What the hell
2 Velório.
Notas iniciais

"Aqueles que amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós".
POV´ Alice Cardoso
— Alice? Já escolheu as roupas? — gritando do corredor — Alice? — chamando-me da porta do quarto dos nossos pais.
Eu continuo em frente ao closet, procurando entre os diversos vestidos, um vestido ao qual, irá vestir minha mãe no seu último adeus. Abro um espaço entre os cabides e pego um vestido longo, com mangas curtas, da cor branco pérola, na parte busto/cintura, ele é estampado com flores, na parte coxa/panturrilha, o vestido não tem estampa, totalmente liso.
— Ela amava tanto esse vestido. — comento, estendendo-o para que Felipe possa vê-lo — Vou escolher este.
— É muito bonito. — Felipe sorrir — Vamos?
— Vamos! — concordo, dobrando o vestido e coloco-o junto com as outras peças em uma caixa.
Ao sair de casa, um carro preto com vidros fumê, me espera, próximo à calçada. Felipe está apoiado no carro, vestido com uma camisa preta, calça jeans e tênis vans preto, para disfarçar o inchaço nas pálpebras, Felipe está usando um Ray Ban escuro.
Entramos no carro, e seguimos trajeto em direção ao cemitério.
Cemitério Bosque das Flores.
— Alice? — Paloma, minha prima do interior, me abraça. — Tia Bete era muito especial. — sorri — Sei que vai ser difícil enfrentar essa fase, mas estou aqui para te ajudar. — olhou-me nos olhos — Meus sentimentos.
Eu apenas balanço a cabeça em forma de gratidão. Meus olhos estão fixos onde jaz dois caixões em cima dos pedestais, meus pais estão com um semblante passivo, em outra ocasião, poderia afirmar que estavam dormindo. Corro meus olhos pela pequena sala onde está acontecendo o velório. O lugar está cheio e eu sinto uma enorme vontade de sorrir – mas não a faço –. Meus pais foram muito queridos, uma vida completamente dedicada a ajudar as pessoas. Felipe era um dos poucos, que não chorava. Sei que ele tentava se manter forte, por mim e por ele mesmo. Entre as pessoas que menos merece sofrer em todo mundo, está Felipe.
Estou sentada em uma das cadeiras da sala, eu mal consigo ficar em pé e não teria coragem de encarar meus pais. Minha vontade é de sacudi-los e ordenar que eles se levantem, isso não são horas para dormir.
Fecho os olhos, e minha memória insiste em fazer uma retrospectiva da minha vida.
Desde criança eu fui muito levada, gostava de tudo que os meninos gostavam. Na rua em que morava, costumavam me chamar de "mulher-macho", eu não me importava. Queria mesmo era brincar e me divertir. Quando menstruei pela primeira vez, fiquei louca, esse dia foi uma comédia (risos). Eu estava tão ocupada nas minhas brincadeiras que não pesquisei coisas do mundo feminino. Mamãe teve que largar o trabalho e vim me atender. Eu liguei para a loja e disse que estava morrendo, estava saindo muito sangue. O desespero tomou conta do meu corpo, cheguei até em fazer uma cartinha de despedida para os amigos – deixando meu moletom do The Beatles para Petrick, meu gloss com gosto de cereja para Perla e o restante das roupas e/ou coisas minha mãe decidiria o que fazer –.
Minha mãe chegou em casa, mas desesperada do que eu estava. Quando ela descobriu o motivo real da confusão, começou a rir e chorar ao mesmo tempo. Depois da sua crise de choros/sorrisos/gargalhadas, ela começou a gritar: — Minha filha virou mocinha!!!. Eu fiquei sem saber o que estava acontecendo, então depois de tomar um banho e colocar um absorvente, minha mãe me explicou como uma mulher deve se comportar e me proibiu de brincar com garotos novamente. Juro que ela tentou por anos, me transformar em uma menina ajeitada e fina. Mas eu sou uma ogra. Isso já está no meu sangue. Felipe bem sabe que eu sou um garoto – um garoto sem pênis –. Eu aceito isso, eu aprendi a gostar do meu jeito.
Alguém toca meu ombro. Abro os olhos, assustada.
