O percurso até a esplanada foi silencioso e desconfortável.
Seth sentou-se em uma mesa mais afastada. Conhecia alguns dos clientes regulares daquele bar e não queria limitar sua conversa por receio de ser ouvido. Thyel dirigiu-se ao balcão e voltou poucos minutos depois com um pint em cada mão. Pousou-os sobre a mesa e sentou-se de frente para Seth, arrependendo-se assim que percebeu que não teria como fugir do olhar penetrante do garoto. Escondeu-se atrás da caneca de cerveja e sorveu três longos goles demoradamente, evitando o momento do confronto apesar de, no fundo, ansiá-lo.
― Você tem falado com o Aaron?
Aquele talvez não fosse o melhor assunto para dar início à conversa, mas Thyel interpretou a pergunta da forma correta: genuína curiosidade e, até, preocupação da parte de Seth.
― Sim, ainda melhores amigos. ― Os dois sorriram de forma nostálgica. O silêncio de Seth deu a entender que não queria bater muito naquele assunto, provavelmente com medo de deixar Thyel desconfortável, mas este continuou, ciente de que o bem estar de Aaron era do interesse de ambos. ― Ele conseguiu subir a média no último ano e entrou no Instituto Courtauld.
― Uau, boa! Ele tava bem estressado com isso mesmo...
― E você, tá cursando o quê? ― Thyel pousou o pint, forçando-se a olhar o outro nos olhos enquanto aguardava sua resposta.
― Criminologia com Psicologia Aplicada.
Thyel tentou parecer sério. Mordeu os lábios por uma fração de segundo mas falhou e acabou por cair na gargalhada.
― Quem vê pensa que você é muito intelectual. Que merda é essa?
Seth riu também e os garotos sentiram seus músculos descontraírem enquanto a tensão os deixava. Por mais que a amizade entre os dois tivesse durado pouco tempo, fora intensa e genuína, e ambos estavam cientes de que haviam sentido falta um do outro nos últimos anos.
Aaron nutria sentimentos não correspondidos por Seth e, apesar de nunca o ter assumido, Thyel o conhecia melhor do que ninguém e por isso percebeu logo. Seth se afastou a pedido de Thyel, já que os dois sentiam algo muito forte um pelo outro que sem dúvidas geraria conflitos entre os três. Nenhum dos dois percebeu bem a intensidade do que sentiam até, de fato, se distanciarem, e foram muitas as emoções que assoberbaram os garotos quando se viram depois de tanto tempo, por isso se retraíram inconscientemente. Já mais relaxados, lembravam-se de como a amizade entre eles fluíra naturalmente, apesar de um sentimento maior do que de simples amigos ter estado sempre presente.
― Confesso que fui parar nesse curso meio à toa, mas eu tô gostando. E você, tem feito o quê? Vai pra Escócia de férias?
― Não, eu resolvi me dedicar mais à banda já que os estudos não são o meu forte. Vamos participar em um festival lá amanhã.
― Jura?! ― Seth exclamou, largando a caneca na mesa. ― Que bom, Thyel! Espero que dê tudo certo. ― Por momentos pensou em acrescentar algo como “depois me conta como foi”, mas baixou a cabeça, sem saber se aquele encontro se perderia no tempo ou se renderia mais algum.
― O quê que se faz de bom nessa cidade?
― Minha parte preferida é a vista... Mas a verdade é que não tem muita coisa mesmo.
― E o que te prendeu aqui? Você sempre foi meio nômade, não imaginei que fosse parar num lugar desses.
Realmente, Seth nunca ficava muito tempo em um mesmo lugar. Mudava-se constantemente, primeiro por causa do emprego da mãe e, depois de conseguir emancipação, por prazer pessoal. Trabalhava após as aulas e conseguia dinheiro suficiente para dividir apartamentos com outros estudantes e bancar um estilo de vida humilde mas confortável. Carlisle era uma cidade tão mundana que Thyel não conseguia imaginar uma razão que levasse o outro a se manter por lá.
― Ah, eu... ― Seth não sabia muito bem como dizer aquilo. Não devia nenhuma explicação para Thyel, mas sentia-se mal de qualquer forma. ― Eu vim visitar um primo por uns dias e acabei conhecendo uma pessoa...
