When Night Comes
9 Capitulo 9
Notas iniciais
Pov Brenda
Os momentos tensos com esse mundo sobrenatural que eu aparentava estar sendo incluída aos poucos parou, sim, parou, pois Nevena simplesmente sumiu desde sua saída silenciosa para seu carro e avenida adentro. Não a vi mais e isso fazia, mais ou menos, duas semanas. Sim, se passou duas semanas, até minhas provas haviam acabado e eu já estava com meu diploma para receber no dia da festa de formatura, assim como depois dessa colação realmente ocorreria a festa.
E cá estava eu, eu e minha mãe no caso, pagando o meu vestido preto que usaria daqui a quatro dias por baixo daquele roupão besta, mas que depois de toda a cerimônia comum e padrão viria a festa, o que realmente me importava no dia. Queria me divertir muito, mesmo que minha vida esteja dando uma revira volta ultimamente... Mal falo com Jessie, muito menos com outras pessoas, então não sei se meus planos correriam para que a festa fosse legal.
Minha mãe pagou e saímos logo depois. Nessas últimas semanas eu percebi o clima ruim que estava em casa, meus pais quase não se falavam e quando isso acontecia, se tratavam com muita polidez e totalmente diretos, o que eu considerava muito frio. Meu pai parecia mais afetado que minha mãe, mas notei que a mesma começou a sumir durante muito tempo em casa e até fora dela, não falando o que faz ou aonde vai, apenas avisando que iria sair e isso piorava o clima entre eu e papai, que fingia estar tudo bem.
Ainda nem conversamos sobre isso, nem eu com ele ou com mamãe, muito menos com os dois juntos. Acho que estava na hora de saber o que ocorria entre eles.
—Onde vamos agora? – Perguntei, entrando no carro dela, vendo-a ligar o carro e engatar a ré.
—Não sei, querida. – Falou olhando para o visor, o mostrava o que acontecia na traseira do carro enquanto ela dava ré. – Você quer passar em algum outro lugar?
—Pensei em almoçar, pedir para o papai nos encontrar em algum lugar já que ele não quis vir e vocês estão em casa. – A vi olhar para mim de relance, demonstrando um incomodo em sua expressão e olhar. – Se você quiser, claro.
—Tudo bem, filha. Avise seu pai, vamos esperar no restaurante perto da igreja no centro.
—Tem certeza? Não quero forçar nada entre vocês. – Falei para tentar induzir o assunto, minha mãe me olhou e vi suas mãos apertarem o volante com força enquanto voltava a olhar para a rua.
—Você não está forçando nada, filha... Eu que seu pai e eu estamos... – Ela hesitou sob meu olhar, parecia bem nervosa. – Passando por um momento delicado. Fique tranquila que iremos resolver, não se aborreça com assuntos entre nós.
—Não precisa falar assim, mãe! – Suspirei. — O que aconteceu para vocês ficarem assim? – Perguntei, mas obviamente não obtive resposta, apenas um olhar direto e profundo, como se ela me dissesse: você não tem que saber de nada agora.
Suspirei e mandei a mensagem para meu pai, avisando-o onde estaríamos e tudo mais, o mesmo me respondeu na hora dizendo que iria se arrumar e chegaria em, no máximo, quarenta minutos. Como eu e mamãe já estávamos chegando perto do restaurante, deduzi que demoraríamos a comer, o que me aborreceu, pois estava realmente com fome. Tínhamos começado a procurar um vestido desde 8h da manhã! Agora já são 14h.
—Por onde anda a Jessie e o Mota? Faz tempo que seus amigos não aparecem lá em casa. – Comentou amigavelmente enquanto acelerava para sairmos do farol que abriu.
—É complicado explicar. – Apoiei-me na porta, olhando para fora, observando as pessoas passearem em suas vidas que nunca param. – Mota está virando um belo idiota com aqueles meninos que começou a andar, não tenho paciência para isso e Jessie, bom, nos desentendemos a pouco tempo... Não nos falamos muito depois disso.
