What the hell
3 Sem Rumo.
Notas iniciais
"Quem eu quero enganar quando digo que estou bem?"
POV´ Felipe Cardoso.
Tudo está sendo muito sufocante, eu quero gritar para todos naquela cerimônia fúnebre, e falar o quanto eu estou frágil com tudo aquilo. Quero chorar, quero alguém alisando meu cabelo e me dizendo que tudo irá melhorar. Aqueles que eu mais amei, estão indo embora. E eu não posso simplesmente pedir desculpas pelas inúmeras brigas e discussões. Tantas vezes em que lhe desejei a morte, tantas vezes. Hoje, eles atenderam o meu pedido e deixaram-me viver em paz.
Eu tenho que ser indiferente a tudo isso. Alice, precisa de mim, mais do que antes, eu sei o quanto ela está sofrendo, eu também sinto uma boa parte da sua dor. Única filha mulher e ainda mais sendo caçula, era muito afeiçoada aos nosso pais. Eu tenho que ser seu porto seguro, seu alívio no meio de tanta aflição.
— Você está bem, para voltar para casa dirigindo, Felipe? — Tia Marie me pergunta pela vigésima vez.
Seu tom de voz é apreensivo, estamos no estacionamento do cemitério. A poucos minutos, acabei de acomodar Alice no banco traseiro do meu Audi R8. Estou próximo a porta do motorista, tentando convencer a minha tia de que o impacto da morte dos meus pais e a noite em claro – velando o sono Alice –, não irão tirar o meu reflexo na direção.
Marie, tem por volta dos seus cinquenta anos, cabelos lisos e grisalhos, com uma pele branca e pálida, é minha tia de primeiro grau. Irmã por parte paterna da minha mãe. Às duas não conviviam muito bem, já que tia Marie, não suportava o fato da minha mãe continuar casada, depois que meu pai... bem... lhe colocou um belo par de chifres. Alice nunca soube dessa história, e eu prefiro que continue assim.
— Estou, tia. Irei levar Alice para casa. — olho para o carro.
— Tudo bem meu filho. — pegando minhas mãos. — Me ligue, quando chegar em casa, o trânsito a este horário deve está mas tranquilo. — beijou-me no rosto.
— Ligarei. — sorrio em agradecimento — Obrigada. — abraçando-a apertado. — Obrigada, por ter vindo me dar uma força. Sei, que você e minha mãe, estavam afastadas.
— Bete, sempre será minha irmã. Eu também a amava. — suspira pesadamente — Você sabe que estou aqui, para o que precisar. — passando a mão sobre os meus cabelos antes de separar-se de mim — Sua avó Marta enviou os pêsames. Eu achei certo ela não vim, enterrar sua única filha. Isso não lhe faria bem.
Um sorriso brota em meus lábios. Vó Marta, uma senhora de setenta e nove anos, se casou ainda jovem, com meu avô Antônio, que já tinha uma filha de sete anos, do primeiro casamento. Vovó gerou uma única filha – minha mãe é –, e ajudou na criação da sua enteada – tia Marie –. Adoro-a!
— Conversamos, hoje bem cedo. Vovó, insistiu em falar com Alice, porém eu não quis acordá-la. — abro a porta do carro — Agradeça a ela, por nós.
Entro no carro, fechando a porta com suavidade, para não acordar Alice no banco de trás. Saio do cemitério e mergulho no fluxo de carros do querido Rio de Janeiro.
Em vinte ou trinta minutos, chegamos em casa. A rua esta calma, exceto o barulho das televisões ligadas.
Após colocar Alice, deitada em sua cama. Estou exausto com tudo que aconteceu. Volto para a sala, sento-me no sofá e aperto o botão da secretária eletrônica.
"Felipinho? Tudo bem? Minha mãe falou que aconteceu um acidente com os seus pais. Me ligue" — era Luciano, um amigo do tempo de colegial.
"Felipe? Oi?... — pausa — ...Bom, eu sei que você deve está sofrendo, com isso. Bom, com tudo isso que aconteceu. Mas eu preciso muito, muito conversar com você. Quando escutar, me retorna. Beijos" — Ana Luisa, minha quase-namorada.
"Felipe?... Conversei com Arthur, e ele concordou em vocês passarem uma temporada aqui em BH. Faria bem, para você e para a Alice Tchau!" — Karina, minha prima – sobrinha do meu pai –.
Provavelmente eu concorde em viajar para BH, mas eu conheço Alice, ela não vai aceitar, separar-se das coisas que nos lembram os nossos pais. Conseguir se desapegar de algo que amamos, mas que já teve seu ciclo encerrado, é difícil para todos nós.
Estou cansando, porém preciso saber o que Ana Luísa quer. Afinal, não conseguirei dormi com um ponto de interrogação na testa.