Por um momento, esqueço onde estou e perco a noção do tempo. Sinto-me um pouco tonta quando Felipe me levanta, passo a mão por meu rosto e então sou guiada para perto do caixão. O pastor, que irá fazer uma oração em homenagem aos dois falecidos, pergunta se algum parente gostaria de se pronunciar. Todos permanecem calados. Felipe está com os braços ao meu redor, me apoiando. Eu sinto uma imensa vontade de falar. Então me pronuncio:
— Eu!
— Tudo bem Al, não precisa falar se não quiser. — Felipe sussurra ao meu ouvido, para que somente eu escutasse.
— Eu quero. — sussurro para ele. — Eu quero! — digo alto para que todos ouçam.
— Pode começar quando quiser. — o Pastor fala abraçado a uma bíblia.
— Bom... — suspiro — Boa parte de suas vidas praticar a bondade. Meu pai Roger Cardoso, não era uma pessoa santa, mas tinha um bom coração. Nossas brigas eram constantes, eu sempre reclamava, pedia que ele pensasse mais em si mesmo. Afinal, ele não poderia salvar o mundo. Todas as vezes ele me respondia: Pequenininha, eu não vou salvar o mundo. Mas pretendo deixá-lo um pouco digno de ser vivido. — sorri lembrando das suas palavras — Minha mãe Anabet Pires, era a pessoa mais generosa e doce que eu conheci em toda a minha vida. Sua vida foi totalmente dedicada a ajudar quem precisa, onde estivesse alguém precisando de cuidados, lá estava ela. Podemos a considerar uma Madre Teresa do Rio de Janeiro. — risos — Acho que eles fizeram um bom trabalho. — olho para Felipe sorrindo — Agradeço a presença de todos aqui nessa sala. Sei que meus pais eram muito queridos por todos, agradeço cada lágrima derramada, cada sorriso e casa sentimento demonstrado aqui. — lágrimas escapam dos meus olhos esverdeados. — Obrigada!
Todos parentes, amigos e/ou desconhecidos, presentes na sala batem palmas e alguns assobiam. O pastor aguarda que todos se acalmem, o silêncio toma conta do lugar, para que cada um comece uma oração particular. Após trinta minutos de silêncio, o pastor começa a orar o Pai Nosso. Enquanto oramos, tio Felício e tio Hércules, colocam a tampa em cada um dos caixões.
O cortejo com os caixões sai pela porta, as mãos de Felipe permanece em minha cintura, Felipe acompanha meus passos lentos e cansados. Paloma se junta a nós. Nós três seguimos as pessoas que se espremem, na rua estreita, entre as lápides do cemitério. Meus tios e primos são os responsáveis pela condução do caixão, pararam em frente as covas onde seriam enterrados. Uma do lado da outra, como sempre desejaram.
O primeiro caixão é colocado em uma espécie de andaime e desce no buraco feito na grama artificial, escapando do meu campo de visão. O segundo caixão recebe o mesmo procedimento. Há quatro homens lá em baixo. Enquanto um coveiro, passa cimento na borda da gaveta, o outro arrasta a tampa de granito. Os dois coveiros fecham a primeira lápide, batendo diversas vezes com a marreta, para que a tampa fique segura. O outros dois coveiros repetem o ato dos primeiros coveiros. Um soluço esganado escapa da minha garganta, apertando o braço esquerdo de Felipe eu sussurro: — Não deixa esses homens fecharem... Lipe!.. Eles não terão forças para abrir a gaveta... Felipe! Não deixa!
Felipe discretamente me afasta do grupo de pessoas, até o espaço contíguo ao cemitério, onde agora a pouco, foi realizado o velório. Eu soluço e choro, minha garganta tem um nó que causa-me uma dor detestável. Felipe me abraça muito forte, um pano vermelho é colocado em minha frente, exala um cheiro muito forte e flameja minhas narinas.
— Eles vão nos proteger. Lá do céu. — Felipe sussurra diversas vezes a mesma frase.
Empurro Felipe para que me solte, não sinto minhas pernas, todos os meus esforços para me soltar, não são válidos. Eu sinto uma lerdeza e uma sensação de tranquilidade dominar meu corpo.
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