When Sunset Comes
5 4. Um brinde à amnésia seletiva
Notas iniciais
Stop making the eyes at me, I'll stop making the eyes at you. What it is that surprises me is that I don't really want you to (I Bet You Look Good On The Dancefloor — Arctic Monkeys)
A primeira coisa que senti quando acordei foi a dor de cabeça. Depois, parecia que uma manada de elefantes tinha passado por cima de mim. E por fim, a pior parte: uma enxurrada de cenas constrangedoras da noite anterior vieram à minha mente, me dando uma ressaca moral esmagadora.
Praguejei alto, soltando um urro de ódio e puxei a coberta para cima da cabeça, desejando estar morta. Senti o cheiro que vinha dela… um cheiro cítrico de limão e laranja… Espera aí, eu não uso esse amaciante. Puxei a coberta de volta e abri os olhos.
Aquele não era o meu quarto.
Puta que pariu.
Sentei-me na cama em um impulso e olhei ao redor para tentar identificar onde eu estava. As paredes brancas estavam decoradas: tinham pôsteres de algumas bandas (AC/DC, The Beatles, Panic! At the disco e Linkin Park), uma guitarra encostada na parede de frente para a cama, próxima à janela. De repente, algumas outras memórias do dia anterior vieram à tona. Eu tinha uma leve impressão de onde eu poderia estar…
PUTA QUE PARIU!
Olhei para as minhas roupas. Não estava mais com as roupas de ontem. Usava uma camiseta preta larga — era de algum anime — e uma calça quadriculada vermelha e preta. Essas roupas definitivamente não eram minhas. Deus, o que foi que eu fiz??
Quando eu já estava levantando — e segurando a calça com as mãos porque elas estavam caindo — uma criatura sai de uma porta, que eu julguei ser o banheiro, com uma toalha branca nos ombros, passando-a pelos cabelos. Soltei um grito com a aparição repentina, o que fez Drazen também soltar um grito com o susto que levou. Ele pôs as mãos no peito, a respiração descompassada.
— Droga, Mist, que diabos?
— Esse é o seu quarto?
— Desde que eu me matriculei aqui, sim — ele respondeu como se fosse óbvio.
— E o que eu tô fazendo aqui? E por que você está seminu? — Apontei acusadoramente para ele, estreitando os olhos.
— Eu estava no banho. — Ele apontou para os cabelos molhados. — E você estava bêbada demais ontem. — Ele soltou uma risada debochada.
— Isso não responde a minha pergunta, McKean! Por que eu estou aqui e por que eu estou usando as suas roupas? — falei pausadamente, para ver se o cérebro de minhoca dele entendia.
— Você não lembra de nada mesmo? — Ele riu e eu apenas apertei os lábios. — Ok, relaxa, Mist, não aconteceu nada de mais. — Ele balançou as mãos. — Quer dizer, se você acha que passar vergonha na frente do seu crush e se embebedar até o cu dizer chega e conversar com uma árvore não é nada de mais.
— Ok, eu lembro vagamente de algo assim… Mas isso não explica como eu vim parar aqui.
— Calma, a melhor parte eu deixei pro final. — Ele foi na direção de uma mesinha que ficava no canto do quarto. Havia uma cafeteira daquelas de cápsulas e uma xícara posta ali. — Quer café? Tenho cápsula daquele americano sem graça que você gosta.
Apenas assenti e ele ligou a máquina para a água aquecer. Depois foi em direção ao frigobar e pegou uma garrafa de suco de laranja.
— Então, depois que você bateu um papo super maneiro com aquela árvore, eu fiz você sentar pra beber um pouco de água. — Balancei a cabeça e fiz sinal para ele continuar. — E aí… Bem, você meio que dormiu no meu ombro.
— Ok. E em vez de você procurar a Amy pra ela me levar pro nosso dormitório, você achou melhor me trazer pra cá? Com um psicopata em potencial? — Gesticulei para ele.
