What's a Soulmate?
1 Capítulo 1 - A Nova Médica
Notas iniciais
Delphine ainda estava avaliando a proposta que recebera a uma semana do Dr. Leekie. Ponderava sua decisão por algumas razões, como saber o quão interessante e enriquecedora poderia ser a experiência de dedicar-se a cuidar exclusivamente de um único paciente, que no caso era um clone; ao mesmo tempo em que pensava que não era uma atitude ética monitorar outro ser humano que estava privado do seu livre arbítrio. Também sabia que independente de tais questões, o problema em dizer não àquela proposta seria a decepção do Dr. Leekie, que muito provavelmente não ofereceria por uma segunda vez uma proposta grandiosa como aquela.
Entre a cruz e a espada, a francesa estava perdendo suas noites de sono. Andava de um lado para o outro em seu pequeno apartamento, tomava xícaras generosas de café e entre uma leitura e outra de artigos científicos relacionados à Neolution, ela voltava a pensar na proposta. Tentando avaliar todos os lados da situação para chegar a uma decisão da qual não fosse se arrepender, Delphine escreveu no papel tudo o que sabia a respeito de seu possível futuro trabalho.
O que sabia era que teria de usar de seus conhecimentos médicos para supervisionar uma paciente doente que pertencia a um projeto de clonagem. A paciente chamava-se Cosima, tinha dezoito anos e uma doença crônica devido ao vírus congenital do Projeto LEDA, ao qual pertencia.
Se aceitasse a proposta, Delphine tinha como principal função ajudar a mãe de criação de Cosima, Susan Duncan, a encontrar a cura da doença. Além disso, teria de conviver diariamente com Cosima, monitorando-a. Não eram certamente tarefas fáceis, ainda mais porque Leekie havia dito que a clone em questão fora criada afastada do mundo, presa em uma ilha na qual Delphine também teria que ficar durante o tempo que aquele trabalho durasse. Mesmo com todos os prós e contras, a proposta ainda parecia tentadoramente irrecusável.
Delphine não tinha nada a perder. Sua família estava na França, não tinha namorado ou raízes onde estava. Na verdade o que a levou ao Canadá fora justamente Dr. Leekie e o Institudo Dyad. Não faria muito sentido recusar o pedido, então decidiu aceitá-lo.
***
Cosima fora criada pelos professores Susan e Ethan Duncan, seus pais adotivos e também cientistas envolvidos no projeto LEDA, de onde Cosima saiu. Apesar de privada de liberdade, passando sua vida trancada em uma ilha, sendo monitorada 24 horas, Cosima sabia a verdade sobre sua origem e tinha uma vida confortável.
Claro que ela sentia vontade de conhecer o mundo, de poder ter uma vida normal como qualquer outra pessoa, mas sabia que seria impossível. Ainda que um dia conseguisse escapar da Ilha, para aonde Cosima iria? Sabia que onde quer que fosse, seria encontrada.
"Tenho uma novidade para você, querida" Susan disse em seu tom mais animador com um sorriso instruído para Cosima.
"Hm?" a adolescente não parecia muito curiosa, os olhos por de trás das lentes de aro preto estavam fixados no jogo de tabuleiro a sua frente.
"Seu pai e o Dr. Leekie arranjaram uma médica bastante competente para trabalhar com você a sua cura."
Cosima olhou para a mãe com o cenho franzido.
"Trabalhar comigo?" deu um sorriso irônico. "Por que não diz a verdade? Que arranjaram uma pessoa nova para me monitorar?"
"Você não precisa ser monitorada, Cosima" a voz da mãe era de cansaço, pois já havia repetido aquilo milhares de vezes. "Se fosse monitoria, não seria necessário, já que você está sob meus cuidados desde que nasceu."
"Mas você está ocupada demais buscando aperfeiçoar a espécie humana, e por isso precisa de outra pessoa para ficar de olho em mim nessa ilha" o sarcasmo, o jeito pretensioso e espertalhão de Cosima sempre chamaram atenção de Susan. A garota era totalmente diferente dos outros clones que conhecera.
Susan suspirou, olhando para a filha que tinha um semblante triste. Sabia que Cosima tinha razão no que estava dizendo, mas não era algo tão horrível quanto ela fazia parecer.
"Cosima..." chamou carinhosamente. "Você é minha filha e eu a amo"
A morena que apoiava a cabeça sobre a mão olhou nos olhos da mulher mais velha, buscando confirmação. Susan não estava mentindo.
