When Sunset Comes
4 3. Manual de Conquista (e outras ideias ruins)
Notas iniciais

I want you to want me. I need you to need me. I'd love you to love me. I'm beggin' you to beg me. (I Want You To Want Me — Cheap Trick)
Meus olhos se abriram após a luz solar atravessar minha janela e bater em minha cama, indicando que já era dia. Fiquei deitada olhando para o teto e pensando “o que diabos eu estou fazendo da minha vida?”.
Como é que eu, a rainha da sensatez e das decisões certas — isso é um pouco mentira — fui inventar de me meter justamente com Drazen McKean em um plano que, obviamente, não dará certo? Tudo bem, talvez eu esteja sendo meio pessimista, mas depois de uma noite de sono maravilhosa, comecei a achar que isso foi uma péssima ideia.
Após fazer todas as ponderações possíveis, levantei-me e peguei o celular na mesa de cabeceira. Eram 7h de uma terça ensolarada e Amy ainda dormia profundamente. Ela não parecia ser do tipo que acordava cedo mesmo. Fui checar minhas mensagens e, no mesmo momento, Drazen apareceu nas notificações — maldita hora em que fui dar o meu número para aquele garoto.
McKean: Bom dia, flor do dia 🌻✨
Me encontra naquela cafeteria perto do prédio de Astronomia, a Cosmos. Vamos tomar café e conversar sobre negócios ❤️🔥🔥
Ele usava emojis até demais pro meu gosto. O que eram aquele foguinho e o coração em chamas? Que moleque aleatório, sinceramente. Respondi que estaria lá em meia hora e levantei para me arrumar.
Após tomar um banho revigorante, apoiei minhas mãos na bancada da pia e encarei meu reflexo no espelho. Meu cabelo loiro estava molhado, a franja desregulada caída em meus olhos âmbar. Eu precisava cortá-la imediatamente, já estava insustentável.
— Parabéns, Sunny! — falei para meu eu refletido. — O que você tinha na cabeça quando aceitou trabalhar de graça? E pior: em troca de um convencido te ajudar a conquistar um cara que nem sabe da sua existência!
Bufei. Não sei o que me incomodava mais: o fato de ter firmado aquele acordo com um cara de caráter duvidoso ou o sorriso convencido que ele deu quando apertamos as mãos, como se ele soubesse que eu aceitaria. Aquele imbecil.
Será que ainda dá tempo de desistir? Mas talvez seria mais patético ainda do que essa confusão toda. Ah, fala sério, quem eu tô achando que eu sou? Uma protagonista de romance clichê? É claro que isso não vai dar nem um pouco certo.
~ ҉ ~
Quando cheguei na Cosmos, Drazen já estava lá, casualmente sentado em uma das mesas do canto, perto da janela, distraído mexendo no celular. Aproximei-me dele e sentei no banco, ficando de frente para o garoto. Ele levantou os olhos rapidamente para me encarar, mas logo voltou para o celular.
— Um instante — ele falou, ainda sem desgrudar os olhos do aparelho.
Ouvi um efeito sonoro muito característico e estiquei o pescoço para ver se eu não estava imaginando coisas.
— Candy Crush? — Ergui a sobrancelha. — Sério?
— Não me desconcentra não, loirinha. Tô numa fase difícil — ele disse, sério.
Revirei os olhos.
— Não estamos todos? — falei. Olhei novamente pra ver a tela do celular dele. — Essa fase aí é moleza. Minha mãe passou dela de olhos fechados.
— Então, vou precisar conhecer ela e pedir umas dicas. Sabe? De gamer pra gamer.
— Engraçadinho. Pro seu governo, ela foi campeã numa competição de Candy Crush, tá?
— Sério? — Ele ergueu a cabeça e me encarou perplexo.
— E lá existem competições de Candy Crush, McKean? — torci a boca.
Ele deu uma risadinha e murmurou um “vai que…”. Enquanto Drazen se aventurava combinando blocos, eu dei uma olhada no cardápio. A Cosmos era uma cafeteria temática de galáxia, desde a decoração até os nomes dos cafés e comidas. Meu preferido era o Pulsar, que nada mais era do que café americano forte, ótimo pra dar energia e era o que eu estava precisando. Para comer, estava em dúvida entre o Asteroide (pão de queijo gigante) ou a Galáxia Espiral (croissant recheado com queijo e presunto), mas optei pelo último, já que ouvi os sons do meu estômago reclamando.
Drazen soltou um urro de comemoração e bloqueou o celular. Ele parecia ser mesmo viciado naquele jogo, o que me surpreendeu um pouco. Não imaginava Drazen McKean, astro de rock da universidade, gastando seu tempo livre jogando algo que é popular entre mães de 40 e poucos anos.
— Ganhou no seu joguinho? — perguntei sem conseguir disfarçar o deboche.
— Sim. — Ele abriu um sorriso largo. — Tava empacado nessa fase há dias! Tô me sentindo renovado agora.
Sorri para ele e balancei a cabeça.
— Mas agora vamos ao que interessa… — ele continuou. — Não achei que você viesse. Achei que ia dar alguma desculpa e cancelar tudo.
