Notas iniciais
Quando se deu conta, Thyel estava escondido atrás da prateleira dos salgadinhos. Não havia refletido muito bem sobre o assunto mas, assim que avistou Seth no mercado, sua reação foi instantânea.
A última vez que se haviam visto ainda iam a meio do ensino secundário. Três anos mais tarde, a vida de Thyel estava tão diferente... Imaginava se Seth ainda estaria preso na escola, se avançara para a faculdade ou se escolhera outro caminho. Mais do que isso, perguntava-se o porquê de, apesar de terem frequentado o mesmo colégio em Portsmouth, no sul de Inglaterra, encontrarem-se então quase na fronteira com a Escócia, do lado oposto do país. A verdade era que os últimos três anos da vida de Seth não passavam de um tema de especulação para Thyel, pelo que qualquer explicação que justificasse a sua estadia – ou, até, passagem – em Carlisle poderia ser correta.
Ao longo do tempo, Thyel apanhou-se algumas vezes a pensar em Seth e no tempo que tiveram juntos. A dúvida que tinha sempre que isso acontecia, foi respondida no momento em que o viu: o sentimento mantinha-se intacto.
Seth e Thyel nunca tiveram propriamente um romance. Nunca chegaram a se tornar um casal. Provavelmente, se assim o tivessem feito, depois de tanto tempo já se teriam separado ou, pelo menos, as chances eram muito altas tendo em conta o histórico de relações dos dois. Mas, talvez justamente pelo fato de nunca terem estado efetivamente juntos, Thyel não conseguia por de lado a conexão que sentia com Seth. Sentia-se atraído por ele, mais do que de uma maneira superficial. Sentia, literalmente, uma força que atraía seu corpo ao do outro. Sabia também, por experiência, que, se se aproximasse muito, não conseguiria se afastar e o toque seria inevitável.
A natureza sexual de Thyel não mudara no intervalo de tempo em que os dois estiveram separados e a vontade de correr até Seth e agarrá-lo era quase tão grande quanto a de largar o cesto de compras e sair porta afora.
Quando, três anos antes, Thyel pedira para Seth se afastar, fê-lo por causa do seu melhor amigo, Aaron, e a amizade entre eles se aguentou firme e forte. Mesmo sabendo que aquela era a coisa certa a ser feita, Thyel ainda não entendia muito bem a intensidade do que sentia até Seth ter, de fato, se afastado. É certo que a relação física entre os dois não passara de um caso de uma noite, perdido no meio de tantos outros que já haviam tido, mas havia um magnetismo inegável entre os dois e ambos estavam cientes daquilo.
Depois de tanto tempo, Thyel já se esquecera daquele sentimento que só existia na presença de Seth. A intensidade das suas emoções era tanta que Thyel estava prestes a chamar a atenção do outro, mas a súbita lembrança de Aaron em sua mente fez com que não avançasse.
Provavelmente, os sentimentos de Aaron por Seth já não se mantinham, mas Thyel agarrou-se àquela desculpa – talvez pelo medo de ser rejeitado? De não ser correspondido? – e convencia-se de que o melhor era, realmente, sair daquele mercado e fingir que nada acontecera enquanto dirigia-se para a saída. Esquecera-se, no entanto, de largar o cesto, e os alarmes dispararam quando cruzou a porta.
Evidentemente, a situação atraiu a atenção de todos os presentes, e Thyel tentava escapar dali enquanto se explicava para o operador de caixa mais próximo. Desculpou-se, deixou o cesto no tapete rolante e saiu da loja.
Apesar de saber que se martirizaria por um bom tempo por perder aquela chance, a verdade era que estava aliviado por ter conseguido deixar a loja sem ter um confronto com Seth.
Já havia cruzado o estacionamento e atravessava a rua quando ouviu passos apressados em sua direção. Sentiu seu coração disparar quando reconheceu a voz que o alcançou:
― Thyel? Thyel!
Sem muitas opções, parou. Ainda hesitou um pouco antes de se virar para trás, sem saber se fingia um ar suspreso, se destratava o garoto e dava-lhe as costas ou se apenas corria sem dar satisfações. As alternativas foram reduzidas assim que foi captado por aquele tão familiar par de olhos azuis e limitou-se a encará-lo, incerto de como cumprimentar o garoto.
Seth já ia a caminho da caixa no momento em que o alarme da loja disparou, então concluiu suas compras antes de ir atrás de Thyel. Enquanto o operador lia os códigos de barra dos produtos, Seth matutava sobre ir ou não ao encontro do outro, mas seu corpo tomou a decisão por conta própria e deu por si de frente para o garoto, encarando-o sem saber o que dizer.
Houve um primeiro momento um pouco constrangedor em que um deles ameaçou um aperto de mão enquanto o outro avançava para um abraço para, a seguir, trocarem posições e em nenhum dos casos chegaram a vias de fato, mas os dois ignoraram o ocorrido e disfarçaram o desconforto com sorrisos sem jeito.
― O que você tá fazendo por aqui? ― Seth arriscou, tentando quebrar o clima desagradável. ― Não imaginava te achar num fim de mundo desses.
― Tô só de passagem. Hoje à noite vou seguir pra Escócia. ― Thyel tinha uma lista de perguntas para fazer, mas não queria parecer impertinente com seu questionário, então limitou-se a um mero “e você?” antes de morder os lábios para se impedir de continuar a falar.
― Vim fazer faculdade... ― A vontade de Seth era contar tudo o que vivera desde o último encontro dos garotos, na enfermaria do colégio, mas, por alguma razão, reduziu sua resposta ao mais sucinta possível.
O que o diálogo dos dois demonstrava era desinteresse; perguntas superficiais e respostas curtas, mas, no fundo, ansiavam por saber mais da vida um do outro.
― Seth... ― Thyel começou, chamando a atenção do outro. Ainda fraquejava quando confrontado por aqueles olhos azuis, por isso fitou o chão quando perguntou, hesitante:― Posso te convidar pra uma cerveja?
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