When We Were Young
94 One To Ten
Notas iniciais
ONE TO TEN
BLACK’S HOUSE
1976
SUMMER
—Em uma escala de 1 até 10 quanto está sua dor hoje? – perguntou Remus, deitado de barriga para cima na minha cama, no meu quarto que tinha na Casa dos Black, a qual eu odiava. Deitei de barriga para cima também, e suspirei.
Pensei um pouco, apesar de não ser realmente necessário, mas fiquei quieta, batucando meus dedos em minha barriga.
—8? Eu acho. — murmurei em resposta.
Nós dois olhamos o meu céu enfeitiçado, que tio Alphard havia feito para mim quando eu tinha 12 anos. Ele mostrava um céu escuro com todas as constelações que tinham nomes dos Black. Quando amanhecia ela sumia e voltava ao anoitecer. E era de madrugada, quando Remus entrou pela janela do meu quarto.Ele fazia isso todas as noites. Eu não conseguia dormir sozinha por muito tempo sem acordar com um pesadelo, e por algum motivo eu sempre queria Remus, então eu mandava cartas para ele, e ele sem eu pedir passou a fugir de casa e vir até a Casa dos Black, entrar pela minha janela e dormir comigo, e de manhã eu o levava escondido para a lareira e ele voltava para casa. Era assim todas as noites. E toda noite ele vinha com sua mochila equipado. Um walkman, fitas e chocolates. Era tudo que precisávamos, ele dizia. E eu ficava feliz por aquele tempo, aquelas horas da madruga onde ficávamos juntos.
Remus tamborilou os dedos na barriga também, e se sentou, puxando a mochila do chão. Ele tirou um saquinho de lá, e o vasculhou, até que achou o bombom embrulhado e sorriu, deixando-a bolsa cair de volta para o chão, e voltando a se deitar.
—Nº8. — ele murmurou, me entregando o bombom. Eu abri e mordi com um sorrisinho. — Bombom de caramelo. — ele disse.
Remus todas as noites me fazia uma pergunta especifica. “Em uma escala de 1 até 10 quanto está sua dor hoje?” Minhas respostas eram sempre 9, ou 8, e até mesmo uma vez foi 7. Eu nunca falava 10, mesmo que as vezes eu quisesse, era como se, eu quisesse guardar o meu 10, para uma hora que não fosse mais suportável. E cada número na escala representava um tipo de guloseima. O nº9 era uma boa e tradicional barra de chocolate ao leite, e o nº7 era bombom de chocolate. Eram os únicos que eu sabia, junto no nº8.
Eu mordi mais um pedaço, e senti uma doce explosão de caramelo pela minha boca. Mordi mais um pedaço, e limpei o canto da minha boca, então em virei para Remus, e ele abriu a boca. Coloquei o último pedaço do bombom de caramelo em sua boca, e ele mastigou. Eu sempre deixava o último pedaço para Remus, mesmo que no começo ele insistia que não queria nada.
—Sua mãe faz bombons como ninguém, Remy. — murmurei. Ele sorriu, e assentiu. — Como ela está?
—Ahn… indo. — ele respondeu, com os lábios crispados. — Está tentando.
Eu me virei de lado, e Remus me imitou, ficamos nos encarando por um tempo, e eu sabia que podíamos enxergar dor pelos olhos um do outro. Estendi minha mão, e peguei a dele. Entrelaçamos nossos dedos, com nossos mãos a nossa frente, ele se curvou beijando as costas da minha mão, vagarosamente.
—Remy…
—Tente dormir agora, Addie. — ele pediu. Assenti, e fechei meus olhos. Eu só queria dizer para ele eu esperava ansiosamente o dia em que eu saberia o que era o nº1.
ஐ
Quando eu olhei pela janela e vi Remus na rua de bicicleta, vindo para a minha janela, eu coloquei minha mochila nas costas, passei as pernas pela minha janela, e comecei a descer elas. Antes de tocar no chão, senti mãos nas minhas pernas, e Remus me ajudou a chegar no chão. Eu ofeguei repetidamente, com a mão no meu peito. Ainda era difícil de respirar, mas eu ignorei e comecei a andar ofegante, puxando Remus até a bicicleta. Eu travei no lugar quando notei que era a bicicleta de Adam. Remus vinha todos os dias nela, mas como eu o via da janela e estava escuro, nunca havia reparado em qual bicicleta era. Ele me olhou, enquanto eu tocava na bicicleta, achando o risco que fizemos na lateria verde-água “A+A”. Eu passei o dedo por cima.
—Addie…
—Porque você tem isso? — indaguei. Ele engoliu em seco, para falar.