― E não podia ter dito isso antes de eu te pagar uma cerveja? ― Thyel brincou, mas no fundo aquela informação o apanhara de surpresa. Por um lado, queria saber mais sobre o assunto mas, por outro, queria fugir dele, como se assim pudesse mudar a realidade.
Seth sorriu, um pouco sem jeito. Sua vontade era dizer que aceitara o convite para estar com ele, mesmo que nada físico fosse acontecer, mas sabia que Thyel não era muito sentimental e dizer algo do gênero poderia surtir o efeito contrário ao desejado.
Os dois estavam bebendo um pouco rápido demais, ainda mais com aquela última revelação, por isso as cervejas logo chegaram ao fim e Seth se levantou para buscar mais duas. No meio tempo, Thyel acendeu um cigarro e perdeu-se em pensamentos. Estava ficando difícil falar com Seth sem saltar para cima dele mas, se isso antes já soava como uma má ideia, passou a ser algo impensável com a informação adicional da existência de um namorado.
De repente, irritou-se. Tudo bem que a vida de Seth não lhe dizia respeito mas o que diabos se passou pela cabeça dele? Podia ter dito logo aquilo, deixar as coisas esclarecidas desde o início. Quando voltou, Seth foi recebido por braços cruzados e um olhar carrancudo.
― O que foi? ― Perguntou ao pousar os pints. Trazia também dois copos de shot e Thyel tomou o seu sem esperar por um brinde antes de voltar a cruzar o braços.
― Nada.
― “Nada”? ― Seth indagou, irritando-se também. Sentou-se e bebeu o seu shot, amenizando-o com um gole de cerveja. ― Thyel, eu nem precisava tar em psicologia pra saber que você entrou no seu modo revoltado. ― Deu mais um gole. ― Desculpa ter te dito isso assim. Foi isso que te chateou? Eu dizer que tenho um namorado?
― Eu tô pouco me fudendo pra isso, Seth, esqueceu que não nos falamos há mais de três anos? Por mim você faz o que quiser da vida.
― Ah, vai se fuder, Thyel, foi você quem me pediu pra ir embora.
― Eu não falei de uma forma tão drástica, não pensei que você fosse desaparecer!
― E que merda eu deveria ter feito?
― Sei lá, porra! Me deixado um telefone, talvez? Eu fiquei sem notícias suas do dia pra noite, você sabia o meu endereço, o meu número, onde eu estudava... Você sabia como me achar quando quisesse e eu nunca tive uma hipótese sequer de ir atrás de ti. Um amigo em comum, um endereço... Nem a porra de uma cidade! Você podia ter se mudado pra puta que o pariu, podia ter morrido e eu nunca ia saber!
Seth baixou a cabeça. De fato, a única hipótese de voltar a falar com Thyel dependia dele, mas nunca quis estragar a amizade do garoto com Aaron. Mais de uma vez, discou seu telefone, mas apenas encarava os números no celular sem ter coragem de completar a ligação.
― Eu sei... Desculpa. Eu devia ter te deixado algum contato. Mas, sei lá, foi tão difícil ir embora... Não queria ter que passar por aquilo de novo.
Thyel, que afogara-se na cerveja depois do seu discurso, finalmente pousou o copo, que já ia a meio, e fitou o amigo.
― Porra, Seth,tá sendo impossível pra mim ficar aqui com você e... não ficar com você. Talvez fosse melhor eu ir já embora, não sei se isso é uma boa ideia.
― Não, fica ― Seth pediu. ― Podemos falar mais um pouco? Eu sei que devia ter te dito alguma coisa, mas... não pense que eu não senti a sua falta.
― Eu sei, eu... Eu também senti.
Os dois calaram-se por um tempo, absortos em pensamento enquanto bebiam suas cervejas. Mais uma vez, foi Seth a cortar o silêncio:
― Você tem que ir embora que horas?
― Eu tava pensando em pegar o trem das 21h.
― Você ainda não comprou a passagem?
― Não, tava esperando pra saber se alguém ia passar aqui de carro pra pegar carona, mas até agora não me disseram nada.
― Você tá em algum hotel?
― Seth, eu disse que tô só de passagem. Consegui uma carona até aqui, vou embora hoje, não preciso de hotel nenhum.
― Por que você não passa a noite aqui?
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