Wesen Para Vingar
5 Tempo perdido
Notas iniciais
“Essa não é a garota que eu conhecia.”
*
“− Mãe...
Olhei para minha filha, sentada no meu colo. Eu penteava seus cachos negros com uma daquelas escovas bem fofinhas, e os fios eram tão suaves que não precisavam de esforço nenhum para desembaraçarem e formarem cachos logo em seguida. Os olhinhos cinza acompanhavam minha mão ir e vir em seu cabelo.
− Sim, Ruby?
− Por que o papai nunca mais voltou pra casa?
Fechei os olhos, sentindo a dor no meu ser todo. Eu diria a ela a verdade?
− Não foi ele, meu amor. Fomos nós. Nós que o deixamos para trás.
− Por que, mamãe? – Ela me perguntou, pulando do meu colo e ficando de pé, cruzando os bracinhos. – Por que nós o deixamos?
Mordi os lábios.
− Ele tinha outra esposa, amorzinho. Ele amava outra mulher e essa mulher teve uma outra filhinha. E eu não aguentei ver aquilo. – Mordi os lábios ao pensar na ideia de Renard estar com outra, com uma mulher que o fizesse mais feliz do que eu.
Suspirei, e minha Ruby perguntou, os lábios trêmulos de dor:
− Ele gostava mais dela do que de mim?
− Eu não sei, meu amor. Ele não quis nos deixar vir embora, mas se ele gostava, estava errado. Não tem menininha melhor que você, principalmente agora. – Fiz carinho no rosto dela, as pontas dos meus dedos sujando a bochecha dela...
− Por que pri... Princi...
− Por que agora? – Ela assentiu e eu sorri de um modo macabro, virando para a penteadeira, o rosto e as presas manchadas de sangue. Ruby, já mulher e atrás de mim, me olhou no reflexo do espelho, e eu apreciei a mulher linda que ela tinha se tornado, o sangue também espalhado em suas roupas e rosto e no seu sorriso de dentes vermelhos e brilhantes. Ela apertou meu ombro com uma mão. – Ah, meu amor, elas não existem mais...”
Acordei, o coração batendo um pouco forte, mas eu não me sentia agitada ou coisa parecida. Eu me sentia bem; a noite de sono tinha sido boa, mas o sonho...
Que sonho estranho. Eu matava a atual esposa do Renard e sua filha por ciúmes...
Eu bem sabia que era ciumenta. Quando eu pensava no Sean com outra, sentia uma coisa ruim explodir dentro de mim, e era como se houvesse uma vozinha na minha orelha dizendo “mate-a, mate-a” o tempo todo.
A ideia estava na minha cabeça desde que tínhamos saído de Santa Monica: e se eu chegar em Portland e nosso relacionamento não significar mais nada pra ele? Isso era bem possível, considerando que a minha clone tinha quase matado ele.
Eu mordi o lábio com o pensamento e decidi que voltaria a dormir.
Quando me virei, Michael não estava mais ali. E aí eu notei ele na sacada, ao telefone com alguém. As drogas não diminuíam meus sentidos, então eu me foquei e escutei:
− Em menos de uma semana estamos de volta. – A pessoa do outro lado da linha começou a falar algo. − Olha, Scheila, meu trabalho é levar a Alicia de volta, agora o que ela vai fazer aí eu não controlo. Ela é minha namorada, não meu cachorro de estimação pra estar presa em uma coleira. – Ele ficou calado. – Então diga para ele esperar, caramba! Não vou ficar acelerando. Deixa eu te lembrar que ela tá apaixonada por outro cara, e assim que a gente pisar em Portland, é bau bau, Michael. Então me deixa ficar com ela por uns dias, só pra aproveitar, ok? – Mais silêncio. − Agradeço a compreensão. Beijinhocas.
Ele terminou a ligação e ficou olhando lá para fora, inclinado para a frente, as pernas para trás do corpo, o peso mais apoiado nos cotovelos do que no pé que estava no chão; o outro estava chiquemente cruzado por cima do primeiro. Eu o ouvi falando algumas coisas em russo, provavelmente; ele estaria rezando?
Sentei-me na cama, peguei o copo de água ao meu lado e tomei uns goles, apreciando o seu corpo; Michael tinha dormido sem camisa, e só com aquela calça que colava na parte superior de suas pernas...