—Quando fomos na sua casa… — ele murmurou. — Com Henry, seus avós… eu e Sirius… nós…
—Decidiram roubar a bicicleta dele? A avó dele…
—Ela deu para nós, Addie. — ele murmurou. — Nós fomos na casa dela, ver como ela estava… ela perguntou se queríamos ver o quarto do Adam, e que se quiséssemos poderíamos pegar qualquer coisa, mas antes deveríamos mostrar para ela.
—O-o que vocês pegaram? — gaguejei, me sentindo nervosa e ansiosa.
—Sirius não pegou nada, porque não teria como ele trazer para cá, mas eu peguei algumas coisas, e eu levaria todas elas para você quando voltássemos para Hogwarts.
—O que você pegou? — indaguei novamente.
—O violão dele. — ele respondeu. Eu ofeguei, querendo chorar. — A guitarra a banda tinha pego, mas eu peguei o violão… eu peguei umas blusas que… tinham um pouco de seu cheiro, então imaginei que gostaria de tê-las, umas fotos também… esses tipos de coisa. Está tudo em uma caixa que vou te dar no Expresso, está bem? — ele me falou, tocando meu braço. Eu fechei meus olhos, e senti sua mão no meu queixo. — Eu peguei para você.
—Obrigada. — murmurei.
—A bicicleta… a avó dele perguntou se eu queria, e ela… ela deixou algo para você. — ele disse. O olhei ansiosa. Remus catou da bolsa um chaveiro com algumas chaves nele. — Ela te deu a van.
Arregalei os olhos e peguei as chaves da mão de Remus. Vi a chave da van ali, assim como a da garagem dele, e da lanchonete também. Eu suspirei, e guardei as chaves na minha mochila. Olhei Remus agradecida, e o abracei. Remus me abraçou de volta. Ficamos assim um pouquinho, e estava muito bom, mas logo estávamos na bicicleta. Remus pedalando e eu com os pés apoiados no suporte que tinha e minhas mãos no ombro de Remus. Ele pedalou bastante. Quilômetros. O vento bateu em meu rosto, e eu olhei para cima vendo o céu escuro e algumas estrelas brilharem em potinhos pequenos. Eu sorri, apertando devagar os ombros de Remus, e estranhamente eu poderia dizer que naquele momento eu estava me sentindo na escala um “5”, mesmo que o lugar que estávamos indo me fizesse me sentir como um “10”. Eu abri um pouquinho minha boca, e senti o ar bater dentro dela, e de repente eu não estava mais ofegante. Eu fiquei assim, até que Remus parou de pedalar, e nós dois descemos da bicicleta. Nós olhamos o local, e então entramos. Ele segurou minha mão, e caminhamos para dentro do cemitério. Passamos por algumas lápides, e lá estava as que eu tanto procurava. Remus se separou de mim, e me deixou sozinha, em frente a lápide dos meus pais.
Eu abri minha mochila, peguei uma caneta trouxa e meu diário cor-de-rosa. O abri e comecei a escrever sobre onde eu estava. Olhei ao redor e escrevi que apesar de ser verão a madrugada não estava assim tão calorenta, e sim com um vento friozinho batendo no meu rosto. Escrevi isso, e comecei a contar como me senti o dia inteiro, enquanto tia Walburga me fazia provar tipos diferentes de bolo para o meu casamento, ou que tipo de vestido eu queria, e uma lista de convidados, o quanto eu me senti pequena e… sem poder nenhum. Como se não houvesse nada que eu pudesse fazer que fosse mudar isso. Como se o meu destino estivesse sendo traçado diante dos meus olhos e eu não pudesse fazer nada para mudar isso. Absolutamente nada. Vazia por dentro e por fora.
—Quem vem para um cemitério de madrugada? — escutei uma voz feminina perguntar. Me virei com a varinha em punho e apontei para a voz. Uma mulher apareceu, com uma bolsa cara nas mãos, olhando para as lápides a minha frente. — Mas como eu posso perguntar isso, não é? Eu também estou aqui.
—Quem é você? — indaguei, ainda com a varinha em punho.
O rosto me era familiar, como se eu já tivesse visto em algum lugar, mas eu não sabia se eu não lembrava por causa dos danos do acidente ou se era apenas impressão. A mulher sorriu. Ela era muito bonita. Os cabelos eram ruivos amarronzados, e tinha o queixo pontudo, lábios finos e olhos verdes grandes. Era alta e usava roupas tão chiques quanto a bolsa em suas mãos.
—Quem é você, eu deveria perguntar, não é? — ela rebateu, andando um pouco mais para perto de mim. Ela me fitou inteira. E depois para a lápide dos meus pais e a de Adam. — Mas eu já sei. Adhara. — ela disse, com um sorriso frio no rosto, suspirando fundo. — Adhara Polaris Dahlia Black.
