When Sunset Comes

3 2. Acordo com o diabo


Gotta deal with the devil 'cause you know that it's real. Done a deal with the devil from a heart made of steel (Deal with the devil — Judas Priest)

Quando acordei na segunda-feira, já estava imaginando o caos que estaria instaurado naquela Universidade. Era a primeira semana do semestre, o que significava que seria a semana de recepção dos calouros, com diversas atividades no campus pra recepcioná-los, desde aulas introdutórias, até festivais culturais, já que o programa de artes de lá era seu ponto forte. Mas é claro que essas culturais acabavam se transformando em grandes festas com muita bebida.

Resolvi organizar o banheiro, pois a qualquer momento, minha nova colega de quarto apareceria e tudo precisava estar organizado. O quarto do dormitório que eu aluguei era grande o suficiente para abrigar duas pessoas sem que elas precisassem se esbarrar muito. Tinham duas camas de solteiro, dois guarda-roupas, duas escrivaninhas com cadeiras e um frigobar. A parede oposta à porta tinha uma janela enorme que ocupava ela inteira e era tomada por cortinas que comprei quando vim morar aqui. Era ali que as duas camas de solteiro estavam postadas, uma de frente para a outra. Ao lado de cada cama, havia uma mesa de cabeceira. O meu guarda-roupa era acoplado com a escrivaninha e ficava bem no canto do quarto. Ao lado da escrivaninha, eu tinha um espelho de corpo inteiro colado à parede. Por fim, o banheiro ficava na parede oposta ao “meu lado” do quarto.

Eu estava terminando de arrumar o banheiro quando uma invasão ruiva adentrou no quarto. Vi quando atravessaram o quarto. Eram uma duas mulheres baixinhas ruivas, um garoto de uns 13 anos, também com cabelos de fogo e um homem um pouco mais alto, meio calvo e bigodudo. Eles eram… barulhentos.

— Você pegou tudo o que precisava, né? — a mulher com cara de mais velha perguntou para a jovem. A menina arrastava uma mala de rodinhas, tinha uma mochila nas costas e mais uma mochila com a alça atravessada pelo corpo.

O garoto e o homem, que julguei ser o pai da família, carregavam algumas caixas.

— Peguei, mãe — a ruiva respondeu baixinho.

Foram deixando as coisas pelo meio do quarto e eu achei que era hora de me apresentar. Eles se deram conta da minha presença quando sai do banheiro.

— Ah, oi! Você deve ser a colega de quarto da nossa Amy! — A mulher veio na minha direção com um sorriso caloroso no rosto e abriu os braços pra me dar um abraço. — Que linda você é! — ela continuou após me abraçar e ouvi a voz da garota repreendendo-a com um sonoro “MÃE!”

Percebi que as duas se pareciam muito. Ambas tinham cabelos encaracolados e olhos verdes arredondados. Dei um sorriso gentil. Não queria que ninguém se sentisse desconfortável.

— Prazer, me chamo Sunset. Sunset Mist. — Estendi a mão para a garota.

— Amy. Amy Lange, prazer. — Ela me cumprimentou.

— Bom, a minha cama é aquela ali. — Apontei. — Você pode ficar com esse lado do quarto. O banheiro é naquela porta. Ele é pequeno, mas tem uma ducha e uma banheira. Já organizei a bancada e os armários pra gente dividir. A lavanderia é lá fora, no fim do corredor — expliquei.

Amy agradeceu. Seu pai entrava e saia carregando algumas caixas, enquanto a mãe estava sentada na cama tagarelando e a garota e o irmão desencaixotavam as coisas, tiravam as roupas da mala e colocavam no armário. Eu também estava ajudando. Não conseguia ver as coisas espalhadas pelo quarto.

— … E eu não quero saber de namoro, viu mocinha? Você veio pra cá pra estudar e se concentrar no seu futuro e… — tagarelou a mãe, Olivia, pelo que ela disse.

— Já sei, mãe — cortou Amy, levemente irritada.

Após uma longa sessão de conversa, em que na maior parte do tempo a mulher falava, a família de Amy se despediu da garota e foi embora. Percebi que a mãe dela era bem agitada, enquanto o pai era mais sério e tinha um tom de voz um pouco autoritário. O garoto parecia ser bem apegado à irmã, pois foi quem mais demorou no abraço. Apesar disso, soltou um sorrisinho sapeca e disse “agora o seu quarto vai ser meu”, o que fez a irmã revirar os olhos marejados.

Depois de terem ido embora, eu e Amy começamos a conversar para se conhecer. Ela era, com toda certeza, o oposto de mim. Ela era bem tímida e aparentava ser introvertida. Adorava ler romances e tinha vindo para a Universidade para seguir carreira na área da Literatura. Fazia bastante sentido, já que vi uma coleção de livros de Shakespeare enquanto a ajudava a desempacotar tudo.