— Bom, eu tô aqui — disse, dando de ombros. — E to morrendo de fome, então vou fazer logo meu pedido antes da gente começar oficialmente isso aqui. — Gesticulei para nós.
Chamei a garçonete e fiz meu pedido. Drazen pediu um Eclipse e um Luar de Saturno que eram…
— Você pediu limonada azul com gengibre e menta? — questionei, surpresa.
— Sim. Não gosto de bebidas quentes de manhã.
— E um croissant com creme de limão? — Ergui a sobrancelha.
— É uma delícia. Você deveria experimentar antes de agir como uma pentelha cuidando do pedido dos outros.
— Grosso — reclamei.
— Foi o que ela disse.
— Hã?
— Nada, loirinha. — Ele deu risada como se fosse uma piada interna. — Enfim, vamos aos negócios.
— Ok. — Cruzei as mãos em cima da mesa. — Preciso que você me dê algumas informações pra eu poder refinar minhas ideias sobre a divulgação.
— Então, nós fizemos a pré-inscrição no EBC. Basicamente, era pra enviar os dados do grupo, tipo nome, quantos integrantes, etc. Daí agora precisamos enviar um vídeo nosso tocando. A gente até tem um vídeo da competição do ano passado, mas… tivemos um problema com o baterista e ele pulou fora. — Ele tencionou o maxilar. — Bom, o caso é: não temos o vídeo de inscrição com o seu querido Ayden.
— Tá ok, então primeiro passo é gravar esse vídeo. Posso marcar um horário no estúdio… Quando é que as inscrições fecham?
— Semana que vem.
— Semana que vem? Então a gente precisa correr! Tem que gravar, editar… Meu deus! Será que dá tempo? — falei rápido, atropelando as palavras.
— Calma, Sunshine, não precisa ser uma superprodução, ok? — Ele estendeu a mão como se fosse encostar em mim, mas recuou. — É só um vídeo simples, só pra eles verem que a gente sabe tocar mesmo.
— Ah. Certo.
— Bom, depois de inscritos, estamos na fase local. A gente compete aqui no auditório de shows da universidade mesmo. Se passarmos, e vamos passar, a gente vai pra etapa regional, que é quando o negócio começa a ficar sério. Pra passar dessa, a gente precisa de visibilidade, que as pessoas saibam quem somos. E é aí que você entra. — A garçonete chegou com nossos pedidos e esperamos ela servir tudo antes de voltar ao assunto. — Precisamos desde já investir na nossa imagem pra chegar na Nacional.
— Entendi. Uau. Muita pressão. — Senti um calafrio na espinha. Eu era apenas uma estudante, não sabia se daria conta de fazer isso.
— Relaxa, você é incrível. — Ele pigarreou. — Quer dizer, eu via suas apresentações de trabalho na aula. Os professores elogiavam bastante. Você é bem boa.
Tomei um gole do meu café e continuei.
— Bom, e se der tudo certo, você vai me ajudar com o Ayden?
Drazen inclinou a cabeça, me analisando.
— Eu vou te ajudar independente de dar tudo certo ou não. Não é esse o nosso trato?
— Hum, ok — disse, ainda desconfiada disso tudo.
— Não se preocupe, Sunshine. Não tem como ele não gostar de você.
— Você fala como se fosse simples…
— Porque é. — Ele piscou. — Agora, sobre o marketing da banda…
— Eu pensei em algumas coisas — comecei. — Preciso esquematizar tudo ainda, mas pensei nas coisas principais, tipo criar uma identidade visual, criar as redes sociais e gravar muitos vídeos, principalmente pro TikTok.
Drazen torceu a boca e franziu o nariz.
— O que foi?
— Eu tenho um pouco de preconceito com o TikTok… — ele disse enquanto girava o canudinho na limonada azul esquisita dele.
Revirei os olhos.
— E você usa o quê? Facebook?
— Ei! Lá tem umas coisas legais, ok?
— Tem certeza que você é um jovem que tem uma banda e não uma mãe de 40 e poucos anos? Quer dizer, Candy Crush e Facebook é demais, não é? — brinquei.
— Você se acha muito engraçada, né?
— Na verdade, não. Só falo o que sai da minha cabecinha mesmo.
Ele deu risada e mordeu o croissant. Seguimos conversando sobre minhas ideias para a divulgação da banda e fui percebendo que eu tinha muito trabalho a fazer. Seria ótimo pro meu portfólio, mas também teria que organizar muito bem o meu tempo pra não ficar sobrecarregada. Isso não seria um problema, já que eu amo fazer planejamentos. Terminamos de comer e alinhar nossas ideias depois de alguns bons minutos. Até que passar aquele tempo com Drazen não estava sendo uma tortura tão torturante como eu imaginei que seria.
— Precisamos marcar de você conhecer a banda — ele falou, após uns segundos de silêncio.
Senti meu corpo inteiro arrepiar. Pensar na possibilidade de ser oficialmente apresentada para Ayden me deixava um pouco nervosa. Quer dizer, será que ele iria gostar de mim? Não gostar gostar logo de cara, mas pelo menos me achar bonitinha.
— Hum — respondi.