—Como sabe meu nome? — indaguei alto, me levantando.
—Como eu sei seu nome? — ela riu. — Eu sei muitas coisas sobre você.
—Como…
—Adam me contou tudo sobre você. — ela disse. Eu fiquei quieta, estática, e abaixei a varinha. — Talvez ele tenha te contado sobre mim, mas… acredito que não tenha sido coisas tão boas como foi com você. — ela falou. — Ele te contou que eu o deixei. Que eu o abandonei…
—Sra. Cook. — murmurei. Era a mãe de Adam, bem ali na minha frente. Meredith Cook. Ela deu outro sorriso frio.
—Não mais… digo, nos papéis sim, mas… não de verdade. — ela disse. — Depois que eu fui embora… para Rússia… Adam me mandou uma carta, sabia? Ela… ela chegou no mesmo dia que a carta do pai dele, me dizendo que… ele havia morrido. — ela me contou, olhando a lápide do filho. Ela parou ao meu lado. — Eu fui embora… e ele morreu. — eu vi lágrimas escorrerem pelos olhos dela. — Sabe como eu me senti? — ela perguntou. Eu não disse nada.– Eu me senti como… a pior pessoa do mundo. A pior, sabe? E isso foi tão ruim… eu acho que nunca chorei tanto na minha vida. Eu o abandonei. Eu não estava aqui quando ele mais precisava de mim. — ela sussurrou, se curvando um pouco, e tocando a lápide dele.
—Ele te perdoaria. — eu murmurei. Ela riu, entre as lágrimas.
—Sabe porque venho aqui a essa hora? — ela me perguntou. — Porque é a única hora que eu sinto que posso chorar por ele, sem parecer… uma pessoa horrível, porque que mãe abandona seu filho e depois tem coragem de chorar no túmulo dele. — ela falou. — Eu fiz uma coisa ruim. Um erro horrível… eu o abandonei e esse é o preço que vou pagar… eu nem ao menos me despedi dele. — ela chorou. – Eu queria que ele soubesse que eu o amava de verdade.
—Ele sabia. — eu disse, tentando confortá-la.
—Não, ele não sabia. — ela chorou mais.
Eu fiquei sem saber o que fazer, então dei um passo para frente e a toquei no ombro, a afagando com cuidado. Ela me olhou, e abriu a bolsa, pegou de lá uma carta e a estendeu para mim.
—O que é isso?
—Adam me mandou. — ela disse – Ele me contou que… que estava desapontado comigo, mas que sentiria minha falta… que ele me perdoava… — ela soltou um soluço. — E ele me contou sobre você. Ele já havia falado sobre você antes, mas… eu nunca realmente prestei atenção. Então, ele me mandou essa carta. Sobre a mulher da vida dele. A mulher que ele casaria.– ela limpou as lágrimas e estendeu a carta mais uma vez. — Acho que deveria ficar com isso. Acho que deveria ler.
—Eu não posso…
—Ele realmente a amava, Adhara. — Meredith falou, me olhando.– Você o amava também?
—Sim. — murmurei. Ela pegou minha mão e colocou a carta ali.
—Então, leia. — ela falou. Meredith suspirou, e olhou uma última vez para lápide. — Você vai se arrepender até o último dia da sua vida se não ler.
Eu a vi se afastar, até que a escuridão a tomasse, e eu não conseguisse a vê-la mais. Eu soltei um soluço, e chorei lentamente, segurando a carta com força. Eu a abri devagar e li o começo “Mãe…” . Era a letra dele, eu chorei e a apertei contra me peito.
—Addie. — escutei Remus me chamar. Tomei um susto e escondi a carta, no bolso da minha calça. Eu o olhei, e ele me mirou carinhoso. Remus limpou minhas lágrimas e me estendeu uma flor Daisy, que havia pego no jardim do cemitério. Eu sorri para ele.
—Podemos ir embora?
ஐ
—Ta! Ta! — Sirius bufou, enquanto tia Walburga continuava falando com ele, dando instruções. Ele só queria que eles fossem embora logo, e não dava tanta atenção para a mãe, com um olhar entediado no rosto. Tia Walburga o olhou insatisfeita, mas não fez caso.
Era de manhã, logo depois que todos tomamos nosso café da manhã. Tia Walburga e tio Orion fariam uma pequena viagem para a casa que tio Alphard tinha na França, porque eles levariam tio Cygnus para lá, eles marcaram para ele uma consulta com um curandeiro, para ajudar pela fase alcoólatra dele. Levariam Teddy com eles, e Régulus também, e eu e Sirius iríamos juntos, se eu Sirius não tivesse pedido para ficar, para que eu e ele pudéssemos passar um tempo junto. Então, eles deixaram, achando que estávamos apaixonados um pelo outro.