— Uau, suas coisas são todas tão arrumadinhas. — Ela explorou meu lado do quarto. — Eu sou um desastre ambulante em organização… espero que isso não te incomode — ela disse, meio apreensiva.

— Desde que suas coisas não invadam o meu lado, acho que eu posso aguentar — falei com as mãos no peito.

Ela deu uma risadinha. Era uma fofa.

— Fechado. — Ela sentou em sua cama. — Sobre essa recepção dos calouros… É importante ou eu posso só não ir?

— Depende. Se você quiser conhecer pessoas e, sei lá, sobreviver aos próximos anos, é bom aparecer.

Amy fez uma expressão de desgosto.

— Você não gosta muito de interagir socialmente?

— Não muito… é que eu não sei lidar com muita gente ao mesmo tempo. Fico ansiosa — ela falou, apertando as mãos.

— Relaxa, você vai estar comigo.


~ ҉ ~

É, eu menti. Sou uma mentirosa compulsiva. Eu era a pessoa mais sociável daquele campus, o que significava que a minha companhia seria um completo terror para a pobre Amy Lange. Lado positivo: eu iria ajudá-la a conhecer seus veteranos. Lado negativo: ela não queria conhecê-los.

— Ali é o campo de futebol americano. Eles colocaram várias barraquinhas com as atividades que você pode fazer aqui. Tem os clubes, os projetos, os grupos de dança, as bandas… — falei, enquanto íamos nos aproximando do local. — Naquele prédio ali vai ser a cerimônia de abertura, no auditório principal. Começa em 15 minutos. Quer que eu te acompanhe? — perguntei.

— Eu posso não ir? Acho essas coisas meio chatas…

Dei uma risada.

— Acho que esse não tem problema. Mas quando for a palestra da sua Faculdade, você tem que ir.

Amy quis ver a feira dos clubes e seguimos para o campo. Mandei uma mensagem para Chris a fim de saber se o grupo nerd dele estaria lá. Quando estávamos passando pelo grupo acapella, escutei uma voz grave familiar.

— Hey, Sunshine!

Virei para encarar o garoto. Ele andava casual, como sempre, mas tinha aquele ar de “Eu sou o Deus do mundo”.

— Oi, McKean — falei.

— Queria muito me ver, né? Tá me perseguindo? — Ele indicou o estande mais adiante em que estava a 2nd Chance falando sobre banda.

— Claro. Porque eu não tenho mais o que fazer — disse, irônica.

— Exatamente o que eu imaginei. — Ele deu um sorriso provocativo que me fez ter vontade de socar aquela carinha cínica.

— Fala logo, o que você quer?

— Eu tava te procurando. Desde o show. — Ele sorriu.

— Pra quê? — ergui uma sobrancelha.

— Pelo visto alguém estava bêbada ao ponto de esquecer nossa conversa. — Ele balançou a cabeça. — Bom, eu queria te fazer uma proposta.

— Você sabia que o time de hóquei daqui é tricampeão invicto na NCAA? — Amy voltou do stand do time olhando um folheto, sem se dar conta da presença de Drazen. — Ah…

— Oi — Drazen falou, com um sorriso besta na cara. Amy continuou calada, encarando o garoto, claramente nervosa. — Não vai apresentar a gente, Sunshine?

Esse moleque é um cafajeste de primeira.

— Essa é a Amy. Minha nova colega de quarto.

Ela continua calada, olhando para Drazen como se ele fosse uma celebridade, em choque. Drazen sorriu gentilmente e estendeu a mão para cumprimentá-la

— Prazer, Amy.

Ela não se mexeu e parecia nem respirar.

— Ela sabe falar, eu juro — disse eu.

— Tudo bem, eu costumo ter esse efeito nas pessoas.

Revirei os olhos, meu estômago revirando com tanta expressão de egocentrismo da parte dele. Queria ver se ele seria tão confiante se eu vomitasse no sapato dele agora.

— Meu Deus, você se ouve quando fala?

Drazen deu de ombros, confiante.

— Não tenho culpa se…

Amy soltou um suspiro e finalmente deu sinal de vida:

— Você é Drazen McKean.

— Sim…

— Filho do Bash Hayes, da Crimson Tide.

— É… Como você…? — Drazen ergueu as sobrancelhas.

— Seu pai é uma lenda! — Amy disse com os olhos brilhando. — Eu cresci ouvindo os discos dele com minha mãe na garagem de casa. Ela era apaixonada por ele!

— Olha, eu não sei como você descobriu isso, mas eu fico lisonjeado. Eu acho — declarou, confuso.

— É verdade que você e seu pai têm uma guitarra especial? Aquela com o nome da sua…

— Não. — Drazen cortou. De repente, seus olhos azuis estavam mais acinzentados, opacos.