Minha mãe não perguntou mais, talvez pelo tom que eu usei, nada agradável, mas fazer o quê? Jessie realmente havia mudado comigo, evitava-me por completo, sempre que tentava me aproximar para conversamos sobre o que aconteceu ou por qualquer outra coisa, como a formatura, ela virava para o outro lado, indo para longe, ou dava uma desculpa ridícula que deixava claro que era mentira. Não conversamos desde então, absolutamente nada, ou seja, fiquei completamente sozinha nas últimas semanas, já que Mota virou um imbecil escroto, Nevena havia sumido e minha melhor amiga resolveu fugir de mim como diabo foge da cruz.
Mamãe parou o carro e o desligou, tirando-me de meus pensamentos, reparando que já havia chego. Desci do carro, deixando a sacola com o vestido dentro, depois ouvi a porta de mamãe bater também e ela se juntou a mim para caminharmos até o restaurante. Entramos e pegamos uma mesa perto da janela pequena que dava para rua, assim veríamos papai quando ele chegasse.
—Boa tarde! Me chamo Thales e vou lhes acompanhar no almoço de hoje. – Um jovem apareceu sorrindo para nós, correspondi e prestei mais atenção em sua voz fina. – Aqui está o menu, se quiserem algo, me chamem, por favor.
Ele deixou o menu e se virou sorrindo, partindo para perto da cozinha. Minha mãe começou a ver o que havia ali, mesmo ela sabendo assim como eu sabia o que pediria. Aqui é sempre a nossa primeira opção de restaurante e era difícil mudarmos o prato por gostarmos demais!
Olhei para o menino de novo e reparei que ele parecia bem novo, mas como trabalhava aqui devia ser maior de idade. Sua voz era fina e seu cabelo estava em um perfeito topete preto com uma mexa branca na frente, o uniforme impecável com a camisa para dentro da calça e sapatos brilhantes. Seu sorriso era grande e preenchido por lábios grossos.
—Ele chamou tanto sua atenção assim? – Falou mamãe, fazendo-me olha-la e perceber que ela reparou meu olhar para o menino. Ela sorria divertida. – Está se revelando, filha?
Revirei os olhos pelo que entendi que ela havia insinuado e peguei o cardápio apenas para não ter que a olhar, sentindo meu rosto esquentar.
—Pare de pensar besteiras, ele não chamou minha atenção assim. – Comentei baixo. – E não estou revelando nada!
—Sei! Então qual o motivo de encara-lo tanto?! – Argumentou debruçando-se parcialmente na mesa, em minha direção.
Meu celular vibrou e vi que era uma mensagem de Jessie:
“Onde você está?”
Fiz uma careta e o deixei de lado. Agora ela queria falar comigo?!
—Achei-o interessante, mas não neste... Motivo que você pensou, mãe. – Respondi sem animo.
—Duvido, mas se não quer falar, não fale! – Ela levantou as mãos para cima, em sinal de desistência. – Vou chama-lo, estou com fome!
O menino retornou a nossa mesa para pegar os pedidos e quando os anotou, antes de sair, olhou-me demoradamente, sorrindo de lado no final enquanto seus olhos agarravam-se aos meus, mas diferente da cutucada que minha mãe deu-me por baixo da mesa, não senti nada a não ser incomodo e indiferença... Como já havia constatado, antigos hábitos meus mudaram e esse, rebater ou dar investidas amorosas, realmente mudou. Fora que realmente senti um desconforto vindo de seu olhar... Não parecia algo amigável.
Mamãe ficou falando mais e mais sobre o menino e apenas quando papai chegou que o assunto morreu, este e qualquer outro, porque o silencio reinou na mesa até que papai perguntou sobre o vestido, dizendo que queria ver e tudo mais, insistindo para que eu fosse pegar no carro e apenas depois de muito ouvi-lo falar sobre isso, até quando a minha comida e da mamãe chegou, mas ele continuou falando após pedir seu prato.
