Wesen Para Vingar
4 Retrocesso
Notas iniciais
“[...] Para enganá-los, tem que primeiro enganar a si mesma. O triste é que acho que interpreto muito bem... Muitas vezes nem lembro quem realmente sou...”
*
− Jane, já decidiu o que vai vestir amanhã no seu encontro?
Sim, eu tinha um encontro. Mais um. O terceiro.
Com Phillip.
YAY!
Eu sei, é meio que sacanagem querer ficar com um cara enquanto supostamente ainda tenho um namorado em Portland, maaaas Jane não tinha um namorado em Portland, e eu era a J agora. Ou seja, eu era solteira e estava disponível!
Então, uns dias atrás, quando eu decidi ligar pro Phillip e dizer que tinha gostado do nosso segundo encontro (três em uma semana e meia é um feito!), ele me disse que também tinha gostado, e que queria me ver de novo logo.
Nós conversamos por um bom tempo, até decidirmos que deveríamos nos ver na casa dele. Poxa, nós nos dávamos tão bem, ele me fazia feliz e gostava de mim e eu gostava dele. Então concordamos que nos veríamos e ele me levaria para casa – Phillip queria cozinhar pra mim, e eu aceitei ver a raridade que era ver um homem cozinhando.
− Ahn, não... Mas não servem roupas comuns?
− PFFFF! – Gabi fez um som de desprezo. – Comuns? Você quer parecer que não se importa?
− Ahn, eu não acho que Phillip vá se incomodar... Ele gosta de mim do jeito que eu me visto, então por que não? – Comentei, enquanto limpava uma mesa.
− Na, não, Jane. Você vai vestir algo mais adequado pra esse encontro, pelamordedeus. Quando chegarmos em casa vou te ajudar.
− Mas eu não preciso, miga. – Pedi. – É muita coisa...
− É nada, tu tá de frescura. – Ela bateu o pé. – Quando chegarmos em casa nós duas vamos escolher suas roupas.
− Mas e a Kira?
− Então, nós duas. Você vai só olhar. – Eu fiquei tipo “hãããã?”. – É sim. Se não, se você opinar, você vai pra lá com jeans rasgados e uma blusa preta solta. Grrrrr. Seus gostos são muito puros e muito punks. Tente usar uma roupa sedutora, pelo menos.
− Mas por quê? Ele gosta de mim assim!
− Mas não custa nada fazer ele gostar um pouco mais, né? – Gabi piscou, e eu revirei os olhos. Bem eu sabia que teria dedo da safadeza da Gabi nessa história... – Enfim, como eu disse, será eu e Kira. Ou seja, se vocês chegarem na cama hoje, pode nos agradecer se ele for bom!
Eu revirei os olhos de novo, mas rindo, dessa vez.
Pior que Gabi tinha razão. Eu iria dever muito a elas se pudesse ter um relacionamento com Phillip, afinal, elas impulsionaram a nós dois desde o início...
*Michael*
Eu tinha acabado de chegar em Santa Monica.
Sim.
Quando eu deixei Portland, Nick me pediu que voltasse assim que pudesse com Alicia. Eu senti a dor na voz dele. E eu também queria Alicia de volta, então prometi que não voltaria a não ser com Alicia.
E ali eu estava. Santa Monica era uma mini-cidade, com 41 quilômetros quadrados, e eu agradecia a Deus por isso, porque se fosse mais, seria mais lugares para procurar Alicia, e isso em si já era difícil. Mas tudo bem, porque eu tinha uma ideia de por onde começar.
Um dos maiores pontos turísticos, oras.
A Baía de Santa Monica.
Eu não duvidava que Alicia fosse visitar esse tipo de lugar. Apesar de ser fugitiva, ela se misturava à multidão, eu percebia nela essa vontade de se sentir pertencendo ao resto da sociedade. E aquele lugar era frequentado, então eu estava apostando minhas fichas ali.
Primeiro, eu tinha que achar um hotel, hipnotizar o cara para convencê-lo de que me deixar ficar em seu hotel de graça era um bom negócio. Depois, eu tinha que começar a rondar os possíveis pontos em que Alicia poderia estar.
Quando perguntei a Barbie, ela me disse que Alicia gostava de passear à tarde, que provavelmente ela estaria trabalhando como garçonete, ou então em uma lojinha pequena. Outro hábito era o de ir observar a noite, ou seja, ela saia e ia para um parque, mas nem sempre. Eu estava contando com isso nos meus dias de procura.
Então, depois da etapa de conseguir um quarto, eu decidi simplesmente descansar. Iria procurar Alicia, sim, mas eu tinha acabado de fazer uma viagem e queria dormir pra sempre.
Mas não.
Eu já tinha perdido o quê, uma semana? Era tempo demais. Eu tinha feito uma promessa, sabia que eles estavam esperando ansiosamente por nós em Portland. Emily e Barbie não se falavam mais, Nick sentia demais a falta da sua irmã.
Alicia não veria motivos para voltar, mas ela precisava. Ela precisava voltar, para nós, para mim.