Amy ficou meio constrangida com a repentina mudança de humor do garoto e se calou. Ele virou para mim, sério e continuou falando.

— Será que podemos conversar um instante em particular?

O jeito sóbrio dele falar e a troca de expressão me deixaram curiosa. Falei para Amy ir conhecer o clube de leitura que estava do outro lado e marquei de encontrá-la ali mesmo após a conversa com Drazen. Eu e ele fomos para as arquibancadas e sentamos ali.

— Ok, o que é essa tal proposta que você tem pra me fazer?

Sua expressão tinha voltado ao normal, apesar de eu perceber que seus olhos ainda pareciam reflexivos.

— Então, você conhece a Emerging Bands Contest, certo? — Balancei a cabeça confirmando. — Essa competição tem etapas. A primeira etapa é a local, que é a disputa entre as bandas de cada universidade. As três melhores bandas vão para a etapa regional, que pega todas as bandas de todas as universidades da região. De novo, as três melhores concorrem na última fase, a nacional. E é lá que a gente quer chegar.

Balancei a cabeça novamente, mas ainda sem entender o que aquilo tinha a ver comigo.

— E você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com você — disse ele, como se lesse minha mente. — Bom, ano passado a gente quase chegou na nacional, por pouco não conseguimos. E isso se deve ao fato de que quase ninguém nos conhecia. Não sei se você sabe, mas uma das formas de pontuar é na questão de popularidade. Aparentemente, só tocar bem não é o suficiente pra ser um astro do rock… — Seu tom de voz era debochado.

Eu estava começando a entender o ponto dele.

— Por isso que semestre passado você estava na minha aula de marketing? — questionei.

Drazen pigarreou.

— É, mais ou menos isso.

— E isso era tão importante, mas você chegava atrasado nas aulas toda vez…

— Sunset, já falei, detalhes. — Ele estendeu a mão com a palma pra baixo. — O ponto é: precisamos de alguém pra desenvolver toda essa parte de marketing, divulgação e etc. etc.

— E vocês querem me contratar — conclui.

— É… — Drazen coçou a cabeça. — Mais ou menos isso. O caso é que a gente não tem muito dinheiro.

— Peraí, deixa eu ver se eu entendi. — Balancei as mãos na frente do corpo. — Vocês querem que eu trabalhe de graça. É isso? — Ergui as sobrancelhas, incrédula.

— Claro que não! — Ele parecia ofendido. — Vamos te pagar. Com horas complementares. — Deu um sorriso cínico.

Gargalhei. O som da ironia escapando pela minha boca.

— Só pode ser piada.

— Eu sei que você me acha engraçado, Sunshine, mas não é piada, não. — Ele sorria como se não tivesse feito a proposta mais indecente do mundo.

Revirei os olhos.

— E por que eu? Tem tanta gente que toparia ajudar a 2nd Chance só pra passar um tempo com a sua companhia altamente questionável.

Drazen dá de ombros, sorrindo.

— Eu te via na aula. Você tem cara de quem sabe o que tá fazendo.

— Isso é seu jeito de pedir um favor?

— É o meu jeito de oferecer um negócio. Você ajuda a gente a divulgar a banda pro concurso e a gente te dá horas complementares e um portfólio foda.

— Trabalhar de graça. Tentador — ironizei.

Ele deu um sorriso de canto, as covinhas aparecendo.

— Sabe que não é só a minha companhia questionável que você vai ter, né? Tem todo o resto da banda. — Seu tom de voz era sugestivo. Ele sabia mais do que eu queria que ele soubesse. — Tem o Josh, a Naomi… e o Ayden, o nosso baterista novo.

Engoli em seco.

— E eu penso em fazer umas sessões de fotos da banda… pensei em algo meio selvagem, com pouca roupa e…

— O que você está dizendo, McKean? — falei, séria. Sentia que podia vomitar a qualquer momento.

— Eu vi o jeito que você ficou encarando o Ayden no dia do show. Assustador, aliás. Parecia uma psicopata pronta pra devorar as entranhas dele. — Ele balançou a cabeça negativamente. — Bizarro. Enfim, você tá afim dele, não tá?

— Quem é que diz entranhas, McKean? — Mudei de assunto pra disfarçar.

— Eu digo. E você está afim do Ayden — afirmou.

— Claro que não! — Minha voz saiu mais fina do que eu gostaria. — E não tenho interesse em trabalhar de graça pra sua banda, obrigada. — Levantei, as pernas bambeando por ter sido descoberta justo por Drazen “linguarudo” McKean.

Quando estava descendo a arquibancada, Drazen falou:

— Eu te ajudo. — Parei. — Eu te ajudo a conquistar ele, se você ajudar a gente.