De repente, ele deu uns passos para trás e agarrou o batente das portas da sacada, e começou a se erguer pelos braços. E foi incrível, ver os músculos dele contraídos, uma demonstração de cair o queixo do poder do corpo dele. Ele puxava seu corpo pra cima e então deixava o corpo relaxar. Não contei quantas vezes ele fez aquilo, mas logo ele se soltou, e foi em direção à grade.
Ele a forçou algumas vezes, e então ficou de costas para ela. Ele respirou fundo, ergueu seu corpo, e então se reclinou.
Eu quase pulei da cama de susto, mas então vi que seus joelhos tinham encaixado na grade, e ele erguia seu tronco sem esforço nenhum. Michael deve ter feito aquilo umas cinquenta vezes, talvez até setenta, e então ele voltou a ficar de pé e me olhou.
− Acordou, gata? – Seu sorriso foi lindo. Ele estava um pouquinho suado, só, e eu sorri ao vê-lo.
− Sim. E que visão ao acordar. – Flertei. – Não quer voltar para a cama?
− Você está me fazendo desistir do meu exercício matinal – Ele me acusou. – Sinta-se amada. – Michael deitou ao meu lado na cama e ficamos nos olhando. – Isso me lembra o tempo que a gente namorava...
− Tecnicamente, como eu não terminei com você quando saí de Portland, ainda estamos namorando. – Toquei o rosto dele. – Aqueles três dias ainda estavam valendo.
− E então? A que conclusão você chegou? – Mordi meus lábios.
− Ele pode muito bem ter deixado de querer ter algo comigo depois daquele meu suposto ataque à ele. Então, se eu não quiser encalhar, melhor ficar com você. – Estendi meu rosto para o dele, e nós nos beijamos.
Foi como antes, e foi quente, ele puxou a minha cintura para pressionar meu corpo contra o dele, e foi questão de segundos até ele estar em cima de mim, uma perna entre as minhas, encostando no centro do meu quadril.
− Alicia – Os olhos dele estavam em woge, e pareciam escuros. – Você... Aquele homem... Seu namorado...
− Perder a virgindade? – Ele assentiu. − Não. Quase, uma vez, mas você nos interrompeu. – Ele me beijou profundamente, a língua forçando a minha à submissão, e arrepios foram me deixando mole, desejosa.
− Ainda bem. Eu quero muito ser o cara que vai te dar sua primeira vez. – Ele me beijou de novo e eu senti seu corpo todo pressionar o meu de maneira que eu estava imóvel, praticamente, debaixo dele, e sua coxa apertou aquela parte minha, causando uma coisa que era indescritível, a não ser por uma palavra: prazer.
Há quanto tempo eu tinha sentido algo parecido? A última vez tinha sido com o...
Renard.
Meu coração doeu, mas ao invés de parar Michael, eu o incentivei. Eu puxei mais o rosto dele para o meu, eu movi minha língua contra a sua, eu pressionei minhas mãos contra seu corpo, seus ombros, seu tronco, e suas coxas.
E ficamos naquilo, sem aprofundar, mas também sem emergir, por um bom tempo na nossa cabeça, até que tivemos que continuar a nossa viagem.
Quando eu estava terminando de me vestir, perguntei:
− Quem é Scheila?
− Uma amiga de Portland. Por quê?
− Ouvi você conversar com ela. Me apresenta?
− Sim, mas, bem... Ela era humana. – Inclinei a cabeça, confusa. – Eu consegui transformá-la numa híbrida.
− Meu Deus. Como?
− Eu usei meu sangue nela. Fizemos só isso, e ela conseguiu. Aparentemente, nosso DNA se mescla instantaneamente ao de outros humanos.
− Ele mantém a qualidade maleável? Wow. Eu não esperava isso. – Terminei de me vestir. – Por que a transformou?
− O namorado dela era Wesen. Eles tinham terminado, e ele batia nela. Ela me pediu para transformá-la assim ela não continuaria indefesa.
− Isso é um pouco drástico, não acha? – Ele assentiu freneticamente.
− Bom, ela queria, e eu tinha muita dó dela, então fiz. E fiquei surpreso que funcionou. Posso dizer que ela está super feliz e eu a estou “mentoreando” no caminho da hibridez.