—Se comporte. — tio Orion mandou, com o rosto sério como sempre. — Monstro vai fazer a comida de vocês. Nós voltamos depois de amanhã…
—Ta. — Sirius disse.
Eu me abaixei para abraçar Teddy, com um pouco de medo de deixá-lo ir. Depois abracei Régulus, e meus tios. Sirius só mexeu no cabelo de Teddy, e se afastou. Observei eles saírem da casa, e Sirius se jogou no sofá aliviado. Me sentei ao lado dele, e ele passou o braço pelo meu ombro.
—O que foi? — indaguei. Ele estava me mirando, com um sorris charmoso.
—Bem… nós voltamos depois de amanhã para Hogwarts…
—Eu sei. — eu respondi – Em fato, eu estou pirando em deixar Teddy… aqui com eles, sozinho. E se eles fizerem uma lavagem cerebral nele? Ele só tem quatro anos…
—Exato. Ele é uma criança. — Sirius me disse. — Ele não vai ligar.
Eu sorri, mas Sirius continuou me olhando.
—O que?
—Eu… eu e James, estávamos mandando umas cartas e eu contei que meus pais iam está fora da cidade, e… ele sugeriu…
—Uma festa. — adivinhei. Sirius deu um sorriso amarelo e assentiu. — E você quer… minha permissão?
—Eu não vou dar essa festa, Addie, se você estive mal… se você ficar sufocada com as pessoas… — ele murmurou. Ele continuou murmurando, mas eu parei de o escutar, e apenas o fiquei olhando no rosto. Enquanto ele falava, eu podia ver nos seus olhos a animação pela festa, mesmo que na sua expressão, nada indicasse isso. Sirius tinha ficado no Mungus comigo, todos os dias, assim como o resto da turma, que iam me visitar o tempo inteiro. Sem falta. E todos eles perderam um verão por causa de mim. Todos eles passaram o verão presos em um hospital, por causa de mim. E nenhum deles tinha reclamado. — … e eu sei que Remus passa aqui todas as noites, e tem esse negócio de escala, e que você tem pesadelos, eu sei… quer saber é uma péssima ideia…
—Eu quero. — falei. Sirius parou de falar, e me olhou chocado. — Uma festa… para melhorar os ânimos. Ótima ideia. — eu menti. Sirius sorriu completamente animado para mim, e eu dei um sorriso de volta.
—Sério? Sério mesmo? — ele indagou. Ele me beijou no rosto. — Vou mandar uma carta para o James agora mesmo! A festa vai começar as oito! — ele disse, já nas escadas. — Ah e o traje é lingerie! – ele gritou e subiu as escadas correndo.
Sirius normalmente sabia quando eu estava mentindo, ou escondendo algo dele, mas acho que dessa vez ele queria tanto acreditar, que nem percebeu a minha mentira.
Eu suspirei, me deitando no sofá. Era uma péssima ideia. Eu simplesmente não estava pronta, ou no clima de uma festa. Com pessoas. Com gente se beijando. Parecia tão errado eu festa agora. Mas eu faria mesmo assim, por Sirius, e a turma. Eles mereciam aquela festa. Era o que eu pensava, enquanto eu vestia uma lingerie preta de renda, em frente ao espelho do meu quarto, me sentia pela primeira vez insegura. E me abracei, querendo me esconder. Sirius entrou no meu quarto. Ele usava uma cueca boxe preta, e estava descalço. Ele sorriu, com dois casacos de pele gigantes no braço. Ele me passou um, e vestiu o outro. O imitei e nos olhamos no espelho. Eram dois casacos de pele iguais marrons, e grandes. Ele passou um braço pelo meu ombro, e rebolou. O imitei, nós dois olhando no espelho, e eu realmente me esforcei a sorrir com ele, e por um momento, escutando a risada dele eu sorri, me movimentando e rebolando, e mexendo os ombros.
—Prepare-se para diversão, baby. — Sirius disse.
Eu me preparei na verdade para o sufocamento que eu poderia sentir. E fiquei sentada na escada, vendo meus amigos chegarem e logo depois vários alunos de Hogwarts, de todas as casas, passando na minha frente como sombras.