— Wow, wow, wow! Em potencial não. Mais respeito, ok? — Ele levantou o dedo indicador pra mim, com uma expressão divertida no rosto. E continuou: — Você dormiu por tipo uns 10 minutos. Não quis te acordar. — Deu de ombros. — O que foi um erro gigantesco porque você acordou do nada e vomitou em cima de mim. — Ele fez uma cara de nojo. — Droga, Mist, o que você tinha comido ontem? Tive pesadelos com os restos de comida em cima de mim… — Ele estremeceu.
Coloquei as mãos no rosto e soltei um gemido de desgosto. Meu Deus, eu quero me enterrar viva!
— Pois é, e não satisfeita…
— Espera tem mais?
— Tem… Ah, se tem — ele respondeu, claramente se divertindo com a situação. Tomou um gole do suco e continuou, ignorando a expressão de enterro que assolava o meu rosto. — Não satisfeita em jogar seu suco gástrico em cima de mim, você também vomitou em si mesma. Foi um show de horrores, Sunset. — Balançou a cabeça, reprovando meus atos vergonhosos. — Eu ia procurar seus amigos, mas nós dois estávamos em um estado muito deplorável, daí vim te guiando até aqui pra você se limpar. E eu também, obviamente.
Eu segui mortificada e me joguei na cama colocando o travesseiro no rosto pra sufocar um grito. Isso era castigo divino, só pode. Deve ter sido por causa daquela vez que me deram duas bebidas, sendo que eu pedi só uma e não avisei o barman. Com certeza, era karma.
— E quando chegou aqui, você dizia muitas coisas sem sentido… Tipo que eu parecia o gato de botas roqueiro… Enfim, eu te guiei até o banheiro e te ajudei a se limpar. — Tirei o travesseiro da cara e encarei-o de olhos arregalados. — Calma, eu te ajudei com você vestida e depois te dei uma toalha pra você tomar uma ducha sozinha, o que foi meio arriscado, considerando que aparentemente você escorregou e caiu de bunda no chão, ficou choramingando e reclamando de dor igual uma criança… — zombou.
Isso explicava por que eu sentia que um caminhão tinha me atropelado…
— Ok, já entendi — cortei-o. — Eu passei a maior vergonha de todas ontem à noite — constatei.
— Eu ajudei você a se deitar só pra que eu pudesse tomar uma ducha. Depois eu ia te levar de volta pro seu dormitório. Eu tinha esperanças que você lembrasse onde é o seu quarto, né… Mas quando eu saí do banho, você já estava dormindo. Não quis te acordar. — Ele disse simplesmente. — Não se preocupe. — Foi em direção à máquina de café e colocou a capsula do americano. — Eu dormi no chão. Aliás, você roncou a noite toda. Foi uma tortura dormir aqui.
— Eu não ronco! — esbravejei. — Você que deve ter roncado e quis colocar a culpa em mim! — Cruzei os braços.
— Claro, claro… — Revirou os olhos. — Aqui. — Ele estendeu a xícara com o americano expresso para mim.
Peguei o café e bebi um gole. Era revigorante sentir a bebida quente invadir meu corpo após uma noite de bebedeira (e muita vergonha).
— Separei isso aqui pra você também. — Ele me entregou um comprimido e uma garrafa d’água. — Vai ajudar a curar essa ressaca aí. Só não cura a ressaca moral. Essa aí você vai ter que lidar sozinha — disse em um tom zombeteiro.
Revirei os olhos e bufei irritada.
— “Obrigada, Drazen! Você é tão gentil e lindo!” — disse ele, imitando a minha voz.
— Eu não falo assim — retruquei. — E nunca diria isso.
— De nada, Sunshine — continuou, me ignorando completamente. — E eu sei que eu sou lindo.
— Você é doente, McKean.
— E você é uma ingrata.
— Argh! Quer saber? Tô indo.
Levantei da cama e deixei a xícara com um restinho de café na mesinha onde estava a máquina. Fui em direção à porta, batendo os pés e segurando a calça para que ela não caísse.
— Não esquece que temos que gravar o vídeo pra EBC mais tarde — Drazen gritou enquanto eu saia do quarto e entrava no corredor do dormitório.