− Que bonitinho. – E de repente, me lembrei de uma pessoa. – E Barbie? Como está?
− Bem. Nós ainda estamos naquele quarto de hotel, ela faz bicos aqui e ali, eu tô pensando em trabalhar como mecânico. Ah, você sabia que ela queria ser modelo?
− Sério? – Dessa eu não sabia, e me senti levemente ofendida, mas também esperançosa. Barbie era linda, eu não duvidava que ela conseguisse. Apesar de que ela puxava mais para o fofa, eu tinha certeza de que ela conseguiria. Mas era uma vida difícil... Será que ela aguentava? Sabia das partes darks? – Espero que ela consiga. Seria lindo ver ela desfilando.
− Eu queria ajudá-la a fazer o book dela, eu gosto de tirar fotos. Mas não sei se dá. – Ele me observou terminar de fechar minha calça. – Como eu queria desfazer isso que você está fazendo.
− Hehehe. Taaaalvez, em Portland a gente faça. – Pisquei pra ele. – Que tal?
− Opa. Adoro tanto quanto as mechas azuis do seu cabelo. – Sorri e saímos do quarto de hotel com nossas coisas já arrumadas. Roubamos o resto do uísque do gerente, Michael o “hipnotizou” para esquecer que um dia estivemos ali a não ser que aparecêssemos de novo pro cara e fomos embora.
*Renard*
Eu tive mais um sonho com Alicia.
Não era um sonho claro, mas os poucos flashes de sanidade que eu tinha dentro do sonho, eu a via em cima de mim, o cabelo grudando nas costas e na frente do tronco por causa do suor, cobrindo os seios. Eu tirava o cabelo dos seios dela, chamava o nome dela, tocava sua pele e ela gemia, e em algum momento ela se reclinou sobre mim e me beijou, e foi como se aquilo tivesse sido o ápice para nós dois...
Tanto que eu acordei.
Pisquei várias vezes para me tirar do torpor do sono, e então me virei para deitar sobre minhas costas.
− Quem é Alicia?
E a loira estava ali.
Eu não sabia como me sentia quanto a ela. Ora queria que ela ficasse, pelo nosso filho, ora queria empurrá-la contra a vidraça do apartamento e deixá-la cair.
− Já está acordada? – Tentei mudar de assunto, esfregando os olhos. – Poderia ter feito meu café.
− Não muda de assunto. Quem é ela? É a milésima vez que você acorda gemendo o nome dela. – Revirei os olhos.
− E isso é da sua conta? – Defendi-me. Eu não poderia falar a verdade sobre Alicia para Adalind, não com ela grávida.
A coisa é que Hexenbiests grávidas são uma loucura, principalmente quanto ao pai da criança. A raça têm a tendência de fortalecer os laços com o parceiro, mesmo quando a relação não existe mais. Esse fortalecimento pode incluir poções, perseguições, assassinatos da atual namorada do ex, psicopatia... A lista segue.
Sim, Hexenbiests não são as mais românticas do mundo, mas se apaixonam sim. Nós não somos de pedra. E mesmo que Adalind não fosse mais Hexenbiest, ainda tinha o gene de uma e nosso filho ou filha seria do mesmo tipo, e o corpo dela estava liberando os hormônios que causavam esse tipo de reação, então...
Conclusão: se eu fosse falar de Alicia, eu nunca poderia dizer que ela era...
O que ela era, precisamente? Uma amante? De duas noites?
Se eu pensava nela, eu sentia alguma coisa boa que eu não sabia definir direito e uma coisa ruim que tinha perfeita definição: ódio. Porque eu estava acostumado com a ideia de que ela que tinha quase me matado, e pensar que não tinha sido ela me deixava ainda mais confuso.
E a coisa boa...
Eu não queria que fosse amor, não, nunca. Não queria um laço tão irracional se formando entre mim e ela, algo que me unisse a Alicia tão fortemente que não me permitisse viver bem sem ela. Algo que me tirasse a clareza de mente se ela um dia acabasse em perigo, embora eu soubesse que ela podia se cuidar muito bem sozinha, melhor que qualquer ajuda que eu pudesse lhe dar.
Amor era muito forte. Logo, não podia ser.
Voltando...
