What's a Soulmate?

3 Capítulo 3 - Essa pessoa seria você


Notas iniciais
Música do capítulo: Can't Help Falling In Love - Elvis Presley.

Os dias passavam rapidamente na ilha. Delphine nem ao menos vira o tempo passar. Isso porque achou que seria demasiadamente infernal viver trancafiada naquele lugar. Mas já estava lá há duas semanas e se sentia extremamente confortável e estranhamente feliz.

Todos os dias Delphine trabalhava incansavelmente ao lado de Cosima, que poderia ser considerada um gênio. Com dezoito anos e sem formação acadêmica, ela era de longe uma das pessoas mais inteligentes que a francesa conhecera e estava lhe ajudando bastante. As duas falavam a mesma língua.

Praticamente todos os dias a francesa atualizava Dr. Leekie a cerca de sua pesquisa, do estado de saúde de Cosima e dos progressos no relacionamento delas. Por alguma razão ainda desconhecida pela loira, Dr. Leekie e a professora Duncan queriam que ela conquistasse a confiança de Cosima.

Sem fazer o menor esforço, a cada dia estava mais próxima da adolescente. A relação delas fluía com uma naturalidade inacreditável. Uma inspirava confiança à outra. Mesmo com pé atrás, com seus medos, a menina de olhos verdes não conseguia não gostar de sua médica e nem manter uma relação restritamente profissional. Era impossível.

A verdade era que a cada dia Cosima se via mais apegada à Dra. Cormier.

“Bon jour, mon cher!” Delphine saudou sua paciente assim que a viu logo pela manhã no laboratório. “Tão cedo trabalhando?”

“Hey... Bon jour!” sorriu como uma criança ao ver a francesa. “Eu não conseguia mais ficar na cama, então...” virou-se de frente para Delphine, recostando-se à mesa metálica.

“Algum problema pra dormir?” uma ligeira preocupação na voz da médica.

Sim, não consigo te tirar da minha cabeça, Cosima pensou, mas obviamente não disse isso.

“Oh, não, não. Não se preocupe, eu estou bem.”

Delphine sorriu com alívio.

“Estava pensando... Estamos trabalhando sem parar essa semana, podíamos tirar um dia de folga. Um dia inteiro sem pensarmos em doença, em cura, em clonagem.” A loira ofereceu subitamente, não sabendo de onde diabos surgiu aquela ideia.

Cosima ergueu as sobrancelhas, surpresa. Ela não esperava por uma oferta daquela.

“Um dia de folga? Está cansada da minha companhia constante, não é?” sorriu nervosamente, ansiando por uma resposta positiva da parte da médica.

“Claro que não, bobinha” Delphine se aproximou, fazendo a adolescente congelar onde estava. “Eu pensei que podíamos passar o dia juntas, para variar um pouco” riu brevemente e Cosima sorriu “Só que fazendo outras coisas.”

“Outras coisas?” Cosima estava um pouco lenta naquela manhã.

“Ouvir as bandas que você gosta, dançar, ir à praia, jogar vídeo game... O que você quiser.” Não estava nos planos de Delphine fazer aquela oferta, mas o desejo súbito que se abateu na francesa era exatamente aquele; passar o dia ao lado da adolescente fazendo coisas aleatórias.

Cosima moveu ligeiramente a boca para cima. Ela encarava sua médica como se não acreditasse no que ela dizia e se perguntava como alguém poderia ser tão absurdamente linda.

“Hm? O que me diz?” Delphine ansiava pela resposta.

“Ahn, ok! Okay! É, vamos fazer isso!” mesmo nervosa, a adolescente estava animada. “Mas... hm... O que faremos primeiro?”

“Não sei. O que você gosta de fazer geralmente?” Delphine parecia realmente interessada em Cosima e não por obrigação, o que fazia a menina se sentir especial.

“O que você disse... Ouvir música, dançar, jogar... Ir à praia... Ow!” a francesa ergueu as sobrancelhas “Ia quase me esquecendo da cachoeira. Susan chegou a mencioná-la pra você?”

“Não. Há uma cachoeira na ilha?”

“Sim! E cá entre nós, ela é a melhor coisa do universo. Sempre que eu penso em sair dessa ilha eu penso na cachoeira e fico resistente com a ideia de ir embora” segredou em tom mais baixo, inclinada na direção da médica.

“Você pensa frequentemente em sair daqui?” sondou a francesa num misto de curiosidade pessoal e de interesse profissional.

“Se eu dissesse que não, estaria mentindo. Mesmo que você reporte isso aos seus superiores, eu tenho que admitir que sim, eu penso nisso.”

Delphine engoliu em seco. Cosima era demasiadamente esperta para sua idade.