Para acabar com Nira de uma vez.
*Alicia*
− Nossa, Phillip, isso aqui tá ótimo.
Eu estava comendo o macarrão à bolonhesa que Phillip tinha feito, e estava divino, acompanhado de um vinho bom. Nossa, que sorte eu tinha dado!
E ele era lindo.
Comi um punhado a mais da comida enquanto saboreava o molho e minha companhia.
− Ainda bem que gostou. Não quero namorar uma mulher que acabe não ficando feliz com minha comida, porque eu não sei como melhorar! E quero te levar café na cama. – Eu ri.
− E ainda é atencioso. Onde estão os Phillips ultimamente? – Ele ficou meio sem jeito.
− Ahn, eu tento. Acho que não faz sentido você agir como um babaca pra garota se apaixonar por você.
− E mesmo assim funciona... Essa humanidade está perdida. – Eu suspirei e comi mais. Phillip tinha colocado a mesma porção para nós dois, mas ele tinha comido mais concentrado e mais rápido, já eu estava tentando apreciar cada garfada.
Ok, só pra constar, as garotas tinham me forçado a usar um vestido azul-escuro com meus costumeiros saltos pretos e minha maquiagem negra, que foram as condições de eu usar aquele vestido... Claro demais. (Foram as palavras que eu usei pra irritar as duas, e foi engraçado.) Quando eu perguntei o porquê do vestido semiformal, elas disseram que era pra ser chique, mas não muito, e que era pra ser fácil pra ele tirar se preciso.
E eu não me sentia, assim, muito a fim de recusar “se fosse preciso”.
− Foi o que eu pensei. Então, J – Ele se reclinou sobre a sua mesa. – Assim que você terminar de jantar, o que quer fazer?
− Hm... Beber mais, conversar... E já é o terceiro encontro, né? Podemos beijar mais... – E, sim, no segundo encontro ele tinha me roubado um beijo, e eu o tomei de volta. Mas só beijinhos de despedida, isso era tudo.
− Hm, gostei das três... Mas que tal bebermos, beijarmos e nos declararmos? – Ele serviu-se de um pouco mais de vinho, tomou um gole, e se inclinou perto de mim. Eu sorri e coloquei um dedo na frente de seus lábios.
− Espeeeera... – Bebi o resto do meu vinho. – Ok, agora vamos.
Nós nos inclinamos de leve, pra torturar o outro, e então finalmente nos beijamos.
Ok, ele não era nenhum Michael ou Renard, mas até que ele beijava bem. Mas a boca dele não me causava nenhuma antecipação, me deixava mais aproveitando.
E isso não era necessariamente ruim.
Phillip pressionou a língua contra meus lábios, e eu deixei ele passar, e nossa, ele mudou totalmente de figura. Uma de suas mãos foi logo pra minha cintura, eu sentia os dedos dele deslizando pelas dobras do tecido, a outra ele levou pra minha nuca, e sua língua, UOU.
Era feroz.
Gemi baixinho contra sua boca, sentindo-me subjugada e meio noiada pelo vinho e pelo poder escondido de Phillip de ser um dominador. Ah, se ele fosse...
Suas duas mãos foram para a cintura, e ele me ergueu da cadeira, meio que batendo na mesa, e eu tive que nos separar porque meu oxigênio tinha acabado.
− Meu Deus – Eu disse. – Quem é você e o que fez com o Phillip?
− Isso é só o começo. – Ele segurou minha mão e começou a me puxar. – Vem.
Andamos até o quarto dele, e ele também tinha uma cama de casal (lembranças do Renard? Affe, agora não) e o quarto era bem iluminado.
− Desligo a luz? – Ele perguntou.
− Não, eu quero ver você – Pedi, enquanto começava a tirar a camisa dele, botão por botão. – Todo.
− Safadinha. – Ele riu baixinho, enquanto uma de suas mãos parava em cima da minha omoplata e, do nada, meu zíper foi descido com uma habilidade que me deixou besta. – Agradeça a Kira e Gabi por mim.
− Eu vou agradecer é por mim – Empurrei-me de volta para os seus lábios, e ele voltou a me dominar, não que eu não gostasse. Fiquei, de novo, torpe, então eu não sabia se o beijava ou se continuava tirando suas roupas.
Eu não estava pensando no que viria depois. Eu tinha aprendido a viver com o momento. Além do mais, não havia nada esperando por mim, então eu tinha a noite toda.
Só que eu fiquei tão coisada com o beijo do Phillip que ele decidiu me ajudar a tirar sua calça, e eu aproveitei e comecei a deslizar minhas mãos pelo seu peito, ombros, braços, e hm, que músculos. Eu fiquei louca pra poder sentir aquela força toda sobre mim.
Ele me guiou para a cama e deitamos, meio atrapalhados, o beijo se rompendo diversas vezes e nós dois dando risadinhas.