− Claro que é da minha conta! Eu que sou sua parceira! – Ela foi me seguido até a cozinha, impressionantemente rápida e ousada para uma grávida de sete meses. – Não pode existir ninguém entre nós!
− Adalind, sei que é difícil encarar isso, mas eu não sou seu parceiro, só o pai do seu filho. Começa aí e termina aí. – Coloquei a água para ferver. – E Alicia era só uma aliada minha. Ela se foi há muito tempo.
− E nós, então? Sean...
− Nós, nada, Adalind. Tudo vai continuar do jeito que está.
− Nós seremos uma família! Fomos feitos pra ficar juntos! – Ela me puxou pelo braço com força e se atirou em mim, forçando a boca contra a minha, puxando minha blusa, meu cabelo, meu rosto.
Eu poderia ter correspondido, poderia ter facilitado a vida de Adalind e fingir que todo o seu esforço para fortalecer nossos laços e me manter com ela fosse verdade, mas um agarre estranho no meu peito, como se fosse uma mão, me impediu.
Alicia.
Se eu falasse o nome dela, Adalind iria me estripar com a faca de cozinha na gaveta.
Foi tão fácil não corresponder, enquanto ela forçava a língua na minha boca e a movia com uma fúria quase assustadora, arrancava a minha blusa e tentava tirar meu cinto. Segurei os pulsos dela, parando-a.
− Adalind, eu tenho que ir trabalhar.
− O que pode ser mais importante que nós dois? – Ela arranhou meu peito e meu cinto voou para fora dos passadores. – O que pode ser mais importante que eu?
− Eu poder te sustentar. – Ela parou. – Não quero que você fique sem algo que precise, e por isso eu tenho que ser pontual e garantir um salário inteiro. Tudo bem? – Adalind foi dando uns passos para trás e pegou meu cinto, jogado para longe.
− Tudo bem. Mas volte. Quero ficar um tempo com você sem você estar sonhando com essa tal Alicia. Além do mais, o que você vê nos sonhos? – Ela cruzou os braços e sustentou meu olhar com o seu, firme.
Se eu contasse alguma mentira, seria difícil sustentá-la, e se Adalind descobrisse a verdade, o inferno ia congelar porque todo o fogo viria para a Terra. Então, eu disse o que podia.
− Eu vejo ela me atacando. Antes dela sair da cidade, ela me atacou. Ou pelo menos eu achava que era ela. – Ajeitei minhas roupas enquanto falava. – Recentemente, parece que cometi um engano, e não foi ela.
− Ah. – Adalind estava perto do meu sofá, uma mão no estofado. Eu deveria ter reparado que ela estava agarrando as costas do sofá com tanta força que o sangue estava escapando das juntas de seus dedos e, logo, da mão inteira. – Sim.
− Enfim, vou terminar de me vestir. – Dei as costas para ela e fui pegar a parte superior do meu terno.
*Adalind*Short*
Ele achava que eu era burra?
Ele achava que eu não tinha visto como ele se movia, como chamava o nome dela, como agarrava os lençóis e se revirava?
Eu sabia que eles eram amantes e aquilo me enfurecia. Eu deveria ser a única, o amor da vida dele. Mas não, ele estava ali, com tesão por ela, querendo ter ela, quando ele deveria me desejar.
Quando ele tinha sumido, eu tinha pegado o número do Nick, e assim que meu parceiro saiu, liguei para ele.
− Nick.
− A ligação mais inesperada da minha vida.
− Ele sonhou com ela de novo hoje. – Eu agarrava o celular com ódio. – E não era um sonho inocente, eu tenho certeza disso.
− Como você sabe?
− Ele estava gemendo como ator de filme pornô! – Acusei. – Além do mais, ele só me disse que ela era uma aliada. Só. Não acha vago?
− Acho. Mas...
− Se eles não eram amantes, que motivo ele tinha pra me recusar? – Argumentei. Porque, oras, ele me amava. Eu sabia disso. Nós éramos almas gêmeas.
− Adalind, não. Precisamos de algo mais concreto.
− Quer o quê? Uma confissão escrita? – Eu quase joguei o celular dele na parede. – Tente você, então.
Desliguei e fui comer alguma coisa. Toda aquela discussão havia me deixado com fome.
