.

— Direto assim?

— Eu tenho experiência com gente estranha.

— Ah, claro que tem — disse Shinji, enfiando as mãos nos bolsos e, por um momento, fazendo o próprio sorriso desaparecer — Seu Hollow é barulhento, hum?

Ichigo congelou.

— Não sei do que você está falando.

— Aah, sabe sim — ele rebateu calmamente, como se estivesse comentando o tempo — Sabe, o meu Hollow ouviu o seu.

A pressão no peito de Ichigo pareceu apertar de repente. Como assim?

Ouviu…?

— É.

Shinji fez um gesto vago com a mão.

— Discussão interna. Xingamentos. E um pouco de ameaça existencial. É, na verdade, bem típico deles.

Ichigo não respondeu nos primeiros instantes, então Shinji continuou:

— Aquele dia na rua… Quando eu te mostrei a minha máscara... Eu não fui o primeiro a notar a sua personalidade.

Ichigo estreitou os olhos.

Shinji inclinou-se levemente para frente.

Ele também. Aquele que vive dentro de mim.

Algo se moveu no fundo da mente de Ichigo.

Uma risada baixa.

Shirosaki.

Mas Ichigo decidiu ignorar.

— E daí?

Shinji levantou um dedo.

— Daí que não é normal um Shinigami que perambula por aí com um Hollow vinculado a ele.

— É, eu sei...

— Não, garoto, você não sabe — sua voz ficou mais baixa — Um Hollow dentro de um Shinigami quase nunca termina bem.

Aquilo fez Ichigo ficar em silêncio, na expectativa de ouvir algo preocupante.

— Ou você domina ele… — Shinji fez uma pequena pausa, e então prosseguiu — Ou ele domina você.

Ichigo soltou um riso curto e desconfortável.

— Já ouvi essa história antes.

— Já ouviu — concordou Shinji — Mas ainda não entendeu.

Ele apontou para o centro do peito de Ichigo.

— Aquela coisa dentro de você não está adormecida, tampouco é passiva. Ele cresce.

Ao fundo da loja, Tatsuki levantava a voz:

— Espera aí! Então você está me dizendo que tem monstros invisíveis reais andando pela cidade em busca de almas humanas para devorar?

— Hollows — corrigiu Urahara calmamente.

— E o que isso significa?

Hiyori deu uma risada alta e sarcástica.

Shinji suspirou.

— Como eu ia dizendo... Meu Hollow disse que consegue ouvir o seu claramente.

Ichigo levantou os olhos, sentindo o estômago apertar.

— Está dizendo que ele ouviu… A nossa conversa?

— Quase toda — disse Shinji, cruzando os braços — Inclusive que você o trata por um nome que você mesmo o deu. “Shirosaki”.

A palavra saiu quase num sussurro.

— Um nome criativo, Ichigo. Irônico.

— Báa, cala a boca. Eu só não... Consigo conversar com alguém que sequer um nome tem!

— Funciona. Mas tem um problema — disse Shinji, dando de ombros e apontando para a própria cabeça — Se você não subjulga o seu Hollow interno, ele vai se libertando cada vez mais.

Ele fez pausa.

— E quando isso acontecer… Você não vai ser mais o dono do corpo. Vai ser o convidado.

Ichigo apertou os dentes.

Ao fundo, Tatsuki ainda discutia com Urahara:

— Então você está me dizendo que existe uma cidade inteira de fantasmas?

— Tecnicamente, uma sociedade espiritual. A Soul Society.

— E onde fica essa tal Soul Society?

Yoruichi parecia se divertir. Já Hiyori parecia pronta para tentar um novo chute voador.

Shinji deu de ombros.

— Então aqui vai o convite oficial — ele estalou os dedos — Vem treinar com a gente.

Ichigo levantou a cabeça.

— E se eu disser não?

— Então eu volto aqui em algumas semanas. E verifico quem está usando o seu corpo.

Ichigo apertou os dentes.

Shinji virou-se.

— Pense nisso, Ichigo — ele deu dois passos e então parou — Ah... Essa sua amiga é brava.

— Eu sei.

— Gostei dela.

— Não chega perto.

Ele riu.

No centro da loja, Tatsuki ainda trocava ideias com Urahara. Ichigo permaneceu parado por alguns segundos e, então, a conhecida voz dentro da cabeça dele finalmente falou:

“Heh…”

Pelo tom, Shirosaki parecia satisfeito, não temeroso, embora a ideia da conversa tivesse sido o como suprimi-lo.

“Cale a boca e me responde: você também consegue ouvir o Hollow dele?!”

“Quem, eu?! Beem...”

“...”

“Digamos que sim. Mas ele não tem um nome, o coitado. O Shinigami dele não é tão caloroso quanto você, Ichigoo!”

Ichigo franziu o cenho e suspirou.

“Isso não é engraçado...”

“Pra mim é...”

“Você ouviu o que ele disse.”

“Ouvi.”

“E então...?”

“Parece que vai ser muito divertido! Ichigo, você acha mesmo que consegue me subjulgar?! Você me deu um nome, e aceita a minha ajuda para resolver todos os seus problemas! Há alguma dúvida de quem, no fim, ficará no comando?!”

E Ichigo não respondeu mais, embora a risada de Shirosaki ainda ecoasse e sua mente. Ele fechou os olhos por um instante e, quando os abriu de novo, viu Shinji ainda encarando-o. Não sorrindo. Esperando.

— Tá, eu... Vou pensar.

O sorriso de Shinji reabriu lenta e completamente.

— Boa resposta.