—Se eu for pegar você vai parar de falar disso? – Perguntei largando o garfo, fazendo-o rir, mas eu realmente estava com raiva.
—Vou! Mas em casa vai rolar desfile! – Falou sorrindo e eu revirei os olhos, levantando-me enquanto pegava a chave de cima da mesa, caminhando para longe.
—Já volto. – Avisei antes de me afastar o suficiente para depois atravessar o local e ir até a porta, saindo para pegar o vestido. – Coisa chata. – Reclamei erguendo a mão para desativar o alarme, mas parei ao ver outro alerta do celular indicando uma mensagem, o abri e vi que era de Jessie:
“Por favor, vá para sua casa! Ou venha para minha! Eles estão atrás de você!”
Uma outra mão estapeou a minha, fazendo meu celular voar, assustando-me.
—O que é isso?! – Olhei para de onde a mão vinha e vi o menino, sorrindo para mim.
—Dessa vez você não escapa. – Ele falou ainda sorrindo. – Ela não vai te proteger hoje, principalmente aqui! Agora! Você está sozinha, MacDonald.
Senti um calafrio, sabia que ele parecia estranho! Engoli em seco, dando alguns passos para trás, percebendo que a chave havia caído no chão, quase entrando para debaixo do carro. Pensei em me abaixar... Mas já vi tantos filmes de ação que imaginei a primeira reação dele: dar uma joelhada no meu rosto ou costelas.
Uma mão pousou em meu ombro, fazendo-me sobressaltar-me, virei e dei de cara com Lumía, ela também sorria. Vê-la aqui foi pior do que o menino, então por medo corri para a direita, almejando chegar a porta do restaurante, mas senti uma mão pegar meu tornoze-lo, puxando-o e me fazendo cair. Minha cabeça bateu com força no asfalto, assim como meu joelho e cotovelo, senti a dor aguda atravessar meu corpo em vários lugares... Sentia sangue escorrendo por meu rosto.
—Você não vai escapar, Brenda. – Era a voz de minha aluna. – Temos planos para você hoje. Sabia que é um dia importante e sua participação é a parte crucial!
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A primeira coisa que percebi foi que meu corpo estava pendurado e meus braços erguidos e meus pulsos amarrados era a única coisa que me sustentava, trazendo uma dor que logo chegou e terminou de me despertar, minha memória me trouxe flashs do que ocorreu.
Eu fui sequestrada pela doida da Lumía e o garoto ridículo de topete!
Abri meus olhos e inspirei profundamente, como se não estivesse conseguindo fazer isso nos últimos minutos. Minha visão ficou turva e quis coçar os olhos, mas não iria dar certo pelos pulsos amarrados, então pisquei algumas vezes e balancei a cabeça, sentindo-me tonta ao fazer isso. Péssima ideia, droga!
—Vejamos quem acordou.
Levantei a cabeça e tudo girou, mas estreite os olhos, tentando não me abalar com o mundo girando, e focalizei no borrão a minha frente.
O borrão era um homem. Um homem alto, bem alto, negro, com um sorriso largo e brilhoso, olhos tão negros quanto a noite e uma voz grossa, ele vestia um sobretudo. Atrás dele haviam algumas pessoas, logo reconheci os dois que me sequestraram e os amaldiçoei em pensamento, querendo bater neles mais que tudo.
O homem se aproximou enquanto eu estava olhando para Lumía e o garçom, que provavelmente não é garçom, só o percebi quando segurou meu rosto, puxando-me para encara-lo. Meu coração se apertou dentro do peito... Ele sorria, mas seu rosto se transformou em um carranca raivosa.