"Eu sei, mas não é nada legal viver trancafiada em uma ilha distante do resto do mundo..." murmurou a garota de dreads.
Susan agarrou a mão dela sobre a mesa de mármore.
"Oh, querida, eu sei. Mas precisa entender que isso é para o seu bem. Estamos vivendo tempos turbulentos e lá fora está perigoso. As outras... " Susan sempre ficava desconfortável em dizer a palavra clone perto de Cosima, mesmo que a adolescente dissesse não se importar. "Suas irmãs estão sendo caçadas e algumas delas estão doentes como você. O importante neste momento é encontrarmos a cura e é isso que eu e seu pai estamos tentando fazer. É por isso que amanhã a nova médica chegará à Ilha. Para nos ajudar."
Cosima deu um pequeno sorriso e balançou a cabeça para cima e para baixo.
"Ok. Vamos tentar achar essa cura, então. Não estou muito afim de morrer tussindo meus pulmões" brincou, demonstrando seu humor negro e esquisito que fazia Susan arregalar os olhos azuis.
"Que coisa horrível de se dizer, Cosima."
***
Em Toronto, no Canadá, Delphine não conseguia dormir. A francesa só conseguia pensar que pela manhã estaria embarcando em um helicóptero que a levaria para uma Ilha misteriosa onde passaria seus próximos doze meses monitorando uma adolescente e tentando encontrar uma cura para uma doença de clones. Isso lhe impressionava e ao mesmo tempo causava medo.
Em algum canto do mundo, em uma Ilha, Cosima observava pela janela de seu quarto a linda praia e a lua cheia. A "mini cientista", como Susan gostava de chamá-la, amava astronomia e todos os seus mistérios. Cosima passava horas observando o céu pelo seu telescópio.
Sentada em sua cama, ela olhava para o céu estrelado e imaginava como seria a médica que sua mãe dissera. Seria uma velha chata? Alguém insuportável de se conviver? E mais que isso, seria capaz de conseguir encontrar uma cura para a doença que estava lhe matando aos poucos?
***
Cosima, Susan e Paul Dierden (o segurança), ficaram na grande sala da mansão esperando pela Dra. Cormier, que acabava de desembarcar na ilha. Em poucos minutos a médica francesa chegou escoltada por dois seguranças.
"Dra. Cormier, é um prazer conhecê-la" Susan estendeu a mão à francesa, que sorriu e apertou-a prontamente. "Espero que tenha feito uma boa viagem até aqui."
Cosima, que estava um pouco mais longe, meio que escondida atrás de uma pilastra ficou observando a cena, olhando para a médica de cima a baixo. Não era nenhuma velha, só tinha um pouco mais de idade que Cosima.
"Plaisir Et mon" respondeu em francês, e embora Cosima não soubesse nada de francês, achou a voz da loira uma verdadeira obra prima. "Foi uma viagem tranquila e a paisagem é merveilleux!" falou com empolgação demais e corou. "Maravilhosa, eu quis dizer."
"Eu entendo francês, querida. Só Cosima que não. Acredito que terá que ensiná-la um pouquinho para se comunicarem bem e por falar nela..." Susan olhou na direção de sua pequena cria de dreads e óculos e Delphine acompanhou o olhar. "Venha aqui cumprimentar sua médica, Cosima."
Cosima saiu hesitante de trás da pilastra e Delphine pode vê-la completamente. Era uma garota baixa, magra e com um estilo bem diferente, cheio de informação. Delphine reparou no cabelo maluco, na maquiagem dos olhos, nas roupas e adereços e logo seu olhar se encontrou com o olhar de Cosima, que caminhava em sua direção.
"Cosima, essa é a Dra. Cormier que vai cuidar de você pelos próximos doze meses enquanto eu estiver fora e vai ajudar no seu tratamento."
Cosima não conseguia desviar sua atenção, estava presa naqueles dóceis olhos âmbar que lhe encaravam de volta.
"Hey, oi..." Cosima estava evidentemente desajeitada, o que não era uma novidade para a mãe. Ela não era boa em relacionamento interpessoal, devia ser por causa da criação restrita à Ilha. "Cosima Duncan."
"Delphine Cormier" a mulher de sotaque francês estendeu a mão para a adolescente, querendo estabelecer já de início uma relação. Lembrava-se das instruções do Dr. Leekie. (Conquiste a confiança de Cosima. Ela é extremamente inteligente e será muito útil.) "Enchanté!"
Cosima deduziu que aquela palavra significava "encantada", e fez questão de repetir:
"Enchanté!"
