Welcome to Middletown.
5 Licença poética
Notas iniciais
Existem acontecimentos que interferem tanto no nosso emocional que até mesmo o nosso físico é abalado. Acordei hoje sem fome, sede e forças para levantar da cama. Ainda deitada com a cabeça em cima de minhas mãos e as pernas encolhidas em posição fetal, não tenho a mínima ideia do horário ou das horas que já estou nessa mesma posição.
Melanie sempre me aconselhou a não anular o sofrimento, falava que eu devia chorar por um dia inteiro ou até uma semana, que isso não me faria fraca, mas que me ajudaria a continuar com minha vida depois. E é isto que estou fazendo hoje, debruçada ainda de pijama torcendo para que ninguém dessa casa ou desse mundo lembre-se de minha insignificante presença. E como hoje é um desses dias de não poupar a minha dor, eu tenho uma licença poética para exercer todo o meu drama.
Mas a questão é, todos dessa casa devem estar se perguntando o porquê de eu estar tão abalada assim. E a propósito, também estou me fazendo a mesma pergunta durante esse tempo indeterminado que fito a parede sem graça de meu quarto. E preciso confessar, a única conclusão que cheguei até o momento é de que esse cômodo precisa ser redecorado.
— Posso entrar? – Ouvi uma voz seguida de algumas batidas na porta. Fechei meus olhos e segurei minha respiração ao máximo fingindo não estar ali. – Por favor. – A pessoa continuou. Segui imóvel sem dar um pio. – Obrigada! – Ironicamente agradeceu Louise entrando em meu quarto. – São quatros horas da tarde, você precisa comer. – Afirmou preocupada ao passo que se aproximava de minha cama.
— Tenho muita triglicéride estocada. – Respondi deitada em direção oposta.
— Sabia que você iria dizer isso. – Respondeu. – Mas de todo modo você precisa se hidratar. – Disse colocando uma garrafinha de água em minha mesinha de canto. Ouvi seus passos se afastando. – Liz, de todas as maneiras que pensávamos que você iria reagir quando encontrasse Jake, agredi-lo foi até mesmo uma resposta positiva. – Incentivou-me abrindo a porta para sair.
— Você pode cuidar de Jessie hoje, por mim? – Certifiquei-me. Como sou uma péssima anfitriã.
— Drake já está fazendo isso muito bem. – Tranquilizou-me.
Ouvi o barulho da porta se fechando, estava sozinha novamente.
POV JESSIE.
Ontem foi um dia de grandes emoções, principalmente para Liz. Algumas boas, outras nem tanto. Assim que chegamos do festival ela anunciou que iria deitar e decidi deixa-la um pouco sozinha. Talvez fosse melhor.
Hoje o dia está incrivelmente lindo. Por isso tratei logo de me arrumar para descer. Tomei um banho e coloquei uma roupa bem leve, short jeans com uma blusa branca. Escovei os dentes e penteei meus fios de cabelo. Passei um leve corretivo jurando pra mim mesma que não era para aparecer apresentável para ninguém.
— Bom dia! – Ouvi Loreta dizer assim que me viu entrar pela cozinha.
— Bom dia! – Respondi alegremente ao sentar-me à mesa com ela e Louise. Por ser domingo, talvez os outros ainda estivessem dormindo.
— Liz não deve sair do quarto tão cedo. – Comentou Louise. Pelo visto elas já estavam cientes do ocorrido de ontem.
— Ela e Melanie têm a mania de se isolarem quando não estão muito bem. – Explicou Loreta me oferendo um pedaço de bolo de limão. – Não é atoa que ela foi para Manhattan. – Desabafou.
— Tudo isso é muito recente pra mim, na verdade. – Confessei. – Mas imagino como deve ser difícil para ela, então preferi deixá-la um tempo a sós. – Disse servindo-me uma xícara de café.
— Não se sinta mal por não saber como reagir com toda essa situação. Também não sabemos muito bem. – Confortou-me Loreta.
— Mas apesar de tudo a respeitamos e a amamos. – Falou Louise sabiamente. — Mas não se abale, daqui a pouco ela melhora. Aproveite esse dia maravilhoso. – Opinou.
— Se quiser, podemos ir ao parque. – Disse Drake assustando-me ao entrar na cozinha.
— Você sempre faz isso? – Disse virando-me para ele rindo.
— Isso o que? – Perguntou com um sorriso no rosto ainda em pé pegando uma maçã na mesa.
— Essas entradas triunfais, respondendo como se já estivesse ouvindo a conversa. – Disse fazendo todos rir, inclusive Helena que até então estava quieta cortando alguns alimentos no balcão. Confesso que já estou mais a vontade com todos, incluindo Drake.