—Então ISSO é o que prenda tanto a atenção de Nevena ultimamente? – Sua voz estrondosa foi como injeção em minha espinha, arrepiando-me de uma maneira horrível. Seu aperto aumentou, machucando-me, mas não falei nada, apenas grunhi. Ele me olhou dos pés a cabeça, parando em meu rosto, virando-o, como se me avaliasse. – Vocês são tão frágeis... Não consigo nem entender o motivo deles gostarem tanto de vocês! Ah, eu lembro. – Ele riu, sozinho. – O sangue.
Ele jogou meu rosto para trás, me assustando a ponto de não ver seu punho até ele atingir meu rosto com força, içando-me para o lado. Uma dor horrenda veio e depois o gosto de sangue surgiu dentro da minha boca, passei a língua e senti um corte interno e nos meus lábios. Fiz uma careta com aquilo, a dor não passou, muito pelo contrário, parece ter piorado! Tentei abrir os olhos, mas tudo embaçou e me senti tonta, então os fechei novamente.
—Acho que como está sangrando agora, ela goste ainda mais de você. – Só ouvi sua voz, não ousei tentar abrir os olhos. Silêncio e mais um arrepio na espinha. – Sabe, eu mandei dois dos meus pegarem você, não quis mandar um, pensei que você ia dar trabalho. – Sua voz soou mais afastada, tentei começar a abrir os olhos devagar, piscando para ficar melhor e menos dolorido. – Se a fodona dos sanguessuga gostou de você e ainda fica te seguindo para todo lado, você realmente não deveria ser subestimada! Mas obviamente eu estava enganado, não é mesmo?
Abri meus olhos e o encarei com raiva... Odiava quando as pessoas faziam isso, me subestimavam! Imaginavam uma coisa de mim que não era verdade! Odiava isso, como odiava! Aquele filho da puta me sequestrava, me apaga, me amarra assim, me bate e ainda fica falando essas bostas para mim assim!
Senti meu sangue correr mais rápido e um impulso forte de bater naquele cara, mesmo não conseguindo nem alcançar o chão, além disso, meus braço iriam estar igual gelatina quando saísse daqui... Ou seja, essa raiva não levaria a lugar algum, apenas fechei os olhos e tentei me acalmar novamente.
—O que você quer de mim? – Falei, olhando-o nos olhos. – Por que me sequestrou?
Olhei para ele andando e só então observei melhor onde eu estava... Era uma floresta, com toda a certeza é uma floresta! Olhei para cima e vi que eu estava amarrada por uma corda a um galho bem alto de uma árvore grossa. Nos lados, haviam mais pessoas... Várias pessoas me encarando de maneira não muito boa.
—Quer saber o motivo de mandar meus filhos buscarem você? Não ficou claro ainda? – Ele chamou minha atenção, aproximando-se novamente. – Você realmente não entendeu nada de onde se meteu, garota? – Seu sorriso me arrepiou, mas não me intimidou mais. Ele falava tanto que parecia não parar mesmo calado. – Nevena gosta de você, ela realmente gosta de você e isso é algo que eu pretendo usar contra ela.
Respirei fundo, nem percebendo que havia prendido a respiração... Pisquei algumas vezes, sentindo meu coração bater forte. Nevena gostava mesmo de mim? Será mesmo? Mas... Se ela gosta de mim mesmo, por que me deixou assim? Por que sumiu do nada?! Nem ao menos a vi novamente... Encarei um ponto fixo... Sendo tomada por lembranças nossas que confirmassem o que ele falava.
Ouvi uma risada, chamando minha atenção para uma pessoa que acionou minha raiva novamente.
—Ela nem ao menos sabe disso! Patética! – Falou Lumía, chamando atenção para si. – Essa humana é tão ridícula que nem ao menos sabe o que está acontecendo e nem sabe o quão Nevena é importante para toda a história! Para a história do povo dela e dos outros! Você nem ao menos sabe por quem está se apaixonando!
—Cale-se, Lumía! – Brandou o homem negro, voltando-se para ela. – Cale a boca antes que me irrite com você e te expulse novamente!