Ele ficou com as mãos atrás de mim, erguendo-me e tentando tirar meu sutiã, e de repente tudo ficou tão real e eu precisava de um cigarro, mas tudo bem. Eu queria aquilo. Mesmo nervosa, eu não via muito problema em terminar o que tinha começado.
Alicia via, e estava gritando desesperadamente dentro de mim para que eu parasse.
Ignorei os gritos dela e me apoiei nos cotovelos para deixar que ele tirasse meu sutiã. Phillip sabia que eu era virgem e, antes de puxar as alças, me encarou.
− Certeza de que quer fazer isso? Eu posso parar, mas seria desagradável para nós dois – Ele disse.
− Faz logo. Não quero pensar em nada agora. – Deixei que ele tirasse a peça preta, e a exposição dos meus seios ao ar me fez ficar vermelha e eu senti os mamilos enrijecerem.
− Ai, que bonitinha. – Ele foi beijando meu colo, avançando, avançando, e minha mente foi escurecendo de novo, e eu deixei ele fazer o que quisesse que, por mim, estava ótimo.
Era bom.
Era ótimo!
Tinha arrepios e uma agonia estranha subindo pelo meu corpo, e eu fui me perdendo, me perdendo, quanto mais baixo ele ia, mais eu me agoniava de estar tão próxima e íntima com alguém como quanto eu estava com ele. E eu me sentia perdida ali, com o que ele fazia comigo, e quando ele ia mesmo me deixar nua...
Meu celular tocou.
− Ah! – Gritei. – Sério?
− Tá tudo bem, J. Pode atender. – Ele sorriu e ergueu-se, colocando minha calcinha no lugar e deitando ao meu lado. – Teremos a noite toda, mesmo assim.
Eu o beijei antes de atender, demoradamente, já acostumada com nossos corpos em um contato tão íntimo que nem me incomodei com meus seios pressionando seu peito.
− Kira, se você não tiver um ótimo motivo pra estar me ligando agora, eu juro por Deus que termino o que estava fazendo, vou aí e corto sua cabeça fora com meus dentes. – Ameacei, e Phillip chiou ao meu lado, só de zoeira.
− Ai, amiga, desculpa. É que tem um cara aqui, ele insiste que quer falar com você. – E me deu um pressentimento ruim. – Ele é bonito, até...
− Como ele é?
− Hm, cabelo preto, espetado, tem barba, meio motoqueiro...
Michael.
E eu gelei. E tudo estilhaçou.
Não, não, não, ele não pode ter me achado, isso não está acontecendo...
Eu me senti começando a escorregar, senti a dor começar a despontar, minha carne, meus músculos latejavam, e eu tremia. O telefone caiu de minha mão.
− Jane? – Phillip me chamou. – Jane!
− Uísque! – Pedi, antes que eu tremesse demais e entrasse em convulsões. Vi Phillip pular da cama e correr para a cozinha, só de cueca. Ouvi Kira chamando no celular, mas eu estava perdendo o controle.
E a voz do Michael.
Eu não entendi o que ele dizia, só sabia que era ele.
De repente, um pouco de uísque caiu na minha boca, e eu tossi, engasgando, mas com um pouco de força de vontade peguei a garrafa e comecei a drenar o conteúdo. O líquido queimava minha garganta e o fundo da minha língua, mas começou a estabilizar meu ataque.
Não demorou muito e logo eu estava consciente, mais controlada e ao lado de Phillip, deitada com a perna sobre sua cintura e fazendo carinho em seu peito.
Ainda virgem.
− Amor, já pode me falar o que aconteceu? – Olhei pra ele. Phillip era tão lindo, e tão lascado por ter se apaixonado por mim.
− Você é um homem tão bom, Phillip. Eu queria poder ser sincera com você e ficar com você, mesmo... Mas... – Suspirei. – Merece a verdade. Eu me mudei pra Santa Monica porque não aguentava mais ficar na minha cidade antiga. Eu deixei um namorado pra lá... Minha família, uns amigos, mas eu precisava fugir. E achei que eles nunca me encontrariam.
− Você é... Fugitiva? – Ele me perguntou, a mão deslizando pela minha costa.
− Sim. – Suspirei de novo. – Tá aí. O porquê dessa história toda. Cara, me desculpe por tudo isso, por terem nos interrompido... – Eu comecei a falar, mas Phillip me calou com um beijo.
− Você não precisa se desculpar pelo o que eles fizeram. Não pediu isso. – Ele sorriu pra mim. – E então, vai fazer o quê?
− Chutar ele. Não voltarei para Portland, nem que me paguem. – Sentenciei. – Vou voltar para lá, falar com ele, e se você ainda quiser, eu volto pra cá... Embora ache que não existe mais clima pra sexo hoje. – Nós sorrimos.
− Bom, podemos sempre dormir de conchinha. – Eu sorri ainda mais e sentei.
− Ok, vou me vestir e me livrar dessa nova encrenca... – Espreguicei-me. – Fica pra outro dia. – Eu sorri pra ele e saímos da cama.