Eu tinha uma cerveja na minha mão, em um copo vermelho, intacta. Sem nem um gole, na verdade, beber confundiria alguns ingredientes das minhas poções, e poderia atrapalhar minha melhora. Afinal, eu ainda tinha dificuldades em respirar, ou em lembrar o nome de algumas coisas, e não tinha tanta força nas mãos como antes, tudo isso melhoraria com as poções, mas Sirius não fazia ideia. Ele não sabia de nada disso, ele achava que eu tomava as poções por preocupação, e claro eu não contaria para Sirius que eu ainda estava mal. Então, aceitei a cerveja que ele me ofereceu.
Alguém se sentou ao meu lado, e vi que era Evie Zamora, ela também tinha um copo de cerveja na mão, intacto. E não parecia feliz, em estar em uma festa. Ela tamborilou os dedos no copo, as unhas pintadas de um bonito verde-escuro, e em um vestido apertado, e ela parecia estranhamente magra, muito mais de quando a vi pela última vez no enterro de Adam. Ela não me olhou, mas parecia querer falar comigo.
—Eu deveria estar em uma festa de formandos, sabia? — ela me disse. — É. A festa de Thomas Gray, ou Wood sei lá, mas é uma festa só de formandos e… eu não estou lá. — ela me contou, olhando para a bebida. — Eu estou nessa festa de… fracassados que ainda estudam em Hogwarts, e porque?
—Porque você é uma fracassada também? — indaguei. Nos olhamos e rimos.
—Não. — ela disse. — Eu não sou fracassada. Eu tenho um noivo rico e bonito, e vou me casar com ele logo, e vou abrir um negócio de sucesso, e vou ser mais rica ainda, e…
—Você tem um amante. Para quando ficar entediada. — eu murmurei. Ela sorriu, voltando a olhar para o copo. — Onde ele está?
—Ele está com Jason, como tem feito todos os dias. — ela me disse. — Ele tem… medo que Jason morra do nada, como…
—Como Adam. — completei. Ela assentiu.
—Jason vai para Rússia estudar, ele iria antes, mas adiou por causa de Nathan e Adam…. e Nathan está passando o tempo inteiro com ele… e não comigo. Ele não está comigo. — ela murmurou, parecendo melancólica. — Ele não está comigo. — ela repetiu.
—Ele também não está comigo. — eu disse, pensando em Adam. — Mas eu tenho outras pessoas… — murmurei, pensando dessa vez em Remus. – Então, pare de ser uma vagabunda, se desculpe com Dido e Leh, volte a falar com suas amigas… Você vai precisar.
Eu me levantei, e fui mais adentro na festa que rolava na Casa dos Black. Sirius tinha dado poção do sono para Monstro e então, o vendado os olhos, e o prendido dentro de um armário. Eu vi meu primo, jogando strip poker em um canto, com Marlene de calcinha e sutiã no seu colo, o beijando no pescoço, querendo sua atenção. James jogava com ele, com uma samba canção, e gargalhava já bêbado. Ele tinha marca de chupões por todo o pescoço, e os cabelos mais bagunçados do que nunca. Emmeline estava na mesa também, jogando e rindo, e sem olhar Sirius e Marlene, ela usava um conjunto sexy de lingerie, e parecia muito feliz. Peter se pegava em um canto com Bethany Toots, ela parecia bem bêbada e Peter parecia bem entediado, ou talvez fosse ao contrário. Lily dançava com Alice, as duas sensualizando, enquanto Frank assistia rebolando ao lado delas. Emily estava perto e conversava com um garoto, os dois parecendo flertar, e um pouco longe dela estava Rabastan, com seus amigos. Todos com copos de bebida na mão. Theo estava ao lado de Rabastan, sem sombras de machucado pelo rosto, mas uma cicatriz já curada lá. Ele riu, e bebia cerveja, apoiado na parede e Kat encostada no peito dele. Ela parecia muito feliz, dando beijinhos nele. Rabastan estava igual a Theo só que quem estava apoiado em seu peito era Diana Rosier, eles estavam se beijando, mas Rabastan parou e me mirou. Tomei um susto, ao sentir uma mão em meu braço e vi que era Amico, ele gritou meu nome bêbado, e me levou até o grupinho que eu olhava. Aleto estava ali também, mas ela beijava na boca Gale Aldine, um sonserino que agora estava no sétimo ano. Quando chegamos lá, Amico espantou o Gale irritado, e Aleto riu para ele, limpando a boca.
—Para de beijar esses idiotas. — Amico falou, bravo. Aleto gargalhou alto, roubando a bebida de Diana.
—Não fique com ciúmes, Amico. — ela riu, e me olhou. — Addie! Que festa boa.
—Eu sei. — eu disse.
Jacques sorriu para mim, abraçado com Dido, com Snape ao seu lado, parecendo entediado com sua cerveja.