— Que tal na festa do fim de semana? A da recepção dos calouros? O pessoal está todo envolvido essa semana com as atividades, daí não tem como fazer esse encontro antes. O que você acha? — perguntou ele. — Posso passar no seu dormitório pra te buscar, se quiser.
— Não precisa. Eu vou com o Chris. — respondi. — E provavelmente com a Amy também, minha nova colega de quarto.
— Ah, a Amy… — Drazen ficou pensativo. — Qual que é o sobrenome dela? Tive a impressão de conhecer ela de algum lugar.
— Lange. Amy Lange. E duvido que conheça, McKean. Ela não é igual às garotas que você costuma sair por aí.
— O quê? O que você quer dizer com isso? — Ele deu uma risada sincera.
— Você sabe muito bem. — Estreitei os olhos.
Ele balançou a cabeça e continuou rindo.
— Bom, então te vejo na festa?
— Estarei lá.
~ ҉ ~
O resto da semana passou voando. Acontece que semana de acolhimento dos calouros deixou a todos muito ocupados. Um dos meus professores pediu que eu fosse a responsável por fazer o tour pelos estúdios e laboratórios de criação da comunicação. Também ajudei Amy a se enturmar com os colegas de curso dela, participando de algumas integrações e atividades. Ainda acompanhei as apresentações da equipe de desenvolvimento de jogos digitais de Chris, a PlayLab; meu amigo precisava de apoio moral.
Sexta-feira. Era o último dia de recepção. Acordei mais tarde que o normal, afinal precisava ter energia o suficiente para a festa que teria à noite. A única coisa de produtiva que fiz foi ir para a biblioteca pegar alguns livros, organizar meu planner com os horários de aulas, o projeto que iria participar esse ano e o trabalho com a Second Chance — voluntário, diga-se de passagem. Mas tudo bem, eu topei fazer parte disso mesmo.
No fim da tarde, quando estava voltando ao meu dormitório, recebi uma mensagem da minha mãe perguntando se esse final de semana iria visitá-los. Neguei. Eu tinha uma relação de idas e vindas com meus pais. A verdade é que éramos muito diferentes e isso às vezes era um incômodo pra mim. Enquanto eu percebia a vida de um jeito um pouco mais racional, eles eram emocionais até demais. E mais: eles sempre faziam questão de me lembrar que a minha vida amorosa era um desastre, enquanto a deles era perfeita.
Pouco depois, recebi mais uma mensagem.
Aurora: Tudo bem… Marcamos outro dia. Sentimos sua falta.
Ok, talvez eu pudesse ser um pouco mais maleável com eles. Essas últimas férias eu escolhi passar com meus avós, já que nos dávamos muito bem, então o tempo com meus pais foi bem mais reduzido. Além de que eu viajei com a família de Chris em algum momento, o que talvez tenha causado ciúmes em meus pais.
Eu não sabia bem explicar o porquê, mas depois que cresci, eu me sentia desconectada deles, como se uma força invisível nos separasse toda vez. Eu não queria agir assim, mas era quase impossível.
Quando cheguei no quarto, encontrei Amy revirando seu guarda-roupa. Tinha tanta roupa espalhada em cima da cama que eu quase tive uma síncope. Não consegui esconder meu desespero ao ver aquele apocalipse e só consegui dizer uma coisa.
— Deus amado…
Amy virou-se para mim.
— Você chegou! Preciso de ajuda! — Um furacão ruivo veio em minha direção e me puxou para dentro do meu inferno particular: aquela bagunça sem fim. — Desculpa pela bagunça, eu juro que vou arrumar. Mas antes, me ajuda a escolher algo…
Respirei fundo. Eu tinha um pequeno problema com bagunça e desorganização, mas não iria arrumar problema por causa disso. Era só respirar fundo e não pensar muito.
— Pelo visto você tá animada, né? — forcei um sorriso.
— Sim! Animada e nervosa. É a primeira festa que eu vou — confessou.
— Primeira, primeira?
— Sim. Meu pai é meio rígido e não me deixava sair de casa. Foi difícil até pra me deixar morar aqui… — Ela sentou na cama. — Por isso eu escolhi essa faculdade. Fica longe o suficiente pra ele não ficar me sufocando. — Amy deu um sorriso forçado.
— Sei como é…
— Mas e você? Sua família mora longe?
Tópico sensível. Eu realmente não gostava de falar sobre meus pais hippies.
— Não. Moram na cidade mesmo. — Peguei uma blusa que estava jogada na cama dela. — Acho que você pode usar essa daqui. — Mudei de assunto.
Era uma camisa ombro a ombro branca bem solta.
— Branco combina com ruivas. Coloca um short e tá ótimo. Aí só precisa acertar nos acessórios.
— Você já sabe como vai?
— Bobinha… — Apertei a bochecha dela. — Eu já escolhi desde ontem.
Ela deu risada.
Depois de tomar banho, comecei a me arrumar. Coloquei um macaquinho com estampa militar e uma blusa preta. Usei um colar e argolas e amarrei o cabelo em um rabo de cavalo alto. Olhei para minha franja caída no olho e lembrei que ainda não tinha a cortado. Peguei uma tesoura e aparei o cabelo cuidadosamente. Deixei bem na altura da sobrancelha, do jeito que eu gostava.