“Passar informações... essas coisas fazem parte do meu trabalho” à francesa explicou num murmuro, justificando-se num tom de lamentação.

“Eu sei, eu sei. Tudo bem...” estavam próximas demais, quase não havia espaço pessoal. “Só espero que você não comente com ninguém, muito menos com minha mãe que eu disse que você era linda” brincou, querendo tocar naquele assunto para ver a reação da loira.

“Oh, no, no. Isso, no.” Delphine soltou uma gargalhada nervosa e mordeu o lábio inferior em seguida. “Nem tudo precisa ser compartilhado com eles. Há coisas que são apenas entre nós...” sussurrou, seu sotaque francês causando arrepios na adolescente.

Cosima sentiu a boca salivar de vontade. Uma vontade louca de beijar sua médica, mesmo não fazendo ideia de como beijar alguém.

“Apenas entre nós?” repetiu as palavras, suas mãos apoiadas na mesa, dando apoio ao seu corpo que estava trêmulo. Delphine avançou em sua direção e colocou as mãos na mesa também, cercando-a.

“Sim...” sussurrou, quase colando seus lábios nos de Cosima, tendo total consciência do que estava fazendo. “Só entre nós” falou querendo provoca-la, olhando dentro dos olhos verdes com desejo e em seguida afastando-se depressa como se nada tivesse ocorrido. “Vou espera-la na sala com sua lista de atividades para o nosso dia de folga.”

O que diabos foi isso? Cosima estava perplexa.

***

Ainda se recuperando do incidente no laboratório, uma Cosima insegura e ansiosa apareceu literalmente com uma lista em mãos do que ela e Delphine poderiam fazer ao longo do dia. Primeiro elas tomaram um farto café na companhia das empregadas e Delphine ficou a admirar a doçura de Cosima, que encantava e ao mesmo tempo fazia todos rirem. Até mesmo Paul chegou a rir de uma de suas piadas, do canto onde o segurança estava.

Depois do café da manhã, elas foram assistir desenho animado. Pareciam duas crianças sentadas no sofá de pernas de índio com os olhos fixados na televisão. Martha passava pelo corredor quando ouviu a risada das duas e sorrateiramente se aproximou da porta para observá-las. Ficou maravilhada e ao mesmo tempo intrigada com o que viu. As duas pareciam muito próximas. Próximas demais. Mas era bom ver sua menina alegre como nunca antes.

Mesmo com as gargalhadas diante dos desenhos, o clima tenso do laboratório ainda pairava sobre elas, mesmo que agora mais sutil. Estava ficando difícil para as duas controlarem a atração irresistível que estavam sentindo.

***

“Mon dieu! Bem que você disse que esse lugar era lindo!” Delphine estava totalmente fascinada pela beleza ímpar da cachoeira.

Depois do almoço, à tarde, Cosima resolveu leva-la até lá. Paul veio junto de penetra, porque era como uma sombra da adolescente, mas ele ficou de longe, longe o suficiente para não ouvi-las conversarem.

“Meu pequeno paraíso particular” a adolescente falou com orgulho, sorrindo.

A francesa se aproximou da beira da cachoeira e ao olhar para a água, viu seu reflexo e o de Cosima. A água era tão transparente que dava para ver as pedras no fundo.

“Merci...” Delphine olhava para o reflexo de Cosima, que a olhava de volta. Então elas se viraram para se encarar. “Obrigada por compartilhá-lo comigo.”

Cosima sorriu. Delphine notava que ela costumava sorrir para todo mundo, sempre contagiada de um entusiasmo invejável, mas os sorrisos que Cosima davam para Delphine eram únicos, ainda mais luminosos.

“Wise men say

Only fools rush in

But I can't help

Falling in love with you”

“Eu não compartilharia com mais ninguém” segredou a nerd de olhos verdes.

Delphine sabia que ela estava dizendo a verdade. Cosima era sincera, transparente. Podia ver em seus olhos isso.

“Mas e então? Não vamos nadar?” Cosima tirou seus óculos, o cardigan que usava e dobrou o mesmo, colocando-o sobre uma pedra e o óculos em cima.

“Mas nós nem trouxemos roupa de banho e está meio frio...” hesitou a francesa.

“Que nada! A cachoeira não é tão gelada como o mar. E você se acostuma rápido!”

Quando Delphine se deu conta, Cosima estava apenas usando suas peças íntimas. Era a segunda vez em menos de um mês que a havia seminua e isso não facilitava em nada a vida da francesa, que sentia um calor súbito centrando-se entre suas pernas.

“Vamos lá, cara. Vai ser incrível!”

Mesmo com receio, Delphine sabia que não havia jeito. Ela teria de entrar naquela cachoeira com Cosima, então tirou suas roupas rapidamente, ficando com uma calcinha estilo shortinho e um top cinza. Delphine sentiu o olhar de Cosima em seu corpo e a tensão entre elas voltou ainda mais forte que antes.