Delphine não conseguia desviar a atenção do rosto da garota. Já havia visto fotos dos outros clones, mas Cosima era nitidamente diferente ainda que fosse idêntica às outras.
As duas teriam ficado se encarando por um tempo infindável se Susan não interferisse.
"Este é Paul Dierden, o segurança particular de Cosima e nosso homem de confiança" Susan apresentou o homem alto que até então não havia sido sequer notado pela francesa.
Paul apenas acenou com a cabeça e permaneceu onde estava. Delphine acenou de volta.
"Vou lhe mostrar rapidamente a casa e suas instalações. Depois você terá tempo de conhecer o resto na companhia de Cosima."
Delphine não questionaria as ordens. Ela simplesmente seguiu Susan por toda a enorme mansão, impressionada não apenas com o tamanho, mas com o luxo e a decoração. Fizeram um rápido tour até chegar em seu novo quarto. Era espaçoso e bastante confortável, totalmente neutro, podendo ser adaptado com facilidade ao gosto de quem quer que fosse usufruí-lo.
"Espero que se adapte à Ilha. Sei que em nada se parece com a vida na cidade grande, mas é um bom lugar para se viver e há muitas coisas que você pode fazer aqui com Cosima nas horas vagas. Estamos cercadadas por uma natureza lindíssima."
"Pude perceber isso assim que cheguei." falou com simpatia, pondo sua mala sobre a cama espaçosa. "Espero poder ajudar Cosima."
Susan olhou para ela durante alguns instantes, estudando-lhe e então fechou a porta do quarto e se aproximou.
"Cosima é uma garota muito especial, Delphine. Mesmo sendo uma clone. Eu a criei como se fosse minha filha e prezo muito pelo seu bem estar e felicidade, mesmo que ela não acredite nisso." havia um pouco de tristeza em seu rosto. Delphine prestava atenção em cada palavra. "É por isso que você está aqui. Dr. Leekie nos garantiu que você era a escolha perfeita para o cargo. Inteligente, doce, de confiança, capaz de conquistar a confiança da Cosima e mantê-la saudável pelos próximos doze meses."
"Eu não vou decepcioná-la, Dra. Duncan." a francesa disse com firmeza, entendendo a responsabilidade que tinha em mãos.
Susan sorriu genuinamente, pois sabia que Delphine estava dizendo a verdade.
"Assim espero."
***
Depois de já estar devidamente instalada, Delphine foi até o laboratório na companhia de Susan e Cosima, mas ao contrário do que esperava, foi Cosima que lhe apresentou toda a pesquisa que elas já tinham para encontrar a cura de sua doença. Cosima explicou cada parte, mostrando ter um conhecimento enorme e assustador para sua idade. Era genial.
Cosima entendia completamente o conceito de Neolution e parecia não ter dificuldade em lidar com o fato de ser um clone. Tinha menos dificuldade do que Delphine.
A médica francesa não conseguia esconder sua surpresa.
"Como aprendeu tudo isso?" questionou com curiosidade. "Quero dizer, você vive aqui desde sempre..."
"Cosima é uma garota muito inteligente" a mãe se intrometeu.
"Eu posso falar por mim mesma, mom" Cosima a cortou com um sorriso forçado. "Nós temos acesso à internet, a tecnologia de última geração e muitos livros. E como você pode supor, não há muitas coisas a se fazer em uma Ilha deserta além de brincar de Tarzan, então..."
Delphine riu. Tentou não rir, mas foi em vão. A gargalhada lhe escapou e veio com tudo. Como Cosima era engraçada. De um jeito bem estranho, mas engraçada.
Mãe e filha trocaram um olhar de questionamento em relação aquele riso. Cosima não entendeu bem do que a loira ria, mas achou aquele som tão divino.
"Excusez-moi, mas você é engraçada, Cosima." disse de maneira simpática.
"E a Dra. é gentil por usar uma palavra amenua. Se fosse outra pessoa, me chamaria de aberração." E apesar do tom de brincadeira, Delphine notou a mudança nas feições de Cosima. Havia tristeza em seu rosto.
"Ser diferente não significa ser uma aberração" Delphine respondeu depressa, encarando profundamente os olhos esverdeados da garota.
"Delphine tem toda razão, Cosima." Susan concordou, tocando os ombros da filha por de trás dela. "Agora vamos almoçar."