—Olá, Addie. — ele falou. — Como vai?
—Normal. — murmurei. –Evie está aqui. — eu falei para Dido. — Se você estiver interessada. — eu falei. Ela piscou surpresa, mas não se mexeu.
—Como você está se sentindo, Addie? — Amico indagou. — Agora que é uma garota sangue-puro de verdade novamente? Feliz?
Rabastan revirou os olhos, Jacques suspirou negando com a cabeça, até Theo olhou Amico como se ele fosse idiota.
—É. — eu falei, sorrindo forçada. — Eu estou muito feliz. Meus pais morreram, minha irmã não nascida morreu, meu noivo morreu. Eu quase morri. Mas sim, eu estou tão feliz. — eu disse, sorrindo como se realmente estivesse feliz. Amico engoliu em seco. — Digo, porque eu não estaria, né? Eu sou uma Black de verdade agora. Eu vou ser forçada casar com o meu primo e vou passar o resto da minha vida me sentindo miserável, mas sim. Eu estou feliz para caralho! — eu ri.
—Addie… — Rabastan começou.
—Cala a sua boca, Rabastan. — eu mandei, ainda com um sorriso falso no rosto, sem desviar o olhar de Amico. – Sabe essa cerveja, Amico? — indaguei, mostrando o copo na minha mão. — Eu to segurando isso desde o começo da festa, mas eu não bebi nem um gole. Você sabe porque? — perguntei. Ele não falou nada, meio em choque. — É porque eu sofri um acidente. E esse acidente me causou danos, e eu fiquei em coma por um dia, mais ou menos, e depois de eu me recuperar eu tive que começar a tomar umas poções, então eu não posso beber. — eu disse. — E quer saber que danos foram esses? Eu não consigo mais respirar como antes, aconteceu alguma droga com meu pulmão, ah e eu bati minha cabeça feio, então eu as vezes esqueço nome de coisas tipo, maçaneta, copo, idiota. — eu disse, e estiquei minha mão na frente do meu rosto. — E eu estou fraca. — falei. — Perdi um pouco da força, então mesmo que eu realmente quisesse socar a sua cara agora, eu não teria muito sucesso. — eu ri. Abri meu casaco de pelos. — Ah, e olha só isso. — apontei para uma cicatriz na minha barriga. — Legal, não é? Eu vou ter ela pelo resto da minha vida, e várias outras, para me lembrarem todos os dias sobre o que aconteceu comigo. — eu dei de ombros. — Mas como eu disse eu estou muito feliz. — eu ri, e vi o copo dele vazio. — E você parece que precisa de uma bebida. Me deixe te ajudar. — eu falei, e virei meu copo inteiro na cabeça dele. Eu ainda sorrido, me aproximei dele, e sussurrei no rosto dele. — Dê o fora daqui.
Amico mesmo parecendo irritado, catou Aleto pelo braço e saiu andando para fora da festa. Todos os que restavam me olhavam.
—Addie… — Rabastan começou novamente.
—Só cala a porra da sua boca, Rabastan. – eu mandei novamente. Eu dei o meu copo vazio para ele, o empurrando em seu peito, e me virei saindo de perto daquele grupinho de cobras.
Eu comecei a sentir aquele sufocamento, e subi um pouco das escadas, parando em baixo de umas cabeças de elfo cortadas. E me apoiei na parede, me sentindo ofegar devagar. Coloquei minhas mãos contra a parede, ofegando devagar, olhando para o chão, com medo que se olhasse para cima tudo começasse a girar. Quando me senti melhor, fechei os olhos, e suspirei. Senti uma movimentação, e uma respiração em meu rosto. Abri os olhos e vi um garoto na minha frente. Era um sonserino e era agora do sétimo ano. Eu não sabia o nome dele, apesar de já tê-lo visto pelos corredores. Ele era alto e grande. Tinha olhos claros, um topete, e um sorriso de lado. Eu franzi a testa para ele. E o sorriso de lado dele se alargou.
—Meu nome é Monty Foley. — ele sorriu. — E você é Adhara Black.
—Sim. — murmurei. Percebi logo de cara que ele estava flertando comigo, mas eu não mostrei nenhuma emoção.
—Está bonita, Adhara Black.
—Estou quase pelada. — eu disse. Ele riu.
—Exatamente. — ele falou. – Quer uma bebida, Adhara Black?
—Não, eu to bem. — resmunguei de volta, sem mostrar interesse algum na vida dele.
—Então, quer dar uns amassos? Quem sabe mais? — ele perguntou. O olhei chocada.
—Não. — eu disse. Senti sua mão no meu casaco de pele, e eu o olhei confusa.