“No três?” ofereceu Cosima, posicionando-se na beira do rio.

“Okay!”

Cosima contou e no três elas pularam juntas. Ambas emergiram ao mesmo tempo. Delphine estava com os cabelos molhados e a água parecia brilhar em sua pele nevada. Cosima a olhava com encantamento.

“Que água maravilhosa, mon dieu. Estou maravilhada!” disse com o sotaque carregado, sorrindo como uma criança.

“Você é tão fofa...” Cosima deixou escapar o comentário, encarando os olhos âmbar.

“Não tanto quanto você” a médica rebateu.

Ficaram se olhando fixamente e nenhuma das duas fizeram nada, intimidadas pela presença inconveniente de Paul, que mesmo há metros de distância poderia vê-las.

Cosima olhou na direção do segurança e revirou os olhos, impaciente e nervosa. Então lembrou-se de algo e sorriu.

“Vem comigo?!” estendeu sua mão para a loira, que sentiu o coração vibrando dentro do peito, quase alcançando sua boca.

Ela poderia recusar, poderia sair dali e tentar evitar o inevitável, mas não o fez.

“Oui.”

Segurou na mão da morena, que a puxou mais adentro da cachoeira e então Cosima mergulhou e Delphine fez o mesmo, nadando de olhos abertos naquelas lindas águas cristalinas, seguindo a morena por um caminho desconhecido. Nadaram por alguns minutos, trocando olhares e sorrisos embaixo d’água até que emergiram novamente e Delphine se impressionou ao ver que estavam no lugar diferente, mais distante.

“Aqui o Paul não pode nos vigiar” sussurrou Cosima antes de segurar no quadril de Delphine e encostá-la contra a margem, sem conseguir mais conter-se.

“Cosima...” a francesa estremeceu com o toque dela. Apesar de delicadas e pequenas, suas mãos eram firmes. “Você já beijou antes?”

A morena sorriu timidamente, corando. Era óbvio que não.

Delphine segurou o rosto molhado e delicado entre suas mãos. Sem óculos e maquiagem, Cosima parecia ainda mais frágil e delicada. Completamente linda.

“Tem certeza que quer fazer isso comigo?”

“Oh cara, eu vivo trancada em uma ilha desde criança, longe do mundo, das pessoas... E eu tenho uma doença grave que provavelmente vai me matar. Eu não quero morrer sem beijar...” falou com humor, fazendo Delphine rir brevemente, encostando suas testas em seguida.

“Você poderia beijar outra pessoa, talvez o Paul...” sondou a médica, sentindo ciúme da ideia súbita que passou em sua cabeça de que talvez a menina tivesse um crush no segurança.

“O Paul?” Cosima gargalhou tão gostoso que Delphine não resistiu, puxando o rosto dela e selando seus lábios por um instante.

Cosima perdeu totalmente o raciocínio. Demorou alguns instantes até abrir os olhos e encarar Delphine, que parecia assustada com sua própria coragem.

“Okay... Isso foi bom...” sorriu, exibindo dentes brancos. Soltou a cintura e levou as mãos para o rosto de sua médica também. Mesmo mais velha, Cosima percebia a insegurança da loira, que provavelmente tinha medo daquela situação por estar em uma posição delicada em que era sua médica e monitora. “Se eu pudesse escolher quem eu gostaria de beijar antes de morrer, essa pessoa seria você” sussurrou em resposta que a médica fizera sobre Paul.

“Shall I stay?

Would it be a sin

If I can't help

Falling in love with you?”

Ao ouvir aquela declaração, Delphine mandou pelos ares os últimos resquícios de auto controle e se entregou ao que estava sentindo, ao calor que emanava não só do seu baixo ventre, mas sobretudo de seu coração. Puxou Cosima pelo rosto e mais uma vez colou seus lábios aos dela, agora de boca aberta, a fim de beijá-la profundamente. Cosima correspondeu, deslizando seus dedos pelos braços úmidos da francesa, deixando que Delphine enfiasse a língua ávida em sua boca. Devagarinho foram se beijando, Cosima descobrindo pela primeira vez o que era beijar e Delphine descobrindo pela primeira vez o que era beijar uma mulher, beijar alguém totalmente diferente.

As línguas se enroscavam com sincronia. O beijo apesar de lento era demasiadamente intenso, causando arrepios em ambas, que se tocavam no rosto e nos braços com suavidade. Delphine inverteu as posições, pressionando Cosima contra a borda, colando seus corpos molhados, sentindo seus seios e barrigas se unirem. Cosima agarrou os cabelos úmidos da loira e mordeu devagarinho seu lábio inferior.