Cosima ficou pensando nas palavras da loira. Provavelmente só estava tentando ser gentil para conquistar sua confiança, para facilitar a relação obrigatória que teriam de ter ao longo de um ano. Mesmo assim, a francesa pareceu sincera. E as palavras dela tocaram Cosima.
***
O almoço foi agradável e mais leve do que o de costume, mesmo Susan instindo em manter o assunto focado na doença de Cosima. Às vezes a adolescente conseguia desviar a conversa, perguntando à Dra. Cormie coisas relacionadas a vida além da Ilha. Delphine dava respostas curtas e impessoias, não sabendo bem como se comportar com a adolescente, especialmente na frente de sua mãe.
"Que tal aproveitar o fim de semana de folga e fazer algo diferente com Delphine?" sugeriu a mãe para Cosima na frente da médica. "Segunda-feira vocês retornam à rotina exaustiva de pesquisas."
Cosima e Delphine trocaram um olhar.
"Não sei... A Dra. gostaria de fazer alguma coisa comigo?" perguntou com insegurança, mordendo o lábio inferior.
"Claro que sim. O que quiser." esboçou um sorriso discreto, pois estava sendo observada por Susan.
"Podemos ir à praia. Sem dúvida alguma é uma das melhores coisas dessa Ilha."
"Leve-me para conhecê-la."
E foi o que Cosima fez assim que elas se livraram dos sapatos e saíram da mansão sozinhas. Caminharam silenciosamente até a praia, que ficava há poucos metros da mansão. Era uma praia lindíssima, de areia branca e água cristalina. Uma praia deserta particular. Um privilégio que Cosima teve durante toda a vida.
"Deve ter sido incrível crescer aqui, apesar de tudo. Um privilégio viver envolta por toda essa natureza..." Delphine comentou enquanto caminhavam em direção a água calma.
"É verdade. Caramba, eu não costumo pensar muito nisso... " a adolescente coçou a nuca por baixo dos dreads presos em rabo de cavalo "Mas você tem razão. Tem gente que na minha idade nunca nem viu uma praia de perto."
Elas se olharam e sorriram. Delphine se impressionava em como Cosima poderia ser uma adolescente inteligente, saudável psicologicamente e não uma revoltada cheia de problemas.
Sentaram-se à beira bar.
"De que lugar da França você é?" questionou Cosima.
"Lille. Bem ao lado da fronteira com a Bélgica. Muitos dizem que o pessoal de lá é mais bélgico que francês" contou, olhando para o mar, resgatando algumas memórias.
Cosima a olhava com curiosidade e também impressionada com a beleza daquela mulher. Delphine era linda! A mulher mais linda que já havia visto, se bem que ela não havia conhecido pessoalmente praticamente nenhuma além da mãe e das eventuais empregadas...
"A França deve ser linda pelo que vi nas fotos. Gostaria de conhecer. Paris especialmente."
"A cidade luz..." Delphine virou o rosto e olhou para Cosima, notando que estavam pela primeira vez bem próximas. A garota cheirava a morangos.
"Você conhece?" o hálito quente e com aroma de chiclete foi em direção ao rosto da francesa, que se sentiu demasiadamente abalada ao senti-lo.
"Paris? Sim! Minhas férias na adolescência costumavam serem todas lá."
"Oh, cara, isso deve ter sido muito legal!" respondeu com empolgação de adolescente, da adolescente que era e fez Delphine sorrir novamente. Um sorriso menos contido que os sorrisos que dera na mansão.
"Quais outros lugares do mundo gostaria de visitar?" a médica quis saber.
Sentadas ali na beira da praia, elas conversaram durante horas a fio. Delphine descobriu não só os lugares que Cosima queria visitar, mas os desenhos, os filmes que ela gostava de assistir, seus filmes prediletos, seus hobbies. Ela era uma garota fácil de conversar, de se conhecer, de se gostar...
Delphine se viu encantada por Cosima. Ela era criativa, engraçada, doce, inteligente. Fazia Delphine rir o tempo todo com seus comentários esquisitos. Delphine riu naquelas horas ao lado de Cosima como não ria há muito tempo.
Cosima também se surpreendeu. Primeiro porque pensou que sua médica seria uma velha chata e rígida, depois porque não pensou que Delphine fosse ser tão simpática e lhe dar ouvidos. Ninguém costumava querer ouvi-la. Ela era invisível naquela ilha, embora todos vivessem lhe cercando para se certificar de que estava viva e não tinha fugido. Como se ela não passasse de um experimento. Mas ali na praia, conversando com Delphine, sentiu-se humana pela primeira vez na vida.
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