What the Eyes Don't See
3 III
Thyel hesitou um pouco antes de responder.
― Passar a noite... com você?
― Bom, sim, né? ― Seth disse, rolando os olhos. ― Podíamos ver o castelo. Levamos umas cervejas... O castelo em si não é grande coisa, mas a vista é linda. Queria aproveitar esse tempo com você.
― Sim, parece uma boa. Confesso que não tô muito afim de entrar num trem agora.
― Então vamos depois dessa cerveja ― Seth disse e deu um gole. ― Você tem feito muitos shows?
― Alguns. Nesse último ano as coisas têm corrido bem. Vamos pra Irlanda mês que vem em outro festival.
Seth sorriu, genuínamente feliz pela banda do amigo ser reconhecida e por vê-lo entusiasmado com algo em relação ao seu futuro.
Alguns minutos mais tarde, Thyel acabou a cerveja e fumou um cigarro enquanto Seth acabava a sua. Seth desabafou sobre a faculdade e Thyel falou um pouco sobre como tinham sido essas últimas semanas na estrada, por conta da banda, e o assunto prolongou-se durante o percurso até o mercado. Compraram uma grade de cervejas e foram para o castelo discutindo trivialidades.
Seth indicou uma passagem um pouco estranha e, quando pularam um muro, Thyel percebeu que estavam entrando de forma ilegal e que a entrada oficial já estava encerrada.
A paisagem verde estendia-se, perdendo-se no céu que já escurecera. O castelo, iluminado por baixo, impunha-se, mas perdia sua importância quando comparado ao céu estrelado no fundo. Aquela era a vista a que Seth fizera referência e, de fato, era lindíssima.
Os garotos sentaram no gramado, um pouco escondidos para evitar serem apanhados por algum segurança, mas de forma a terem um ângulo privilegiado sobre toda aquela paisagem. Tiraram duas latas da grade e brindaram antes do primeiro gole.
Thyel estava um pouco nervoso e acabou por sorver uma grande quantidade da cerveja de uma vez. No início, o convite pareceu uma boa ideia, mas ali, tão próximo a Seth, com toda aquela atmosfera à sua volta, duvidava da sua capacidade de autocontrole.
― Quer por uma música? ― Seth perguntou, percebendo o desconforto do amigo.
Thyel tirou o celular do bolso mas, ao tentar desbloquear a tela, percebeu que o aparelho estava desligado.
― Fiquei sem bateria.
― Então deixa eu ver o que eu tenho aqui ― mexeu um pouco no celular, até encontrar uma lista que o agradou, e uma espécie de rock leve com eletrônica preencheu o vazio. ― Se quiser que eu mude, avisa.
― Não, pode deixar.
Com a música de fundo, o silêncio não era absoluto e o constrangimento que sentiam quando não sabiam o que dizer não se mostrava tão evidente. Depois de mais alguns goles na cerveja, foi Thyel a dar início a conversa:
― Sabe quem eu descobri que é gay?
― Quem?
― O Neil ― Thyel exclamou, arrancando uma gargalhada de Seth.
Em uma festa da secundária, Thyel e Seth tinham feito uma aposta para ver qual dos dois conseguia um beijo de Neil, um dos colegas deles que estava podre de bêbado, mas ambos falharam.
― Não acredito!
Os dois riram e Thyel explicou como descobrira aquilo dois anos depois, através de um amigo em comum. Seth acabou por se lembrar de outros colegas e perguntou sobre cada um deles, saciando sua curiosidade, enquanto Thyel tentava responder com alguma dificuldade, já que não tinha muito interesse na vida da maioria deles.
Já iam quase no fim da segunda cerveja quando a lista que Seth colocara acabou e deu-se um curto período de silêncio enquanto ele procurava outra. Thyel aproveitou para acender um cigarro e deitou-se no chão. Fechou os olhos ao dar o primeiro trago e soprou o fumo, completamente relaxado. Assim que ouviu soarem as primeiras notas do celular de Seth, reconheceu a canção e, sem se dar conta, começou a cantarolar.
Seth conteve um sorriso quando ouviu a voz de Thyel acompanhar a música. Deixou-a tocar um pouco e, a seguir, deu pausa no celular e o outro continuou cantando distraído. Sua voz soava melodiosa e afinada apesar do volume baixo a tornar um pouco rouca. Quando finalmente percebeu que a música fora interrompida e que cantava sozinho, abriu os olhos, indignado.
Para a sua surpresa, deparou-se com os enfeitiçantes olhos de Seth perigosamente perto dos seus. Seu primeiro reflexo foi afastar-se mas, deitado, não tinha como recuar. Ao invés disso, foi tomado pelo magnetismo que o chamava desde que vira o garoto no mercado.