—Eu sei que você quer.– ele sussurrou, colocando a mão na minha cintura por dentro do casaco. Eu fui o empurrar pelo peito, mas ele agarrou minhas mãos, e eu deu uma risadinha. Ele começou a beijar meu pescoço, com uma mão indo da minha cintura para minha bunda, e a outra segurando forte meus pulsos.
—Para! — mandei, tentando me soltar. Mas ele era forte e me segurou no lugar.
—Você vai gostar. — ele disse, no meu ouvido, e eu senti nojo. Tentei me soltar novamente. — Fica quieta. — ele falou, como se eu reclamando fosse chato.
—Me solta agora. — eu falei, mais alto, mas ele fez ao contrário, e sua mão apalpou minha bunda. Eu me senti em pânico e me chacoalhei. — O que está fazendo? Me solta! Me solta...
—Ei. — ele falou irritado. — Você vai gostar. — ele disse. Eu neguei com a cabeça, confusa demais.
—Não! Não! — eu disse, tentando me soltar. — Eu não quero!
Monty não ligou, e eu simplesmente parei de me mexer. Eu o olhei nos olhos, e percebi que eu chorava, mas ele apenas se curvou, me lambendo no pescoço, e eu fiquei parada. Ele começou a me apalpar e eu chorei em silêncio, e fechei os olhos. Tomei um susto quando de repente Monty foi tirado de cima de mim.
Abri os olhos e vi Theo segurando Monty pelos ombros, e o olhando irritado. Ele não disse nada, apenas empurrou Monty com tudo contra a parede. Com tudo mesmo, que até um quadro antigo caiu no chão. E sem opções Monty desceu as escadas correndo. Eu apertei o casaco contra eu mesma, e Theo me mirou.
—Porque você não fez nada? — ele indagou, confuso. — Você estava chorando. Porque não se mexeu?
—Eu não sei. — eu disse. E eu realmente não sabia. Parecia que não havia nada que eu pudesse fazer. Que eu não pudesse gritar mais alto para que alguém viesse me ajudar. Ou que eu não pudesse juntar forças e o chutar nas bolas. Parecia simplesmente que eu tinha que desistir e esperar acabar. — Eu… porque me ajudou? — indaguei. — Não é como se gostasse de mim. — eu murmurei.
Ele suspirou, se encostando na parede. E deu de ombros. Ele ficou quieto alguns segundos, até virar a cabeça para mim.
—Eu não estava desmaiado. — ele me contou. — Eu via Rabastan me batendo. E tudo doía, a cada soco ficava pior. E eu não conseguia fazer nada. — ele murmurou. — Então, os socos pararam de vir e eu te vi na minha frente. Você o parou e você me levou para a enfermaria. — ele disse, e me olhou de canto de olho. — Mesmo que eu provavelmente não fosse fazer o mesmo por você.
—Eu não podia deixar ele te matar. — eu disse, cruzando os meus braços. Ele deu um sorriso meio morto.
—Eu deixaria. — ele disse, mas não parecia orgulhoso disso. — Então, estamos… quites, eu acho. Você me ajudou. Eu te ajudei.
—É. — dei de ombros. — Ahn… você e Rabastan estão…
—Não. — ele me cortou. — Estamos lá, só que ao mesmo tempo não estamos. Não é a mesma coisa. Ele faz comentários maldosos… ele ainda não esqueceu, talvez ele nunca esqueça. – ele falou. — Eu descobri que você o chutou para fora no Mungus, pelo Jacques. Ele não confia mais em mim. E não deveria, não é? Eu fodi a noiva dele e agora… eu vou casar com ela.
—Sério?
—Meus pais foram falar com os dela… foi um rolo tremendo, ainda mais com o pai do Rabastan aparecendo lá pra dizer que Kat era uma vagabunda e… é claro que os pais dela aceitaram, se não aceitassem era possível Kat ficar desgraçada para sempre. Não é virgem… você entende. — ele disse. Assenti. — Talvez daqui a um tempo eu e Rabastan voltaremos a ser amigos de verdade, mas agora nós somos apenas dois estranhos que andam juntos.
—Talvez você devesse se desculpar novamente. — eu falei.
Theo se desencostou da parede, e deu um sorriso para mim. Eu dei um meio sorriso de volta.
—Estamos quites, Black. — ele disse, indo para as escadas. — Eu ainda te odeio, não me importa que agora você está toda fodida da cabeça.
—É recíproco. — eu falei alto. Theo riu, e desceu as escadas, me desencostei da parede também, e subi mais lances de escada, até o meu quarto. Entrei lá, e encontrei Michelle Diggory deitada na minha cama, com o namorado dela deitado em cima dele, a beijando no pescoço. — Com licença. — eu disse. Ele se levantou de cima dela e sorriu para mim.