Droga. Tinha me esquecido disso.
Por sorte — e por ser extremamente organizada e profissional com as minhas coisas — eu já tinha feito um planejamento de como eu queria que ficasse o vídeo. Alguns planos e ângulos que eu gostaria de filmar, um roteiro prévio. Só precisava de alguns ajustes finais. Eu sei que Drazen disse que não precisava ser algo tão produzido, mas acho que um vídeo bem feito chama atenção logo de cara e dá um reconhecimento maior pra banda. E mais: eu queria que o vídeo também servisse pra postar nas redes sociais, pra já começar a trabalhar a visibilidade deles, já que isso não se conquista do dia pra noite. Mas eu estava convencida de que eu ia conseguir fazer com que eles ganhassem notoriedade. Não podia garantir vencer o concurso, já que isso depende mais deles do que de mim.
Quando cheguei no meu quarto, Amy estava deitada na cama mexendo no celular. Ela sentou e me encarou com uma expressão curiosa, observando minhas roupas.
— Sunny? Que roupas são essas? — questionou ela. — E onde você foi parar? A gente ficou preocupado!
— Hã? Ah… Eu… ah… e-eu acabei bebendo demais — gaguejei.
— Deu pra ver… você estava maluca ontem… A gente te ligou, tipo, umas 100 vezes.
— É, eu… — tateei as calças procurando meu celular, mas lembrei que estava com as roupas de Drazen.
Droga! Saí tão repentinamente de lá que esqueci meu celular, minhas roupas… Se bem que, considerando o que Drazen disse, eu não sei se queria pegar aquelas roupas tão cedo…
— Acho que eu acabei perdendo o celular… — confessei.
— Onde você tava? — ela insistiu na pergunta.
Respirei fundo. Não queria contar, porque sabia que teria suposições sobre o que aconteceu noite passada.
— Bom, eu… Eu estava com o McKean… — Amy arregalou os olhos e abriu a boca, mas eu continuei antes que ela pudesse dizer algo. — NÃO! Não desse jeito! E-eu só passei mal e ele me ajudou. Foi só isso. — Abanei as mãos. — Acabei pegando no sono lá e foi isso.
Amy assentiu, mas percebi que ela estava com um sorriso reprimido.
— Ah, fala sério! Não faça essa cara. Jamais rolaria algo entre eu e o McKean. — Fiz uma expressão de nojo. — Ele é muito… autocentrado.
— Sei…
Bom, eu não ia dar continuidade naquela conversa. Já chega de Drazen. Fui tomar um banho premium pra ver se lavava toda a vergonha que eu passei na outra noite e renovava minha autoestima, que nesse momento já estava abaixo de zero. Eu precisava de um momento apenas eu e meus sais de banho.
Ainda sentia muita dor, no corpo e na cabeça, então resolvi tomar o comprimido que Drazen me entregara antes de eu sair do quarto. Aproveitei pra tomar uns 2 litros de água pra ver se a ressaca melhorava. Não era hora pra me deixar abater, eu precisava dar o melhor de mim naquela gravação e mostrar pro Ayden que eu não sou tão bizarra quanto a foi a nossa primeira interação. Se eu me mantivesse profissional e competente, acho que ainda teria alguma chance com o garoto. Talvez. Quem sabe…
Comecei a me arrumar, pois eu teria que ir no dormitório de Drazen antes de ir para a sala de ensaio, já que meu celular estava com ele. Precisávamos iniciar as gravações o mais cedo possível, pois era impossível prever quanto tempo duraria, quantos takes teríamos que fazer, enfim! Depois de pronta, abri o notebook pra dar os últimos ajustes no roteiro de gravação. Imprimi-o junto com o plano de marketing para entregar para a 2nd Chance e ver o que eles achavam, se concordavam, se tinham sugestões. Bom, se eles quisessem fazer sucesso, o ideal era que seguissem as minhas ideias à risca, mas sempre há uma relutância nesse meio…
Artistas e seus temperamentos complicados…
Ao sair, peguei uma mochila com meus equipamentos essenciais pra gravação e algumas coisas extras que pudéssemos precisar; alguns acessórios, maquiagem (vai saber?), etc. Quando cheguei ao prédio do dormitório de Drazen, subi até o terceiro andar e fiquei lendo as plaquinhas nas portas procurando por seu nome, já que não lembrava bem qual que era o número do quarto. Quando achei, dei três batidinhas rápidas e esperei. Alguns segundos depois, Drazen apareceu na porta usando uma camisa preta e calça militar. Ele parecia uma versão minha na noite anterior, só que com mais correntes e num estilo mais rebelde. É, eu precisava aceitar que eu era tão ícone da moda, que inspirava até astros do rock.