— Ele sempre foi assim, desde pequeno. – Expôs Lena ainda rindo.
— Vocês estão me elogiando ou insultando? – Perguntou mordendo a maçã.
— Talvez os dois. – Declarei fitando-o por alguns segundos. Deve existir alguma pesquisa científica que comprove o fato de que pessoas bonitas são mais difíceis de se encarar por muito tempo.
— Preciso ir para empresa. – Disse Drake dando um beijo em sua mãe.
— Domingo, meu filho? – Questionou Loreta.
— Só preciso revisar umas papeladas. – Explicou. – Mas não se preocupe, depois do almoço estarei aqui para levar Jess ao parque. – Falou ao passo que saia do ambiente.
— Drake é receptivo, né? – Falei totalmente corada, fazendo-as ri.
— Só toma um certo cuidado, o que ele tem de receptivo ele tem de namoradeiro. – Alertou-me Louise ainda rindo.
Apreensiva, passei grande parte da minha manhã lendo um livro de autoajuda sentimental, o que não foi tão efetivo já que a outra parte passei pensando no que usar no passeio. Da pra acreditar? Convenci-me de que não me envolveria com ninguém de outra cidade e aqui estou tomando banho da água que prometi não beber. Portanto, depois de muita dúvida apostei em um short branco que destacasse um pouco mais meu cropped verde musgo.
Um fato bem inusitado é que me senti ansiosa, meu estômago parecia um lar para mil borboletas. Estranho. Nunca fui de sentir isso com ninguém. O que a Liz diz sobre mim é a mais pura verdade, eu me apego facilmente, mas esses sintomas de paixão eu não sinto há muito tempo.
Depois do almoço retornei ao quarto para retocar minha maquiagem e esperar Drake. Quando ouvi-lo bater em minha porta esperei alguns segundos para ele não pensar que estava o esperando. Inacreditável que eu esteja me comportando como uma adolescente. Ao abrir o vi com o braço esquerdo apoiado no batente da porta, com a cabeça um pouco inclinada me lançou um olhar encantador, as borboletas pareciam se reproduzir.
Descemos sem trocar muitas palavras e já do lado de fora ele abriu a porta do carro para que eu entrasse. Naquele exato momento lembrei que Liz me contara sobre ele partir o coração de todas as suas amigas e também dos conselhos de Louise sobre ele ser muito namoradeiro. Então respirei fundo e por questão de senso e também ego, prometi novamente não somente me envolver com alguém de Middletown, como exclusivamente não me apaixonar por Drake. Eu consigo, eu sou capaz, não é tão difícil assim.
Ao fechar minha porta, Drake contornou o carro entrando em seu lado. Ainda saindo com o carro ajustou o som colocando Beatles. É, talvez seja um pouco difícil sim. O cara parece não ter defeitos.
Ao chegarmos, fiquei impressionada com o parque. Não era tão grande, mas bem arborizado, além de estar bem enfeitado com utensílios de natal. Antes de tudo paramos em uma barraquinha de sorvete para comprar casquinhas e depois continuamos andando em direção ao lago.
— Amo essa época do ano! – Exclamei radiante.
— Também. – Respondeu-me fitando o lago. – Principalmente porque ela trouxe Liz esse ano. – Confessou. – Mas não conta para ela. – Disse com um certo tom de humor voltando seus olhos a mim.
— Não contarei. – Disse rindo. – Mas talvez você mesmo devesse. – Aconselhei. – Talvez isso a faça vir mais vezes.
— O verdadeiro motivo de Liz não vim se chama Jake. – Falou enquanto estendia a mão para ajudar-me sentar no gramado.
— De ontem pra hoje fiquei me perguntando o que realmente aconteceu com os dois. – Admiti.
— Embora ninguém saiba o real motivo, eles sempre tiveram alguns desentendimentos a respeito do futuro. – Explicou Drake. – Liz queria sair da cidade para estudar e trabalhar em uma grande editora, mas Jake sempre teve tudo que precisava aqui mesmo.
— Talvez ela se sentisse sufocada. – Propus.
— Talvez. – Drake concordou. – Mas talvez a gente não tenha vindo até aqui pra conversar sobre a Liz. – Disse me fitando.
— E sobre o que mais podemos conversar? – Devolvi o olhar.
— Sobre você. – Respondeu.
Retornei meu olhar ao lago um tanto quanto sem reação, a maioria dos homens que sai sempre estiveram mais interessados em falar sobre si mesmos. Apesar de tudo que falam de Drake, ao meu ver ele parece diferente.
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