*Skip*Bárbara*
Já tinha uma semana e três dias que Michael tinha ido embora e eu estava sentindo a falta dele, demais. Meu melhor amigo tinha ido para buscar minha melhor amiga e só me mandava mensagens para saber como eu estava e me avisar onde estavam.
A última mensagem era a de que eles estavam a uma cidade de Portland, só, e eu me sentia aliviada. Quanto eles não tinham viajado para transitar de volta?
Enfim, eu estava pensando em como Alicia estaria depois daqueles seis meses quando vi uma pessoa tão... Incomum.
Alguém que eu não via a iguais seis meses.
Emily.
Ela estava se vestindo de um jeito super chique e formal, com um terninho branco, e estava na loja da joalheria da mãe, a Desirée, e conversava com as vendedoras ali da loja.
Eu fiquei congelada no lugar, porque era tão... Assustador. Pensar que ela poderia surtar comigo como havia feito... Pensar no que ela faria comigo se me visse, que tipo de coisa ela iria me dizer, ou se ela iria simplesmente me ignorar.
Porque eu sabia que ela não falaria normalmente comigo.
Emily tinha cortado o cabelo, estava um pouco mais abaixo dos ombros, mas mais curto do que antes. Ela estava toda mudada, incrível como parecia ter amadurecido. Será que também tinha... Me perdoado?
Eu duvidava. Conhecendo aquela garota, rancorosa como era...
Engoli em seco e tentei continuar andando, mas parecia que ela estava me olhando, mesmo que não estivesse; eu sentia o olhar dela, pesado, intenso, em cima de mim. Como se fosse ela em cima de mim.
− Ei.
E Emily me chamou.
Quando eu me virei para a direção de sua voz, ela estava bem ali, o pano branco brilhando, praticamente, sem uma mancha. O rosto também, impecável, e os olhos dela eram um cinza claríssimo, quase gelo.
− AH, um, oi, Emily! – Cumprimentei, meio sem jeito, tentando soar animada mas fracassando miseravelmente. – Como você está?
− Bem. Muito bem. Radiante. – Ela cruzou os braços. – E você?
− Ahn, bem... É, bem.
− Por onde andou esse tempo todo?
− Ah, o de sempre, sabe, parques, lojas... – Ajeitei o cabelo e coloquei as sacolas numa só mão.
− Eu quis dizer onde você está morando. – Fiz cara de “ah, tá”, mas ela me cortou: − Eu sei que você entendeu.
− Eu estou ficando no mesmo quarto do Michael. – A expressão dela, para mim, foi indecifrável. O que ela fez... Como agiu... Eu não consegui entender.
Mas o máximo que eu consegui decifrar era que ela não estava surpresa.
− Traçando mais namorados alheios? – Aí a minha falta de jeito saiu e deixou lugar para meu ressentimento.
− Isso ainda não passou? Eu nunca quis... – Ela ergueu a mão e me interrompeu.
− Eu já ouvi você dar essa desculpa mais de uma vez. E não quero ouvir de novo. Você não resistiu a ele, ele não resistiu a você. Até Alicia contou. – Meus olhos se arregalaram.
Alicia... Tinha...
− Como é?
− Ela me contou. Vocês eram amantes há muito tempo. – Emily suspirou. – Ele me mencionava? Falava qual de nós era melhor?
− Emily, nós não éramos amantes antes daquele beijo! Só foi aquele e um anterior, que eu impedi de continuar! Eu juro! – Ela balançava a cabeça, negando.
− E por que Alicia iria falar, na minha cara, aquilo? Apesar de depois ela ter se arrependido... – Olhamos ao redor. Algumas pessoas estavam nos olhando. – Não vou mais falar disso. Tchau, Bárbara.
− Tchau... – Observei minha melhor amiga se afastando, o andar poderoso, o cabelo mais curto do que antes balançando ao sabor do seus passos, e eu aqui. Parada, parecendo a verdadeira errada da história...
Embora eu fosse, não era a total culpada. Ninguém sabia se o homem havia começado, se eu não havia tentado resistir, o que realmente acontecia. Só que todo o resto do mundo já estava nos julgando, achando que Emily era a coitada que havia dado a volta por cima, e que eu era a safada traidora que havia seduzido um homem comprometido.
E de repente, senti a necessidade de sair correndo. De me esconder. De fugir...