Pego o telefone fixo e disco de uma vez seu número. Depois de algumas chamadas, Ana Luísa atende o telefone.
— Oi? — voz rouca.
— Aninha, aqui é o Felipe.
— É... Oi, Lipe. Estás melhor? — fungando.
— Estou. Mais, então. O que você quer?
— O que eu quero? Como assim?
— Você deixou um recado na secretária eletrônica. — suspiro
— Ah, é mesmo. — risos — Posso ir até sua casa?
— Pode.
— Certo, até daqui a pouco. Beijos — desligou
Em poucos minutos, Ana Luísa chega em minha casa.
Ana, tem dezessete anos, mora com os pais e estuda no mesmo colégio que a Alice. Pele clara, olhos verdes esmeralda, cabelos castanhos/chocolate, boca carnuda e rosada. Seu corpo é magro, a única coisa que lhe chama atenção – no corpo –, é os seios fartos.
Ao abrir a porta, Ana Luísa, me ataca com um forte abraço. Sua pele está pálida – mais do que já é –, seu nariz está vermelho, igualmente aos seus olhos.
— Oi Lipe. Precisamos conversar! — entra na minha casa, apressadamente. — Cadê sua irmã? — analisando o espaço.
— Está lá em cima, dormindo. O que aconteceu? — fechando a porta.
— Eu estou grávida! — soltando a bomba. — Eu estou grávida, grávida Felipe! — sentando-se no sofá.
— Isso é bom! — suspiro — Não pense que eu vou fugir dessa responsabilidade. Eu irei cuidar de vocês dois. Eu...Eu amo você, Ana. — sento-me ao seu lado.
Ana pôs-se a chorar, seus cotovelos apoiados em suas pernas e suas mãos cobrindo seu rosto, a sala está silenciosa, a única coisa que se ouvia era seus soluços.
— Não... Não é seu. — lamentou-se mais ainda. — O bebê, não é seu.
— Como assim? — levantando-me — Como assim o bebê não é meu, Ana?! — gritando.
— Todas as vezes, em que transamos. No dia seguinte eu tomava o remédio. — chorando. — Eu conheci o Jorge em uma balada, e...
— Então, o nome do filho da puta que te engravidou, é Jorge?
— Calma, calma Lipe. — levantou-se vindo em minha direção.
— Não encosta em mim. — empurrando-a — Você, você....você é uma vadia Ana Luísa. Uma V A D I A! — gritando — Todas as vezes, todas as vezes em que eu briguei com meus pais, por sua causa. Tantas vezes em que eu passei por cima de todos, por você. Sua Vagabunda! — dou-lhe um tapa em sua face. — Fora! Fora daqui.
— Lipe, me ajuda por favor? — ajoelhou-se — O Jorge sumiu, eu estou sozinha. — Me ajuda. — segurando em minha calça jeans.
— Eu não quero saber Ana, eu te dei meu coração. O que eu tenho de mais valioso. Você acabou de quebrá-lo. — meus olhos ardem — Quando eu voltar para casa, não quero te vê, não aqui, muito menos na minha vida. — pego as chaves do carro e saio de casa.
Just a Dream, toca no rádio, enquanto estou dirigindo, sem destino. Paro meu carro, em um posto de gasolina, enquanto o frentista completa meu tanque, eu caminho para a loja de conferência, vinculada com o posto. Entro na loja e o ar frio toca em minha pele, faço um pequeno tour na loja, a procura de bebidas alcoólicas.
(...)
Todos na cerimônia fúnebre, só sabia me perguntar: "Está tudo bem?" "Como se sente?" "É impressão minha, ou você não está chorando?"
Querem saber como eu me sinto?
Eu me sinto um inútil! Meu pai reclamava e reclamava, sobre se sentir cansado. Eu poderia ter me voluntariado e ter assumido o controle do carro, durante aquelas horas que restavam. Afinal, eu tenho dezoito anos e sou habilitado. Porém, meu orgulho era tão grande, que eu não quis dá o braço a torcer em ter que falar com ele. Eu pensei: "Se deixasse eu passar essa temporada em Gramados, com a Ana Luísa. Eu talvez te ajudaria, velho babaca".
Enquanto meu pai reclamava, eu conversa por sms com Ana Luísa, estávamos o amaldiçoando de todos os palavrões possíveis.
Hoje, eu amaldiçoo a mim mesmo, meus pais não mereciam nenhuma palavra de desmoralização que disse a eles. Eu que deveria ter morrido. Eu sou o vilão da família, eles deveriam está me enterrando hoje, e não o contrário. A vida nem sempre é justa, 90% dela é injusta. A vida sempre leva quem amamos, quando deveriam levar a nós, mas na verdade eu acho que a vida, nos deixa ilesos de algum acontecimento, para poder nos ver lamentar e refletir sobre os erros cometidos. Eu sobrevivi, para lamentar meus erros.
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