Vesti-me lentamente, porque eu não queria ter que encarar Michael. Ele tinha sido, de longe, uma das partes mais doloridas de deixar para trás e seguir em frente. Quer dizer, tudo entre nós tinha ficado inacabado. Eu não sabia se podíamos ser classificados como ex-namorados, mas eu não havia terminado nada.
Tecnicamente, eu o estaria traindo. Mas como eu era Jane, e quem namorava com ele era Alicia, não era traição.
Mas quem eu queria enganar? Alicia e Jane eram a mesma pessoa: eu. Eu nem sabia mais quem era Alicia direito, mas eu precisaria redescobrir. Apesar de amar Jane, ainda tinha medo de me perder nela, de esquecer como eu era de verdade.
Que triste, sou tão boa atriz.
Enfim, despedi-me de Phillip (que queria ir ver quem era o homem que ousava interromper nossa primeira vez) e subi na minha moto, dirigindo para casa. Isso era, tipo, uma da manhã, e eu sentia meu corpo meio agoniado, agitado. Quase optei por deixar a moto e ir a pé mesmo, só pra me aquietar.
O ar estava frio, e tudo parecia meio deprimido, como se Santa Monica soubesse que talvez eu tivesse que ir embora logo e estivesse logo se despedindo. Mas eu queria dizer a Santa Monica que não precisaria ir embora, embora tenha sido melhor não ter dito nada, porque eu acabei indo, de qualquer jeito.
Quando cheguei na casa, me perguntei como deveria agir, o que deveria fazer, o que deveria dizer. Bom, eu sabia que tinha 99,9% de chance de Michael já saber quem de fato era Jane/Alicia e ir direto falando todos os meus segredos. O outro 0,1% era a parte em que ele sabia, mas não iria falar meus segredos.
Eu acho que calculei errado.
A primeira pessoa que me surgiu quando abri a porta foi Gabi.
− Miga, ele surgiu aqui do nada – Ela me explicou. – Descreveu você, um pouco diferente, mas era você. Certeza. Aí ele pediu pra entrar e te esperar, não importava o tempo que passasse.
− Ele tem olhos cinza? – Minha amiga assentiu. – O cabelo bem preto? – De novo, ela fez que sim. – E veio numa moto prata, talvez?
− Como você sabe tudo isso?
− Ele é meio que meu ex. – Dei as costas para Gabi e fui para o nosso quarto, onde eu supunha que ele estava pelo som de passos pesados, passos de homem.
E quando abri a porta, eu o vi.
Michael Van Healm, todo ele. Seu estilo bad boy motoqueiro, os olhos cinza tempestade calorosos, aquele cabelo que eu amava, o físico parecia um pouco mais musculoso, a barba um pouco maiorzinha.
− Vamos fingir que acabamos de nos conhecer, que tal? – Ofereci. – Olá. Sou Jane.
− Eu sei quem você é. E você sabe quem eu sou. E não vou fingir. – Entendi o que ele quis dizer. – Eu vim pra te levar pra casa.
− Minha casa é aqui, agora, Michael. Eu fico aqui.
− Eles sentem sua falta, eu sinto sua falta. Deixou sua família inteira para trás. Volta, Jane, por favor.
− E o que tem lá esperando por mim? – As garotas saíram do quarto, vendo que as coisas iriam esquentar. – Todos já me esqueceram.
− Não. Barbie lembra de você, eu lembro, o Nick lembra. Até o capitão. – Meu coração doeu com a menção dos três, minha amiga, meu irmão, meu antigo amor. – Todo mundo lembra de você.
− E Emily? – Michael fez uma cara de “opa”. – Ahá.
− Bom, Emily não liga nem mais pra Barbie ou pro seu irmão ou para qualquer um de nós, então... Mesmo assim, volta, A... – Encarei-o. – Jane.
− Por quê?
− PORQUE PORTLAND NÃO É A MESMA COISA SEM VOCÊ! – Ele gritou, e chutou o pé da cama. – Você fugiu porque achou que não era mais a sua casa? Pois a minha casa é você! Por acaso pensou em algum de nós enquanto se esgueirava pelo lado oeste do país?
− DEMAIS! Eu só pensava em vocês! – Gritei de volta. – Você não tem ideia do que eu tenho que fazer pra me manter sob controle e sem lembrar de vocês! – Só em falar nisso, senti a minha pele começar a arder e queimar. Sacudi-me e fui em direção à porta para ir pegar alguma bebida.
− Ei, não me deixa aqui sozinho. – Ele foi me seguindo. – Jane...
− Espera, cacete! – Eu avancei para o criado-mudo em que ficavam as bebidas, peguei uma garrafa, desenrosquei a tampinha e comecei a beber o uísque (já que a bebida era forte, funcionava bem sozinha) para me acalmar.
− ... Oh. – Michael soou surpreso. – Pra quê isso?
− Difícil explicar. Meu Deus, eu preciso de um cigarro urgente.
− Jane, que diabos... Você tá fumando?
− O que te parece? Se eu tô pedindo cigarro...
− Ficou louca? – Ele me agarrou pelos ombros e me sacudiu. Olhei ao redor; as garotas deveriam ter saído. – Sério? Tá usando drogas?