Minha respiração foi acelerando com a pressão crescente, e eu recomecei a andar, com mais vigor, com força, passos maiores e mais rápidos. Eu precisava achar um banheiro. Urgente.
Eu me sentia esquisita. A vontade de fazer compras não estava mais ali. E por quê? Quem eu era? Quem eu tinha me tornado?
Nem vi quando cheguei no local; tranquei-me em uma das cabines e olhei para minhas mãos. Pálidas, bonitas, brancas. Mas não minhas. Parecia que eu tinha emprestado aquele corpo, parecia que eu estava onde não devia estar.
Olhei meus sapatos. Pretos, de bico fino; eram botas, botas de salto alto. De couro. Desde quando eu gostava daquele tipo de sapatos? Minha calça, jeans azul, era estranha pra mim; minha blusa, rosa bebê, com o rosto de um gatinho na frente, também era estranha e não parecia algo que eu vestiria normalmente.
De repente, eu me sentia apertada, presa no meu próprio corpo; o tempo parecia ter parado, parecia que tudo se mexia, também; olhei para a porta, mas enquanto ela se movia, eu sentia que o tempo tinha parado. Quando olhei para cima, para a luz, meus olhos doeram intensamente, queimando; eu conseguia ouvir tudo lá fora, e era horrível. O que as pessoas falavam... Os passos, as vozes, as compras...
De repente, fiquei tão sobrecarregada que eu sentia que minha cabeça ia explodir, todos os movimentos desaceleraram, os espaços se fecharam, e eu desmaiei.
*Emily*
Quando Barbara foi embora, eu sentia a vontade de destroçar toda a minha loja. Eu queria quebrar todos os vidros, jogar as joias no chão, matar as funcionárias.
Mas recuperei minha postura, respirei fundo e me acalmei. Nenhuma delas merecia pagar pela sacanagem da Bárbara. Então, entrei.
Eu sabia que ela não tinha saído do lugar; eu reconhecia os passos dela, e como não ouvia os saltos estalando no ritmo do andar dela, eu sabia que ela não tinha saído. E então, de repente, ela começou a “correr”.
Achei aquilo curioso, e só pra saber qual o motivo de sua corrida, acompanhei-a, vendo que ela não exatamente corria, mas parecia desesperada. Havia algo desesperado nela. Um medo?
Ela entrou em um banheiro, e eu a segui. Cheguei a tempo de ouvir uma das portas se trancar e ela falava baixinho consigo mesma coisas que não compreendi. Será que ela mesma sabia que estava falando?
Eu me lembrei das primeiras vezes em que aquilo acontecia, o medo que sentíamos de que ela fosse pirar de vez, como eu e Alicia esperávamos que ela pirasse de vez. Como ficávamos ao lado dela, como ela voltava a si assustada, dizendo que tinha medo de ter sumido, de não ser mais quem era, até de ter morrido, e eu sempre a abraçava primeiro, dizendo que nós éramos suas amigas e nunca deixaríamos isso acontecer.
Agora eu estava trancada para fora de uma cabine, onde minha ex-melhor amiga estava sofrendo sua própria psicose, choramingando, achando que não era mais ela mesma.
Sabendo que tinha 50% de chances de não ser ouvida, chamei:
− Barbie, é a Emily... Fica calma, eu tô aqui. – E de repente, eu deixei de ver só os pés dela para ver seu corpo inteiro desabando dentro da cabine.
Ai, ai... O que eu faço agora?
A porta estava trancada por dentro, mas o espaço por baixo... O shopping era bem higiênico, eu não via muito problema em me arrastar pelo vão sob a porta. O problema era o espaço disponível dentro da cabine.
Decidi que era mais fácil puxar Barbie para fora, e assim fiz. Bati a cabeça dela algumas vezes, e sua outra mão, e as pernas, mas no entanto, tive sucesso. Coloquei minha amiga sentada contra o granito que formava as paredes das cabines e tirei o cabelo de seu rosto.
− Bárbara... – Chamei; ela tinha mesmo apagado, não era só um off temporário como costumava ser. Tateei sua cabeça em busca de fraturas, mas estava intacta. Ela só tinha desmaiado mesmo, nenhuma concussão ou coisa semelhante.