Enquanto terminava de me arrumar, ouvi batidas na porta. Era Chris.
— Trouxe cerveja. — Ele sorriu e me entregou uma garrafa.
A primeira coisa que ele fez foi colocar uma música no meu spotify conectado ao meu notebook. Amy estava de frente para o espelho lutando pra fazer um delineado perfeito, enquanto Chris dançava animadamente com uma camisa que parecia um refletor de trânsito.
— Chris, você pode parar de distrair a Amy? — reclamei, enquanto finalizava minha maquiagem com um lip tint vermelho.
— Distrair? Eu estou inspirando! — Chris rebateu, fazendo uma dancinha esquisita.
Amy soltou um suspiro frustrado e abaixou o delineador.
— Não está ajudando. — Ela fez uma careta pro espelho. — Só sei borrar a maquiagem.
Aproximei-me da garota e peguei o delineador das mãos dela.
— Deixa que eu faço. Eu tenho prática em resgatar casos perdidos. — Dei um olhar sugestivo para Chris, que se jogou na cama com um olhar de indignação fingida.
— Tá me chamando de caso perdido, Sunny?
— Se a camisa que você tá usando não diz isso por mim, eu não sei o que mais pode. — Dei de ombros, enquanto cuidadosamente aplicava o delineador em Amy.
— Ei! Essa camisa é vintage! — Chris se sentou e alisou o tecido com orgulho. — É do meu tio. Ele usou isso no Carnaval de 2008 e ganhou vários corações, tá?
Amy riu, tentando não piscar enquanto eu terminava o outro olho.
— Tenho certeza que ele ganhou os corações pelo charme e não pela cegueira coletiva causada por esse refletor de trânsito — respondi, mantendo a concentração.
— Uau, Sunny, que língua mais afiada, hein? — Chris fez uma pose dramática, fingindo estar ferido.
Sai da frente de Amy e ela pôde se olhar no espelho.
— Nossa, ficou incrível! — Ela arregalou os olhos e tocou delicadamente o delineado.
— Ficou incrível porque eu sou incrível. — Peguei um brilho labial e entreguei para Amy. — Agora termina aí.
— Além de língua de chicote, ela ainda é modesta… — Chris resmungou.
Ele levantou e pegou meu espelho portátil.
— Bom, eu também tô incrível, só pra constar. Quem diria que glitter prata combina tão bem com meu tom de pele, hein? — disse ele, analisando sua pele café-com-leite.
— Isso é verdade — concordei. — Mas essa camisa… Sinceramente, amigo, não sei como você tem coragem de sair assim. — falei rindo.
— Coragem é meu sobrenome, Sunnyzinha. E, falando nisso, vocês têm menos de dez minutos antes de eu sair dançando sozinho por esse campus.
Amy se apressou em pegar sua bolsa enquanto eu calçava meu coturno preto.
— Tá bom, tá bom. Vamos lá, Coragem. Só não me faz passar vergonha igual daquela vez que você quase arrumou briga com a Nelly Jones…
— Sem promessas! — Chris respondeu rindo. Ele saiu na frente e eu e Amy íamos atrás.
Quando chegamos no gramado central da universidade, vimos o ambiente todo iluminado por luzes coloridas. Tinha um DJ tocando e caixas de som espalhadas pelo ambiente. Havia também barraquinhas vendendo comida e muito álcool. Eu tinha decidido que não iria beber muito, já que era o dia que iria conhecer a 2nd Chance — e Ayden — oficialmente.
Chris estava muito animado e isso provavelmente tinha a ver com alguém que ele iria pegar nessa festa. Amy, apesar de tímida, parecia bastante empolgada com a sua primeira experiência em uma festa. Eu estava ligeiramente preocupada com o rumo que isso poderia tomar, já que era óbvio que ela também nunca bebera. Mas acho que era só ficar de olho na garota. Afinal, o que poderia dar errado?
A festa estava a todo o vapor e já tinha muita gente dançando perto das caixas de som. Avisei a Amy e Chris que iria pegar uma bebida para nós e fui até uma das barraquinhas ali perto. Enquanto esperava, ouvi uma voz rouca falando em meu ouvido.
— Você veio, Sunshine.
Virei-me para olhar para ele. Nem precisava adivinhar quem era, pois já reconhecia aquela voz de longe. Drazen estava todo de preto, com uma camiseta com a estampa do homem vitruviano tocando uma guitarra e um colar dog tag igual ao que eu usava.
— Você não me deu muita escolha, não é? — retruquei.
— E pelo visto veio preparada pra guerra, hein? — Ele me olhou dos pés a cabeça. — Adorei o visual.
— Obrigada… Gostei da estampa. — Apontei para a sua camiseta.
— É, Da Vinci tava quase certo sobre o Homem Vitruviano. Faltava uma guitarra, eu consertei isso pra ele. — Drazen deu de ombros. — Rock é uma mistura de ciência, arte e caos.
Peguei as bebidas para mim, Chris e Amy. Drazen segurou um dos copos ao ver como eu estava atrapalhada com eles.
— Bom, cadê a banda? Que horas eu vou conhecer eles?