—Ah, desculpe. — ele disse, sorrindo gentil demais, ele puxou Michelle, que me olhava quase agradecida. Como se eu tivesse a salvo. Eles saíram do meu quarto, e eu suspirei, fechando a porta, e abafando o som da música alta atrás de mim.
Eu tirei o casaco de pelos e ofeguei aliviada. O casaco caiu no chão silenciosamente, e eu me olhei no espelho. Minha tatuagem na costela, estava ali, ainda bonita. Eu vi a cicatriz em minha barriga. Ela não era feia. Não era grossa. Não era tão longa. Mas ela estava ali, passei minha mão sobre ela, e me virei. Eu tinha outra mais para cima, por causa dos meus pulmões, mas essa eu não conseguia ver direito, só se eu me virasse para ver no espelho. E então, eu tinha várias outras pelas minhas pernas, uma longa, porque meu osso havia saído para fora, e outras pequenas por causa das queimaduras. Não eram tantas. Não eram como as de Remus. Só que eram alguma coisa. E elas pareciam ásperas quando eu as tocava, e eu me sentia suja com elas, eu não queria vê-las.
A minha porta se abriu. Remus entrou no quarto. Ele usava uma blusa de Sirius, o uniforme de quadribol dele, e estava de samba-canção. Ele sorriu para mim, e fechou a porta.
—O que está olhando?
O puxei pelo braço para que se postasse ao meu lado, e toquei a barra da sua blusa, a levantei devagar, e Rmeus segurou minhas mãos corados.
—Confia em mim. — pedi. Ele suspirou, e me deixou tirar sua blusa. Virei de volta para o espelho, e Remus também. — Para que cicatrizes servem, Remus? — indaguei, olhando nossos corpos.
—Servem pra nos lembrar que o passado foi real. — ele sugeriu, tocando a cicatriz da mordida de Greyback. Eu a toquei também, e depois peguei sua mão. Franzi a testa e olhei seu braço atentamente.
—Olha. — murmurei. — Temos cicatrizes combinando. — eu disse. Apontei para cicatriz que eu tinha em meu braço, que tinha o formato muito parecido com uma que Remus tinha no mesmo lugar.
—Nossas dores combinam. — ele riu. Eu sorri também, mas por pouco tempo.
—Remus. Eu preciso de contar uma coisa. — eu falei. Ele me olhou atentamente. — Eu… eu acho que… eu fui assediada… — balancei a cabeça sem saber o que falar. — ...ou quase… e… eu não fiz nada. Eu não fiz nada. Porque eu não fiz nada?
ஐ
Amanhã de manhã eu voltaria para Hogwarts. Mesmo que antes eu já fosse voltar sem Adam, agora era diferente, parecia que o motivo não era ele ter se formado e sim ele ter morrido, que se ele não tivesse morrido, ele estaria indo comigo para Hogwarts, e nós ficaríamos felizes.
Abracei meu irmãozinho, nós dois encolhidos embaixo do cobertor, apenas com nossas cabeças de fora. Ele me abraçava com seus bracinhos e perninhas, e eu o abraçava de volta, o confortando. Querendo tomar conta dele. Não querendo que nada de mal acontecesse com ele nunca mais.
—Addie. — ele murmurou. — Pra onde mamãe e papai foram?
—Embora, Teddy. Eu te disse. — eu falei. — Para sempre.
—E o que acontece quando as pessoas vão embora para sempre? — ele me perguntou curioso. Eu acariciei seus cabelos, aloirados.
—Bem… — resmunguei, sem saber o que falar, olhei meu teto com estrelas. — … para cada pessoa é diferente. Para pessoas da família Black, algo especial acontece. — eu contei. Ele me olhou curioso.
—O que?
—Eles viram estrelas. Todos nós já temos estrelas no céu, e elas ficam lá, e quando formos embora, nós ocupamos elas.– murmurei, com um sorriso. Apontei para a estrela com o nome do meu pai. Teddy olhou curioso.– Lá está o papai, e a mamãe e a nossa irmãzinha. Eles estão cuidando de nós lá em cima.
—Então, agora eles são estrelas? — Teddy indagou, enquanto eu beijava sua testa com carinho.
—Isso. — eu disse. — Aquela é Adhara. — apontei. — A minha estrela… ela… ela está esperando por mim. — comentei, olhando a estrela com concentração.
—Esperando? Mas vai demorar, né irmã?
Olhei meu irmãozinho, e o beijei na bochecha.
—É, ainda...vai demorar um tempo.
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