Delphine passou a língua pelos seus próprios lábios quando o beijo se desfez. Sentia-se completamente viciada nos lábios de Cosima.

“Seu beijo é maravilhoso” sussurrou a francesa, ainda segurando o rosto da adolescente.

Cosima sorriu com timidez e abraçou a mais alta, escondendo seu rosto no ombro dela. Foi um gesto inesperado para a francesa. O abraço era apertado, com certo desespero. Delphine podia sentir. Como se Cosima estivesse com medo, como se precisasse daquele reconforto.

“Like a river flows

Surely to the sea

Darling, so it goes

Some things are meant to be.”

“Mon petit...” a francesa sussurrou, fechando os olhos com força enquanto a abraçava. “Vamos voltar antes que Paul dê por nossa falta.”

***

Quando retornaram a mansão, Cosima correu para seu quarto. Paul as observou o caminho inteiro. Elas retornaram silenciosas, mas trocavam olhares e sorrisos, como se conversassem através deles numa linguagem inacessível ao segurança, que desconfiava da francesa e suas intenções.

“Aonde vocês foram quando desapareceram?” perguntou incisivo à francesa, que estava tão aérea que nem o ouviu direito.

“O que disse?”

Paul forçou um sorriso.

“Quero saber aonde foram quando sumiram.”

“Nós estávamos nadando e quando vimos, estávamos longe” disse simplesmente, dando de ombros.

“Acha que eu sou algum tolo?” Delphine ergueu as sobrancelhas e o encarou.

“Não faço ideia do que está falando, Paul.”

A francesa caminhou em direção à varanda para sair da sala, mas ele foi mais rápido que ela e a segurou pelo braço, com força.

“Cosima é só uma menina, mas eu não sou idiota. Conheço muito bem pessoas do seu tipo, Dra. Cormier. É melhor tomar cuidado com seus próximos passos. Eu estou de olho em você.”

Cosima, que estava descendo às escadas, chegou à sala bem a tempo de presenciar a cena esquisita, e mesmo não entendendo do que se tratava, ela interveio:

“Paul, solte-a agora!” gritou, surpreendendo os dois.

Delphine ficou sem reação. Paul ainda demorou alguns instantes para soltá-la, alternando o olhar entre as duas.

“O que está acontecendo?” Cosima quis saber, aproximando-se deles.

“Nada” disse ele “Eu só me excedi. Sinto muito.”

O segurança se afastou e sumiu da vista delas. Cosima foi para perto de Delphine, tocando-a delicadamente nos braços, percebendo o abalo dela.

“O que aconteceu, Delphine?” perguntou mais com preocupação do que qualquer outra coisa.

“Paul queria saber aonde nós fomos quando sumimos na cachoeira, e eu não quis dizer, então ele ficou nervoso e aconteceu o que você viu” falou a verdade.

Cosima soltou à francesa e suspirou.

“Paul é meu segurança desde que eu era criança. Mesmo com esse jeito estranho dele, Paul se importa comigo. Acho que ele tem medo das suas intenções comigo” apesar do tom brincalhão no final, Cosima falava sério.

“Minhas intenções são as melhores” entrou no clima da brincadeira, puxando Cosima pelo casaco e a abraçando em seguida.

“Delphine!” Cosima disse envergonhada ao ter o pescoço beijado, sentindo um arrepio. “E se alguém nos ver?”

“Você não é mais uma criança, certo? Já pode namorar...” murmurou perto do ouvido dela, causando mais uma onda de arrepios na mais nova, que riu, tremendo nos braços de Delphine.

“Está brincando comigo, Dra. Cormier?” questionou, apoiando as mãos no toráx da loira, selando-lhe os lábios lentamente.

“A última coisa que estou fazendo com você é isso, Cosima” disse com sinceridade, beijando-a na boca em cheio por alguns minutos. “Estou tão confusa e surpresa com tudo isso quanto você, mon cher.”

“E o que nós faremos?” a adolescente parecia preocupada, até mais do que a própria médica.

“Vamos nos preocupar menos, pensar menos e...” Delphine olhou para os lados, certificando-se de que não havia ninguém e voltou a beijar Cosima. “Beijar mais...” sussurrou contra os lábios dela, fazendo a garota rir.

Delphine sabia que nada seria simples naquela relação que ela e Cosima estavam estabelecendo. Era totalmente improvável que desse certo. Cosima era um clone vivendo em uma ilha deserta e paciente de Delphine. A probabilidade de tudo aquilo dar errado era tremenda. E Delphine ainda corria o risco de perder o emprego e sua grande chance na neoevolução, mas naquele momento tudo parecia insignificante perto da alegria que sentia ao ter Cosima nos braços.