− Tô! Maconha, nicotina, ecstasy, pó, fale o que quiser, mas eu precisei, tá? – Senti o agarre forte dele em meus ombros, já que a bebida ainda estava começando a fazer seu efeito, e gemi. – Michael, me solta, tá doendo...
− Por isso seu cheiro tá meio asqueroso. – Ele me largou. – Cadê elas?
− Parece que saíram. – Ele deu uma olhada rápida no resto da nossa casa, e então me encarou tão intensamente que eu fiquei com medo.
− Alicia, você tá se destruindo. Juro, não fosse seu rosto, eu nunca saberia que é você. Drogas... Por quê? Você consegue ficar chapada? Você se viciou?
− Não. – Bebi mais do uísque barato, sentindo ele queimar na língua, e me sentei no chão. – Eu não consigo nem viajar. Mas é que meu metabolismo, nosso metabolismo é tão forte que consegue queimar toda droga que eu boto pra dentro. Só que ele se foca tanto nisso que eu não... – Olhei pra minha mão. – Eu perdi minha woge.
Ele estava besta.
− Espera... Você... Não se transforma mais?
− É como se eu fosse humana. Até meu ponto fraco deixa de existir. Se bater naquele cantinho das minhas costas, nada acontece. – Michael me olhava de queixo caído.
− Ah, Alicia... Por quê... – Ele se ajoelhou na minha frente. – Vamos embora, deixa essas coisas pra trás.
− Não. Lembra o que aconteceu? Alguém lá quase matou o Renard e sujou meu nome pra cima da Emily. E sabe-se lá se aquela pessoa não fez nada com o Nick ou com a Juliette ou com o Monroe e a Rosalee...
− Eles dois estão noivos. – Surpreendi-me. – O Monroe e a Rosalee...
− Sério? – Olhei para baixo, minha respiração estável, mas pesada. – Eu não acredito que perdi isso...
− Eles também sentem sua falta.
− Mesmo assim, se eu for pra lá, vai ser para quê? Não tenho nada a fazer para lá. Eu perdi o gosto por Portland. – Bom, isso não era total verdade. Eu sentia falta da minha vida lá, mas ela tinha sido destruída.
− Vai ficar conosco. Vai voltar para casa. Não era o que você queria: família e normalidade? – Suspirei.
− Era. Mas eu achei isso aqui. Além do mais... Essa minha nova eu, a Jane... Ela é mais simples, mais livre, mais...
− Mais melhor? – Encarei ele feio. – Mas Jane não é você. Você é Alicia Burkhardt.
− Só uma pergunta... Como está o capitão? – Ele abaixou a cabeça.
− Hm, isso eu não sei te dizer direito... Eu vi que ele parece ter se recuperado, só está andando com uma bengala.
− Hm. Então ele está bem.
− Aparentemente.
− Não vou voltar. – Ele suspirou. – Não tem nada esperando por mim lá, Michael!
− E nós? – Meu coração pesou. – Não, esquece... Isso você já deve ter superado, considerando o perfume masculino que eu senti em você. Mas e o Renard? Já superou ele? Você não pensou em nós em nenhum segundo enquanto estava com aquele cara? E aquela pessoa que tomou sua aparência?
E algo se acendeu em mim.
− O que quer dizer com isso?
− Ela fingiu ser você, Alicia, ela sujou seu nome. Não quer descobrir quem fez isso e por quê? – Ele tinha razão. Ao pensar em quem seria sujo o bastante para fazer isso comigo, meu sangue ferveu.
− Mas eu sou uma Kersheite agora. Como vou me defender numa cidade que é a capital dos Wesen?
− Eu vou estar do seu lado, gata. – Sorri. – Mas vamos?
− Eu não sei... – O que Michael tinha me dito realmente me sacudiu. Fazia sentido, e aquela ideia de matar quem quer que tivesse feito aquilo ao Renard e à Emily e comigo era muito, muito boa.
Muito tentadora.
− Se eu voltar, vai ser apenar para matar quem quer que tenha feito isso comigo. Entende? Vou voltar para Portland, mas assim que eu descobrir quem tomou minha aparência, eu vou matar quem foi e volto para cá. Feito? – Ele fez uma carinha, pressionando os lábios.
− Acho que é o máximo que eu vou conseguir. Feito. – Nós apertamos as mãos. – Então, vamos?
− Preciso só arrumar e comprar umas paradas... – Voltei para o quarto, começando a reunir minhas roupas, dobrando-as e dando para o Michael guardar na minha mochila. Foi um processo rápido, e eu escrevi uma notinha para minhas amigas.
“Eu estou indo embora, mas vou voltar. Vou sim.
– Jane”
− Vamos?
− Só temos que fazer uma última parada.
Todo o meu dinheiro estava comigo, e eu iria gastar parte dele em drogas. Não podia arriscar ficar sem nada pra enfiar no meu corpo e então ter ataques no meio da viagem. Ou então perder o controle e acabar avançando no Michael.