— Ei, calma aí, apressadinha. — Ele levantou as mãos para mim. — O Ayden ainda não chegou.
— Ah… Mas eu posso conhecer os outros, depois você me apresenta pra ele. — Fiz uma pausa. — Sozinho. — Dei um olhar sugestivo para Drazen, que soltou uma risada.
— Você não é de perder tempo, não é SunSun? — Ele colocou a mão na boca pra conter o riso. — Bem que eu ouvi comentários sobre você…
— Comentários? Que comentários? — Ergui a sobrancelha.
— Nada, não. — Ele balançou a cabeça. — Vamos lá com os seus amigos e aí depois eu levo você pra conhecer os meus.
Assenti.
Chris cumprimentou Drazen daquele jeito masculino esquisito e Amy ficou olhando para ele com um brilho nos olhos, como se ele fosse uma super celebridade — o que, de certa forma, ele era mesmo. Entreguei a bebida a cada um deles e fiquei com a minha. Quando experimentei, percebi que estava um pouco forte. Ofereci a Drazen por educação, mas ele recusou. Dei risada quando Amy experimentou e fez uma careta engraçada.
— Toma cuidado com isso aí — alertou Drazen. — É veneno.
Amy arregalou os olhos.
— Ele tá brincando, Amy. — Lancei um olhar feio ao garoto, que me deu um empurrãozinho com os ombros.
Ele nos chamou para conhecer os seus amigos da banda e fomos. Naomi e Josh — com a namorada — estavam sentados em um banco perto de uma das caixas de som. Quando nos aproximamos, Naomi teve uma leve mudança de expressão, como se estivesse espantada, mas logo retornou ao seu estado indiferente padrão.
— Essa aqui é a Sunset, a garota que eu falei pra vocês. — Drazen me apresentou.
Josh sorriu e estendeu a mão pra me cumprimentar, a namorada dele com uma cara de poucos amigos. Naomi só fez um aceno com a cabeça, curvando levemente os lábios em uma tentativa de sorriso. Ela não parecia muito receptiva.
— Ela vai cuidar do nosso marketing pra EBC — contou. — Ela é muito boa nisso.
Ele estava me superestimando, mas eu aceitei o elogio.
— Essa aqui é a… Amy. — Ele apontou para a ruiva, que sorriu para todos timidamente. Naomi ajeitou a postura e falou:
— Quanto tempo, Ames.
— Naomi? — Amy arregalou os olhos. — Ai meu Deus! Eu mal te reconheci! Quanto tempo! — A ruiva foi até a garota e deu um abraço nela. — Você mudou o cabelo. Tá linda!
Naomi ficou vermelha e passou a mão pelos cabelos. As duas ficaram conversando um pouco e Drazen apresentou Chris.
— Quem diria… — Drazen murmurou. — Então, essa é mesmo a Amy…
— Falou comigo? — perguntei.
— Hã? Não, pensei alto.
Dei de ombros. Ficamos todos ali conversando por um bom tempo. A música estava incrível e eu estava bem feliz. Eu e Chris dançamos muito até que chegou um garoto, começou a conversar com ele e se afastaram de nós. Esse devia ser o motivo da animação dele no começo da festa. Amy e Naomi — que eu descobri que eram vizinhas na cidade natal delas — estavam botando o papo em dia e Josh e a namorada estavam… bem… namorando. E nada de Ayden chegar.
— Ele não vem? — perguntei baixinho para Drazen.
— Quem? Ayden? Vem. Ele disse que ia se atrasar porque tinha umas coisas pra fazer. Daqui a pouco deve chegar.
Fiquei apreensiva. Ajeitei minha franja e mordi os lábios, olhando ao redor.
— Tá nervosa porque vai conhecer o seu crush?
— Crush? — Ergui a sobrancelha. — Caraca, McKean, você tem não só os hábitos, mas o vocabulário de uma mãe de 40 e poucos anos. — Estiquei a mão e a pus em seu ombro. Tive que esticar bastante, aliás.
Uau. Que ombro musculoso.
Ele começou a rir.
— Você é cheia de gracinhas. — Ele ficou me encarando por um tempo. — Não precisa se preocupar, Sunshine. Quem não gostaria de conhecer você?
Revirei os olhos, mas dei um sorrisinho.
— Cala a boca — murmurei. — Quer saber? Acho que preciso de mais uma bebida.
~ ҉ ~
Talvez eu tenha bebido um pouco mais do que uma bebida. Já sentia os efeitos do álcool em todos os meus 1,58m e isso era um problema porque eu ficava mais animada que o normal. E mais sociável que o normal. E mais tagarela que o normal. Ayden ainda não havia chegado e eu já tinha perdido as esperanças de que ele apareceria. Então resolvi aproveitar o momento e encher a cara mesmo. Afinal, só se vive uma vez.
Amy também já estava mais solta e dançava junto comigo na pista improvisada. Drazen, Naomi, Josh e a namorada estavam junto conosco, formando uma rodinha. Começou a tocar Womanizer da Britney Spears e eu e Amy soltamos um gritinho de comemoração. Naomi soltou uma risada e olhou para Drazen.
— Teu momento, Draz — ela falou, ainda rindo.