Lavei o rosto dela com água fria, porque eu sentia sua pele um tanto esquentada; ajeitei suas roupas e coloquei-a o mais firmemente reta possível, para que ela não caísse de novo.
Como, nos casos dela, o que mais fazia efeito era esperar, fiquei ali por uns segundos, mas eu tinha responsabilidades.
E meio com a consciência pesada, saí do banheiro, mas sabendo que tinha possivelmente ajudado Bárbara.
*Alicia*
Eu tinha ido longe...
Estávamos, novamente, trespassando as barreiras de Portland.
Qual foi a última vez que aquilo havia acontecido? Parecia ser há um milhão de anos atrás, e nada mudava. As pessoas, as construções, o cheiro das rosas. Tudo era igual, perpétuo. A única que mudava era eu.
Só para descobrir quem foi que tomou minha aparência, prometi a mim mesma. Algo mais, e eu fico aqui, e isso não pode acontecer.
Meus antigos conhecidos já deviam ter se ajustado a uma nova vida, à vida sem minha presença, ou melhor, minha importunidade? É melhor assim?
Suspirei. Quase me doía a saudade que eu sentia, mas também, a... A sensação alheia, se poderia dizer assim. Parecia que eu era apenar uma terceira parte naquilo tudo, um ser vagando sem ser visto.
Seria melhor assim. Que eu não fosse fazer falta para ninguém, absolutamente ninguém. Até que eu não falasse com quem já me conhecia.
E essa ideia tomou forma na minha cabeça.
Se aqueles que eu conhecia, meu irmão, minha amiga, Renard (em que categoria coloco ele? Amante?) soubessem que eu tinha voltado, poderiam querer me manter ali, e não, eu não iria ficar naquele lugar. Eu precisava ser alheia a tudo aquilo e me manter alheia deles, do resto de Portland. Só investigar.
E precisava começar a pensar como fazer isso.
Michael virou uma esquina, e eu o segui. Aparentemente, não era um lugar que eu conhecia, o que me aliviava, porque mostrava que ele não queria me levar para ver alguém do meu passado. Deveríamos estar indo para um hotel.
Mas eu fui trouxa.
Porque Michael havia pegado uma rota suuuuper alternativa, e eu não percebi aquilo até que estivéssemos na rua da casa do meu irmão.
Eu já ia segui-lo quando minha mente estalou, e eu reconheci as casas, reconheci os arredores, e percebi que eu não deveria estar ali, não segundo minhas resoluções. Naquele segundo seguinte ao da minha mini-epifania, acelerei a moto e dei uma guinada brusca pro outro lado, escapando daquela rua e indo para longe.
Eu ouvi o ronco da outra moto, e comecei a virar esquinas, a acelerar mais, a tentar fugir dele, mas eu sabia que era quase impossível. Minha mente começou a criar um mapa, uma rota de fuga, e eu fui obedecendo esse mapa, e quando eu percebi, estava beeem longe da casa do meu irmão, numa espécie de prainha de um rio. Dava pra ver a ponte de onde eu estava.
Engoli em seco. Sabia que Michael iria me achar, apesar de eu ter saído bem na frente dele. Não demorou muito tempo para sua companhia estacionar a moto ao meu lado.
− Que diabos foi aquilo? – Ele me perguntou. – Por que...
− Você me levou pra casa do meu irmão! Pro Nick! – Eu acusei. – Tem ideia do que... Olha...
− Não, Alicia, deixa eu me explicar. Eles estão sentindo sua falta. Todos estão. Então por que...
− Por que não posso! – Gritei. – Eu prometi a mim mesma, eu não vou ver eles, senão posso acabar ficando, e eu não quero ficar! Eu só vim aqui por um motivo, que é descobrir quem foi que tomou minha aparência.
− Mas e eles? Eu prometi ao Nick e à Bárbara que te traria de volta, e eles querem te ver. Eu cumpri minha parte.
− Então você não deve mais nada. – Sorri e me voltei para o rio.
− Alicia, pelo amor de Deus! Que mal faria em vê-los, nem que seja para dizer oi, pra garantir que você está segura? Diga a eles que você não vai ficar, e como não vai mesmo, deveria passar um tempo com todo mundo.
− Mas eles vão querer me manter...
− E você pode optar por não escutar – Ele rebateu. – Você é forte, decidida, e sei que nada vai te segurar nessa cidade, nem mesmo o Nick pedindo, eu suponho. Então que mal faz ao vê-lo?