Apenas vi uma expressão de ódio tomar seu rosto e um som alto antes dela sair... Parecia um rosnado... Um estalo se fez na minha cabeça e juntei os pontos! Se Lumia estava aqui e esse cara podia mexer com ela... Ela é uma loba, ela é metade humana e metade lobo! Olhei para o homem, para todos ali... Quase todos iguais, cabelos e olhos escuros, musculosos, até mesmo as mulheres.
Arregalei os olhos. Puta merda, fodeu!
—Você são lobos... – Sussurrei ainda de olhos arregalados, mas o homem alto se virou para mim... Ele sorriu, ele ouviu.
—Sim, somos lobos. – Ele veio em minha direção novamente, ainda sorrindo. – Metade lobos na verdade. Somos transmorfos, lobisomens, na linguagem de vocês. Metade homem, metade lobo.
Ele sorriu e eu só consegui pensar naquele lobo enorme que ficou em minha frente. Eu sabia que não era ele, provavelmente era Lumía, mas mesmo assim... Esse cara é enorme, bem sádico também, ironicamente perigoso... Não quero ver ele como um lobo selvagem, com certeza não seria algo bom.
Ninguém falou mais nada comigo... Eles apenas me deixaram lá e começaram a conversar entre si sobre algo que eu não entendia e também não queria saber. Abaixei minha cabeça e arfei... Ultimamente as coisas andavam complicando em absolutamente tudo que envolve Nevena... Era uma confusão tão grande que eu mal conseguia entender, quando entendia, estava bem na hora que a bomba explodia.
Não percebi quanto tempo fiquei assim, mas “despertei” com o negro falando.
—Está preparada? – Ele olhou para mim novamente. – Meu povo já estão prontos, só falta você. – Sorriu.
—Pronta para o que? O que vão fazer? – Perguntei preocupada, olhando-o.
—Para ver sua amada, oras. – Franzi o cenho, estranhando. – Ah, não pensei besteira. Eu sou a favor do romance de vocês! Quero que a veja hoje! É um dia importante de qualquer forma, para nós e para ela. – Ele ergueu suas mãos até as minhas e com um puxão, me soltou, fazendo-me cair com tudo no chão. Deus, tudo doía. – Você não sabe que dia é hoje, sabe Brenda? – Me virei para olha-lo com dificuldade, meu corpo inteiro doía. Eu mal sentia meus braços. Fechei os olhos respirando devagar. – Ela deixou você durante esse tempo por causa do dia de hoje! Hoje é o dia em que ela irá batalhar por sua vida, para vingar a vida do seu pai e quando ela ganhar, queremos muito que ela ganha, você tem noção disso, certo? Ótimo, pois aí nós usaremos você para mata-la. – Abri os olhos, parando até de respirar ao entender o que ele falou. – Não é incrível?
Não falei? Eu só entendia as coisas do mundo dela quando elas explodiam na minha cara.
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Pov Nevena
—Como está se sentindo?
Levantei os olhos de minhas mãos para os olhos azuis de Eco, prendendo-me neles e por fim suspirando. Voltei a olhar para minhas mãos... Eu não sabia quem era, o que estava fazendo, o que iria fazer e hoje deveria ser um dia importante para mim. Hoje deveria ser um grande dia, na verdade eu sabia que seria, mas... Algo estava errado, não sei ao certo se algo está faltando, mas minha cabeça está tão cheia, que nada parece fazê-la espairecer.
—Estou bem, Eco. – Menti sem olha-la. – Não precisa se preocupar comigo.
Fechei o punho algumas vezes, vendo as veias esticando-se em minha mão e pulso.
—Sabe que não pode mentir para mim. Não tem como. – Ela soltou algo como uma risada e se aproximou de mim, sentando em meu lado no sofá de minha casa. – Quer conversar?