— Se fode, Goto — respondeu ele, revirando os olhos, mas começou a cantar a letra inteira. Achei curioso.
— Então, você gosta de divas pop, McKean? — falei, um pouco alto demais, enrolando a língua. Efeitos do álcool.
— Eu tenho cara de quem gosta de divas pop, Mist? — Ele ergueu as sobrancelhas.
Olhei-o dos pés à cabeça. Se fosse pra chutar, eu realmente não apostaria um tostão dizendo que ele é fã de música pop num geral. Aquela aparência de rockstar, com os ombros largos, os braços enormes — quantas horas por dia será que ele passava na academia? — e tatuados, o piercing na sobrancelha esquerda. E a julgar que ele tem uma banda de rock, eu diria que ele gosta um pouco desse gênero, certo?
— E mais — ele acrescentou — a Britney Spears não é uma diva pop qualquer. Ela é a princesa do pop.
Comecei a gargalhar muito alto.
— Mentira… Mentira que você é fã da Britney!
— Ah, ele é muito fã. Inclusive tá obrigando a gente a montar uma setlist só com músicas dela. — Naomi entrou na conversa, ela parecia bem mais agradável e receptiva agora.
— Clássicos são clássicos. Ela é foda, ok? E toda a história dela… — Drazen colocou a mão no peito. — Foda demais.
Ao fim da música resolvi pegar mais um copo de bebida. Fui andando até a barraca mais próxima, que ficava do outro lado. O local estava bem cheio e parecia pulsar com a energia das pessoas. Cada canto era preenchido por grupos de calouros e veteranos rindo, conversando ou dançando como se não houvesse amanhã. O calor era quase sufocante, amplificado pelo movimento constantes e pelas luzes coloridas piscando, refletindo no suor que brilhava na pele das pessoas.
Não percebi quão bêbada eu estava e sai tropeçando em meus próprios pés, mas alguém segurou meu braço e minha cintura antes que eu me esborrachasse no chão.
— Você tá bem? — perguntou McKean.
— Eu tô ótima! — Gesticulei exageradamente. — Só que… talveeeez eu tenha bebido um pouco demais — confessei, atropelando as palavras.
Drazen riu. As covinhas aparecendo de novo.
— Só um pouco? — Ergueu uma sobrancelha. — Acho melhor você beber uma água agora.
Observei bem o rosto de Drazen. Ok, ele era bem bonito e tinha o sex appeal de ser vocalista de uma banda, o que atraia muitos olhares para ele, com certeza. Ele também cantava muito bem e isso era um bônus. Sem contar no tamanho daquele bíceps, que deveria ter a circunferência da minha cabeça. Acho que eu devo ter encarado muito o garoto porque ele me olhou meio confuso.
— O que você tá olhando? — perguntou. — Jeez, isso é assustador! — Ele arregalou os olhos e depois franziu o cenho.
Apenas balancei a cabeça e resmunguei alguma coisa que nem eu mesma entendi. Olhei ao redor tentando lembrar o que eu ia fazer e foi quando eu o vi. Como um raio de sol invadindo o céu no primeiro minuto do dia, Ayden chegou reluzindo. Ele usava uma regata boxy preta, com uma estampa do Ozzy Osbourne, uma calça da mesma cor e um all star. Ele estava…
— Lindo… — deixei meus pensamentos saírem pela minha boca.
Drazen virou a cabeça e deu uma risada.
— É, eu sei. É um fardo que eu carrego… — gabou-se.
— Eu não tô… — Não pude completar a frase. Ayden havia visto Drazen e estava se aproximando.
É isso, eu vou me matar bem aqui.
Percebendo o jeito que eu fiquei, Drazen virou-se e viu Ayden. Fez um sinal para o loiro, chamando-o para vir até nós. Ele já estava vindo, de qualquer jeito.
— Hey, Ayden! Tem alguém aqui louca pra te conhecer! — Eu juro, JURO, que vou estrangular Drazen McKean no instante em que ficarmos só nós dois. Ele não perde por esperar!
— Eu vou te matar — sussurrei, mas segui sorrindo. Ou pelo menos eu achei que era um sorriso, já que eu estava levemente alterada.
— Depois. Agora finge que eu não sou incrível. — Ele me encarou e fez uma cara de nojo. — E melhora essa cara. Parece que você tá com prisão de ventre.
Ayden chegou até nós, ainda no meio da “pista” e cumprimentou Drazen com um aperto de mãos. Bro thing. Ele olhou pra mim e fez um aceno com a cabeça, tipo um “e ai?”. Apenas acenei de volta, tentando parecer minimamente sóbria e descolada. Nossa, ele era tão bonito.
— Varick, essa é a Sunset. Ela que vai ajudar a gente com a divulgação pra EBC.
— Isso. Sunset Mist. — Estendi a mão, mas me arrependi logo depois porque ele não reagiu imediatamente. Ótimo, minha mão tá só no ar. Vamos, Sunny, pense! Diga algo legal! — É tipo… uh… o pôr-do-sol! Só que mais legal. — Dei uma piscadela para ele.
Drazen, percebendo o meu fiasco, coçou a cabeça e murmurou um “ehr…”.