Eu peguei minha própria moto e dirigi até a casa do James, avisando para Michael me esperar na saída da cidade. Enfim, ele não me escutou e me seguiu.
Eu ainda tinha as facas que tinha roubado do trailer da minha família, então estava pronta para usá-las se necessário.
− Oi, Jay-Jay! – Ele estava bêbado, e eu senti o cheiro de maconha vindo de dentro. – Tá tarde pra chegarrr...
− Eu quero os seus fornecedores. – Empurrei-o e invadi. Apesar de Michael ter ido até ali, parecia que ele não estava a afim de entrar também. – Onde você consegue as drogas?
− Oh – Ele tropeçou e caiu de bunda no chão, mas ao invés de reclamar, ele começou a rir. – Quem me vende? Ahn...
− Se não quer morrer, fala logo – Tirei a faca do coldre e apertei contra a garganta dele.
− Ow, ow! – Ele gritou, com um pouco mais de sentido na mente. – Tá, o número dele está no meu celular...
− O que ele tem?
− É ela. – Franzi as sobrancelhas, mas forcei a lâmina contra sua garganta, esperando que ele continuasse. – Ela tem um pouco de tudo, basta pagar! Agora tira isso de cima de mim!
Eu tirei a faca da sua garganta e procurei pelo celular dele com os olhos, enxergando-o em cima da mesa, junto com alguns cigarros feitos à mão.
− Esse lugar tá fedendo. – Falei, e catei o celular dele, buscando no contato. Ele colocava cada zoeira no contato, por exemplo, o meu era “Jane Darkzinha”. Fui abaixando, e finalmente achei, só sabendo porque estava “Dany das Parada Boa”.
− Arrume um pouco de noção pros seus contatos. Obrigada. – Eu disse, anotando o número no meu celular e pegando um dos cigarros acesos, dando um looooongo trago e saindo.
− Eca – Michael me disse quando me viu soprando a fumaça. – Como você faz isso?
− Depois eu te ensino. – Subi na minha moto e liguei pra mulher. Demorou, mas ela atendeu.
− Quem é?
− Aqui é Jane, sou uma amiga de um cara que compra de você. James?
− Hm, sim. Quer comprar algo?
− Quero. Onde nós duas podemos nos encontrar? – Memorizei o endereço que ela me passou, e então dei partida na minha moto. – Agradeço.
− Alicia...
− Eu preciso disso. Desculpe. – Ouvi o motor dele começar a funcionar, também, mas eu saí na frente. Mesmo que Michael me seguisse, eu queria que ele batesse. Queria que ele parasse.
Não queria que ele visse, ao vivo e em cores, como eu fazia pra me destruir.
E quando ele me viu soprar a fumaça do cigarro, isso é uma coisa. Outra é ele ver eu misturar as bebidas, enrolar baseados, usar mesmo essas coisas. E ver que eu tenho gosto nisso.
Não demorou para chegar, porque Santa Monica é aquelas cidades em que tudo é perto, de tão pequena. Quando parei, Michael chegou bem atrás, pulando da moto e segurando meu braço.
− Alicia, não. Por favor.
− Michael, é quem eu sou. Se reclamar, volto pra minha casa e você volta pra Portland de mãos vazias. – Ele se calou diante da minha ameaça. – Bom garoto.
Ela estava no meio da sala, e apesar das drogas espalhadas por todo canto, eu só sentia o cheiro de cigarros.
“Dany” foi quem me atendeu.
− Jane. Prazer te conhecer. – Apertei a mão dela. – Sou Danielle.
− É um prazer. – Fui entrando atrás dela. – Então, o que você tem?
− Um pouco de tudo. Desde cigarros normais a crack, LSD e as mais pesadas, como Cloud Nime, essas coisas. Então, o que você quer?
− Um pouco das mais conhecidas. Maconha, cigarros, LSD, ecstasy, e remédios tarja preta, pelo menos um. – Ela se virou para mim e me escaneou.
− Tem dinheiro para tudo isso?
− Isso basta? – Peguei quatro notas de cem do meu bolo. Ela pegou e contou.
− Como vendo tudo a preço acessível, dá sim. Dá e sobra. Mas... – Ela me olhou. – Você não tem cara de quem usa essas coisas.
− Quem vê cara não vê coração. – Ela sorriu e ficou beeeem na minha frente, me encarando de perto.
− Se eu descobrir que você está revendendo...
− Não se preocupe, tudo é pra mim e pros meus amigos. – Ficamos alguns segundos em silêncio. – Vai me dar as drogas ou não?
− Venha. – Ela me levou até uns armários, onde eu peguei e escolhi as doses das drogas que eu queria. Ela me deu o troco e, sem mais nem menos, eu fui embora.
− Acabou? – Michael estava meio inclinado sobre o tanque da sua moto. – Finalmente. Vamos, gata. Vamos embora.
− É, vamos. – Suspirei e dei partida na minha moto, preparando-me para refazer a cansativa viagem de volta para Portland.