— Oi — falei.
Drazen abriu um sorriso de canto, as covinhas aparecendo.
— Oi — ele respondeu.
— Erh… eu esqueci as minhas coisas aqui…
— Eu sei.
Ficamos ambos em silêncio se encarando.
— Eu vim buscar — continuei.
— Tarde demais. Eu joguei fora. — Ele sorriu e fechou a porta na minha cara, me deixando ali com uma expressão perplexa.
Mas o quê…?
Bati na porta novamente, dessa vez com mais agressividade.
— O que foi? — Ele abriu a porta e ficou me encarando, claramente se divertindo com a situação.
— É sério, McKean! Cadê minhas coisas?
— Eu tô falando sério também. Eu joguei fora — ele falou pausadamente.
Cruzei os braços e o olhei irritada.
— Entra, vai. — Ele deu espaço para que eu passasse e eu entrei. — Coloquei suas roupas pra lavar agora a pouco, apesar de que eu deveria queimar aquilo de tão podre que tava. — Ele fez uma expressão de nojo. — Seu celular tá em cima da escrivaninha.
Fui até lá e peguei-o. Tinha mesmo muitas ligações e mensagens de Chris e Amy. Mandei apenas uma mensagem para Chris, dizendo que eu estava bem e bloqueei o celular novamente. Virei-me e olhei para Drazen dos pés à cabeça, analisando suas roupas, tentando adivinhar que música eles iriam gravar.
— Que isso, Sunshine, se vai me olhar assim, pelo menos paga um sorvete antes.
— Palhaço. — Balancei a cabeça. — Você vai gravar assim?
— Ué… Não gostou? Você estava exatamente assim ontem.
— Não é isso. Acho que te falta uma maquiagem, algo assim. Você é a estrela da banda, né?
Ele pôs a mão no peito e deu um sorriso largo.
— Obrigado!
— Não foi um elogio, foi uma constatação. Enfim, sorte sua que eu — falei, enquanto tirava a mochila das costas e abria-a. — trouxe umas coisinhas, caso precisasse.
Tirei uma necessaire com apenas o básico de maquiagem. O principal seria a mini-paleta de sombras escuras que eu tinha.
— Você… quer me maquiar? — Ele enrugou a testa.
— Sim — confirmei. — Isso afeta a sua masculinidade, McKean? — debochei, com as mãos na cintura.
— Qual é! — O canto do seu lábio se retorceu em um sorriso torto. — Só não vai se apaixonar por mim depois que me ver rebocado. — Ele deu uma piscadela.
Dei um sorriso sarcástico e murmurei um “nos seus sonhos”. Apontei para que Drazen se sentasse na cama, para começar a maquiá-lo e ele obedeceu. Retirei os itens que eu precisava da necessaire e fui em sua direção. Ele estava sentado na beirada da cama, com as pernas afastadas e os braços descansando nas coxas. Parecia relaxado, mas, ao mesmo tempo inquieto, batendo levemente os dedos no tecido da calça. Devia ser parte do espírito agitado de um vocalista de uma banda de rock.
— Certo, Rockstar, vou te deixar com um visual bem badass.
Posicionei-me entre suas pernas. Comecei limpando a pele dele e depois passando um hidratante. Por sorte o tom de pele de Drazen era muito parecido com o meu, então pude passar a minha base nele, selando com pó. Não passei muito, porque sabia que ele reclamaria, apenas o suficiente pra cobrir umas olheiras (resultado de uma noite mal dormida, que, por acaso, foi culpa minha).