— Essa é a coisa mais estúpida que eu já ouvi. — Pus as mãos na cintura. — Você realmente quer que eu trabalhe de graça pra você?

— Não é de graça. É um acordo.

— E em troca você me oferece um… serviço de cupido? — Ergui a sobrancelha.

— Eu prefiro chamar isso de uma parceria estratégica. Todo mundo sai ganhando.

Dei risada, balançando a cabeça.

— Eu passo.

— Por favor, Sunset — ele pediu com sinceridade. Aquilo me deixou balançada. — Isso é realmente importante pra nós…

Ele me pegou desprevenida. Não esperava ver Drazen sem sua capa de excentricidade e egocentrismo. Era difícil dizer um não depois disso.

— Ok. Vou pensar.

Drazen deu um daqueles sorrisos enormes que deixavam suas covinhas aparecendo. Era curioso que ele tinha uma aparência tão black cat, com os cabelos pretos, as tatuagens e as roupas pretas, mas tinha o sorriso frouxo. Era um contraste gigantesco.

Saí da arquibancada e voltei pra feira. Precisava encontrar Chris.

~ ҉ ~


— Espera aí, você tá me dizendo que Drazen McKean te ofereceu ajuda pra conquistar o Ayden? É isso mesmo? — Chris falou, dando risada.

Depois da conversa com Drazen, voltei para o campo de futebol onde estavam os estandes para encontrar Amy, quando Chris respondeu minha mensagem desesperada contando o que tinha acontecido. Falei que ia encontrá-lo lá. Deixei Amy ouvindo sobre como fazer jogos digitais com os amigos nerds do Chris… Bem, aqui estávamos.

— Por aí… Ele quer que eu ajude a banda na divulgação pro EBC.

— E, em troca, ele vai ser seu wingman? — Chris disse, segurando o riso.

— É, eu sei, é estranho. Mas faz sentido… de alguma forma.

— E o que você respondeu?

— Falei que ia pensar.

— Ah, qual é, Sun! Você tá caidinha do baterista. — Chris me empurrou com os ombros. — Aproveita a oportunidade que o universo tá te dando!

— Sei não… O universo não parece muito empenhado em me dar um amor.

— Sabe qual é o seu problema? Você vê a vida muito quadrada, Sun. Parece que é tudo ou preto, ou branco, nunca pode ser cinza.

Franzi o cenho. O que ele tava querendo dizer com isso?

— Isso não é verdade — rebati na defensiva.

— Claro que é. Você tá tendo a oportunidade de conseguir uma experiência profissional na sua área e de quebra ainda poder conquistar o carinha que cê tá afim, mas fica nessas de “ai o universo me odeia unhe unhe”. Vira gente, Sunset! Toma uma atitude, vai viver!

Cruzei os braços e bufei. Eu não era assim. Nem um pouco. Apesar de Chris ser meu melhor amigo, ele estava errado em sua conjectura sobre mim.

— Você não sabe o que está dizendo. Eu não sou quadrada.

— Não? Então me prova.

Ah, eu ia provar.


~ ҉ ~

Andei decidida até a área em que a 2nd Chance estava. Drazen estava despreocupadamente encostado na barraca conversando com uma garota que provavelmente era caloura — sua próxima vítima. Ayden estava sentado mexendo nas suas baquetas, alheio ao fato de que eu estava prestes a firmar um acordo com o diabo. Não me aproximei muito, fiquei parada esperando McKean me olhar, o que surpreendentemente não demorou muito. Assim que ele me viu, deu um sorriso, falou algo para a garota e veio na minha direção. Ela o seguiu com o olhar. Parecia encantada com o andar felino do garoto.

— E aí, Sunshine? — Ele sorria despreocupado.

— Eu topo.

— Hã?

— O acordo. Eu topo. Mas vou deixar uma coisa bem clara: sem gracinhas, McKean. Se isso for uma piadinha de mau gosto, eu to fora. — Apontei o dedo indicador para ele.

— Sem gracinhas — repetiu, com a mão direita levantada. — E se você não conquistar o Ayden… bom, eu vou continuar tentando.

Estreitei os olhos, meio confusa com a frase.

— Como assim?

— Nada, loirinha. — Ele bagunçou minha franja. Que ódio. — Só tô dizendo que tô empenhado nessa missão. Vamos fazer acontecer, Sunshine.

Drazen estendeu a mão para que eu a apertasse, o sorriso no rosto.

Eu não confio em Drazen McKean. Nem um pouco. Mas, por algum motivo desconhecido, eu quero ver onde isso vai dar. Olhei para Ayden na tenda da 2nd Chance e, em seguida, para a mão do garoto à minha frente.

— Vamos fazer acontecer — repeti.

E apertei sua mão.


Notas finais
O que será que vem desse acordo, hein? Fiquem de olho, em breve sai mais um capítulo :DD