É só para descobrir quem foi que tomou minha aparência. Eu prometo, Santa Monica, que eu volto.
Não deveria ter prometido.
Nunca deveria.
Odeio fazer promessas que não posso cumprir.
Eu não sabia o que restava da Portland que eu conhecia. Não sabia o que estava acontecendo por lá, nem tinha ideia do que eu iria ver quando chegasse.
E estava nervosa por isso.
*Nick*
− Ele a encontrou. – Eu não poderia dizer o quanto estava aliviado por aquilo, pela minha irmã estar voltando. Já tinha quase duas semanas que Michael tinha ido embora para procurá-la, e cada dia era uma ansiedade a mais.
No fim das contas, falei ao capitão que Michael foi trazer Alicia de volta, e a reação dele me foi estranha. Quando comentei, aconteceu o seguinte:
− Ah... – Ele se sentou mais pra frente da cadeira, inclinado para a frente, com as mãos firmes uma na outra. Ele apoiou o rosto ali por alguns segundos, e eu podia jurar que ouvia a respiração dele pesada. – Bom. Quando ela chegar, me avise, por favor.
− Ok. – Eu achei a reação dele estranha. Parecia que estava tentando se acalmar... – Mas, por uma curiosidade, por que quer Alicia de volta?
Ele fixou o olhar em mim, e eu me senti fraco. Mesmo sentado, ele era muito intimidador. De repente, eu tinha vontade de cavar um buraco no chão e me enterrar.
− Ela é uma boa aliada.
Com minhas suspeitas confirmadas, saí da sala.
Mas eu não era idiota. Ele não reagiria daquele jeito por saber de uma aliada. Não como se ele quisesse se conter, como se estivesse nervoso... Irritado... Ou eufórico.
Por quê?
Eu sabia que tinha algo de especial que ele via em Alicia, e não era só “uma boa aliada” que ela era para ele. Então, fui falar com a pessoa que tinha as maiores chances de saber o que é que Renard tinha com Alicia.
Só pra garantir, eu deixei a minha arma no porta-luvas do carro.
Eu ia sentindo meu corpo esquentar com minha tentativa de ignorar a raiva que eu sentia quanto à Adalind, então puxei a inspiração e prendi por alguns segundos, pensando em coisas fofinhas e calmas.
Calma, ela está grávida do filho do capitão, se eu fizer mal a ela posso muito bem ser demitido...
− Olha só quem veio me visitar. – Adalind abriu a porta, e toda a calma que eu tinha reunido quase voou pela janela. – Achei que não gostasse de mim.
− Não gosto. Mas vim te perguntar uma coisa, já que você passa mais tempo interagindo com o Renard do que nós que trabalhamos pra ele – Falei enquanto avançava pra dentro do apartamento. Nada tinha mudado, fora ela.
− O que é? – Ela se sentou no sofá, toda senhora de si mesma.
− Alguma vez o capitão mencionou alguma Alicia pra você? O que ele fala dela? – E eu fiquei meio arrepiado, porque eu vi ela arregalar os olhos e seu rosto bonito se deformou numa máscara de ódio e repulsa.
− Ele não me fala nada, mas ele sonha. – Fiquei confuso. – Mais de uma vez eu acordei no meio da noite com ele se revirando na cama e chamando essa garota. E toda vez que eu pergunto, ele nunca me diz quem é.
− O que ele diz? Só chama ela?
− Na maioria das vezes. Mas ele pede pra ela ficar, também. Geme... – Ela fechou a mandíbula com tanta força que doeu em mim. – Eu não tenho ideia de quem ela é, mas duvido que eles não tenham ficado juntos no passado.
Eu senti uma tontura me pegar de leve.
− Alicia é minha irmã – Eu disse, enfatizando o “irmã”. Foi a vez de Adalind ficar surpresa. – Juntos... Amantes?
− Foi o que eu deduzi, pelo jeito que ele fica gemendo. – Ela ainda estava meio chocada, e levou a mão ao ventre inchadíssimo. Ela, de repente, se espantou e levou a outra mão à boca. – Sua irmã teve um caso com seu chefe...
− Ela não teve. Alicia nunca faria isso. – Virei-me, pressionando o rosto nas mãos até eu sentir que todo o sangue que tinha se esvaído pulsasse para voltar.
Amantes.
A Alicia e o capitão...
Senti minha garganta trancar e parecia que tudo ia se encaixando.
A ligação noturna de Alicia perguntando como sabia se estava apaixonada... As reações do capitão, a procura dele por ela, o jeito que ele agiu quando falei que ela tinha sumido, quase como se ele estivesse em negação...
Não.
Mas estava tudo na minha frente. Eles poderiam, sim, ter tido uma relação, embora as ações suspeitas pudessem ser outra coisa.
Alicia poderia estar perguntando por causa do Michael. O capitão poderia só querer saber o porquê do que tinha acontecido com ele. Sua reação poderia ser relacionada aos remédios, dor de cabeça, efeitos colaterais. Os sonhos, ele poderia estar revivendo o ataque da minha irmã. A negação poderia ser pela situação em que ele estava, de duvidar da minha irmã, sendo ela uma aliada que tinha atacado ele.