— Certo… — disse Ayden, claramente sem entender se aquilo era uma piada ou uma tentativa falha de flerte. Era um pouco dos dois e isso me deixava ainda mais nervosa.
Vamos, Sunny, você consegue fazer melhor!
— Então, ouvi que você toca bateria! Que legal, porque, tipo, eu adoro bateria. E bateristas. — Ouvi Drazen soltar um muxoxo depreciativo. Apesar disso, não consegui parar de falar. Acho que era o álcool agindo, me fazendo parecer uma idiota na frente dele. — Não que eu tenha um tipo. Ou talvez eu tenha? Mas não de um jeito estranho, sabe?
Ayden piscou, tentando acompanhar meu fluxo caótico de palavras sem sentido.
Eu. Vou. Me. Matar.
E se vocês acham que eu parei por aí… estão enganados. Eu sou um desastre ambulante.
— E-Eu também sei tocar instrumentos! — gaguejei. — Quer dizer, não bateria… nem guitarra… Mas uma vez eu toquei um triângulo numa apresentação da escola. Foi incrível, todo mundo adorou!
Isso, tente parecer descolada e consertar essa interação miserável.
— Triângulo? — Ayden perguntou, erguendo uma sobrancelha.
— Isso! Triângulo — respondi num sobressalto, animada com a pergunta dele.
Então ele estava interessado. Eu ainda tinha chances!
— Ele é super subestimado, sabe? Tem uma vibe meio minimalista e tudo mais — continuei, empolgada.
— Ok… — Drazen interrompeu, colocando uma mão em meu ombro. Ele olhou para Ayden com um sorriso constrangido.
— Não liga pra ela. Sunset acabou de descobrir o significado da expressão “overdose social”.
Ayden balançou a cabeça, mas não sorriu. Droga, o garoto não sorria nunca.
— Tá, uh, foi bom te conhecer, Sunset — Ayden disse. — A gente se vê por aí.
— Ah, pode apostar que se vê sim. — Pisquei para ele.
Eu definitivamente não tenho nenhum traquejo social quando tô interessada em alguém…
Quando ele saiu de vista, virei para Drazen com uma expressão de tortura interna.
— Cara, isso foi… patético, Mist. — Ele balançou a cabeça, indignado. — Se eu soubesse que você era tão ruim assim pra conversar, eu não teria te apresentado pra ele antes de te dar umas aulas…
— Não foi tão ruim assim…
— Tem razão. Não foi ruim. Foi péssimo. — Coloquei as mãos na cabeça, querendo me atirar de uma ponte. Será que estava muito tarde pra voltar pra pegar uma mochila e sumir no mundo? — Cara, Sunny, você falou de triângulos como se fosse um instrumento inovador e revolucionário. — Ele ergueu as mãos e depois as abaixou.
Abracei meu próprio corpo, pensando em como eu queria ser um avestruz e enfiar minha cabeça em um buraco agora mesmo.
— Mas ei… — Levantei a cabeça e encarei-o. — Foi… memorável.
— Isso é bom, né? Pelo menos ele não vai se esquecer de mim. — Fiz um biquinho.
— Ah, com certeza! Ele não vai esquecer mesmo. — Drazen soltou uma risada alta.
— Tá certo. — Virei e fui andando na direção da barraca de bebidas.
— Ei, aonde você vai? — Ele me seguiu.
— Vou me bem ali me matar — disse simplesmente. — Foi bom te conhecer, McKean.
— Ei, ei ei! — Drazen segurou meu pulso. — Não vou deixar você morrer. Ainda preciso de você viva pra vender a imagem da banda!
Suspirei, de repente exausta.
— Certo. Então, eu vou encher a cara.
— Certeza? — Ele ergueu uma sobrancelha. — Você já me parece bem alterada.
— Você ainda não viu nada.
~ ҉ ~
Eu realmente só percebi que tinha passado do ponto quando o chão começou a parecer mais instável do que era de fato, como se eu tivesse usando salto agulha e tentasse me equilibrar em uma prancha de pirata. De repente, o mundo tinha criado bordas macias e usava um filtro brilhante e colorido do Instagram. Sinceramente, tudo estava muito hilariante.
Ok, talvez eu tenha exagerado um pouco na bebida, mas eu estava me divertindo tanto que não pensei nas consequências dos meus atos naquele momento. Eu sorria para todos e cantava todas as músicas que tocavam. Dançava até sentir que meus pés flutuavam e eu estava voando.
Suada e com o coração acelerado, eu tive um momento de epifania autodestrutiva e percebi que estar bêbada não era mais tão bom assim. Olhei para meu copo vazio e pensei que seria uma boa ideia ir pegar mais um pouco. Tentei avisar Chris e Amy, mas minha visão turva não me permitia enxergar muita coisa. Eu jurava que estava com eles! Onde eles se meteram?
Senti meu corpo cambalear e decidi sair de perto daquela multidão que eu nem sabia direito quem eram, mas aparentemente naquele momento éramos grandes amigos. Senti uma mão encostar em meu ombro e virei para encarar um par de olhos azuis borrados me encarando.
— Sunset, você está bem? — ouvi a voz grave e preocupada de Drazen, mas parecia abafada em meio à música alta.