—Não sei... – Olhei para ela, mas logo desviei. – Só... Desde pequena, quando soube e entendi que meu pai não voltaria, eu soube que ações geram reações... E essas reações podem gerar algo muito ruim, como no caso do meu pai... Da minha mãe e meu. – Suspirei, fechando os olhos por um momento, abrindo-os enquanto passava a mão na cabeça. — Cada ação possui consequências que não conseguimos reparar, as vezes, nem perceber... Eu cresci a partir disto: querer voltar atrás em uma ação.
—Você acha que teve algum tipo de culpa no que ocorreu, Neve? – Senti seu toque em meu braço... Passando um certo tipo de calor confortável para mim. Fechei os olhos e abaixei a cabeça: eu me culpava em partes com o ocorrido.
—Se meu pai não tivesse esperado quando eu pedi... Se ele tivesse ido embora logo quando avisou... Ele ainda estaria vivo, Eco. – Olhei para minha amiga. — Aquela ação não gerou nenhum tipo de reação minha! Não que reparasse pelo menos um pouco do vazio que surgiu em mim... O vazio que preencheu-me por tanto tempo e ainda preenche. Aquele vazio que apenas a morte trás, Eco.
Ela não falou mais nada, apenas me abraçou e suspirei, deixando-me ser acolhida por ela.
—Sabe que você não teve culpa...Talvez teria sido muito pior e mais doloroso do que foi se não estivesse em casa, com você e sua mãe. – Fechei os olhos, sentindo sua respiração bater ao lado do meu rosto. – Pax fez algo que muitos dos nossos julgaram horrendo, mas ele se manteve no poder por causa do apoio do conselho... Que também não gostavam do seu pai, você sabe disso. O povo, por mais que não gostasse de Pax tanto assim, ainda o viam como alguém experiente e forte, então o deixaram lá, mas hoje Neve... Hoje! – Ela segurou meu rosto e me virou para encara-la... Os olhos de Eco sempre foram incrivelmente azuis, um azul tão claro que parecia brilhar, como senão tivesse um fundo e você estivesse prestes a ser mergulhada em tudo aquilo. – Hoje você vai tira-lo do poder. Nosso povo votou em você, você tem a chance de mudar tudo, Neve! – Ela sorriu mais e me abraçou forte. Retribui, sentindo o antigo cheio dela que sempre me acalmava. – Você tem a chance de se vingar do homem que matou o seu pai.
Eu sabia disso, sabia que hoje era um dia importante para todos. Voltei a encarar minhas mãos, lembrando das palavras que Eco me disse mais cedo: “Todos esperam por você. Nosso povo nunca aceitou o que ele fez, queríamos o seu pai. Agora escolhemos você.”
Engoli em seco.
—Que horas são? – Perguntei, olhando para o lado.
—Hora de ir. – Falou com a voz calma, tentando me passar tranquilidade.
Assenti, umedecendo os lábios impaciente. Me levantei e caminhei para a porta sendo seguida por ela, porém a dispensei, mandando ir na frente que a alcançaria depois que fizesse algo, Eco insistiu, mas acabou por ir quando não permiti mais falas.
Subi os degraus da casa que levavam aos quartos e entrei no de minha mãe, indo diretamente para a gaveta que eu já vasculhei inúmeras vezes escondida de minha mãe. Peguei a carta no fundo da gaveta, abrindo-a apenas para ler mais uma vez:
“Eu escrevi está carta por um motivo: explicações. Sei que se você encontrar, querida, eu provavelmente não estarei mais aqui, mas ainda sim eu quero lhe escrever coisas que agora não lhe posso contar, que não pude contar quando era mais nova. Fiz sua mãe prometer que só lhe mostraria essa carta quando fosse um pouco mais velha, espero que ela tenha feito isso...