Mas então, o que era verdade e o que era mentira?
− Alicia não teve um caso com o Renard. – Adalind quase começou a falar, mas eu levantei a mão. – Enquanto não tivermos provas definitivas e irrefutáveis, é essa a nossa conclusão. Como advogada, você sabe quando um caso é fechado e um réu declarado inocente.
− Quando não existe dúvidas do júri – Ela disse. – Você tem dúvida?
− As ações deles têm outra explicação. O capitão foi atacado por ela e poderia estar sonhando com esse momento quando você acordava e o via daquele jeito. Ou tem alguma outra explicação?
Ela entreabriu os lábios, mas não falou nada.
− Bom, é isso. Obrigado. – Voltei-me na direção da saída e fui me retirando, até Adalind me chamar:
− Nick.
− Que é? – Olhei-a.
− Sei que eu e você não exatamente somos melhores amigos, mas aqui está um ponto em comum para nós dois. Nós queremos saber qual a relação dos dois. Então, que tal trabalharmos juntos nisso? – Refleti um pouco. Ela permanecia próxima dele, poderia ver coisas que eu, no trabalho, não veria nunca. Poderia tirar informações dele.
E eu poderia tirar coisas da minha irmã quando ela chegasse.
É, nós dois poderíamos trabalhar juntos para descobrir isso.
− Feito. Mas o que você acha?
− Eu acho que eles são amantes. Mas eu não quero que eles sejam amantes. E você?
− Eu não acho nem quero que eles sejam amantes. Mas... – Levantei um dedo. – Por que você não quer, especificamente?
− Porque o Renard é meu, é pai da minha filha. – Adalind cruzou os braços. – E eu não quero que ele tenha outra além de mim. – Quase revirei os olhos. – E nem que minha filha tenha que crescer vendo o pai namorar outra mulher. Não quero que ela ache que é normal que, se ela tiver um namorado, ele também fique com outra.
− Mas o capitão disse que, fora essa criança, vocês não têm nada um com o outro...
− É o que ele pensa. – Ela fez uma carinha toda orgulhosa e empinou o nariz. – Mas nós dois somos o casal perfeito, mais que perfeito. E vamos ser uma família. Então, é bom sua irmã ficar longe de nós dois.
− É, eu também quero.
− E suas razões pra isso? – Adalind me escaneou com os olhos.
− Primeiro que vai ser estranho o meu chefe virar meu cunhado, e segundo... – Fixei os olhos nela, e vi ela engolir em seco. Eu tinha aprendido uma coisa ou duas com aqueles olhares do Renard. – Apesar de ter sido mais culpa sua do que dele, ele já tirou a minha namorada de mim um tempo atrás. Ele não vai fazer o mesmo com minha irmã.
*Michael*
Tínhamos conseguido sair de Santa Monica, e estávamos em algum hotel de estrada que eu não me importei em checar o nome direito.
E Alicia estava na sacada do quarto.
Ela tinha pedido um com sacada justamente para poder fumar, beber, essas coisas. Eu estava deitado na cama, olhando a garota da minha vida tragar um cigarro e logo em seguida beber mais uma dose daquela garrafa de uísque roubada do gerente quando entramos, e depois ainda, engolir uma pílula de ecstasy e mais uísque.
Era horrível.
Alicia tossiu um pouco, e eu me perguntei se o cigarro iria começar a afetá-la logo. Quando perguntei quantos daqueles ela fumava por dia, ela me disse “menos de três, não se preocupe”.
Mas e o resto?
Ver como ela estava me deixava agonizando. Ver o que ela fazia, como manuseava aquelas coisas sem dúvida, me fazia perguntar a que ponto ela tinha chegado longe de nós. O que ela havia se tornado.
− Vem dormir, gata – Chamei mais uma vez.
− Daqui a pouco – Ela respondeu, mais uma vez.
Ela não mostrava um sinal de embriaguez, entorpecimento, alucinações ou euforia. Ela continuava agindo normal. Mas era doentio. Eu a vi deixar a garrafa ao lado do seu pé, pegar um saquinho com aquele pó branco, jogar na palma da mão um pouquinho e então cheirá-lo.
E meu coração doeu.
Alicia tinha razão. Ela não era mais Alicia, a híbrida por quem eu tinha me apaixonado. Aquela garota nunca usaria drogas.
Aquela que eu estava levando para Portland era Jane.
Levemente desesperado, mandei uma mensagem pro Nick e pra Bárbara.
“SOS
Alicia não é a mesma
Vocês verão o que eu quero dizer”
E enviei.
Uns minutos depois, ela arrumou tudo e foi tomar um banho, sabendo que estava cheirando à fumaça de cigarro, e eu agradeci.
Mesmo assim, quando ela se deitou, o acre fez meu nariz arder um pouquinho.
E assim eu dormi, com uma sombra de Alicia ao meu lado.
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