— Eu… tô ótima! — Eu achei que falei isso, mas saiu algo como “ô… doódima”. Sorri exageradamente e Drazen arqueou uma sobrancelha, segurando meu cotovelo para me estabilizar porque aparentemente eu estava quase caindo no chão.
— Tô vendo… Você nem consegue ficar em pé direito.
— Consigo sim! — reclamei. — Olha!
Segurei em seu braço — uau, que braço forte! — e levantei a perna esquerda.
— Em pé direito — falei, com um sorriso no rosto.
Drazen reprimiu uma risada e me ajudou a me equilibrar novamente.
— Eu não acredito nisso… Vem, dona palhacinha, vamos arrumar uma água pra você.
Pisquei uma vez e tentei focar em seus olhos. Parecia que ele tinha dois rostos. Ou talvez três…
— Você… — comecei, apontando o meu dedo trêmulo para ele. — Você tem mais caras do que o normal! — Gargalhei descontroladamente. Pude ouvir Drazen suspirando, mas havia um sorriso no canto dos lábios. Não sabia se ele estava rindo de mim ou comigo.
— Certo… vamos sentar um pouco antes que você acabe com o resto de dignidade que ainda tem.
Revirei os olhos e fui cambaleando, enquanto ele me ajudava a me equilibrar. Drazen me levou para um canto afastado, longe do barulho da música e das pessoas animadas cantando e bebendo. Ele me fez ficar sentada em um banco e pediu que eu ficasse paradinha enquanto ia buscar uma água pra mim.
— Por favor, Sunny, não saia daqui, ok? Eu já volto — pediu.
Fiquei com a postura ereta e fiz uma continência para ele, que apenas balançou a cabeça e murmurou alguma coisa que eu não entendi. A minha visão ainda estava turva e o mundo estava girando muito, o que me fez ficar enjoada. Levantei-me, antes que pudesse vomitar e fiquei andando em círculos para ver se o mal-estar passava. Enquanto andava cambaleante, bati em alguma coisa.
— Opa, desculpa — falei, mas não obtive resposta.
Percebi que não ia receber uma resposta depois que percebi que tinha esbarrado em uma árvore.
Era uma árvore muito, muito bonita.
— Você é linda, sabia? — passei minha mão pelo tronco, acariciando-o. — Não deixa ninguém te dizer o contrário! — Apontei o dedo para ela.
— Sunset? — chamou Drazen, segurando a garrafa de água. Ele tentava não rir.
— Oi… — respondi. Meus olhos começaram a marejar.
— Você tá chorando? — Ele parou de segurar a risada, estava com o tom de preocupação novamente.
— É que… Ela é tão linda! — Fiz um biquinho e soltei um soluço. — Não é?
— Definitivamente. Muito linda. — Ele pigarreou. — A melhor árvore que já vi nos últimos tempos. — Ele se aproximou com a garrafa de água aberta e a pôs em minha mão. — Bebe um pouco de água, você vai se sentir melhor.
Obedeci. Ele me guiou de volta para o banco e sentou-se ao meu lado, me encarando.
— Como você tá se sentindo?
— Como uma música eletrônica.
— Sunset, isso não faz o menor sentido.
— Eu acho… que eu não tô me sentindo muito bem… — Inclinei o corpo para a frente.
Rapidamente, Drazen se ajoelhou na minha frente e segurou meus ombros.
— Respira fundo, bebe um pouco mais de água — orientou. — Quer vomitar?
Meus olhos ficaram marejados novamente, uma mistura de álcool e emoções.
— Ele não gostou de mim, não é? — falei com a voz embargada. — Eu estraguei tudo!
— Quem? Ayden? — Drazen franziu o cenho, o maxilar tenso. — Sunset, relaxa. Ele ainda nem te conhece direito.
— Ele é tão bonito! — murmurei, fazendo um beicinho. — Você acha que eu tenho alguma chance?
Ele me encarou sério. Seu maxilar estava muito tenso e, não sei se era o efeito do álcool ou a luz da lua, mas reparei que ele era bem bonito mesmo. Fazia jus à fama que recebia entre as garotas da universidade. Ter uma banda ajudava, com certeza.
— É claro que você tem chance. Você é incrível, Sunset.
— Mas eu sou só eu.
Ele soltou um suspiro cansado.
— Você é muito mais do que “só você”. E qualquer um que não enxergue isso é um idiota. — Ele segurou meus ombros. — Você só está bêbada e ligeiramente triste. Isso vai passar.
Pisquei lentamente, fixando meus olhos nos dele. O enjoo deu uma trégua naquela hora.
— Isso foi fofo. Tipo, muito fofo mesmo. Você tem certeza que não tá apaixonado por mim secretamente? — Apertei os olhos acusadoramente.
Ele deu uma risada, empurrou meus ombros delicadamente e voltou a se sentar do meu lado.
— Nos seus sonhos, Sunshine.
— Você não negou. — Apontei o dedo para ele, quase encostando no seu nariz.
— E você está muito bêbada. — Ele segurou meu dedo, dando risada.
— É. — Encostei minha cabeça no ombro dele e fechei os olhos.
O sono veio como uma onda me batendo no mar.
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