Quero que saiba que eu te amo muito, você e sua mãe são o que eu tenho de mais importante na vida e tudo que eu faço é por vocês, por nós, por nosso povo e o que vai acontecer não é diferente. Se você for mais velha quando ler esta carta, vai saber o que é o Ritual de Ascensão e a seleção dos que poderão concorrer ao comando do nosso povo... Sabendo disso, você sabe também o quão é perigoso e espero que nunca tenha que passar por isso. Nós somos vampiros, somos irmãos, cada um de nosso povo carrega nosso sangue, somos semelhantes! Matar um irmão é... Ruim. Realmente espero que não passe por isso como eu estou passando, mas se um dia tiver que fazer isso, lembre-se de tomar muito cuidado. Tome muito cuidado, Nevena! Mesmo. Não somos seres incapazes, muito pelo contrário, somos iguais, mas as habilidades variam de acordo com o vampiro e você pode dar o azar de lutar com um mais forte que você. Espero que isso nunca ocorra com você minha filha.
Eu sei que deve estar me odiando... Já que se receber estar mais aqui por algum motivo, mas que provavelmente será a perca da batalha entre os da seleção cujo estarei, mas filha, quero que sabia que eu não me arrependo e faria tudo outra vez, talvez quisesse fazer melhor, mas se o destino está traçado que seja. Tudo que eu fiz, foi pensado e muito bem orquestrado, espero realmente que não tenha dado errado e que eu consiga ascender para o comando sem complicações graves, já que eu tenho a maioria dos votos de nosso povo, não acho que irá ser por falta de apoio e desejo de todos.
Um dia você entenderá o que é isso... Sentir que pode fazer muito mais do que imaginam, sentir que pode ir além, que pode ultrapassar limites. Sentir que você pode ser melhor para você e para os que estão ao seu redor, sentir e depois tornar isso realidade... Eu quero isso para você, minha filha: quero que realize os seus sonhos e que seja o melhor para você mesma e para os que estão ao seu redor.
Eu espero que seja feliz, assim como eu fui, mesmo com os erros.
Eu te amo.
Ass, papai”
Uma lágrima pingou na carta... Depois outra e outra. A dobrei novamente e coloquei onde estava, arrumando tudo enquanto pensava. Meu povo escolheu a mim por causa de meu pai, por seu sangue correr em minhas veias, e eu escolhi este destino por ele, para vingar sua morte e trazer a sua alma, paz. Para fazer o que ele sempre me disse: trazer o que este povo merece.
Fechei a gaveta e cerrei os punhos segurando no puxador, olhando fixamente para a madeira do armário.
Por mais que o sentimento de vingança reinasse em mim por anos e ainda não se cessou, eu não almejava este posto, nunca almejei, pois vi meu pai dando tudo de si para conseguir ser um bom líder para nosso povo. Observei seus esforços, muitos foram recompensados, mas muitos outros também não. Cresci mais perto de minha mãe e dos amigos de papai que me ensinaram tudo que sei, que fizeram aflorar o que sou hoje, o lado que fez todos começarem a se afastar. Por mais que este lado exista, não consegui impedir a morte do meu pai, o ataque a nossa casa que fez minha mãe ficar surda. Mesmo sendo um monstro, não consegui combater o outro monstro que foi a minha casa e destruiu minha família. Muitos culparam-me por anos, falando que eu havia causado aquilo por descontrole, julgaram-me por anos e criaram histórias sobre mim e meus dons, mas nunca ninguém de fato viu.
Hoje eu faria jus a fama. Hoje eu vingarei meu pai e tomarei o que era dele por mérito! Continuarei o que ele quis começar, farei em nome dele e acabaria com o homem que o matou.
Virei-me e caminhei para fora da casa a paços apressados, comecei a correr assim que alcancei o caminho principal e avancei em alta velocidade para o Centro da Vila, sentindo meu corpo formigar pela adrenalina. Parei ao perceber uma aglomeração no Centro, concentrando-se ao redor do ponto principal, impedindo minha chegada.
Respirei fundo, fechando os olhos brevemente, mas tornando-os a abrir logo em seguida.
Hoje, seria o dia mais importante depois da morte de meu pai. Hoje eu me vingaria por sua morte injusta.
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