Mordi os lábios. E lá estava meu demônio, me tentando e iludindo...
− Por que faz isso? Tem ideia da dor que eu vou sentir quando partir daqui se eu ver eles? – Eu engoli em seco, sentindo a garganta apertar. – Você quer me fazer ficar.
− Sim, isso eu admito. Eu quero. – Suspirei e fechei os olhos, contendo uma faísca de raiva. – Mas eu tenho culpa? A garota que eu amo finalmente volta ao meu alcance, eu quero ficar com ela, mas ela quer fugir. Não é natural que eu busque tentar prendê-la perto de mim? – Ele sorriu e, mesmo que eu não quisesse, tocou meu braço, e eu não fiz nada para impedi-lo.
Que bonitinho... Michael era charmoso, até mesmo ali, e sabia como assentar minha raiva. Meu coração deu uma batida mais enfática.
− Talvez. Talvez eu procure vê-los. – Aquele um milhão de dentes brancos jogaram um flash na minha cara. – Mas não prometo nada.
− Gata, isso pra mim já é ganhar na mega! – Ele pulou de sua moto e me abraçou, e eu retribuí.
− Mas eu decido quem eu vou ver e quando. Ok? – Ele assentiu. – Vai deixar nossas coisas. Eu vou ver alguém agora.
Tinha uma pessoa, sim, que eu queria ver.
*
Eu não tinha prometido que não ia ver ninguém?
Eu não sabia manter nem minhas próprias promessas, em nome de Deus... Tenha piedade.
A verdade é que eu queria vê-lo. Queria saber como ele estava, se ele realmente tinha sido alertado (porque acreditar em mim, não, né) que não tinha sido eu naquela noite, queria ver se ele acreditava que eu era inocente, queria ver se ele tinha sentido minha falta, queria... Vê-lo. Pronto.
Aquele prédio não tinha mudado nada, continuava grande, imponente e medonho. Eu esperava que, por dentro, seu morador também não tivesse. Sim, eu o queria curado, mas também queria que ele se lembrasse... Daquelas noites. De nós dois.
Ele lembrava ou o meu clone desgraçado tinha apagado as memórias dele?
Bom, o atentado ao Renard era outro motivo pra achar quem quer que tivesse copiado minha aparência e o atacado. Ele tinha feito o cara que eu amava me odiar, e eu não iria deixar aquilo barato. Não mesmo.
Quando eu achasse aquela pessoa, eu iria matá-la e teria o maior prazer com aquilo.
Eu fiz aquele costumeiro caminho, ou melhor, refiz, com todas as memórias de quando eu havia passado por ali pela primeira vez, e pela segunda, terceira, quarta...
De todas aquelas vezes, quantas delas haviam sido comigo já apaixonada pelo chefe do meu irmão? Se não todas, bom...
Eu não sabia estimar. Meu amor por ele tinha sido tão fluido, constante e lento que eu não o vi se formando, mas foi só piscar que percebi que ele estava ali, tomando meu ser inteiro.
E eu não pude nem lutar. Maldito amor, não consegui ver seus movimentos.
Renard sempre reclamava do meu jeito bruto de abrir a porta do apartamento dele, então decidi fazer o mesmo, porque ele saberia que era eu. Ele saberia que eu tinha voltado. Meu medo era da sua reação.
Abri a porta com tudo e a fechei um pouco mais devagar, mas ainda brutalmente. Ouvi um solavanco na respiração de alguém, o som da pessoa saindo do sofá, uns tucs no chão e então ele apareceu, como eu lembrava, na minha frente.
Engoli em seco.
Sean Renard, em todo seu... Tudo. Havia só uma diferença: a bengala que ele estava segurando. Minha distância havia dado tempo suficiente para ele se recuperar.
Suspirei.
− A... – Ele parou de dizer meu nome na primeira letra, e eu estranhei aquilo. Mas mal tive tempo de dizer nada, quando ouvi outra pessoa saindo do sofá.
− Quem é, amor?
E quando eu vi a loira chique, de olhos azuis, bonita, modelo, e grávida, que apareceu do lado dele, eu percebi que minha distância não havia sido longa só para ele se recuperar.
Ele havia me esquecido.
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