— Agora, olha pra cima. — Abri um lápis preto e me inclinei, apoiando uma mão na lateral do rosto dele.
Drazen obedeceu, mas soltou um riso baixo, nervoso.
— Isso é mesmo necessário? Acho que a minha cara de roqueiro já suficiente, não?
— Claro que é! Você é o astro da banda. Tem que estar impecável, McKean — respondi com um sorriso, enquanto passava o lápis na linha d’água do seu olho.
Quando me inclinei mais, estava tão próxima que pude sentir o perfume cítrico que ele usava, uma mistura de casca de limão com um fundo amadeirado. Era um perfume muito bom, mas diferente do que imaginei que ele usava.
— Você gosta de coisas cítricas? — perguntei.
Ele piscou, o que fez com que eu me afastasse um pouco.
— Gosto. Laranja é minha fruta preferida.
Ele piscou mais um pouco e voltou para a posição anterior, agora balançando as pernas, ansioso.
— Você está ficando um arraso, McKean. Um olhar misterioso realmente não mata ninguém. — Sorri satisfeita com o resultado que estava atingindo.
— Mas dor mata. Isso tá arranhando pra caralho. — Ele voltou a piscar.
— Para de ser um bebê chorão. Isso aqui é um lápis, não uma faca.
Ele bufou e voltou a olhar para cima. Balançava tanto as pernas que começou a me deixar agoniada, então apenas pousei uma das mãos em sua coxa, pra ver se ele entendia que era pra parar de mexer. Vi seu pomo de adão subir e descer lentamente e ele falou:
— Já tá acabando?
— Não se apressa a perfeição, McKean. — Estiquei o dedo indicador em seu rosto. — Mas sim. Vou só esfumar com um pouco de sombra preta e vai ficar perfeito.
Ele balançou a cabeça e dessa vez ficou parado como uma estátua enquanto eu finalizava.
— Prontinho. Só arrumar esse cabelo agora.
Drazen levantou e foi se olhar no espelho.
— Você tá me transformando em algum personagem de anime? — ele perguntou com um sorriso torto. — Eu to a cara do Eren de Attack on Titan.
— Olha, não seria uma má ideia. — Sorri e fui até ele, esticando meu corpo ao máximo para bagunçar seu cabelo.
Afastei-me e encarei-o, admirando minha obra-prima.
— Muito melhor. Agora você vai roubar corações, com certeza. — Dei uma piscadela, brincando.
Ele deu uma risadinha, mas logo desviou o olhar, encarando seu reflexo no espelho. Sentei na beirada da cama e fiquei observando enquanto ele se ajeitava.
— Aliás, o que vocês vão tocar pra esse vídeo?
— Toxic, versão rock. — Ele deu um meio sorriso e sua bochecha ficou vermelha.
— Claro, tinha que ser Britney — brinquei.
Então, eu lembrei algo que eu queria muito perguntar, mas estava muito envergonhada. Fiquei em silêncio por um momento, mordendo o lábio inferior antes de falar.
— Drazen… — Ele virou instantaneamente, parecendo confuso. — Posso te perguntar uma coisa?
— Vai fundo.
— Como você… tipo… interage com o Ayden? Quer dizer, ele parece ser tão fechado… A verdade é que eu me sinto muito… — Balancei as mãos, procurando as palavras. — insegura perto dele. Claro que a bebida ajudou a piorar tudo, mas ainda assim…
Drazen deu uma risada baixa, misturada com uma bufada.
— Primeiro de tudo, acho que você tem que parar de colocar o cara num pedestal. Ele é uma pessoa normal, não morde. Só é… um pouco sério. É como se ele tivesse um “detector de besteira” ligado o tempo todo. Então, tenta ser mais… sei lá, autêntica? Imagina que tá falando comigo quando fala com ele. — Ele deu de ombros.
— Impossível. Vou querer socar a cara dele a cada 2 segundos.