A mão esquerda apagou o cigarro no chão enquanto a direita puxou a nuca de Seth para mais perto, reduzindo a distância entre eles. Seus lábios roçaram-se, reconheceram-se, acariciaram-se. Com os olhos fechados, os dois se perderam e ambos ansiavam por um toque mais intenso. Antes que se deixasse levar por completo, conseguiu juntar consciencia o suficienta para perguntar:
― E o seu namorado? ― Sua ideia não era provocá-lo ou soar ciumento, mas sim fazer com que Seth pensasse bem no que estava prestes a fazer.
― Deixa que eu me preocupo com isso ― Seth disse e, sem dar tempo para que Thyel respondesse, beijou-o.
O desejo entre eles era tão intenso que não conseguiam manter as mãos afastadas do corpo um do outro. Não demorou muito para que ultrapassassem as roupas e obtivessem contato direto.
Por mais que tivessem estado juntos apenas uma noite antes daquela, tinham saudades do corpo um do outro, do toque, do cheiro. Sabiam como provocar, como excitar, sabiam exatamente o que estavam fazendo e o efeito que surtiam e deixaram-se levar por completo, pondo qualquer preocupação de lado, fosse um namorado, um melhor amigo, um festival... Focaram-se, perderam-se, viajaram no momento e, mais do que tudo, aproveitaram-no.
Cansados, tanto pelo exercício como pelo ar rarefeito, permaneceram um tempo apenas recuperando o ritmo de suas respirações.
― Você tem algum show marcado aqui em Carlisle? ― Seth brincou.
Thyel riu mas deixou a pergunta no ar.
Não era preciso falarem para saberem que aquele momento não iria se repetir tão cedo. Seth tinha seu namorado e Thyel ainda pensava nos sentimentos de Aaron. Nenhum deles se arrependia do que haviam feito, muito pelo contrátrio, mas sabiam que não tinham futuro enquanto casal e que uma amizade entre eles seria dolorosa.
Thyel levantou-se, ajeitou suas roupas e começou a recolher o lixo que espalharam ao redor. Seth fez o mesmo e, quando tinham tudo pronto, perguntou:
― Quer que eu te deixe na estação?
― Pode só me dizer como eu chego lá.
― É na direção da minha casa, posso te indicar o caminho.
Thyel concordou e os dois seguiram lado a lado. Saltaram o muro, deixaram as beatas de cigarro e latas de cerveja no primeiro caixote de lixo que encontraram e continuaram o caminho, novamente em silêncio.
― Seth... ― Thyel começou.
― Hm?
― Você sabe que eu não vou passar aqui de novo, né?
― Sei.
― Não é que eu não queira tar com você, mas...
― Eu não devia ter dito aquilo, Thyel. Eu fui embora, eu não te dei notícias, eu tenho um namorado... Você não fez nada de errado.
― Isso vai dar merda com teu namorado?
― Não se ele não souber ― Seth riu. De fato, amava-o, mas, ao mesmo tempo, não sentia nenhum peso na consciência. Era como se, por ter sido com Thyel, não era bem uma traição. Thyel sempre teria um lugar no seu coração e aquele espaço nunca seria preenchido por outra pessoa. ― E com o Aaron?
― Não se ele não souber.
Os dois riram, cúmplices. Quando estivessem sozinhos, relfetiriam mais sobre o assunto, mas no fundo já sabiam que a noite que tiveram seria algo entre eles e que mais ninguém precisava de saber. Não mudava nada, não se repetiria – não a curto prazo, pelo menos.
Quando chegaram a uma bifurcação, Seth parou.
― Aqui você vira à esquerda e segue por uns dez, quinze minutos. Eu vou em frente.
Thyel avançou alguns passos na direção que lhe foi indicada, querendo evitar uma despedida muito sentimental. Seria difícil, talvez ainda mais do que da última vez, mas poderia se arrepender mais tarde de não o ter feito.
― Thyel?
Ele parou ao ser chamado e virou-se para trás. Mordeu o lábio inferior, concentrando-se ao máximo em manter sua expressão serena, sem demonstrar que, por dentro, desabava.
Seth aproximou-se e estendeu um papel dobrado. Thyel apanhou-o e, ao abrir, sorriu. Guardou o número de celular de Seth, escrito a pressa no recibo do mercado, no bolso traseiro. Depois mudou de ideias e passou-o para o bolso da frente – mais seguro.
― Eu sei que você não deve vir aqui tão cedo, mas, se mudar de ideias... Desculpa mais uma vez por não ter dito nada.
― Não tem problema. Eu sei que você não fez por mal. ― Thyel acenou e, sem mais demoras, deu costas a Seth e dirigiu-se para a estação.
Sabia que se ficasse mais tempo seria atraído mais uma vez para os braços de Seth e seria cada vez mais difícil afastar-se deles. Mas, daquela vez, era ele a partir e, daquela vez, sabia para onde voltar.
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