— Palhacinha. — Ele bagunçou minha franja. — Olha, o truque é não forçar a barra. Só… fala do que você gosta. Ayden respeita pessoas que são genuínas, mesmo se ele não demonstrar. Claro, ele é mais receptivo se você falar de música. Ele não é de falar muito, mas se você tocar no ponto certo, ele vai interagir mais. Ah, e tenta não ser engraçadinha. Seu senso de humor só funciona comigo.
Peguei um travesseiro e joguei nele.
— Meu senso de humor é ótimo!
Drazen riu, pegando o travesseiro e jogando de volta em mim.
— Só tô falando, senhorita palhacita, que ele não tem o meu bom gosto.
Revirei os olhos, mas dei um sorriso.
— Vou tentar me lembrar disso.
Ele deu um leve toque no meu ombro.
— Relaxa. Você é ótima. Se ele não perceber isso, ele que tá perdendo.
Por um momento, meu sorriso vacilou e eu levantei rapidamente.
— Tá bom, Rockstar. Vamos indo que temos muita coisa pra fazer hoje. — Ele foi até a escrivaninha e pegou seu celular. — E… obrigada pelas dicas. Você tá surpreendentemente útil hoje.
Ele deu um sorriso malicioso.
— Eu sou sempre útil, você que demora pra perceber.
~ ҉ ~
Ao chegarmos na sala de ensaios, arrumei meus equipamentos e posicionei a câmera do meu celular no tripé, para pegar um plano geral. Os outros planos viriam posteriormente (e eram vários), mas não precisava que eles tocassem a música do início ao fim para capturá-los, então o principal era o plano aberto. À medida que o resto da banda ia chegando, eles organizavam seus equipamentos e se posicionavam no cenário apertado que tínhamos.
De repente a sala estava lotada de cabos espalhados (o que surpreendentemente não me incomodou nem um pouco), os instrumentos estrategicamente posicionados. Configurei o celular para a gravação e, ao mesmo tempo, ia explicando para a banda o meu planejamento. Eles leram o roteiro e pareceram gostar da ideia, animando-se com a minha empolgação. Audiovisual era a minha área preferida e eu ficava muito extasiada falando sobre, e ainda mais quando as pessoas com quem eu iria trabalhar estavam em sintonia comigo.
Ajustei a iluminação da sala, cobrindo as janelas e instalando umas luminárias de LED que levara comigo na mochila. Drazen ia me auxiliando no processo, já que ele era o único que não precisava afinar um instrumento. Aquele era o meu paraíso particular. Fazer esse tipo de produção era quase que instintivo para mim. Cada movimento que eu dava era calculado e natural. Era como se eu tivesse dirigindo um pequeno filme.
Orientei cada integrante sobre o que eu gostaria que eles fizessem e seguimos para a gravação. Depois de fazer pelo menos dois takes do plano geral, segui fazendo outros mais curtos, que estavam no roteiro. Circulei pela sala, filmando de diferentes ângulos, capturando detalhes, interações, expressões. Estava ficando lindo. Eu me mantinha focada, mesmo quando eles começavam a brincar e eu precisava repetir o take.
Quando aproximei a câmera de Drazen, percebi o quanto ele era magnético. Parecia que ele e a câmera eram amigos íntimos. Enquanto eu me movimentava, as sombras da iluminação desenhavam os contornos acentuados do seu maxilar e a maquiagem realçava bastante a intensidade de seus olhos. Ele olhava para a câmera tão profundamente que por um momento achei que estivesse olhando para mim. Balancei a cabeça e voltei a me concentrar no que eu estava fazendo.
Eu sentia o calor da sala, o ar carregado de adrenalina e paixão. O jeito como eles tocavam, a forma como eles estavam familiarizados com a música e uns com os outros deixava tudo ainda mais vivo e autêntico. Um sorriso brotou em meus lábios. Naquele momento, só o que importava era a música, a câmera e a história que eu contava por aquelas imagens.
Já estava escuro quando finalmente terminamos as gravações, a luz da lua refletindo na janela. A sala de ensaio estava quase vazia, sem os cabos espalhados por toda a parte. Josh veio em minha direção, enquanto eu guardava minhas coisas na mochila.
— Olha, eu não acredito que você tá viva depois de ontem… — ele disse, com um sorriso travesso nos lábios.
Naomi, que enrolava um cabo ao meu lado, ergue uma sobrancelha.
— Nossa, sim. Honestamente, eu apostava que você nem ia lembrar que tinha gravação hoje… — balançou a cabeça, com um sorrisinho nos lábios.
Eu, na verdade, tinha me esquecido disso.
— Muito engraçado… — murmurei. — Vocês falam como se eu tivesse morrido.
— Não morreu, mas quase levou o Drazen junto — provocou Josh. — Fiquei sabendo que o banho de vômito foi inesquecível! — gargalhou.
Drazen lançou um olhar mortal para Josh, como se o que ele disse fosse um segredo mortal. De fato, pra mim era. Olhei para o garoto com ódio por ele ter contado sobre a noite passada. O que mais ele teria contado?
— Cala a boca, Josh — advertiu Drazen entredentes.
— A Sunset deveria ter filmado isso. Poderia ser o primeiro vídeo viral da banda. — Naomi sorriu discretamente.
Ayden estava no fundo da sala, tocando levemente suas baquetas em um ritmo constante. Ele sequer levantou o olhar quando disse:
— Tô impressionado que você conseguiu ficar de pé o dia todo. Achei que fosse desmaiar… ou vomitar de novo.
Todos viramos para ele, que estava meio avulso e em seu próprio mundinho o tempo inteiro até agora. Ficamos em silêncio por uns 3 segundos, até Josh explodir em uma gargalhada.
— Ayden Varick interagindo socialmente? Eu vivi pra ver isso!
Drazen veio em minha direção e passou um braço pelos meus ombros com um suspiro exagerado.
— Tá vendo, Sunshine? Você não só sobreviveu, como conseguiu arrancar um comentário sarcástico do Ayden. Isso é quase um milagre.
Fiquei vermelha como um pimentão e dei uma cotovelada nas costelas de Drazen para que ele me soltasse. Revirei os olhos, mas no fundo eu fiquei feliz por ter essa pequena interação com Ayden. Talvez conquistá-lo não fosse ser tão difícil assim. Quer dizer, passos de bebê ainda são passos, certo?
Quando todos estavam indo embora, Drazen me parou no corredor.
— Ei, Sunshine. Sobre ontem… eu sei que eu faço piada de tudo, mas você realmente estava hilária ontem — disse ele, baixinho. E antes que eu pudesse protestar, ele adicionou: — E tá tudo bem! O que eu quero dizer é que a gente faz besteira às vezes. Não precisa se martirizar por isso — ele tentou me confortar.
Dei um sorriso em agradecimento.
— Você só diz isso porque agora tem material pra me zoar o resto da vida.
Ele deu de ombros, com um sorriso provocativo.
— Talvez. Mas eu prometo que vou usar com moderação. — Levantou a mão direita, como se fizesse um juramento.
Balancei a cabeça e soltei um suspiro.
— Viu, semana que vem vamos ter um show no The Cave… A gente tava pensando em fazer já uma divulgação a partir disso, pra chamar atenção do público que ainda não conhece a gente. Você podia ir nos nossos ensaios pra fazer uns materiais… Se aproximar do Ayden… — enfatizou essa última parte, com um tom meio entediado. — Mas, por favor, não me faça passar vergonha como você fez na primeira interação de vocês.
— Ei! Você acabou de me dizer pra não me martirizar por isso! — Apontei o dedo para ele.
— Sim. Eu disse pra você não se martirizar. Não que eu não iria te martirizar.
— Você é insuportável, McKean. — Cruzei os braços.
— E você estará nos nossos ensaios. Segunda, quarta e quinta, às 20h, na sala de ensaios mesmo. Sexta é o show. Te espero lá.
E ele foi embora antes que eu pudesse protestar.
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